Aviso (amigo) para Virginal George

Começo por declarar que admiro João Pedro George. Direi mais: sinto-me feliz por ele existir. Se isto parecer uma declaração de amor, perceberam mal. Mas é uma declaração de amor à vida, que nos fez coincidir nesta zona e neste tempo de um tão vasto planeta.

Dito isto, direi também que a felicidade não é total, e que começou já a abrir gretas. Se é verdade divertirem-me as suas leituras de Filomena Mónica ou de Rodrigues dos Santos (fico pelos últimos visitados pelo doce olhar do lince), causam-me calafrios os seus organigramas da crítica literária. Já fui objecto de um deles, na Periférica, e pude apor-lhe um circunstanciado embora contido comentário (obrigado, Luís, por lembrá-lo).

Sejamos singelos: há um elemento de intromissão policial nesses divertimentos georgianos. Não é por alguém escrever sobre a obra de um conhecido, ou mesmo amigo, que se abre a porta à desonestidade. Lembrou-o já o Pedro Mexia. O efeito dos atidos controlos de George poderá ser, até, o criar de agora autênticas injustiças.

Vamos a um caso pessoal. Eu sinto-me inibido para escrever sobre José Rentes de Carvalho. Já o fiz há uns anos, no Expresso, e gostaria de voltar a fazê-lo. Os seus livros (depois de retumbantes sucessos em neerlandês), começaram a aparecer com mais regularidade em Portugal. Acontece que Rentes de Carvalho é um prosador primoroso e um efabulador de imensa força. E isso é raro – acreditem, por favor – entre autores portugueses actuais.

Ora, porque me proíbo eu de dizê-lo mais vezes e mais publicamente? Por isto: Rentes e eu vivemos na mesma cidade, a longínqua Amsterdão, e calha sermos dois de muito poucos escritores portugueses locais. Há-de ter-se a medida da minha frustração sabendo que não nos damos particularmente bem e que em 30 anos não tomámos um só café juntos.

Declaro-me, pois, vítima, e vítima consciente – portanto, e ainda por cima, vítima solidária -, do terror de observadores como João Pedro George. E considero que seria lamentável, seria péssimo, que o espaço literário português ficasse ensombrado pelas medonhas asas de uma harpia assim.

João Pedro George é muito mais interessante, e muito mais útil, quando não nos observa por esquemas. Quando só mostra a forma bizarra, ou monstruosa, de alguns microclimas da nossa realidade. Logo que esquematiza, torna-se um aparelho de observação, algures num outer space. Asséptico e realmente virginal. E frio e inabitável.

11 thoughts on “Aviso (amigo) para Virginal George”

  1. Em suma, em Portugal medra a infalibidade, é tudo excelente e intocável, não há nada a apontar?
    Porque é que a mente lusa tem esta enorme resistência em debater abertamente e argumentadamente os assuntos, mesmo os mais incómodos ou complexos?
    Novamente, indo aos conteúdos: porque é que na crítica de imprensa é raro a recensão ao ensaio de ciências sociais e ao livro de reflexão científica?
    Outro exemplo: porque é que temos a sensação que os nossos suplementos literários são poucos diversificados e se repetem constantemente?
    O seu exemplo pessoal, embora (quase?) nos antípodas do criticado por J. P. George, revela que afinal até você acha que existe aqui 1 problema: não acha que se contradisse?

  2. Desculpem a intromissão mas por que (separado, distinto de «porque», resposta a «por que») motivo, como no comentário anterior, há-de “Portugal” estar sempre na berlinda, quando a questiúncula se prende com indivíduos e não com o seu terreno?

    Estou um pouco cansado desta constante flagelação de estar em Portugal. Por favor, olhem para o mundo antes de embarcar em generalizações entusiasmadas.

    Obrigado.

    No comentário anterior, pode identificar-se a linha comum: “Portugal”, “lusa”, “complexos”

    Se o país sofre de alguma coisa é de generalização excessiva, e isso deve-se a ímpeto e generalização, que é uma das formas do romantismo, mas deprimente.

  3. “João Pedro George é muito mais interessante, e muito mais útil, quando não nos observa por esquemas. Quando só mostra a forma bizarra, ou monstruosa, de alguns microclimas da nossa realidade. Logo que esquematiza, torna-se um aparelho de observação, algures num outer space. Asséptico e realmente virginal. E frio e inabitável.”

    Tradução: JPG é muito melhor quando fala dos outros e não de nós…

  4. Daniel Melo: os críticos críticos, e não os melífluos, terão sempre a minha atenção e mesmo a minha simpatia. Por isso admiro JPG. Portugal não é para mim, definitivamente, «intocável». A outra questão, a do pouco interesse pela crítica – ou mesmo o assinalar – da divulgação cirntífica e do ensaio, nisso sim, tem toda a razão. Seria bom formar malta nova que, sabendo ciência, soubesse falar da divulgação dela.

    Daniel Marques: o JPG é quase sempre óptimo quando fala de nós. Eu preferia, até, não ter de fazer-lhe reparos, tão útil ele nos é.

  5. Se ainda fossem preciso provas, elas aí estão, é mesmo portuguesinho, do que o pessoal gosta mesmo é de desconversar: uma besta anónima faz de censor ortográfico e ideológico (não se pode falar do campo cultural português porque, como tudo é universal, já não há nacional); o sr. Prof. tenta impingir-nos que por cá não há ensaio e reflexão científica por falta de escribas!
    Com tanto espaço e não conseguem aproveitar para tentar reflectir seriamente sobre problemas que até abordam em certos livros (cá nos resta o J. P. George para reavivar memórias, há gente muito esquecida).
    E na posta seguinte, contra as generalizações injustas, ainda serão capazes de dizer que não há cinismo cá na chafarica, caramba!!
    É o deixa-estar na sua versão sonsa, manhosa e calculista…

  6. Se ainda fossem precisas provas, elas aí estão: é mesmo portuguesinho, do que o pessoal gosta mesmo é de desconversar.
    Uma besta anónima faz de censor ortográfico e ideológico (não se pode falar do campo cultural português porque, como tudo é universal, já não há nacional); o sr. Prof. tenta impingir-nos que por cá não há ensaio e reflexão científica por falta de escribas!
    Com tanto espaço e não conseguem aproveitar para tentar reflectir seriamente sobre problemas que até abordam em certos livros (cá nos resta o J. P. George para reavivar memórias, há gente muito esquecida).
    E na posta seguinte, contra as generalizações injustas, ainda serão capazes de dizer que não há cinismo cá na chafarica, caramba!!
    É o deixa-estar na sua versão sonsa, manhosa e calculista…

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