Revolution through evolution

Male athletes are far more likely to choke under pressure than their female counterparts
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Trump’s Political Success Was A Triumph Of Style Over Substance
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Traumatic stress changes brains of boys, girls differently
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Even physicists are ‘afraid’ of mathematics
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Repeatedly Thinking About Work-Family Conflict Linked to Health Problems
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Increased smartphone screen-time associated with lower sleep quality
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Personality Tests for Fish Could Help Boost Reproduction Rates

Esta legitimação moral de Trump deve ter consequências políticas

“Nunca embarquei muito nesta ideia de que o novo Presidente norte-americano é tão mau, tão mau, tão mau, que representaria uma força do mal tão grande, que tinha de sair derrotada”, começa por afirmar Passos Coelho em entrevista à Renascença.

“Muitas pessoas defendem-se através de expressões mais nacionalistas, mais ditas populistas, mais centradas sobre si próprias, às vezes convencidas de que dessa maneira recuperam o seu passado, a sua soberania sobre as coisas e, infelizmente, isso já não é susceptível de acontecer”, analisa.

E Hillary Clinton também não se afastou muito desse registo, defende Passos. “Nós já não víamos, na disputa norte-americana, ninguém que defendesse um modelo de sociedade aberta, livre, global. Todos acusavam este toque [populista], que é mais exponenciado pelo senhor Trump mas que não estava ausente da senhora Clinton”.

Fonte

United Deplorables of America

Os EUA escolheram ser governados por quem se gaba de fugir aos impostos, ser trapaceiro nos negócios, prejudicar minorias, reduzir as mulheres à condição de fêmeas à disposição do macho e mentir sistematicamente. Podemos concluir com algum grau de certeza que a escolha não foi feita apesar destas características mas por causa delas. A explicação, como já disse o Eduardo Lourenço, está na televisão.

Tal como num outro país numa galáxia distante onde também uma super-vedeta da televisão foi escolhida como presidente principalmente por causa do seu poder mediático, o que a levou a manter esse estatuto quase até ao período eleitoral e a ter feito uma campanha despolitizada e despolitizante de forma a usar a sua fama para levar a luta eleitoral para o terreno da popularidade, assim nos EUA uma vedeta mediática de primeira grandeza entregou-se a um exercício donde sairia sempre vencedora, especialmente se perdesse as eleições ou nem sequer fosse nomeada candidata. O que tinha a fazer era só aparecer no circo da política a fazer o que já estava fartinha de fazer no circo do show business: dar espectáculo. Um tipo de espectáculo que há décadas, séculos e milénios tem ubíqua prática, e que podemos ver perto de nós na sua industrialização máxima com as seitas religiosas de bandeira cristã. O discurso dos pregadores obedece a esquemas testados com milhões de pessoas e apenas tem de ser adaptado a outro conteúdo caso se pretenda usar a fórmula para obter uma audiência no campo político. Foi isso que fez Trump, usando uma retórica maniqueísta e alucinada onde o ódio foi instrumental para o tipo de marketing em causa. A iliteracia e alienação cívica da plateia que se formou para assistir ao seu número alimenta-se de fantasias para consumo imediato, seja um mar que se abre para fugir aos egípcios ou um muro que se levanta para fugir dos mexicanos. Porém, ao contrário de Hitler e quejandos, em Trump não há um pingo de ideologia, antes tudo se limitando ao simulacro, oportunismo e fruição. Ou seja, tudo se oferecendo à descodificação pelos instrumentos cognitivos do seu público, um público que em vez de um político a quem responsabilizamos pelos seus actos e palavras estava mesmo interessado em continuar a ver um palhaço na TV que tem licença para brincar aos racistas, xenófobos, misóginos, tiranos e crápulas. Porque nele tudo é simples, divertido, de final feliz e com repetição garantida semana a semana.

