Vinte Linhas 794

Lourinhã – Livros a Oeste em festa até 7 de Junho

Na Biblioteca Municipal da Lourinhã (http://livrosaoeste.blogspot.com) está a decorrer uma Festa do Livro (entre as 10 e as 20 horas) até ao dia 7 de Junho. Participei na festa com a apresentação do livro «Os sítios sem resposta» (Porto Editora) de Joel Neto no dia 2 (sábado) ao fim da tarde. Antes do jantar João Morales moderou uma conversa fascinante com Mário Zambujal, Afonso Cruz e João Ricardo Pedro. Conheço Mário Zambujal desde 1978 (Diário Popular) e gostei de conhecer os mais novos – João Ricardo Pedro e Afonso Cruz. Até ao dia 7 vão estar outros escritores na Lourinhã – entre eles Rui Zink, Pedro Vieira e José Norton.

Continuar a lerVinte Linhas 794

A ascensão de Tsipras (2) – Ser razoável e pedir o impossível

Olhando para o programa do Syriza, a primeira reacção é naturalmente a risota de gozo. Extrema-esquerda marxista típica. Uns segundos depois, recordamos que estes tipos têm sérias hipóteses de ganhar um mandato para governar um país da zona Euro, e passamos à fase seguinte: o espanto. Em primeiro lugar pelo disparate. Pura e simplesmente não há, nem vai haver, dinheiro para pagar aquilo tudo, nem nada que se aproxime. Em segundo, pelo que revela de audácia, ambição, uma boa dose de descaramento mas, sobretudo, capacidade negocial.

Vamos por pontos, e tirando já do caminho o mais óbvio: Alex Tsipras e o Syriza estão a mentir com quantos dentes têm na boca. Comparado com o que lá está prometido, a campanha de Passos Coelho foi um exemplo de honestidade e realismo. Alguns pontos mais populistas como exemplo:

  • acesso a cuidados de saúde gratuitos para todos os gregos (como é que se pagam os médicos, equipamentos e medicamentos não está explicado)
  • Alívio dos encargos com habitação para famílias em dificuldades, de modo a que a prestação não ultrapasse 30% do rendimento (mais uma vez, como se paga não está explicado)
  • Introdução imediata do rendimento mínimo garantido (idem)
  • Aumento do subsídio de desemprego, e prolongamento de um para dois anos (ibidem)
  • Negociar com a Suíça a tributação do dinheiro grego existente nos bancos desse país (mais facilmente os suíços concordariam em fazer Toblerones quadrados)

Por muito justas que pareçam as medidas, voltamos sempre à mesma questão: isto representa um aumento brutal dos encargos do estado grego. Quanto custa tudo isto? Quem paga? De onde esperam obter o dinheiro? Tudo questões sobre as quais o programa é totalmente omisso.

Depois, as grandes questões: a nacionalização dos bancos, a paragem imediata de todas as privatizações em curso, e finalmente o ponto fulcral do programa: a imediata anulação do memorando e cancelamento da dívida grega.

Ou seja, trocado por miúdos: o Syriza promete cancelar a dívida, renegar os termos do memorando que permite o acesso da Grécia a dinheiro que os mercados lhe negam, ao mesmo tempo que expande as necessidades de financiamento do estado para aplicar em programas sociais. À primeira vista, “lunático” é uma palavra demasiado branda para descrever isto. A questão nem é, como seria legítimo pensar, que os lunáticos terão na mão o botão da bomba atómica: a desagregação do Euro, da UE, e uma recessão mundial com custos incomparavelmente superiores a tudo o que exigem, o que tem o condão de fazer parecer algumas das exigências razoáveis. Embora isso seja importante. A questão central vem descrita neste excelente artigo (via João Galamba, bolds meus) :

Should we be afraid of Syriza’s ‘ultra-leftism’? My answer is a resounding No. I recommend that (even those who have Greek amongst their languages) you do not read their manifesto. It is not worth the paper it is written on. While replete with good intentions, it is short on detail, full of promises that cannot, and will not be fulfilled (the greatest one is that austerity will be cancelled), a hotchpotch of  policies that are neither here nor there. Just ignore it. Syriza is a party that had to progress, within weeks, from a fringe political agglomeration struggling to get into Parliament (at around the 4% mark) to a major party that may have to form government in a few short weeks. It is, in important ways, a ‘work in progress’; and so is its unappetising Manifesto. No, the reason it is safe to take a gamble on Syriza is threefold:

First, because it is probably the only party that ‘gets it’; that understands (a) that Greece must stay in the Eurozone (despite the latter’s obvious failures), and (b) that the Eurozone will not survive unless someone forces Europe to put an immediate halt on this “march off the cliff of competitive austerity”.

