O desassombro

Nunca tinha visto falar José Pacheco Pereira. Tinha-o avistado, há uns anos largos, em Vila Franca de Xira, num colóquio em que fui dizer umas coisas, já não recordo quais, sobre o neo-realismo. Mas só ontem o tive mais por perto e o ouvi.

Foi na livraria Bulhosa do Campo Grande, em Lisboa. Aí foi apresentada a mais recente obra de JPP, Quod erat demonstrandum, Diário das Presidenciais (Julho 2005 – Janeiro 2006), da Alêtheia Editores.

E gostei do que ouvi. JPP fez ele próprio a apresentação do livro e fê-lo de modo comunicativo, despretensioso, respeitando-nos a nós que o ouvíamos. E o respeito estava sobretudo na simplicidade com que se expôs, a si, e àquilo que pensa da política portuguesa e que prefere nela. «A política portuguesa é interessantíssima», afirmou a certo momento. A quem é que já ouvimos isto? A ninguém. O que é ‘correcto’ é chamá-la uma chachada, nunca um terreno de surpresas. Ora ela revela-se feita por medida para divertimento de JPP, e depois nosso. De vários temas o ouvimos afirmar: «Ninguém se lembra de dizer isto», «Está debaixo dos olhos e ninguém vê». Dir-se-ia parvoíce, mas é verdade: este país parece feito de gente que se recusa a ver, e acha muito mais engraçado congeminar, extrapolar, sonhar, enfim.

Encantou-me (não adoço o termo) aquele imenso desassombro, aquela nenhuma preocupação com a conveniência do que dissesse, a desarmante ausência de calculismo. Via-se que estaria disposto a levar o seu comentário até ainda mais inóspitas paragens, assim houvesse quem o estimulasse.

Um dia, haverá três anos, queixei-me da escrita de José Pacheco Pereira. Achei-o vago, confuso, desmazelado. Seguramente porque se deu, ele próprio, conta de que o seu público merecia melhor, a expressão revigorou-se-lhe e é hoje agradável, translúcida e feliz.

Três ou quatro indivíduos assim, e este País será logo outro.

7 thoughts on “O desassombro”

  1. É mesmo. Devíamos entregar o Governo da nação a este quinteto: Pacheco Pereira; Pulido Valente; António Barreto; Benard da Costa; Frei Bento Domingues.

    Seria uma aristocracia, claro.

  2. Cá para mim, falar de JPP (eu prefiro Idiota ùtil, como ele próprio se “apelidou”), bem ou mal é, SEMPRE, dar-lhe importância e atenção demais. Para que o País “se cure” também é necessário “esquecer” essa gente…
    Ah, já me esquecia! Não querendo parecer ” o outro”, vou passar para aqui o meu comentário de ontem, para que toda a gente veja. Então desculpem lá mas aqui vai:
    FRAUDE NAS ELEIÇÕES AMERICANAS…
    Para ler “e vasculhar” em: http://sociocracia.blogspot.com/
    Até quando os orgãos de comunicação social continuarão a silenciar estas e outras denuncias ainda piores?

  3. Fernando Venâncio:
    Nunca tinha “visto” falar… de José Pacheo …
    E “prontos”: é assim…
    que “eles” escrevinham àcerca dos outros…
    Eu já tinha OUVIDO falar do José Pacheco …
    Tal e qual como … no Liceu Camões:
    Precisam de umas “reguadas” bem dadas por causa do “pretogrunhez” …

  4. Biranta:
    Outro caso – outro pedregulho – daqueles que serviriam perfeitamente para o Dr. Antóni Damásio “explicar” o universo de redes de neurónios “avariados”, especialmente o K347, o que evidencia – ao de leve – a catarse em comunhão com a faribulação, a imaginação, a loucura, enfim…
    Andam, por ai, à solta, num País cada vez mais mal frequentado, como diz o AntónioRibeiroFerreira (todo pegado) no Correio da Manhã…

  5. Cid,

    Se você tivesse tido calma, teria visto que eu fui «ver» falar JPP. Já o tinha ouvido falar, mas nunca visto falar.

    Percebeu agora? Dê as reguadas no seu sim-senhor.

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