Estas eleições serão estudadas durante anos. Há tantos pontos de vista à disposição quantas as cabeças interessadas em explicar um fenómeno verdadeiramente maravilhoso. Algo equivalente a termos visto Roma invadida pelos bárbaros. Só que aqui a barbárie nasceu da civilização, da democracia, da liberdade, do voto. Essa a maravilha das maravilhas, pois a nação de Lincoln e de F. D. Roosevelt tem todo o direito a inscrever Trump na sua História como representante de um certo tempo e de um certo modo de conceber a comunidade. Trump não é menos legítimo do que Obama. E não é mais legítimo do que quem lhe suceder, quem sabe se já daqui por 4 anos ou menos.

Correu tudo ao contrário do que os Democratas esperaram: a sua celebrada máquina no terreno foi incrivelmente insuficiente, os afro-americanos não se preocuparam em garantir o legado de Obama, os hispânicos não se assustaram com Trump, e as mulheres americanas talvez gostem de tipos com a pinta e os modos dos patos-bravos. Para além disso, a operação russa através do Wikileaks e, em especial, a golpada do FBI mostram que foi preciso reunir este mundo e o outro para derrotar Hillary.

Não é burro*

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De acordo com alguns leitores, tal afirmação nunca foi proferida por Trump. Segui o link aqui deixado e parece-me credível. Tal não impede, porém, e isto é uma maneira de corrigir as coisas bastante trivial, que eu ache que, se não disse, poderia ter dito. Mas, se não disse, não tenho dúvidas de que o pensou. É facílimo imaginá-lo a fazer uma aposta em como vai dizer tudo o que lhe apetece, verdades, mentiras, insultos, ofensas, ameaças, o cardápio completo de incorrecções, e vai ganhar as eleições. Foi o que aconteceu. Assim, mantenho que não é burro, que seguiu um capricho e se divertiu à brava com o resultado. Agora, o mais provável é não fazer nada do que andou a apregoar e faz sentido que tenha já anunciado que a América vai ser um enooorme estaleiro de construção civil. É o seu negócio, afinal.

OMG!

A esta hora, Trump ganhou e é o próximo presidente norte-americano. Como já foi dito, estamos perante uma espécie de segundo Brexit. Bastará agora Trump abrir a boca nas próximas horas, dias e semanas, à semelhança de Boris Johnson e Nigel Farage, para começarmos a ouvir muitos dos seus votantes a dizerem que não era a sério. No entanto, tal como na Grã-Bretanha, os dados estão lançados e não há outro caminho se não seguir em frente, não há volta a dar. Nas aterragens de emergência verdadeiramente arriscadas dizem aos passageiros em pânico: “brace for impact!” Os passageiros fazem-no com um misto de terror e de esperança de sobreviver. Assim se devem sentir 60% dos americanos e 70% do resto do mundo neste momento.

Uma coisa é certa: aquela poupa loira no alto da cabeça vai cair nos próximos dois anos, o que será provavelmente a única coisa boa a que o mundo vai assistir. A que preço iremos ver Trump a compreender que a vida não é um “reality show” sempre divertido?

Não, passarão

Donald Trump é um político desqualificado no que diz respeito ao cargo de presidente dos EUA (pelo menos), e fez uma campanha que assumiu e agitou os piores instintos sociais e psicológicos do eleitorado. Nesse sentido, ele é um tangível e real perigo para os valores que associamos à democracia e ao humanismo. Todavia, esta figura não corresponde ao modelo do tirano, pois é evidente nela o enfado que o exercício do poder estatal lhe provoca. Trump não tem ideias válidas, sequer razoáveis ou aparentemente sensatas, para a comunidade porque ele nunca perdeu uma caloria a imaginar o esforço que teria de despender para as realizar.

Em vez disso, Trump tem fantasias. Essas fantasias são rápidas e fáceis de elaborar, tendo a vantagem de não implicarem quaisquer compromissos pois ele começa por acreditar que jamais estará numa posição de sequer poder começar a realizá-las. O que ele procura, portanto, não é um eleitorado mas uma audiência. E para lidar com essa audiência basta alimentar o seu pensamento mágico. Quão mais ignorante e alienada for a audiência, mais impacto e envolvimento geram o pensamento mágico, a fantasia, a pura irracionalidade e as monumentais mentiras.

