«Carícias quentes», ou também há derrotas nas canções

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Dulce Pontes abrirá com José Carreras, no próximo dia 7, o espectáculo das «7 Maravilhas do Mundo». É uma vitória. Mas, em 1996, quando Roberto Faenza veio a Lisboa rodar «Afirma Pereira», Dulce Pontes sofreu uma derrota amarga. Mastroianni visitou Amália Rodrigues e convidou-a a cantar o tema que Morricone tinha escrito para o genérico do filme. Amália estava doente e recusou. O convite foi parar a Dulce Pontes que aceitou, mas torceu o nariz ao poema de F. de Melis e E. Scoles. Percebe-se porquê:

Lua que brilha branca
Na manhã a descobrir
Sobre o mercado
Dos melões de ouro
Curiosa espreita
As casas cor-de-rosa
À procura do nosso tesouro
O segredo a descobrir
Está fechado em nós
O tesouro brilha aqui
Encanta o coração
Mas está escondido
Nas palavras
E nas mãos ardentes
Na doçura de chorar
Nas carícias quentes

No brilho azul do ar uma gaivota
No mar branco
Da espuma sonoro
Curiosa espreita as velas
Cor-de-rosa
À procura do nosso tesouro

O segredo a descobrir
Está fechado em nós (…)

A brisa brinca
Como uma gazela
Sobre a torre branca
E a Rua do Ouro
Curiosa espreita a fenda da janela
À procura do nosso tesouro

Dulce pediu a uma amiga que comparecesse na editora Moviplay onde, na presença do seu «manager» e de Dick Van Dick, lhe entregou a cassete com a música executada por Morricone ao piano. Horas depois o poema estava feito. Assim:

É sobre o oiro das areias
É sobre este sal
Que tece a renda às ondas
Que à noite o canto das sereias
Traz junto de mim
Esta tristeza, tanta
Quanto mais amo
Sinto a voz da cidade
Flor da cor azul do mar
Mais recordo a luz
Que veste o teu olhar
Muito mais eu tenho
A certeza de ser
Por ti a prisioneira
Que se deixa à solta

E olho os pombos nos telhados
Invento no cais
Regressos de faluas
Desvendo feitos ancorados
De homens sem data
A darem nome às ruas

Quanto mais amo
Sinto a voz da cidade (…)

E os búzios
Cobrem-se de prata
Entoam comigo
O canto das sereias
Quando anoitece no meu peito
E a lua embala o sono das areias

Canção gravada num domingo à noite, logo na segunda-feira de manhã se providencia o envio para Itália. Mas de lá veio a decepção. Havia compromissos e os autores italianos eram amigos de António Tabucchi e de Roberto Faenza. Nada a fazer. Dulce Pontes não conseguiu impor a sua vontade.

Nota final: a autora do poema «vencido» é Soledade Martinho Costa que tem aparecido no Aspirina B. O Mundo é pequeno…

29 thoughts on “«Carícias quentes», ou também há derrotas nas canções”

  1. Deves gostar mais da “voz” e dos “poemas” do Zé Cabra…Também, de um nome assim: brigada do reumático, o que é que se podia esperar!? Pantufas, manta nos joelhos e Reumon Gel!

  2. Ó homenzinhos do reumático, são as dores que vos provocam irritação ou a inveja que vos faz ladrar!? Sim, porque só rafeiros sem vacina contra a raiva podem dar-se ao desplante de dizer mal da Dulce Pontes e, já agora, do belo poema da Soledade, que nos retrata a não menos bela cidade de Lisboa! A qualidade que se distancia da mediocridade sempre irritou muita gente…

  3. Só lhe digo quando sofrer de reumático. Ou acha que caio nessa? Brigadas do reumático não vão à bola com bandas. Coitados, nem sabem o que isso é…

  4. boa, musa. espero que a espera seja longa, mas tenho receio que a bande acabe entretanto. das brigadas nada sei. quanto a mim, gosto de bandas e acho que a dulce pontes tem uma voz bonita e canta bem, embora por vezes com demasiados arpegios.

  5. Se calhar, estou a ser ingénua e a susana muito esperta…Mas a coisa não tem grande importância. Aqui vai (e é bem capaz de dar uma boa gargalhada por eu ter caído na esparrela..): Reumon Gel não é uma banda (já me apanhou?). É apenas um medicamento para mialgias, bursites, dores musculares, dos ossos em geral, do reumático, etc. Mas que dava um belo nome para uma banda, lá isso dava! (ou já sabia que se tratava de um anti-inflamatório e não do nome de uma qualquer banda de que diz tanto gostar?)
    Caí, que nem um patinho, foi?

  6. oh Musa, com tanta gritaria já pareces a Dulce Pontes! E quanto ao Reumon Gel, esquece, ainda não precisamos. Mas olha que já não diria o mesmo dos poemas da Soledade. Aquilo se não é reumático são artroses poéticas.

  7. Cá temos o JCF, sempre atento e observador…Há coisas que costumam ficar no segredo dos deuses. Graças a si, esta não. O poema da Soledade Martinho Costa é excelente, foi pena não ter sido aprovado. Mas as capelinhas mandam muito, mesmo em Itália. Da letra italiana, nem merece a pena falar. Foi um mau serviço prestado à música do senhor Morricone e também à própria Dulce Pontes, que aprecio bastante.