Secondly, because the small team of political economists that will negotiate on Syriza’s behalf are good. moderate people with a decent grasp of the grim reality that Greece and the Eurozone are facing (and, no, I am not part of that team – but I know the ones I am referring to).

Thirdly, because, in any case, a vote for Syriza is not going to establish a purely Syriza government. No party, including Syriza, will be in a position to form a government outright. So, the question is whether Europe is better off with a government in Athens which includes Syriza as a pivot or one which is supported by discredited pro-bailout parties, with Syriza leading from the opposition benches. I have no doubt whatsoever that Europe’s interests are best served by the first option

E é precisamente isto que Alex Tsipras tem revelado, e que tem faltado a todos os outros: uma compreensão profunda da situação grega no contexto do Euro e da UE, o reconhecimento que os gregos têm ainda um poder negocial considerável, uma audácia e ambição à escala europeia que vão ser necessários para o que virá a seguir e, mais importante que tudo, aquilo que falta aos nossos radicais caseiros do BE: a vontade de negociar o programa. Já se viu em algumas pistas. De um mês para o outro, a nacionalização da banca passou de “geral” para “apenas os que recebem ajuda do estado”. As nacionalizações passaram de imediatas para “mais tarde”. Tudo sinais de que o “radical” poderá ser, afinal, mais moderado do que se pensa. Resta saber se terá o sangue-frio necessário. Se quer salvar a Grécia, vai precisar dele, e de que maneira.

Comunicado da CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DAS MICRO, PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS

A CPPME tem visto nos últimos dias confirmarem-se as piores expectativas para o presente e futuro da economia Portuguesa, tal como sempre alertou.

Primeiro, através das previsões de quebra no PIB (cerca de 3%), já especialmente sentidas e comprovadas pelas MPME´s do mercado interno nacional. Depois, na descida da receita efectiva do Estado (2,2%) face ao período homólogo de 2011, que comprova clara quebra da actividade económica, em especial através da redução da receita proveniente do IVA, num contexto generalizado de queda de receita dos impostos indirectos, que não têm ainda valores definitivos por haver discrepância entre os números apresentados pelo governo (inpecção Geral do Orçamento) e a Unidade Técnica de Apoio Orçamental, que dobra o valor negativo anunciado pela DGO, isto é, dos 3,5% para os 6,8%. Por último, pela aceleração continua da taxa oficial de desemprego que já se situa em gravíssimos 15,2%, sendo também um dos instrumentos no aumento da despesa pública, que efectivamente subiu 2,6% comparativamente com os primeiros quatro meses do ano passado, de acordo com os dados oficiais.

O dia de segunda feira foi fértil em declarações governativas, que atestam que o caminho escolhido é para continuar, mesmo que se agravem ainda mais os resultados acima descritos. De manhã, o Ministro das Finanças, entre outras matérias, referiu-se ao facto da Banca vir a ser capitalizada no sentido de financiar a economia e alertou que o Banco de Portugal “está atento à necessidade de não permitir recursos a empresas inviáveis para que o crédito esteja disponível para empresas com futuro” … A CPPME, questiona desde já : Sr. Ministro, para si o que são empresas com futuro ? Apenas as exportadoras ? O que fazer então a sectores inteiros que pelas suas características nunca serão exportadores ?

À noite, foi vez do Primeiro – Ministro vir dizer que os “Portugueses já não estão à beira do abismo”, o que parece contrariar todos os números apresentados e sobretudo denota um total desconhecimento do estado actual da generalidade das MPME´s deste país, que passam por dificuldades jamais sentidas, sobretudo pela prioridade exacerbada que se está a dar só e apenas ao sector exportador, mas que, por si só, nunca poderá sozinho servir de alavanca a uma economia no estado da Portuguesa.

Estes erros sistemáticos estão liquidar todas as possibilidades da economia nacional poder vir a sobreviver. A CPPME, continua a afirmar e a sublinhar que a receita passa pela produção de investimento estratégico na dinamização de todo mercado interno nacional, desde o terciário, ao primário, passando pelo industrial secundário, onde se situam a esmagadora maioria das empresas nacionais (MPME´s), independentemente das exportações terem papel importante.