Em Trump temos o típico pato-bravo com um apuradíssimo talento para a televisão de massas. Ele percebe de tijolos e cimento, fugas ao fisco e aldrabices nos negócios, corrupção moral e luxúria. Não percebe de propaganda, percebe de publicidade. Apenas precisou de criar uma marca sobre outra marca – no caso, é o bilionário que pode dizer qualquer coisa que lhe passe pelo bestunto, tal como faz quando está num estúdio a ser o protagonista desse conteúdo. Com essas competências fez um tremendo sucesso mediático como celebridade icónica que lhe facilitou os negócios da construção. E partiu para a corrida presidencial para se divertir e fazer um golpe de marketing. O caldo de cultura sectária e de instigação ao ódio que o partido Republicano alimenta há anos e anos – no que é um óbvio ciclo de decadência face às mudanças económicas, demográficas e sociais nos EUA – foi a colossal biomassa pronta a ser incendiada por uma retórica para estúpidos. Para muito estúpidos.

Não é com a estupidez que a maioria das pessoas quer ser governada e se quer governar. Este passarão, mesmo que ganhe (pois tudo é possível, até o altamente improvável neste momento), está condenado a desaparecer da cena política como figura relevante em pouco tempo. A invenção da democracia e o caminho feito na dignificação da condição humana mostram que é a inteligência da união no essencial que nos conduz da animalidade para a civilização.

Acudam à Helena Matos

Impressionante como a colunista do Observador abre fogo a propósito de tudo e de nada contra a Câmara Municipal de Lisboa. E o Governo nacional, evidentemente, que isto é tudo uma cambada. Imagina-se vítima de ocultação/sonegação de informações e parte do princípio de que ninguém em Lisboa quer dizer nada ao pagode, que se fala e fala e fala e anuncia e nada (de decente) acontece (!), que bom bom era ninguém pagar nada e a cidade ficar um mimo por intervenção divina ou por milagre de uma administração privada que nos poria a pagar exatamente da mesma maneira ou pior e com margem. Ou então, bom mesmo era a gestão entregue a Carmona Rodrigues outra vez. A sério. Ah, e tudo isto tem que ver com o modo de estar na vida das esquerdas. Convencidas de que só elas sabem fazer. E se só elas, Helena? Ai, pum! desmaiou.

Prossigamos. Vai haver uma Feira Popular para os lados de Carnide? Protesta: não sabe de onde vêm os 70 milhões de investimento anunciados e exige o nome e o NIF dos investidores, assim como a lista de compras, vendas e concessões por metro quadrado já. A distribuição exata dos postos de trabalho previstos. O número de carrosséis, rodas gigantes e montanhas russas e quem os vai instalar e o preço dos bilhetes. E quer que os moradores das imediações organizem manifestações ruidosas para fazer cair o executivo camarário por causa do ruído dos divertimentos, como fariam se a Câmara estivesse nas mãos dos amigos da Helena. É que, atenção, não sendo satisfeitas estas exigências, que mais ninguém ainda fez, o que é incompreensível, é tudo uma vigarice. Desde o Carmona Rodrigues e, presumo, do Santana Lopes do túnel, que a Câmara está entregue a vigaristas e incompetentes de esquerda, diz ela. Deve achar que a cidade está feia e pouco atrativa, querem ver?

Os obras da Segunda Circular foram suspensas em virtude de uma fraude não detectada anteriormente no concurso? Mas o que é isto? Rigor? Ela quer as obras já e mesmo assim! Depois, se se descobrisse um conflito de interesses estando a obra já em curso, ah, aí estaria a Helena a dizer que os socialistas são isto e aquilo e, no meio, as palavras corrupção e incompetência.

Mas afinal, ó Helena, dir-se-ia que nem tudo é conversa e há mesmo muitas obras em execução ou já executadas, adjudicadas sem qualquer problema ou esquema, e que tornam a cidade mais bonita e desfrutável. Pois é, a Helena não teve espaço, mas numa próxima oportunidade protestará porque a cidade está caótica. Possivelmente protestaria por haver carros e passeios estreitos a mais, ou passeios ocupados por carros, e em seguida também por haver carros a menos e pessoas a mais nas ruas em passeios demasiado largos.

