«O caso Fernando Charrua»

Do artigo de A. Marinho e Pinto hoje no Público:

«O primeiro-ministro certamente não ignorará o que dele se dirá no quartéis, nas salas de professores das escolas, nos hospitais e, em geral, nas repartições públicas do país. E, nem por isso, daí vem nenhum mal especial para o funcionamento dos órgãos do Estado e da administração.

«Em contrapartida, o procedimento disciplinar instaurado ao professor Fernando Charrua será (sobretudo se acarretar qualquer sanção) um convite à generalização da delação entre os funcionários públicos.

«Há no aparelho de Estado, sobretudo na administração pública, pulsões liberticidas e de delação que urge combater. Essas pulsões têm as suas raízes na cultura dominante no Estado Novo. O que havia de pior nesses tempos de tirania não era a actuação repressiva das polícias ou de outros organismos de vigilância e protecção do regime. O que havia de pior era, precisamente, a existência dos “informadores”, dos “bufos”, ou seja, de pessoas aparentemente normais, que se sentavam à nossa mesa, que entravam nos nossos gabinetes e até nas nossas casas, com quem por vezes se tinha conversas reservadas e até íntimas, mas que, depois, traiçoeiramente, pela calada, iam comunicar essas conversas à polícia ou aos superiores hierárquicos.

«É essa actuação ignóbil, é, em suma, essa imensa ignomínia, que urge banir definitivamente da sociedade portuguesa e da administração pública.»

17 thoughts on “«O caso Fernando Charrua»”

  1. Em contrapartida temos o caso (divulgado ontem na TV, mas já com uns dias na blogosfera) de uma senhora que, sendo funcionária de uma empresa, teve conhecimento de irregularidades dessa mesma empresa, que poderiam configuarar actos contrários à Lei, comunicou a situação ao Estado, pelas vias proporcionadas pelo próprio Estado e identificando-se devidamente, pois lhe era garantido o anonimato. O que é que o estado fez? Informou a referida empresa, que despediu a senhora!

  2. Aconteceu este caso, imediatamente publicitado e utilizado como arma política contra o Governo e, em especial, contra a pessoa de Sócrates. Alguém conhece algum outro caso? Será digno fazer do caso algo comparável com o Estado Novo? Será que as pessoas que exploram a situação já não têm qualquer crença no funcionamento do Estado de Direito? Acima de tudo, que tem Sócrates, ou o Governo, a ver com o sucedido?…

    Ou melhor, como se pode chegar a esta cegueira em que se perde a honra na comparação com a repressão do Estado Novo?! Que vergonha.

  3. A comparação com o Estado Novo é excessiva de facto.

    Agora dizer que o Governo não tem nada a ver com isto é que também me parece cegueira.

    Quanto ao funcionamento do Estado de Direito cá estamos para ver. Nomeadamente é preciso saber o que é que realmente motivou a atitude da directora da DREN. Se tiver sido só uma graçola (ainda que de mau gosto), ou mesmo um disputa partidária, estou para ver quais é que são as consequências.

  4. Se assim pensas, Luis, explica lá onde está a responsabilidade do Governo pela decisão da famigerada senhora. Estou absolutamente curioso.

  5. Tadinho do ex-deputado a fazer campanha para que voltem a lembrar-se dele para deixar de ser professor por mais 19 anos. Aturar pitos é a única coisa que o fulano detesta.
    JQ

  6. Caro Valupi,

    A questão de se há outros casos, de se este é da responsabilidade do Governo, de se isto merece comparação com o Estado Novo – são tudo formas, talvez elegantes, de desconversar.

    A meu ver, a questão essencial está expressa nesta frase do artigo: «O procedimento disciplinar instaurado ao professor Fernando Charrua será (sobretudo se acarretar qualquer sanção) um convite à generalização da delação entre os funcionários públicos.»

    E acho que, se o governo de Sócrates for um governo sério, há-de concordar com essa afirmação. Concordar, e tomar medidas.

  7. Caro Fernando,

    Acho o raciocínio expresso na frase citada um acabado sofisma. E, por essa mesmíssima razão, um atentado ao Estado de Direito, um péssimo serviço à opinião pública e uma prova da irresponsabilidade dos tempos.

    Porquê? Porque se pretende substituir à Lei. Não só pressupõe um conhecimento factual do processo, como já o resolveu e fez transitar em julgado. Fica, agora, à espera que lhe imitem o resultado. Esta arrogância é perigosa. Muito perigosa.

    Num outro plano, registo com curiosidade que a temática do Estado Novo, a qual vem pelo texto citado, te apareça como manobra de desconversar. Que dirão aqueles que sofreram o Estado Novo no corpo e na liberdade, reduzidos a esta comparação, a esta farsa?…

    Finalmente, a paranóia reinante nem já quer saber do bom senso e das notícias. Logo a seguir ao caso ser conhecido, soube-se que no PS-Porto havia enorme “desconforto”, que o mesmo é dizer: consciência política. E pergunto eu, só no PS-Porto? Claro que não. Aliás, é preciso um espantoso exercício de imaginação para acreditar que milhares de dirigentes e militantes do PS são seres acéfalos e velhacos. Os críticos, no seu delírio, reduzem o PS e o Governo (neste caso, todo o Estado!) a um nome: Sócrates. Estão a reinar com a malta, não estão?…

  8. eu diria antes que as tais pulsões têm origem no indivíduo mal-formado, cobarde, invejoso, sem escrúpulos e dotado de ambição sem esforço. o estado novo tornou esse indivíduo uma instituição, explorando a fraqueza humana do modo mais torpe. seria ingénuo pensarmos que por não haver estado-novo desaparece a mesquinhez.
    agora eu, que sou docente, não vou ser responsabilizada pelo aluno graxista, a não ser que o encorage.
    esperemos para saber o que de facto se passou e o que é, ou não, sancionado. o resto são as típicas, habituais, teorias da conspiração, que já enjoam.