Seixal, 06 de Junho de 2012
O Presidente da Direção da CPPME

Do dominó e da cegueira

Faz mais de um ano hoje. Lembram-se de Sócrates dizer que não governava com o FMI? Era um alerta para o que aí vinha e, ao mesmo tempo, uma crítica e um distanciamento em relação à receita que a instituição sistematicamente aplica. Ao FMI, juntou-se então o BCE e a UE, mas para o caso pouco interessa. Estamos sob o jugo da Troika, sem moeda própria e às ordens da Alemanha, e sabemos ao que sabe.
Repararam já também no que nos diz todos os dias este governo? Pois é, ao contrário de Sócrates, dizem-nos praticamente que não governam sem o FMI, ou seja, sem a Troika. Adoram-nos. Tal é a sintonia e a colagem, que é difícil até imaginá-los a governar autonomamente. É verdade que já antes o diziam, por outras palavras, ao desejarem ardentemente a sua vinda e tudo fazendo para que tal acontecesse, pois sabiam que, sem esse poderoso chapéu de chuva e anjo da guarda, não poderiam jamais aplicar o programa de empobrecimento de 95% da população, perdão ganho de competitividade, previsto na página 32 do manual de Economia de Passos, Álvaro e Gaspar, para benefício dos privados, que irão enriquecer, perdão, dinamizar e mudar o paradigma da economia portuguesa e colocar o país na senda do progresso, como aconteceu com …, olha, varreu-se-me o nome do país.

Não deve ter escapado a ninguém a obstinação e a angústia com que Mariano Rajoy, numa Espanha sem meios para resgatar a banca e com a taxa de desemprego conhecida, resiste a um pedido de ajuda externa e à perda de soberania e pressiona a UE a avançar com as medidas teimosamente adiadas, indo ao ponto de já falar nas euro-obrigações. Os mesmos que por cá acusaram Sócrates de levar a resistência longe demais, olharão agora para o amigo Rajoy com que olhos? Pensarão que é lunático? Eu respondo: é claro que não o pensam, mas, na tentativa de parecerem coerentes, já ouvi alguns pronunciarem-se sobre isso: “Rajoy já devia ter pedido ajuda, está a deixar a situação arrastar-se demasiado tempo” (Braga de Macedo). Queridos, coerentes e uns portentos a falar dos outros! Como é óbvio, ninguém naquelas hostes fanáticas vai ter a lata de elogiar ou simplesmente compreender Rajoy na sua recusa da humilhação e na sua impotência perante uma Europa injustificadamente moralista. Mas, justiça lhes seja feita, para Gaspar e Passos, dizer que compreendem ou que apoiam Rajoy seria efetivamente contraditório com os elogios que tecem às ideias da Troika, logo, há grandes probabilidades de pensarem que Rajoy é mesmo um lunático. Não sendo essa la opinión do próprio, com certeza que a nossa dupla lhe poderá explicar as vantagens e os prazeres de se ser um governador de província. Seria qualquer coisa do género “É um gozo: em público, encena-se um ar grave, sério e compungido (a voz do Pedro ajuda), diz-se que não há alternativa, atiram-se as culpas do afundamento do país para o governo anterior e, em privado, seguimos cantando e rindo com o pote conquistado após uma dúzia de aldrabices, gargalhamos com Relvas, Portas e Aguiar Branco e deixamos o pateta de Belém divertir-se também, de vez em quando, pelo globo fora, ouvindo-o dizer, no regresso, que está a empenhar todas as suas energias no combate ao desemprego”.

A Grécia vai à vida (os russos e até a Turquia serão financiadores possíveis) e a Espanha vai-se afundar. Possivelmente, com ela, toda a zona euro. Vai ser bastante risível ver os nossos bons alunos da escola alemã dizerem que estávamos no bom caminho e fomos apenas lamentavelmente prejudicados pela situação internacional. Será que a Troika os abandona? Não façam isso! Nós amamos-vos, dirão, enquanto se afundam.
Alguém que escreva um novo «Ensaio sobre a cegueira», que inclua não só estes governantes e os seus mentores europeus, mas também o povinho que ainda lhes dá (aos primeiros) 36% nas intenções de voto, mais 6% aos colegas da lavoura e da caridade.

Sim, muita falta de vergonha

Convidado para falar aos alunos de mestrado em ciência política do Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCP), em Lisboa, numa aula aberta à comunicação social, Miguel Relvas afirmou também que o PSD recusa “fazer campanha como o engenheiro Sócrates: discurso escrito, teleponto e muita falta de vergonha”.

Na sua intervenção sobre comunicação política, Miguel Relvas disse que o PSD se vai apresentar nestas eleições com a mensagem de que o PS é “mais do mesmo” e de que esta “é hora de mudar” de política para pôr a economia a crescer, como aconteceu “nos Estados Unidos em 1992, salvaguardadas as devidas diferenças”, com Bill Clinton.