Mas isto é um caso clínico. Esta história da Feira Popular, que vos parece? É isto normal?

Quanto às taxas. Voltemos às taxas.

E acalmemos a Helena, pelo menos com as taxas turísticas, que ela nem sequer paga. As outras são pagas praticamente em todo o lado – IMI, taxa de esgotos, etc. Em Bruxelas, por exemplo, paga-se ainda uma “taxa de chefe de família”, cuja designação nunca percebi. E há obras constantemente. E os muitos sítios feios da cidade têm agora alguma ou muita graça.

Paris –  a taxa turística era 1,50 € em 2015, mas aumentou e tornou-se flexível em 2016

Berlim – 5% sobre o preço do alojamento

Amesterdão – idem, 5 % por pessoa e por noite

Barcelona – varia entre 0,65 € e 2,25 € em função do tipo de alojamento

Roma, Florença, Veneza, etc. – variável em função do alojamento, mas pode chegar aos 7% em Roma

Bruxelas – 7,5 € por noite.

A ira da Helena é profunda e não vai passar facilmente. Como sabemos? Porque ela partilha connosco os temores das suas noites em claro e os pesadelos de quando dorme, a saber: se fosse uma Câmara liderada pela direita, haveria uma revolta armada da esquerda contra a instalação em qualquer lugar de uma “instituição popular” do Estado Novo como é a Feira Popular. Bem lembrado, Helena. Bem visto. Há noites em que dormir descansada é perda de tempo.

 

Entretanto, na capital do império

A carta enviada pelo director do FBI aos congressistas norte-americanos após triagem e análise dos novos e-mails de Hillary. O que tenho a dizer? Que não estamos nos Estados Unidos, que , por lá, parece estar tudo à beira de um ataque de nervos e que também eu estaria ansiosa se fosse votante. E que há quem deva manter a serenidade e a isenção e não consegue.

 

 

Nada de importante a assinalar. Conclusões anteriores mantêm-se: não há motivo para investigação criminal. E assim se interveio na campanha, se gerou um alarme desnecessário e se conferiu uma vantagem inesperada a um palhaço. Será que esta carta ainda vai a tempo de repor as intenções de voto? “Buddies”, acabem lá com este sufoco. Anda meio mundo nervoso e o pior é que o outro meio anda divertido.

Lá como cá, um pulha é um pulha é um pulha

A situação política nos EUA, à beirinha de umas eleições que estão a deixar meio Mundo atónito perante os números nas sondagens de um candidato absolutamente grotesco e insano como Trump, tem vários aspectos de espantosa similitude com o que se passa em Portugal desde 2008. Essas semelhanças atingiram o pináculo com o historicamente inusitado papel que o FBI assumiu a 12 dias da votação ao enviar, pelo seu director, uma carta ao Congresso onde anunciava que se tinha descoberto mais correio-electrónico relativo às irregularidades de Hillary Clinton nessa matéria. Foi uma bomba que causou gravíssimos danos na campanha Democrata, efeito destrutivo potenciado pelas notícias muito negativas a respeito do ObamaCare que saíram também por essa altura.

A carta de James Comey não explicou o que estava realmente em causa nessa nova informação adquirida pelo FBI, a qual poderá ser completamente irrelevante do ponto de vista legal, o que abriu de imediato espaço para as mais selvagens especulações. Trump e a sua campanha não perderam tempo a usar o espantoso bónus como munição para a continuação do festival de mentiras e calúnias. E as sondagens começaram a cair para o lado Democrata tanto a nível nacional como estadual. Só por isto, a actuação do director do FBI foi vista como uma óbvia judicialização da política dado que o efeito da sua intervenção não foi o de proteger a investigação ou o processo político, antes o de prejudicar um candidato e favorecer aquele que tinha apostado tudo nessa linha de ataque. Para cúmulo, o número circense foi lançado em cima da meta de forma a que nada se pudesse esclarecer até ao fim da corrida.

