Moção de censura do PCP e PS

Já sabemos – ao contrário de Cavaco, da direita e da extrema esquerda aquando do chumbo do PECIV – que, neste momento, somar uma crise política à crise económica e social que vivemos só agravaria a última.
Já sabemos que a moção não tem hipóteses de ser aprovada. Mas as tomadas de posição contam. E são lidas pelos eleitores dos vários Partidos, interessando-me, claro, o PS.
Não teria nada contra uma abstenção que significasse um sinal de censura às consequências desastrosas deste Governo, um sinal de não adesão à moção, mas um sinal de que o Governo também não merece a bancada do PS de pé.
Temo que em nome da coerência, o PS que viabilizou o OE para além da TROIKA, o Código de Trabalho para além da TROIKA, o Tratado Orrçamental que normativiza de forma antidemocrática uma política não sufragada de cunho ideológico pré-definido – esta praga neo-liberal -, temo, repito, que, em nome de várias votações, o PS deva dizer mais uma vez que vota ao lado da maioria.
Consequências consequentes.

A Pátria é a viagem de Rui Nunes – Entrevista no Ípsilon por Maria da Conceição Caleiro, ou conhecê-lo pela voz dele

É um escritor que se subtraiu sempre das luzes da ribalta. Por princípio e por pudor. Todavia é um imenso escritor, um dos melhores

Recebeu em 1992 o Prémio PEN Clube Português de ficção e em 1998 o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Sauromaquia (1976) é o seu primeiro livro. Barro, que acaba de sair, o último.

Quando perguntaram a Hélia Correia que medidas tomaria para uma maior divulgação das obras de Maria Gabriela Llansol, ela respondeu intempestivamente: “Nenhumas, quem sentir a falta que leia”. E se a mesma pergunta fosse colocada a Rui Nunes sobre Rui Nunes?

Não calculo. Nada, possivelmente, como disse Hélia Correia. “Quem quiser que leia” é uma belíssima resposta. Não há muito a fazer. A publicidade destrói completamente aquilo que escrevo, é uma sombra que se projecta. Esse tipo de mostração torna pornográfico aquilo que o não é. Cada livro vai conseguindo os leitores que merece. Se, por publicidade, o livro chegar aos leitores que não são os leitores dele, eles não ficam, vão-se embora.

No seu novo livro, Barro, subtrai até ao osso a matéria ficcional que comummente se espera. Parte-se de referências autobiográficas – a infância, a exposição The Porn Identity na Kunsthalle de Viena em 2009, o desejo, a constelação de autores que o marcaram (Celan, Tolstói, Victor Hugo, O Conde de Monte Cristo…)

São elementos autobiográficos, mas o livro não é uma autobiografia. Tentei reunir os elementos da minha vida que contribuíram para a construção da minha escrita, que estão na génese dela. No seguimento de A Mão do Oleiro, há uma presença do texto bíblico. Logo no começo deste, o que Deus disse a Jeremias: “E Deus disse: faça-se / do lixo, um rosto”. Em Barro, as primeiras duas palavras são as do Génesis: “No princípio”. Não sou católico, nem crente propriamente, mas o texto bíblico está inscrito na minha matriz, sobretudo o Antigo Testamento. Tem uma força, uma violência, uma beleza que o Novo Testamento não tem, está mais perto de nós.

Falemos então de Deus, presença disseminada no livro.

Será que falamos de outra coisa? No fundo, Deus é esse nada que leva a falar. É todos os sentidos e não é sentido nenhum. Mas preenchemos essa falta com a malignidade das próprias palavras.

Em Barro repete-se várias vezes um poema: “Estão sempre a recomeçar/ as palavras de qualquer fome./ Anónimas. Tornam anónimas todas as bocas. Todas as mãos./ Todos os gestos./ As palavras só prolongam palavras./ Até ao tumulto. De um rosto”. Quer comentar?

Isso diz o meu fascínio pela palavra. Ao mesmo tempo, a palavra só é verdadeira quando acaba num rosto. Que a pára. Não é que a elimina, mas que a recebe e cala.

E a última palavra é o nome de Deus?

A última palavra é um rosto imensamente esperado. Falta sempre uma palavra a qualquer livro.

A espera mantém-se?

É essa espera de um rosto que vai alimentando a escrita. Escrevendo, mantém-se a espera. E como a única coisa que interessa é essa espera, escreve-se unicamente para a manter.

E aí irrompe a questão do tempo?

Exacto.