“Sabem que é uma coisa que me custa muito, é que a sensação que eu tenho é que ainda há uma parte do eleitorado que quer ser enganada. Ainda há uma parte do eleitorado que quer ser iludida, quer ser enganada e quer ser iludida”, lamentou.

“Eu quero chegar a casa, depois de ganhar as eleições, todos os dias e quero que a minha filha tenha orgulho daquilo que está a ser feito”, disse o porta-voz do PSD, acrescentando: “Eu no lugar do engenheiro Sócrates tinha vergonha, eu se fosse parente do engenheiro Sócrates escondia que era parente dele”.

29.04.2011

Aspirina B

A partir de hoje os meus posts passam a não receber comentários. O principal nesta decisão é defender o autor e alguns comentadores de uma sucessão tentada de insultos completamente deslocados, despropositados e desproporcionados. Nem o facto de no mundo da Blogosfera surgiram casos similares de tentativa de ofensas gratuita e impune, desculpa a sua brutalidade e a responsabilidade de quem os avança «on line». Também existem Blogs nos quais os comentários não são aceites e esses espaços não perderam leitores. A paciência tem limites. Obrigado pela vossa compreensão.

A ascensão de Tsipras (1) – os amigos são para as ocasiões

Pelo que tenho seguido da ascensão meteórica de Alex Tsipras desde o resultado surpresa das últimas eleições gregas, poderemos bem estar perante um politico excepcional. A sua extraordinária prestação quando da “tentativa” de formar governo tem vindo progressivamente a confirmar-se na campanha em curso. Mas a sua subida não se fez sem ajuda. E essa ajuda veio precisamente da UE e FMI.

Perante a radicalidade do que o Syriza propõe, seria previsível que tentassem influenciar os eleitores gregos. A estratégia mais que óbvia era o medo, e não têm sido nada meigos a utilizá-la. O que temos assistido é uma das maiores sucessões de ameaças, pressões e chantagens que me lembro de ter visto numas eleições. E também uma das maiores demonstrações de estupidez já vistas na politica europeia, culminando na infame entrevista de Lagarde. Aliás, esta última atingiu níveis de indecência de tal maneira elevados, vindos de uma mulher inteligente que sabia, porque tinha de saber, o efeito que causariam, que é perfeitamente legítimo considerar que foram uma forma de ajudar Tsipras a ganhar e forçar a mão da Alemanha. Afinal, não dizem que a politica europeia é bizantina por acaso.

De qualquer maneira, o efeito foi precisamente o que seria de esperar: as ameaças, aos berros, de que a Grécia seria expulsa caso não cumprisse, escrupulosamente, um programa que todos vêm que não resulta pode fazer sentido para o eleitorado doméstico da restante UE, mas tirou por completo o tapete a uma solução mais “moderada” vinda do lado de Samaras e da Nova Democracia, baseada na vaga promessa de “negociações” e “ajustes” ao memorando. Neste momento, graças às várias intervenções dos responsáveis europeus, todos sabem que não há hipótese de negociação nem ajustes. O memorando é para cumprir, tal como está ou ainda mais duro, e custe o que custar. O que tem o mérito de tornar a escolha, para os gregos, perfeitamente clara: ou se mantém o rumo que conduziu ao desastre, ou se renega o rumo, arriscando um desastre maior mas combatendo até ao fim, e sobretudo não caindo sozinhos. Não existe agora meio-termo, não há moderados em quem votar, apenas radicais anti-memorando e radicais pró-memorando. E o Syriza passou de 16% a 30% nas últimas sondagens. Mais um sucesso europeu, portanto.

Logo, é bastante realista esperar que o próximo líder grego, mesmo em coligação, seja Alex Tsipras. E a partir daí, como dizem os americanos, all hell will break loose. Ou não. Porque apesar de ser “esquerda radical”, o homem parece saber perfeitamente o que faz. Um jogo muito, muito perigoso, sem dúvida, com implicações à escala mundial. E Tsipras sabe-o. E sabe que os restantes líderes também o sabem, e que o andavam a pedir já há bastante tempo. Vão finalmente tê-lo.