  9. Por conhecer o dito Sr. Professor, uma vez que somos naturais do mesmo Concelho donde também é natural entre outros o Sr. Presidente da Comissão Europeia (principal responsável pela actual maioria SOCIALISTA), tenho a informar que o SR. Prof. Charrua sempre se moveu por interesses, sempre promoveu o conluio e até o tráfico de influências, beneficiou e promoveu sempre os mesmos, usando e abusando da sua posição na DREN para, ao melhor estilo Soviético, aniquilar de forma cobarde todos os seus adversários. Conhecendo o personagem, só posso ter imensa pena dos seus futuros alunos. Relativamente às calunias proferidas pela figura, são gravissimas e nada tem a ver com a questão da Licenciatura do Primeiro Ministro. Finalmente se irá fazer justiça…….

  10. Caro Dieguez,

    Está a ficar cada vez mais interessante. Finalmente alguém que sabe o que disse Charrua.

    Tratou-se de «calúnias», «gravíssimas» mesmo, e que «nada tem a ver com a questão da Licenciatura do Primeiro Ministro». Ficamos à espera de saber, finalmente, quais.

    E já agora: na hipótese de as calúnias terem visado uma suposta preferência sexual do PM, será por isso que são achadas «gravíssimas»? E porquê, exactamente? Haverá entre os lençóis do PM algum perigo particular para o País?

    Entrementes, só uma perguntinha: essas calúnias de que fala, foram elas, ou não, feitas em privado e, depois, transmitidas acima? Queremos saber, como comunidade, quais as regras de convivência e de expressão de opiniões a considerar ‘normais’.

    A questão central, insisto, é essa. A substância da acusação é, neste caso, subsidiária. Até a pessoa do afirmante (eventualmente um pulha) não é, aqui, decisiva.

  11. Bom dia Fernando. olha eu sobre isto do Charrua não me pronuncio uns tempinhos porque ainda não sopesei bem. Agora vinha perguntar-te uma coisa sobre o Cidade Probida. Obriguei-me a travar a fundo e encostei o carro à berma e fui dar uma volta e ouvir a paisagem.

    É que eu conheço aqueles sítios quase todos, os nomes de família também, e ando com um preocupante atque de déjà-vus, só espero de repente não me lembrar mesmo de alguém.

    Mas então será que ele canibalizou uma história verídica de outros (e de si também, nessa hipótese)?

    Eu até prefiro que nem me respondas, tais são as implicações éticas, e resta-me suspirar que se resolva a bem, o que não sei não.

  12. Esclareço melhor: os nomes são os verdadeiros?

    Agora, está muito bom, lá isso está.

    Vou bazar, depois vejo se me dizes algo.

  13. py,

    Espero que tenhas arejado bem, mesmo bem. Quem sabe se não trazes alguma perspectiva nova? Uma que te dê tranquilidade.

    Entretanto,estás a ver: estou a dizer «algo», termo teu. Mas será muito pouco. E o que eu te responder não te fará mal nenhum.

    Dizes tu que cheiras a veracidade factual de «Cidade Proibida». Não me espantaria. Nós escrevemos sempre a vidinha, mesmo quando travestida, salvo seja. Até quando escrevemos ficção científica. Por aí não há escapatória. E o que não tem remédio…

    Que tu reconheças alguns meios, parece-me isso da ordem natural das coisas. Que reconheças pessoas, também não é do outro mundo. Mas parte do princípio de que os nomes não correspondem.

    Estranhíssimo, sim, é que tu pensasses que eu (porque crítico literário? porque [afinal, não] frequentador de meios?) saberia se os nomes que o Pitta deu eram verídicos. A minha ciência fica à porta de tais domínios.

    Mas enternece-me a pergunta.

    [Quase tudo sobre Eduardo Pitta em http://www.eduardopitta.com]

  14. Eu sou a tranquilidade em pessoa Fernando. E um amante da liberdade.

    Quanto aos nomes fico mais descansado, que não sejam mesmo tal e qual, porque alguns são, como a já ida Lagoa.

  15. Já acabei o Cidade Proibida, gostei mesmo muito, Fernando. Parabéns ao Pitta!

    Não sou crítico literário Fernan, não consigo dizer nada de jeito, a não ser que gostei muito, repito.

    E também não conheço o Guilherme de Melo, parece que está esgotado, ou pelo menos assim mo disseram, mas vou à procura.

    Estou orgulhoso de, a seguir ao ‘The line of Beauty’, ter tropeçado no Cidade Proibida (graças a ti), e, ao contrário do que pensava (preconceito), fazer uma grande ovação silenciosa.

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