Vinte Linhas 792

Meditação breve para dois telhados de Lisboa

Uma obra ilegal tapou-me a visão do Rio Tejo em frente à janela de onde foi tirada esta fotografia. Por sua vez a neblina não permite ver a Serra da Arrábida lá no fundo onde às vezes os vidros dos automóveis brilham como faíscas instantâneas perante os raios de sol.

A casa onde vivo desde 1976 e que é minha desde 2005, dá para um pátio antigo com um limoeiro a que ninguém liga e com os restos de uma oficina de tipografia onde outrora se imprimiu «O Mosquito» e outros jornais infanto-juvenis. Salvo erro, «O Senhor Doutor» e «O Grão de Bico», por exemplo.

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Desemprego: o fim do contrato político

Mais notícias sobre o desemprego.
Que diz o Governo? Numa rara aparição numa reunião do tipo “com parceiros sociais”, eventos que não frequenta, V. Gaspar anuncia ao povo, que legitima democraticamente o exercício do seu mandato, isto:
“O ministro das Finanças anunciou hoje que as previsões do Governo sobre a taxa de desemprego foram revistas em alta. Segundo Vítor Gaspar, haverá 15,5 por cento de portugueses desempregados no final deste ano, contraindo as estimativas apresentadas no Documento de Estratégia Orçamental, que apontavam para 14,4 por cento. Já para 2013, as novas previsões apontam para uma subida ainda mais acentuada: 16 por cento, uma taxa recorde que contrasta com os últimos dados do Governo, que davam conta de uma descida para os 14,1 por cento”.
Está quase tudo perdido. Quando quem nos governa não tem interiorizada a principiologia de responsabilidade democrática mais rudimentar, está quase tudo perdido.
Numa matéria de flagelo social, de desastre pessoal profundo, o Ministro não pode, pura e simplesmente não pode, alterar em ditado, num mês, previsões como estas sem explicar, fundamentar, cabalmente, o por quê da reviravolta.
Falta de sentido democrático, irresponsabilidade política, filhas de uma insensibilidade social assustadora de quem tem em mãos os tais dos números.
Deve ser mais fácil assim. Governar para taxas apagando as pessoas que as geram.
Está quase tudo perdido. Não é gente desta que nos ajuda. Porque não sabe que estamos do lado de cá de um contrato político.

E multar os professores incompetentes, não?

Agora é que vai ser! O ministro da Educação vai, finalmente, pôr ordem nas escolas. E como? Fazendo a vontade a todos os que acham que são os pais os únicos responsáveis pelos problemas de indisciplina, e não só, dos seus rebentos. A partir de agora acabou-se, os pais serão multados, poderão perder os apoios sociais para os filhos, medida que para muitos alunos poderá significar o abandono bem antes dos dezoito anos. Poderão ser obrigados a frequentar aulas de educação parental, seja lá isso o que for, etc. Mas há coisas que o ministro não esclarece. Por exemplo, nos casos, bastante frequentes, em que os alunos só são indisciplinados com um professor, não levantando qualquer problema aos restantes, continuam a ser os pais os únicos com direito a punição? As faltas injustificadas também não foram esquecidas e pais e alunos serão castigados. Os esquecimentos de material serão equiparados ao absentismo e darão igualmente direito a falta injustificada (e se há gente distraída neste país, só escapam mesmo os membros do Governo…). Mas, a menos que os professores passem a ser obrigados a comunicar aos pais a necessidade de levar os tais materiais, como poderão os pais ser responsabilizados por estas faltas? Eu, se fosse ao ministro, não sobrecarregava os professores com mais tarefas, até porque consta que eles também andam com bastantes dúvidas relativamente a uma série de coisas que irão mudar no próximo ano lectivo, andam é sem tempo para as escrever em cartazes, lá está.

Entrevista do arco da velha

Parabéns ao Jornal de Negócios por ter conseguido fazer um bom resumo, o resumo possível, diga-se, da entrevista acelerada de Paulo Campos, ex-Secretário de Estado dos Transportes, a José Rodrigues dos Santos (JRS), no Telejornal de ontem. Não me é possível reproduzir aqui o vídeo, para quem não tenha visto. Mas, se conseguirem orientar-se na teia do site da RTP e vê-lo, poderão perceber a que me refiro. Acho lamentável que se convide Paulo Campos para se explicar em direto na televisão num dia em que o Tribunal de Contas o acusa de esconder 705 milhões de euros relativos às ex-SCUT e não se lhe dê o devido tempo e ambiente para expor os seus argumentos.

JRS tinha uma única pergunta na cabeça à qual queria que o entrevistado respondesse, e depressa, sim ou não. A ideia parecia ser que respondesse, já que lhe faziam esse favor de cinco minutos de antena, e se fosse embora. A pergunta era se sim ou não escondeu ou deu ordens para que se escondesse o dito montante do escrutínio do Tribunal de Contas. Para o jornalista, Paulo Campos deveria ter-se sentado, ouvido a pergunta, respondido sim, ou não, e, se a resposta fosse não, responder à última das duas perguntas previstas, a saber, “O Tribunal de Contas está errado?”, dar a resposta e ir-se embora. Claro que não podia ser assim.

Havendo que contextualizar o problema antes do «não» final, Paulo Campos começou por fazer isso mesmo. Porém, constantemente interrompido pelo jornalista, a muito custo se conseguia acompanhar a sua exposição. Ocorreu-me mesmo que se pudesse levantar e sair, em protesto. Optou pela paciência e pela boa educação e lá foi fazendo caminho por entre as pedradas. Mas só mesmo rebobinando o labirinto de raciocínios cortados e de insistências numa só tecla se pôde encontrar um fio para aquela meada. Culpa integral do jornalista, impaciente e desagradável desde o primeiro minuto.

Esta postura afigura-se tanto mais absurda quanto concluímos que afinal a pressa do jornalista não se justificava de todo. Qual era a pressa? Tinha uma hora, o que já de si é excessivo pelos padrões europeus, para dar notícias e convidar quem entendesse, mas, perante um assunto importante relacionado com as badaladas e vilipendiadas PPP, mantém o sistema, aqui sim, de via rápida, ou SCUT, que é habitualmente utilizado na primeira meia hora do Telejornal, a caminho da segunda, a verdadeiramente importante, quase exclusivamente dedicada ao futebol! (Porque não outros desportos, fica para crónica futura)

Joel Neto – «Os sítios sem resposta» ou o estranho lugar do delírio e da alucinação

Este livro de Joel Neto («Os sítios sem resposta») parte de um absurdo: uma determinada pessoa, Miguel Barcelos de seu nome, dois casamentos falhados no activo, empregado de uma seguradora, sportinguista desde a infância, resolve inopinadamente mudar de clube e passa a ser benfiquista. Com o fanatismo habitual dos recém-convertidos, o herói desta história passa a ler A BOLA, a ir ao Seixal ver os treinos, a jantar nos restaurantes do Estádio do SLB. O absurdo vai crescendo, primeiro entre os atónitos colegas de trabalho, logo a seguir na família onde a mãe lhe coloca pela frente a grande adversativa: «Tu nunca mais, na minha casa, voltes a dizer isso que acabaste de dizer. E, se estiveres a pensar falar disso com o teu pai, é melhor pensar duas vezes que é para a gente não se chatear a sério.»

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