No limite a interrupção é o rosto?

É o rosto. O rosto é que é. O rosto é. Aliás a importância do rosto está em Levinas.

É uma responsabilidade a que não se pode virar a cara?

Por isso, como diz Hölderlin, “no rosto está o dialogo”. O Levinas é profundamente hölderliniano, na consciência de que é no rosto que está o dialogo e de que as palavras são um bem perigoso.

No que escreve há uma violência e uma beleza às vezes sufocante.

O elemento autobiográfico cria violência porque a relação com esse elemento – que quer entrar no texto – é uma relação violenta, e são os acontecimentos violentos que marcam. A felicidade não marca, a felicidade apaga o texto, só a violência o faz nascer. Na minha vida também, eu penso até que o Antigo Testamento seja uma presença inapagável em todas as vidas. Está lá, como está na origem do ser que nós somos, como origem, como olhar, como conceito.

Tem muitas pátrias?

Quanto mais tempo estou, mais estrangeiro me sinto porque vou perdendo a minha coesão, vou perdendo a minha identidade, vou-me dissolvendo, de modo que é melhor não estar muito tempo nos sítios.

Como a palavra que, repetida, se esvai completamente?

É isso, uma palavra repetida perde o sentido, chega a uma altura em que é unicamente um som. Tal como um país repetido vai perdendo todo o sentido. A viagem é exactamente o contrário, a viagem é a pátria, é a grande pátria. Porque é na viagem que eu ganho coesão, não é na paragem; na paragem eu perco. A vida devia ser um durante com muito poucas paragens.

Portanto, a chegada nunca.

A partida é sempre exaltante, a chegada é pobre. Acontece-me prolongar as viagens. Quer dizer, pequenas viagens que podia fazer nuns minutos, eu faço o possível para que elas durem duas, três horas. Posso apanhar um comboio directo de enorme velocidade entre Sankt Pölten e Viena, mas prefiro apanhar o comboio vagaroso que pára em todas as estações e apeadeiros. Portanto estou sempre a partir. E gosto muito de escrever durante a viagem, no comboio. Já a minha mãe era assim. Isso está nos genes.

Assim como noutras figuras da sua infância.

Eu só falo de um, mas os meus dois avós fugiram de casa antes dos dez anos. O meu avô materno, que nós chamávamos o avô do mar, nunca mais voltou. E o meu avô paterno voltou à terra dele à volta dos 20 anos. Isso marca a pessoa. O meu avô materno fez uma viagem do Algarve a Setúbal a pé, atravessou o Alentejo todo a pé, teve febres porque na altura havia malária na região do Sado. Eu tenho esse movimento inscrito nos genes, não consigo estar parado, não consigo estar em Lisboa, aliás não gosto da cidade. De Lisboa para o Algarve, do Algarve para a Beira…. Ando de um lado para outro. É vital para mim. E muitas vezes ando de uns sítios para os outros cansado e com dificuldade, mas não consigo parar. O problema é o regresso, qualquer regresso é uma tragédia. A vida devia ter sido feita de partidas.

São várias as casas de que fala…

Eu nunca tive uma casa minha, minha. Vivi sempre na casa dos outros. Aos nove meses fui para casa da minha tia Amélia, dos meus avós da Beira, depois estive fora, a casa de minha mãe, depois a casa de amigos. A ideia de casa também não está inscrita em mim, a casa é sempre precária…

Infamiliar?

Infamiliar, ou familiar no pior sentido. São a expressão do poder, de uma ordem à qual eu sou sempre estranho.

A viagem desordena tudo isso?

Exacto, a viagem é uma espécie de sintaxe. Liga, mas é a única – e eu digo isso muito – que não tem a dimensão do poder, pelo contrário, é a única que dissolve o poder, que o destrói. Todas as outras constroem, mantêm-no, reproduzem-no.

Retomemos O Barro. Várias são as figuras que se desenham e insistem. O pai, sobretudo os avós.

Os meus avós deram-me todas as palavras do mundo. Um deu-me as palavras do mar, outro deu-me as palavras da terra,

Os barcos e as sementes…

Exacto, eu recebi todos os nomes como uma espécie de dádiva, fiquei com todos os nomes. O meu avô do mar tentou dar-me a história, mas ele sabia que a história não deve acabar. Eu pedia-lhe para contar O Conde de Monte Cristo e ele todas as noites inventava uma história diferente do Conde de Monte Cristo. Ainda hoje não sei como é que aquilo acaba, não quero saber.

