«Lugares Comuns»

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Conhecia eu, de JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES, os malandros sonetos de Este Lado Para Cima, de 1994, mais as esplêndidas crónicas que, no ano seguinte, escreveu no JL. Depois perdi-o de vista. Ou outros, alguns bem menos interessantes do que ele, ma toldaram.

Só recentemente soube que, nesses dois exactos anos, estava ele trabalhando numa série de curtos textos, que em 2000 (ed. de Mariposa Azual, Lisboa) apareceram, e a que chamou Lugares Comuns. Todos concebidos e redigidos num café do Porto. Como esta minúscula obra-prima:

26 DE SETEMBRO

Há muito tempo não me calha um café pela chávena esquinada. Por ela me apercebi que o ciclo de rotação das chávenas pelos clientes é, em média, de uma vez por mês.
Setembro inteiro passou sem que me tivesse calhado uma curta vez que fosse, a familiar chávena esquinada. Dia após dia rodei a pequena asa branca, na pressa de conhecer no perímetro da cerâmica, aquela ferida antiga. Na última vez que a usara, uns lábios tinham-na beijado com tanto afago pela manhã que pelo final do dia trazia ainda, indeléveis, as marcas daquele afecto. Não é fácil lavar um beijo.
De quando em vez o acaso rasga o espaço do Café, e chega-nos desde o balcão a inconfundível voz de cacos espalhando-se em descuido contra o mosaico do chão.
Desconfio seriamente que a chávena tenha morrido.

Há mais aqui. João Luís Barreto Guimarães (1967, na vida diária médico-cirurgião) tem ainda, junto com Jorge Sousa Braga, um blogue sobre poesia.

12 thoughts on “«Lugares Comuns»”

  1. Ah, um pequeníssimo toque de cinzel… e era a brasa!

    E ainda se diz que no Porto há poucos dias de sol!

  2. Tive o prazer de ser um dos pioneiros que escreveu (jornal «Tempo») sobre a poesia do J.L.B. Guimarães. Na badana do segundo livro lá vinha a nota de leitura. É um prazer confirmar que não estava enganado.

  3. JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

    Tempo, 18.01.90

    Sobre três livros de poesia
    “Neste ofício de ler (por escrito e por extenso) os livros dos novos (e dos de sempre…) há (por vezes) a satisfação de encontrar uma voz poética que nos anuncia uma original e individual maneira de escrever. Todos sabemos que não há rupturas totais com o passado literário. Querer fazer uma poesia nova, começar tudo do princípio, é uma impossibilidade, não se pode fazer. Em “Há Violinos na Tribo” de João Luís Barreto Guimarães há referências e citações (João Miguel Fernandes Jorge, Francisco José Viegas) mas o ponto original é o fio do discurso, o tom da própria voz: entre o eu singular (“também não sei ao certo o que procuro / com estas linhas”) e o nós colectivo (“nunca ninguém / nos explicou direito o que foi a guerra”) (…).”

    JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

    Sol XXI, Junho 1992

    “Ao escolher o título o poeta deu logo um sinal ao leitor: a rua é o livro onde moram 31 poemas mas não há nenhum calendário para “este” Fevereiro. Esta rua não existe a não ser na poesia. Não existe na verdade prática, nos mapas da cidade, nos correios. Porque é de outro tipo a comunicação produzida pelo autor.
    Partindo da circunstância do lugar (“um momento: é este o único eléctrico para a Foz?”) e da história (“sabemos das batalhas uns dos / outros”) o livro funciona como um roteiro pessoal. Do tempo actual (“o fim de século está na ferrugem dos arados”) ao valor da amizade (“ao segundo / sinal serão sempre as horas que tu quiseres”); do lugar da vida (“estivemos longos invernos / sem reparar o frio das nossas casas”) à interrogação da morte (“onde a vantagem da morte?”).
    E, ligando todos os lados do livro, todos os 31 poemas, a força inventiva, o tom falsamente simples de quem sabe e pode garantir “a procura / é parte integrante do poema não pode ser / vendida separadamente”.
    A confirmação plena do livro de estreia (“Há Violinos na Tribo”) e a prova de que não erraram críticos tão diversos como Al Berto e Francisco José Viegas, Pedro Tamen e Albano Martins ao saudarem em João Luís Barreto Guimarães uma verdadeira revelação.”

    JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

    Notícias da Amadora, 27.07.2000

    “Lugares Comuns” de João Luís Barreto Guimarães
    “Um verdadeiro lugar comum a estes poemas (que nunca deslizam para o lugar-comum…) é o café, qualquer café capaz de servir de porto de abrigo à oficina do poeta. (…) Mas o café surge igualmente como espaço de transfiguração. A realidade ganha contornos e dimensões inesperadas.
    (…) Montra de loja ou porto de abrigo, o café é sobretudo um lugar de pessoas, uma paisagem povoada. (…) Metáfora do Mundo, o café pode igualmente surgir como uma sala de perguntas onde o poeta se interroga, interrogando o tempo através da palavras.”

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