Um ano depois, confirmámos que um destes cabrões era mesmo um grande mentiroso

Declarações finais do debate que, garantiram uns senhores importantes na televisão segundos após ter acabado, Passos ganhou:

Passos

Eu creio que o País tem hoje muito claro que a partir do dia 5 de Junho precisa de ter um Governo que seja competente e capaz. E que seja realmente possível entregar um resultado que aqueles portugueses que hoje estão desempregados, que estão assustados com o futuro, porque sabem que o País foi conduzido a uma situação de praticamente bancarrota – quer dizer, de não ter dinheiro para honrar os seus compromissos – esses portugueses sabem que há um responsável por essa situação, essa responsabilidade cabe ao Eng. José Sócrates, e ele não tem desculpa na medida em que o PSD já cooperou, e cooperou bastante, para que o Governo pudesse ter alcançado um resultado que fosse satisfatório para todos os portugueses. O que está em causa agora aqui, portanto, é de saber se devemos ou não mudar a liderança. E não há dúvida que o País precisa de mudar a sua liderança. Precisa de alguém que respeite os compromissos, alguém que tenha capacidade de diálogo, alguém que pode não ter experiência governativa, como eu, mas não traz na sua consciência ter 700 mil desempregados e um Estado Social que está em perigo se não conseguirmos colocar a economia a crescer. Esse é o meu compromisso com os portugueses. Formarei um Governo coeso e sólido se essa for a vontade dos portugueses, e se eles tiverem, como eu, confiança em que podemos ser capazes em Portugal de fazer diferente do que fizemos nestes 6 anos.

Sócrates

Os portugueses sabem que eu sempre assumi as minhas responsabilidades. E sabem também que nunca virei a cara nos momentos difíceis. Pela minha parte, os portugueses conhecem-me e sabem que tomei sempre as medidas difíceis, exigentes, que foram necessárias para defender o interesse nacional. Para vencer a crise, o País precisa de um Governo responsável, com uma liderança forte, uma liderança preparada e uma liderança segura de si. O que o País dispensa são as aventuras e o radicalismo ideológico que nos levariam a mudanças perigosas, insensatas, e muitas vezes nocivas àquilo que são os interesses das pessoas. Pela minha parte, o que tenho a propor aos portugueses é um caminho de uma governação responsável e moderada. Que resolva os problemas nacionais cumprindo os objectivos que estamos comprometidos com a União Europeia e com o FMI. Mas que também modernize a nossa economia ao mesmo tempo que defende o nosso Estado Social e aquilo que é a protecção social do Estado. Com um Serviço Nacional de Saúde acessível a todos os cidadãos, com uma Escola Pública que esteja disponível para promover a igualdade de oportunidades e com uma Segurança Social Pública que seja uma Segurança Social ao serviço dos mais idosos e dos mais carenciados. Esta é a escolha que temos pela frente. Eu, pela minha parte, confio nos portugueses e confio em Portugal.

Custa dinheiro? Claro!

Marco, ainda não percebi o que está, afinal, a criticar. A existência das obras per se ou as derrapagens e o crónico desgoverno financeiro que, infelizmente, as tem pautado a todas.

Todas essas obras que menciona não se limitam a “encher” o olho. São obras estruturantes na Sociedade portuguesa, que a enriquecem de uma forma que muito ultrapassa o valor “nominal” em euros. Quero dizer, claro que estamos a onerar as “futuras gerações” mas, caramba, não lhes estamos também a deixar algo tangível?

Repare: se tiver uma empresa e quiser aumentar / melhorar a capacidade produtiva o que é que pode fazer? Investir. Comprar equipamento novo, formar os trabalhadores, expandir as instalações. Custa dinheiro? Claro!

Obviamente, dou-lhe toda a razão quando falamos na forma como se adjudica ou se financiam estas obras. Penso, contudo, que não terei de lhe dizer que isso não é exclusivo da Maria da Lurdes Rodrigues. Inclua aí todos os governos até à data, incluindo (de forma não dispicienda, bem pelo contrário, as autarquias, esses sorvedouros “understated” de dinheiro público). Ora é isto que tem de ser mudado. E a mudança não é apenas imputável aos Governantes A ou B, mas também a todos os decisores e gestores de dinheiro público. Começa nas resmas de papel no escritório da repartição e acaba nas concessões das auto-estradas.

O que é nojento – e tenho de apoiar o Valupi – é a forma como se tenta perverter aos projectos unicamente para tirar dividendos políticos imediatos. Ao optar por nunca reconhecer o objectivo virtuoso do programa (pelo contrário, apresentando-o sempre como um desperdício de dinheiros públicos), o deputado do PCP está a alinhar com aqueles para quem, justamente, argumentam que escola pública “para quem é bacalhau basta”.

A discussão política tem de ser sempre assim maniqueísta?