  8. lá estão eles a dar-lhe com sesimbra. não gostamos de sesimbra! e somos vejan (não comemos peixe), mas não somos surdos. porque é que a Dulce tem de gritar tanto? Quanto à Soledade, ela que ponha o Reumon Gel e que vá chatear as varinas… de Sesimbra.

  9. maria antonieta, então o post é do josé do carmo francisco, bem que não me pareceu do fernando. a senhora, hã?, isso é inside trading

    musa, caísse ou não, nunca lho diria, haja elegância.

  10. Espanto-me com a inacreditável falta de capacidade de todos os comentadores (sem excepção) em focarem aquilo que é o verdadeiro punctum deste post. Estou a falar, obviamente, da pose e da expressão da Dulce Pontes naquela fotografia. Estaremos perante um típico caso de pézinho com chulé?

  11. susana, soube um dia antes pelo JCF que o post ia sair. Não reparei que não estava assinado, por lapso, presumo. Tal como sei que vai ser postado um outro, do mesmo autor, sobre Vasco Santana. Qual o mal? Acho que nenhum.

  12. Então a Maria Antonieta é a Soledade? Não percebo: será mesmo isto?

    A Maria Antonieta que disse «o poema da Soledade Martinho Costa é excelente, é pena não ter sido aprovado» é a Soledade? Tipo auto-elogio disfarçado? Não posso crer.

    Já agora, Maria Antonieta (ou Soledade) é óbvio que o facto do post não ser assinado é grave. Gravííiíssimo!!!!

    (Todo este comentário deve ser lido em voz alta e com um histerismo típico de uma novela sul-americana. Podem imaginar violinos.)

  13. gravíssimo, joãozinho, é o facto de em quatro is, três terem acento agudo. soa-me a histerismo nacional. soa-me a ferrinhos.

  14. João Pedro Costa,
    É sempre assim tão rápido nas suas deduções? Porque não pergunta ao José do Carmo Francisco se apenas tem a Soledade Martinho Costa como amiga pessoal? Julgo que saiba que faço comentários no «Aspirina» há muito pouco tempo. Mas a partir de hoje vou deixar de os fazer. O ambiente é agressivo e, até, um pouco doentio, para não dizer outra coisa. Talvez por isso vocês sejam tão poucos ou sempre os mesmos. Aprecio o trabalho de Soledade Martinho Costa em varias áreas, mas não tenho o gosto de a conhecer. Com o José do Carmo Francisco dá-se o contrário. Somos amigos há muitos anos e falamos muitas vezes. Só peço desculpa à Soledade Martinho por tudo isto. Fique bem JPC e continue a tentar. Pode ser que para a próxima acerte…

  15. Inside trading uma coisa sofisticada, Susana? Nem por isso.Foi mesmo uma troca de informações a nível interno, se quiseres.
    Já agora, deves corrigir tradimg para trading…

  16. Esqueci-me das despedidas. Vou respirar um ar menos viciado e mais amigável para outros blogues. E vejam se fazem do «Aspirina B» um blogue onde TODOS se sintam bem!

  17. Maria Antonieta:
    Não tem que pedir-me desculpa. Eu é que agradeço as suas palavras.
    Também já pensei em abandonar o “Aspirina B”. Não necessito de blogues. Admiro e respeito o Fernando Venâncio, só isso. Tudo o que tenho publicado aqui não é inédito, à excepção de alguns artigos de opinião. O “Aspirina” não tem um ambiente simpático. Os comentadores (poucos), desvanecidos com o seu próprio umbigo, são sempre os mesmos. Houve uma comentadora que se manifestou negativamente e “fugiu”. Portanto, Maria Antonieta, não é a primeira e não será a última a “desertar”!
    Quanto aos autores dos postes, há aqueles (como eu) que também fazem comentários e deixam falar o coração (os que mais se expõem). Há os que se calam e deixam que os outros comentem sem arriscarem uma palavra, mesmo que os “pisem” (os mais cautelosos). Parece o jogo do gato e do rato: aquele que mais depressa apanha o incauto, mais depressa lhe cai em cima. É um jogo muito apreciado por aqui…
    Já tenho lido outros blogues (alguns de amigos) e nenhum se compara em agressividade e pretensão ao “Aspirina”. Trocistas são-no até ao limite. Formam um pequeno grupo onde todos parecem, não primos, mas irmãos gémeos! Eu, não. Sou filha única. Lamento o que se passou consigo e com o nosso amigo JCF (embora nada haja para lamentar…). Abraço e melhores blogues.

  18. maria antonieta, obrigada por me ter esclarecido que não houve «inside trading» e sim «uma troca de informações a nível interno», coisa de facto inteiramente diferente.
    agradeço também a correcção, pois desconhecia a ortografia de «trading». foi por lapso, aliás,que escrevi correctamente na primeira instância: a proximidade entre o «m» e o «n» foram responsáveis pelo equívoco feliz que resultou na correcta grafia.

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