«Casal». E que casal!

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Isto de a gente ser portador dum segredo é tramado. Dá à vida um ar de irrealidade, mas não nos faz feliz. Trata-se de quê, desta vez?

Bom. Você já terá andado de metro em Lisboa. Talvez até tenha saído, ou entrado, na estação Cidade Universitária. Possivelmente, reparou que tem azulejaria de luxo e perguntou-se pelo artista. Já menos provável é que certo conjunto, onde figuram dois seres de aparência humana, lhe tenha embargado o passo. E é já da ordem do conto de fadas supor você identificando as figuras. Concedo: não é nada, nada fácil.

Dou-lhe conta duma primeira tentativa. Na edição de luxo de Lisboa, Livro de bordo, de José Cardoso Pires (Dom Quixote, 1997), aparecia a tal figuração, com a legenda: «Estação Cidade Universitária. Painel do Cais, com retrato de casal». E vinha o nome do, neste caso, «da» artista: Vieira da Silva. Pois já então eu soube que carregava um pesado segredo.

O «casal» é formado por Vergílio Ferreira, à direita, e Alexandre Pinheiro Torres. Se há ali um casal, é de discórdia. A autora quis decorar a estação ‘universitária’ com a recordação de uma polémica. Uma polémica intelectual, o que só fica bem.

Os dois escritores degladiaram-se em inícios dos anos 60, a pretexto (sim, puro pretexto, depressa esquecido) da publicação de Rumor Branco, de Almeida Faria, que Vergílio apadrinhara. Uma luta surda fazia ali erupção. Pinheiro Torres batia-se pelo Neo-realismo, Vergílio execrava-o, e Faria, com um romance experimental (a sua extraordinária, e ainda hoje obrigatória, Paixão demoraria ainda uns anos), constituía a bem-vinda pedra de escândalo. Meses a fio, tout Portugal conteve a respiração.

Quando, pois, você de novo por lá passar, lembre-se de que, discretamente, o debate intelectual português tem ali o seu monumento.

Para a petite histoire

Isto, sendo uma revelação, não é a primeira que é feita. Quis o destino que, na mesma exacta hora, dum fim de tarde de 1997, em que, na Câmara de Lisboa, era apresentado o livro de José Cardoso Pires, moderasse eu, na sede da SPA, um debate sobre Alexandre Pinheiro Torres, que vivia há muitos anos fora do País, e que eu achara dever ser homenageado pela passagem de 50 anos de vida literária. Estavam na mesa, e na conversa, Mário de Carvalho, João Aguiar, Inês Pedrosa e Regina Louro, que me pareceram comparsas do bom-gosto e da ironia de Torres. Recordo-me de ter, então, revelado o segredo do Metro de Lisboa. Mas, ainda agora, nenhum motor de busca dá conta dele. Depreendo que o black-out foi, até hoje, geral.

Sobre Alexandre Pinheiro Torres veja a excelente página de Carlos Ceia.

Duas opiniões

«A história que hoje podemos fazer dos últimos trinta anos dá-te [a APT] razão, pois Almeida Faria não se tornou o grande escritor que Vergílio Ferreira augurara» (Carlos Ceia, no site acima)

«Entre 1965 e 1983, Almeida Faria publicou a sua «tetralogia lusitana» (Paixão, Cortes, Lusitânia e Cavaleiro Andante), que confirmou o vaticínio de Vergílio Ferreira: o de que estávamos perante um ‘futuro grande escritor’» (António Guerreiro, hoje no «Expresso»)

Qual é a sua?

6 thoughts on “«Casal». E que casal!”

  1. Concordo totalmente com a opinião do Vergílio, claro. Nem os passos em falso que foram O Conquistador e a rescrita d’A Paixão para teatro beliscam esse facto: Almeida Faria é um dos mais notáveis escritores portugueses que conheço.

  2. “Meses a fio, tout Portugal conteve a respiração.”
    Ainda me lembra, andávamos eu e a minha Maria na ceifa, e vira-se ela para mim: “Oh ‘taphisico, já sabes ao que anda o Pinheiro Torres agora?” E eu: “O que é que esse malandro arranjou agora?” E diz-me ela: “Diz que anda à bulha com o Vergílio por causa do Neo Realismo!”

  3. Pataphisico,

    Tal e qual. E que neo-realismo, o da tocante cena!

    De resto: você sabe o que seja, digamos, «tout Paris». É pouca gente, garanto-lhe.

    Dou-lhe duas variantes: «toute Lisboa» e «tout Chiado». Escolha.

  4. Nunca me passou pela cabeça… aliás, sempre pensei q a figura da direita (de quem vê) fosse um auto-retrato, até por causa dos “olhos de coruja” (Sophia) e do nariz aquilino.
    Quanto à polémica Ferreira/Torres, tomei contacto com ela através do apêndice à edição de “Rumor Branco” de 1992 (da Caminho), onde consta toda a argumentação saída nos jornais.
    Quanto a Almeida Faria, acho que bastam o “Rumor Branco” e a tetralogia para o considerar um dos grandes prosadores do séc. XX.

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