Isabel Jonet ganhou definitivamente momentum. Para além de tudo o resto, como o excesso de carne na alimentação dos portugueses pobres, e do amor e calor com que diz praticar a caridade, ontem declarou, numa reportagem exibida na RTP1 – Linha da Frente – (a partir do minuto 8:00) dedicada ao problema da fome dos mais pequenos em Portugal, que não considera que uma criança que apenas consome uma refeição por dia passe fome. Essa criança ou crianças, que reconhece existirem, têm apenas carências. Mas disse mais. Disse, por exemplo, que a fome em Portugal neste momento é relativa. Explicando melhor – é função das expectativas que se tinham. Ou seja, se um jovem ou uma criança estavam habituados a contar com três refeições diárias, é natural que agora achem que têm fome. Mas estão enganados e os pais também. São apenas carências. Nada que se compare com as crianças de África. Nada. A reportagem, oportunamente, contrapôs-lhe as definições de fome e carência pela voz de Isabel do Carmo.
Reconheço que era praticamente impossível aos órgãos de comunicação social não ouvirem o que tem a dizer sobre os atuais problemas sociais a pessoa que dirige uma das organizações mais ativas nessa área. O problema é que a senhora ou por necessitar de se corrigir ou por ter gostado de se ouvir ou ainda por entender que já é tempo, finalmente, de pessoas como ela dizerem o que pensam, multiplica as declarações muito para além do que os nossos ouvidos sensíveis toleram. E se até António Lobo Xavier, ontem, na Quadratura do Círculo, quase inteiramente dedicada ao tema da caridade vs. solidariedade, e visivelmente ainda sem ter ouvido estes últimos dislates, declarou que talvez fosse melhor a senhora recatar-se um pouco mais, é porque algo de chocante e surpreendente, até para os cristãos, se solta amiúde daquela boca (sem fome nem carências).
Sabemos assim que o que move Isabel Jonet no exercício das suas funções são estes dois motores: 1) o prazer cristão de praticar a caridade e 2) a necessidade de disciplinar os hábitos de consumo, que, para ela, eram errados e alarves (lembramo-nos ainda dos bifes). Esta senhora pode ser uma profissional competente a canalizar excedentes – convém lembrar que o seu trabalho não inclui a distribuição direta de alimentos a quem passa mal. Mas as suas declarações, consonantes com o pensamento da corja que nos governa, são estouvadas, cheiram totalmente a bafio e raiam francamente o insulto.