No que isto redunda hoje é na aparente resignação das pessoas à política de pladur. Por agora. Apontemos os dedinhos ao Sócrates, à Milú e à restante xuxaria. O problema é que, ao expiar assim os “culpados”, não só estamos a retroceder, com o modelo de desenvolvimento reaccionário que hoje nos aplicam (o BE e PCP bem podem limpar as mãos à parede), como evitamos confrontar os presentes e futuros governos (e próprias responsabilidades pessoais) com uma cuidadosa introspecção acerca do uso e da legitimidade dos dinheiros públicos.

__

Oferta do nosso amigo Gonçalo

É bom ter memória, lembra um amnésico

José Manuel Fernandes quis dizer coisas a seu respeito usando como desculpa Jorge Silva Carvalho. Nada contra, o narcisismo é uma prerrogativa da condição humana, especialmente se calha estarmos convencidos de que nos estão a dar atenção. De caminho, aproveita para continuar a malhar em Sócrates, actividade que o faz sentir vivo (ou um bocadinho menos mortiço), com estas sui generis recordações:

É também bom ter memória no que respeita à Ongoing, uma empresa que agora todos colocam no pelourinho, incluindo muitos dos que a defenderam quando ela participou na vergonhosa tentativa de compra e controlo da TVI.

[…]

Este mesmo jornal publicou, há tempos, uma excelente investigação de Cristina Ferreira sobre a teia de interesses e ligações daquela empresa onde ficava muito claro como ela tinha sido instrumental e servil (até uma zanga no Verão de 2010) relativamente ao anterior poder político. É isto alguma novidade? Não devia ser. Eu próprio denunciei essas ligações e essas práticas durante uma audição na Comissão de Ética da Assembleia no início de 2010. Muitos dos “indignados” de hoje também se indignaram nessa altura, mas comigo. É esta memória que nos permite estar alerta, pois empresas deste tipo não agem por ideologia, actuam antes em função dos seus interesses e do poder do momento. Há mais do género no sector da comunicação social, todos o sabemos. Tal como sabemos que estamos a pagar caro a condescendência com que encarámos as manobras de 2009, como já sublinhou Pedro Lomba neste jornal.

Continuar a lerÉ bom ter memória, lembra um amnésico

Chanfrados

Segundo a Troika, são urgentemente necessárias mais medidas para melhorar o funcionamento do mercado laboral, isto para resolver o problema do desemprego galopante (que querem fazer passar por surpresa).

Mas alguém no seu perfeito juízo acredita que a razão para a falta de trabalho é a lei laboral?

Num contexto em que o consumo diminui drasticamente devido ao corte dos salários, das reformas e das pensões, em que as lojas despedem funcionários ou fecham devido à perda de clientes, agora sem dinheiro para gastos, os restaurantes e cafés idem, devido ao agravamento da carga fiscal de quase 100%, e as fábricas diminuem a produção destinada ao consumo interno pelos motivos já apontados – o problema é da lei laboral?!

Estes senhores podiam até ser cómicos, não se desse o caso de estarem a cometer verdadeiros crimes com a vida de milhões de pessoas. Não deviam ter sido chamados, devíamos tê-los mantido ao largo como desígnio nacional, aí sim, custasse o que custasse. Agora que cá estão, devem ser vivamente criticados. Têm dinheiro, mas não são deuses. Nem médicos parecem ser.

Tudo isto se passa, chamo a atenção, numa zona do mundo que era suposto ser única e solidária. Não se esperava que a UE e o BCE fossem instituições que estivessem ao serviço de um só país. Mas estão! E o FMI, apesar de uma ou outra frase desgarrada de Christine Lagarde, que lhe dá a aparência de ser mais razoável, alinha perfeitamente no jogo. O seu historial indica, aliás, que não conhecem outra receita. Para que servem, neste caso concreto? Para sugar o dinheiro de uns Estados europeus para o reembolsar a outros membros da mesma União Europeia, condenando à miséria metade dos seus habitantes? Será isto admissível? Alguém os treinou devidamente para ajudar a tirar de dificuldades países da ZONA EURO? Dificuldades essas devidas a erros de conceção de uma moeda única e à consequente falta de mecanismos de defesa de toda a zona contra crises financeiras internacionais? Não creio. Aliás, tenho a certeza. O FMI não faz a mínima ideia do que está a fazer a países nesta situação. Vai seguindo os ditames da Alemanha e, entretanto, trata de inventar causas estranhas para o que só podia correr mal. O absurdo é que, ao arranjar novos remédios para as causas inventadas, só agrava a situação. Como é possível que a nossa dívida em 2013 já esteja prevista para mais de 118% do PIB?