Nos últimos dias, recuperaram-se declarações onde Rudy Giuliani, um dos mais fervorosos apoiantes de Trump, aparece a gabar-se de saber o que Comey iria fazer dentro de pouco tempo. Mais declarações deste passarão se vierem juntar, anteriores e posteriores ao anúncio gabarola e encapotado da golpada, onde admite à boca cheia que há agentes do FBI a dar informações à campanha de Trump. Em consequência, a tese que agora começa a correr entre alguns comentadores norte-americanos é a de que Giuliani, ou alguém do lado de Trump, poderá ter sido um instigador das forças que dentro do FBI querem afundar Hillary num poço sem fundo de suspeições judiciais de forma a que seja derrotada nestas eleições. Nunca tal degradação do FBI se tinha visto na história das presidenciais americanas.

Qual o paralelo com o que se passa em Portugal desde 2008? É escolher. Ainda antes de o PS ter ganhado as eleições em 2005 que já PSD, CDS e sua máquina mediática apostaram em lançar campanhas negras onde se tentava assassinar o carácter de Sócrates a golpes de calúnias envolvendo a Justiça. O caso Freeport foi lançado em 2004 e explorado a fundo a partir de finais de 2008 e ao longo de 2009. Como sabiam que judicialmente não iriam conseguir apanhar Sócrates enterrado em Alcochete, lançou-se o processo Face Oculta, o qual teve como calendário produzir uma tentativa de envolvimento judicial de Sócrates em cima da pré-campanha eleitoral para as legislativas de 2009. Como tal igualmente esbarrou nas figuras que defenderam o Estado de direito, foi ainda lançada a “Inventona de Belém” em cima das eleições e apenas requerendo a cumplicidade de um jornal para o efeito. Finalmente, em 2014, a Operação Marquês consegue servir para tentar influenciar as eleições do PS para secretário-geral com o artigo da Sábado no final de Julho, pois Seguro e companhia agitavam a bandeira da pureza moral e da incorruptibilidade contra os diabólicos socráticos, e ainda para influenciar o início do ciclo de Costa, com a detenção de Sócrates em Outubro a ter sido preparada para ter impacto mediático máximo e para coincidir a uma semana de distância com o congresso do PS onde António Costa lançaria o ano eleitoral. Depois, e até às eleições de 2015, a Operação Marquês forneceu um caudal de informações e oportunidades para uma sistemática campanha de devassa, deturpação, crimes e estratégia politicamente desenhada pelos órgãos de comunicação social alinhados contra o PS, uns explicitamente e outros como canais de distribuição e amplificação. Como é que sabemos isto tudo? Recorrendo a alguns factos indeléveis e espampanantes, e ainda aos mesmíssimos instrumentos cognitivos e lógicos com que na Judiciária, no Ministério Público e nos tribunais se elaboram hipóteses para investigar e julgar crimes ou meras suspeitas de crimes: cui bono?

Nos EUA não existem pasquins que sejam os órgãos oficiosos de agentes da Justiça criminosos, como acontece em Portugal para gáudio e júbilo de uma direita decadente – posto que as violações ao segredo de Justiça existem e são tratadas pelos responsáveis judiciais e políticos como algo que é impossível evitar, sequer investigar. Para além disso, nos EUA, como se está a ver, também não há cagunfa de dizer o que há para dizer: que é inadmissível pactuar com órgãos policiais e judiciais que ambicionem interferir com a funcionalidade e legitimidade democráticas. Tirando essas diferenças, a pulsão de usar a Justiça para atacar adversários políticos é tão mais forte quão politicamente inanes e indecentes sejam os líderes partidários.

Valupi goes to Governo Sombra

No Governo Sombra do último sábado, e já com uns anos valentes de atraso, o nome “Valupi” entrou em cena. Por nove vezes, envolvendo os quatro participantes, esse famoso pseudónimo foi invocado no programa em clima de festa, rasando o transe báquico. Eis o que ficou verbalizado para a posteridade:

João Miguel Tavares

Valupi, um blogger do Aspirina B, que tem maior devoção a José Sócrates do que a irmã Lúcia a Nossa Senhora de Fátima. Um beijinho para Valupi, se nos estiver a ver lá em casa.

