«A mulher que prendeu a chuva»

17.jpg.jpg

«Se o amor acabasse, todas as cidades se tornariam ilegíveis» – esta é, se não estou em erro, a ideia-chave deste livro de Teolinda Gersão, que junta 14 contos nos quais o amor e a morte são a paisagem e o povoamento das cidades.

As cidades deste livro são Nova Iorque, Lisboa e Berlim; mas podem ser também Roma ou Viena, e nestas histórias a morte de alguém é sentida como a da cidade onde esse alguém vive: «No Caneiro de Alcântara abriu-se uma cratera com dez metros de profundidade. Até que se abriu um buraco no chão e te engoliu. Pouco importa que o tenham tapado depois com terra e deitado flores.» A cidade é o lugar do ciúme: o viúvo procura sinais de infidelidade, mas só encontra bilhetes simples como Senhora Rosa lave por favor as janelas da marquise. Ou o lugar da vingança: a do homem que se vinga da ingratidão da mulher e da sogra, deixando a mulher cega no meio de uma rua onde um carro irá travar mas tarde demais.

Noutro conto é a angústia que surge quando a personagem perde os óculos e, com eles, perde o horizonte visual do neto na praia, acendendo de novo as memórias dolorosas duma morte na família: uma outra criança, muitos anos antes, a arder em febre no corredor sem fim dum hospital.

O conto que dá título ao conjunto acontece num hotel de luxo quando o viajante surpreende duas empregadas da limpeza a contarem uma história de África: numa terra onde uma mulher era acusada de ter «prendido a chuva», veio um homem novo que a visitou na cabana, dormiu e «fez amor com ela», mas, depois, matou-a. E só «então começou a chover». Entre o divórcio e a morte, entre a solidão e o ciúme, só o amor pode salvar as personagens destas histórias que habitam o outro lado das cidades.

Edições Sudoeste
Capa de Henrique Cayatte e Susana Cruz

José do Carmo Francisco

6 thoughts on “«A mulher que prendeu a chuva»”

  1. A capa lá está a dizer Sudoeste; a alteração foi posterior à edilão do livro. De qualquer modo a observação merece um registo; temos leitores atentos…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.