Vítor Gaspar, que já começa a dominar certas técnicas de autodefesa política, diz hoje que não existe qualquer espiral recessiva. “Para o ministro, o que se passa em Portugal é um alargamento do quadro conjuntural de 2010 e 2011 e uma viragem para a recuperação que, como refere, já se começa a sentir”. Um alargamento do quadro conjuntural, reparem bem no requinte. O conhecimento da linguagem económica permite-lhe arranjar com alguma facilidade eufemismos, cada vez mais sinónimos de mentiras. Alguém já viu ou sentiu verdadeiramente a luz e a esperança que o ministro pretende vender?

Chanfrados anónimos e chanfrados com nome, todos unidos. Para quem caminha para pior, esperemos que tudo acabe mal, que, mesmo assim, é melhor do que pior.

Revolution through evolution

Girls aged five worry about their body image, say MPs
.
Exercise and a Healthy Diet of Fruits and Vegetables Extends Life Expectancy in Women in Their 70s
.
The Special Scent of Age: Body Odor Gives Away Age
.
Female Choice Key to Evolutionary Shift to Modern Family
.
Men’s Offices Harbor More Bacteria Than Women’s
.
Researchers Say Tart Cherries Have ‘the Highest Anti-Inflammatory Content of Any Food’
.
The Science of Re-Runs: Why We Watch Our Favorite Episode of a TV Show, or Listen to a Favorite Song, Over and Over Again
.
Sex: It’s a Good Thing
.
Four Telltale Signs of Propaganda on Twitter

Vinte Linhas 793

Os campinos do campo não se curvam como os mordomos de palácio

Outro dia, enquanto estive num consultório médico à espera de ser atendido entre as 11h 45m e as 14h, deu para ver muitas (demasiadas) vezes um anúncio que mostra um cacilheiro a caminho do Terreiro do Paço e o concerto do Toni qualquer coisa. Pois o anúncio tem um pormenor repugnante – mostra três campinos cumprimentando quem chega ao cacilheiro com uma vénia que só pode ser copiada de um mordomo de palácio e que nada tem a ver com os campinos – que são pessoas do campo.

Continuar a lerVinte Linhas 793

Miguel Tiago, um comunista às direitas

__

Faço minhas as palavras de Estrela Serrano – Comissões parlamentares: o lugar onde os deputados melhor se dão a ver – realçando a tipologia destas sessões onde convocados e deputados estão muitos próximos uns dos outros, à volta de uma mesa, e onde ninguém se levanta para falar; mantendo uma horizontalidade que, para além de promover uma contida informalidade que pode ser benéfica para as interacções, é ainda símbolo do ideal democrático. Claro que talvez seja justo reconhecer que o trabalho mais valioso para a República não se encontra nos momentos em que os deputados tomam a palavra, seja nas comissões ou no plenário, mas nas horas, dias, semanas, meses e anos invisíveis para o espaço público em que investigam, reflectem e procuram consensos entre os seus pares. Outra questão essa, que não impede a valorização das comissões de inquérito como instrumento de fiscalização por excelência dos poderes do regime. Qualquer cidadão pode aferir por si próprio das participações de todos os intervenientes, posto que as sessões abertas são publicadas na íntegra, e daí chegar às suas conclusões.

É exactamente o que podemos fazer com esta intervenção de Miguel Tiago, um deputado comunista que exibe regularmente em versão hooligan-pintarolas a ortodoxia do partido. Aqui limita-se a alinhar com o pior da pior direita, lançando o seu fel para cima dos responsáveis do projecto Parque Escolar sem fazer prova seja do que for e sem reconhecer qualquer mérito ao que foi alcançado. Estamos perante o indestrutível maniqueísmo do PCP: se não são comunistas, então são corruptos.

A isto responde Lurdes Rodrigues de forma implacável, reduzindo a uma papa caluniosa a intervenção do deputado. A resposta da ex-ministra, até pela sua impaciência controlada e sem ilusões, dá azo a que pensemos na possibilidade do PS se partir em dois, onde de um lado ficariam os que como Lurdes Rodrigues, Teixeira dos Santos, Luís Amado, Santos Silva, Pedro Silva Pereira, Vieira da Silva e mais um variável etc. – ex-governantes que têm dado irrepreensíveis lições de responsabilidade, competência e dedicação à causa pública sempre que foram chamados a prestar contas – e do outro todas aquelas figuras e figurinhas que andaram alinhadas com o boicote sistemático do PCP e BE ao trabalho da “ministra-sinistra”.