Pedro Mexia

[para o JMT] E um grande fã deste programa!

Carlos Vaz Marques

[para o RAP] O Valupi vai tratar-lhe da saúde...

Ricardo Araújo Pereira

Eu peço desculpa, quer a Max Weber, quer a Valupi, dois vultos da sociologia política.

É fácil detectar variegados graus de imprecisão nestas declarações, fruto da comoção do momento. Quero, todavia, fazer justiça ao sr. Araújo por ter sido o que mais se aproximou de uma afirmação puramente objectiva, factual. Também contou para este triunfo sobre os seus colegas o ter pedido desculpa. Tanto eu como o Max Weber, e talvez ainda mais o Max do que eu, sabemos que este senhor tem boas razões para tal contrição pública.

O sr. Araújo foi protagonista de outro momento que não posso deixar passar; seja no cumprimento da ética protestante, seja em respeito pelo espírito do capitalismo. Foi quando entrou decidido e confiante pelos mistérios cosmoteológicos adentro:

[…] Deus estava certamente a inventar uma constelação nova […]

Sendo cada constelação uma figura mental que junta através de linhas imaginárias algumas estrelas sem necessária proximidade espacial entre si, esta revelação araujiana de se ter apanhado Deus a fazer mais uma constelação tem vastas implicações. Poderá ser a prova definitiva para aceitarmos que Ele está mesmo no meio de nós, por um lado, e que não passa de um cabeça no ar, pelo outro. Quando tiver oportunidade, discutirei com o meu amigo Friedrich Wilhelm a natureza demasiado humana do fabricante de constelações.

Para além destas importantes problemáticas, o programa também exibiu um vídeo onde se podia ver um macaco com um microfone na mão a provocar e insultar um cidadão que já foi ministro, secretário-geral do PS e primeiro-ministro, sendo nesta altura mais falado por ser arguido num processo onde ainda nem sequer sabe se vai ser acusado de alguma coisa depois de já ter estado preso e de ver a sua privacidade devassada através de crimes sistemáticos. O pessoal do Governo Sombra achou muita graça à humilhação registada, equivalente a um linchamento moral, e resolveram dar destaque ao episódio.

Quem sabe, talvez num futuro de médio ou longo prazo ainda vejamos sociólogos, psicólogos e antropólogos a estudar uma sociedade e seus protagonistas mediáticos onde este tipo de violência é não só praticado como cultivado à risada.

Guerreiros do jornalismo canalha

O “Expresso Curto” é o resultado da hibridização do Expresso em consequência da crescente e irreversível digitalização da imprensa escrita. Ao ter uma edição digital, o que durante décadas foi apenas um jornal semanário passou também a ser um diário. Nesta secção matinal, os principais jornalistas da casa fazem um apanhado daqueles que considerem ser os principais artigos doutros órgãos de comunicação social e do próprio Expresso, apresentando-os de modo opinioso.

No dia 26 de Outubro, Pedro Santos Guerreiro usou o formato para sugerir a leitura de um artigo no Observador onde aparecia identificado o “alegado escritor-fantasma de José Sócrates”. Alegado por quem? O Pedro não se preocupou em explicar, se calhar porque não tinha tempo para continuar a teclar sobre o assunto, se calhar porque considera que a alegação vem de um coro cósmico à sua volta. O certo é que a prosa aonde vamos dar tem a seguinte passagem:

«Seguindo a mentalidade do próprio Sócrates, que divide o mundo entre os que estão com ele e os que estão contra, Domingos Farinho ficou do lado da equipa dos socráticos, contra os adversários que supostamente ‘odeiam’ o ex-primeiro-ministro. Dessa passagem por São Bento ficou, de facto, uma relação forte com Sócrates.