A audição de Maria de Lurdes Rodrigues deu a ver uma cidadã apaixonada pela educação, falando de cor, entusiasmada, sobre os projectos que se conseguiram fazer e de como foi possível fazê-los. No ímpeto da sua entrega aos deputados que a tinham convocado, e para responder a uma provocação primária dos primários, largou a tal expressão que fez a felicidade dos decadentes: “Parque Escolar foi uma festa”. A festa da recuperação do que estava degradado e do acrescento de qualidade ao que está a educar o nosso futuro. Algo que faz rir à gargalhada a actual direita – e como tal espasmo se compreende imediata e completamente.

Se ainda não viste, se queres descobrir quem é quem no coração da cidade, vê tudo.

Salvemos o domínio púbico

Vou juntar-me à Fernanda [this pun may or may not be intended] para esfregar a ramela que o mui estimável Francisco Teixeira da Mota espalhou pelos incautos leitores do Público da passada sexta-feira. Recitemos:

O facto de vivermos com alguém não é, em princípio, um facto privado, antes fazendo parte do domínio público, no sentido de ser, pelo menos, do conhecimento de quem nos conhece.

Desculpa? Chico, chega aqui: mesmo admitindo o dogmático corolário – quem nos conheça, conhece com quem vivemos – como é que daí passamos para a legitimidade da divulgação ao arrepio da nossa vontade do facto primeiro entre aqueles que não nos conhecem? Não vês aqui nenhum problemazinho, hã?… Pensa lá outra vez no assunto e esquece o modelo de família patriarcal. Pensa nas multíplices e desvairadas formas de vivermos com alguém, e como algumas delas pressupõem discrição, recato, sigilo ou segredo como condição, fundamento ou primeira e inalienável preferência. E depois como é que saltas para o domínio público só precisando de imaginar terceiros na posse de uma qualquer informe informação? Que bandalheira é esta, Chiquinho Lambreta? Então essa maltósia não pode estar a guardar confidencialidade ou não saber da missa nem a metade de um milionésimo? E estamos a falar de quantos indivíduos para além do casal em ordem a haver quórum para o chibanço? Duas pessoas? Uma? Menos?

Mas não era de questões bizantinas que te queria falar, desculpa a minha má educação. O que te queria mesmo dizer era isto: é possível que não haja neste mundo quem nos conheça. Se num lance reflexivo intencional ou fortuito chegares à mesma conclusão, não mais deixarás escapar o domínio púbico para o domínio público.

Um livro por semana 289

«Autismo» de Valério Romão

Valério Romão (n. 1974) é tradutor (Beckett e Virgínia Woolf), dramaturgo (autor de Posse e A mala) e contista (revistas Magma e Construções Portuárias) estreando-se no romance com esta obra de 353 páginas na qual o autismo é o protagonista. Rogério, Marta e Henrique (pai, mãe e filho) vivem todos esta doença: «E não consigo sair disto, a desordem, as mãos na boca, os saltos no mesmo sítio, o olhar vazio, a confusão, o silêncio, os guinchos, toda a parafernália que é o fogo-de-artifício pelo qual o autismo se anuncia e esconde a criança.»

Continuar a lerUm livro por semana 289

Nas muralhas da cidade

Uma edição do Bloco Central para ouvir, sentir e partilhar, onde os magníficos Pedros tocam no fulcro do presente momento político e, pasme-se, vocalizam o que nenhum senador da República, mesmo daqueles cobertos de medalhas e títulos, consegue verter no espaço público. Um generation gap que não é para lamentar, antes para alargar e aprofundar. Os mortos que enterrem os seus mortos.

Aproveito também para realçar a excepcionalidade de Pedro Marques Lopes como figura representativa da direita na comunicação social. É que enquanto será fácil encontrar na esquerda democrática quem defenda o Estado de direito como se da própria vida se tratasse, já na esquerda verdadeira são raros e na direita da verdade não há vivalma, a sua aparente defesa é meramente instrumental e hipócrita para protecção apenas dos seus quando apanhados em tramóias. Pois este Pedro não precisa de caluniar e conspirar contra os adversários para defender um modelo de sociedade onde há menos Estado e a iniciativa privada é a locomotiva da economia. Acima e antes de tudo, ele tem na decência a condição sine qua non para a viabilidade do próprio regime democrático. Um PSD com líderes como ele à frente, muito provavelmente teria conquistado a maioria absoluta a solo em 2009. Porém, não vemos ninguém deste calibre no partido, ninguém de ninguém. É assustador e trágico.