O maior exemplo disso mesmo ocorreu com Farinho fora do gabinete de Filipe Baptista, quando o semanário Sol começou a revelar em 2010 as suspeitas que o DIAP de Aveiro tinha recolhido contra Sócrates no processo Face Oculta. Dizem vários amigos que Farinho foi incapaz de criticar ou questionar o papel do ex-primeiro-ministro na tentativa de controlo da comunicação social. “Ficou ofuscado pela luz”, resume um ex-colega de curso. Outro amigo diz que preferiu, tal como Sócrates, ver uma “cabala” da Justiça” contra o primeiro-ministro que tinha começado o seu governo a lutar contra os privilégios dos magistrados. “Passou a ser impossível falar com ele sobre Sócrates, já que, tal como o chefe, tinha dificuldade em lidar com a crítica”, diz outro amigo.»

O autor é Luís Rosa, aparentemente alguém com carteira de jornalista e que reclama ter-se especializado em jornalismo de investigação. Eis o que ele consegue transmitir nestes dois parágrafos de um artigo que não aparece rotulado como sendo de opinião, antes pretendendo fazer uma exposição de factos:

– Que a “mentalidade” de Sócrates é matéria sobre a qual pode discursar como jornalista.

– Que a “mentalidade” de Sócrates é matéria sobre a qual tem certezas absolutas, embora não revele nem as fontes nem o método da sua investigação.

– Que a “mentalidade” de Sócrates tem como traço essencial uma divisão do “mundo entre os que estão com ele e os que estão contra”, embora não revele nada acerca da investigação que lhe permitiu chegar a essa descoberta.

– Que não é certo que existam adversários políticos de Sócrates que lhe tenham ódio, apesar dos milhares de exemplos à disposição precisamente desse sentimento contra Sócrates veiculado publicamente por figuras com responsabilidades políticas e mediáticas.

– Que o processo Face Oculta recolheu suspeitas legítimas contra Sócrates, apesar das ilegalidades na sua origem ao se ter escutado um primeiro-ministro sem a devida autorização e de Sócrates nem sequer ter sido constituído arguido.

– Que o processo Face Oculta revelou uma tentativa de controlo da comunicação social, apesar de nenhum acto concreto ter sido registado que possa ser objectivamente relacionado com tal suspeita.

– Que as acções e intenções de Domingos Farinho podem ser descritas por terceiros melhor do que pelo próprio, posto que a versão de alguns “amigos” escolhidos pelo autor fica sem contraditório.

– Que Domingos Farinho não tem direito a defender uma interpretação do processo Face Oculta e suas consequências públicas que difira da do autor e dos “amigos” citados. Caso insista nela, então é porque estará diminuído intelectual e/ou moralmente por influência maligna de Sócrates.

Luís Rosa, num padrão típico dos caluniadores, está cheio da peçonha que atribui ao seu alvo. É ele o maniqueísta da peça, usando o seu estatuto de jornalista para se entreter a servir agendas políticas ou perseguições de estimação. Ora, é de presumir que PSG leu o texto na íntegra antes de recomendá-lo. Como responderia se fosse questionado acerca do género a que este deturpado exercício pertence? Será possível ser concebido como “jornalismo de investigação”? Será isto apenas um “artigo de opinião”? E, neste último caso, como catalogar uma opinião tão sectária, fanática e perversa como esta a respeito tanto de Sócrates como de Domingos Farinho? Claro, nunca ninguém apanhará o PSG a explicar a sua cumplicidade.

Não faço a mínima ideia acerca do real papel de Domingos Farinho na concepção e escrita do livro “A Confiança no Mundo”. Para mim, qualquer desfecho é possível, sendo que neste momento estamos perante alguém que reclama estar a ser vítima de difamações e calúnias, versão igual à que o autor do livro assume perante as mesmas acusações. É a versão deles que prefiro, até prova em contrário. Mas faço uma excelente ideia de quem utiliza suspeições para o atacar e, assim, conseguir atingir Sócrates e, finalmente, o PS. Aposto que o PSG também faz uma excelente ideia, embora por outras razões. E daí se ter prestado a servir de difusor e amplificador.