Acaba por ser tudo uma espécie de emblema do viajar, anda-se à volta disso sempre?

Os meus avós eram viajantes, mas é estranho, o meu pai não. Via-se que tinha um prazer espantoso na História, nessa fixação do tempo, das coisas, das personagens, e a ele devo muitas das leituras que fiz em criança. O ter lido o Guerra e Paz, que foi para mim um livro matricial, Ele deu-me a fixidez da história, os meus avós deram-me a errância dos nomes.

Mas o nome fixa.

O nome amarra, mas de uma maneira diferente da frase. Amarra uma coisa a um solo e nunca mais o larga, como uma carraça se agarra a um cão e nunca mais o larga, desloca-se com ele. Por isso é que as palavras são impressionantes, as palavras têm essa ambiguidade de se moverem, de frase em frase, de texto em texto, mas carregando um sentido, um significado do qual não se conseguem libertar, às vezes ganhando novos significados, mas nunca perdendo os outros; acumulando significados.

Há palavras que insistem: barro é uma delas, Celan outra; ou Schnee (neve, em alemão)… Porquê?

Aquilo que me impressiona no Celan é um profundo e inultrapassável contencioso com todas as línguas, as que dominava, onde vivia, por onde andava. Não é só o alemão que é a palavra do carrasco, são todas as línguas. O português é, e vê-se o medo que as pessoas têm quando falam da língua, vêem-na como qualquer coisa de sagrado. Não entendo, o respeito por ela é precisamente o afastamento dela. Uma língua precisa de ser macerada, precisa de ser cortada, destruída, para libertar.

E é isso que faz?

Só assim eu a entendo, só assim consigo usá-la. Porque se não não sou eu quem a está a mostrar, é a língua, com o seu poder denunciante, a mostrar-me, e eu tornei-me numa vítima. Eu só não me torno numa vitima quando a consigo macerar. Se não, cada vez que falo digo que sou culpado não sei bem de quê.

De uma teia?

É, de uma teia. Uma mosca, o insecto que cai na teia, cai numa lógica da aranha.

Porque escreve barro em português e neve em alemão?

Eu só posso escrever assim porque é a neve do Celan, é aquela neve. O barro é um termo brutal e lindíssimo que eu estou a ver, e só pode ser aquele, aquela bola que o oleiro põe na roda e começa a moldar. A maior parte das pessoas nunca viu aparecer um cântaro, e realmente, se se pode imaginar a criação, é isso. E a água que se tem de pôr, amniótica… É um parto..

A luz é uma presença subliminar no que escreve. As coisas que a luz recorta e que, ao fazê-lo, traz para a morte. Gostava que falasse do fenómeno.

A luz é a morte, a luz conduz. Há um momento em que a luz não se vê, vêem-se as coisas. Esse tal momento da madrugada em que tudo está nítido e não há sombra é o momento não maligno da luz; depois, quando o tempo passa, a luz maligniza-se e o processo de malignização da luz vê-se na sombra que vai saindo dos objectos. A primeira sombra é imensa e pouco concentrada, com o tempo a sombra reduz-se e concentra-se, e assim dá espaço ao clarão. Portanto a luz vai-se tornando mortal, não se consegue ver nada: é quando o sol está no zénite. O mundo mostra-se pacificado nesse momento em que as coisas não produzem sombra, porque são vistas limpamente.

É o momento da coincidência.

É isso. Aquela nostalgia que eu penso que existe em todas as pessoas da coincidência do nome e da coisa realiza-se nesse momento: ‘Olha, aquilo não é uma árvore, é um sobreiro, é uma azinheira, é uma oliveira’. As coisas ganham não um nome abstracto, mas o seu nome. E, realmente, quando Deus disse ‘faça-se a luz’, não foi o grande clarão, foi com certeza esse momento único em que é possível nomear.

E foi bom!

E foi bom (risos)!

E o livro próximo?

Um título que dê a ideia de um cântaro partido. La Potière Jalouse seria um grande título, mas já existe no Lévi-Strauss.

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Já ganhámos

É completamente indiferente o resultado das eleições gregas. Tanto faz que vença este ou aquele. Tanto faz que haja Governo de maioria sólida, frágil ou sem ela. Pode a Grécia ser mais forte do que a Europa e a economia mundial? Podem 11 milhões de habitantes esvaziar as carteiras aos restantes 480 milhões, fora os americanos, chineses, russos, indianos e timorenses?

O grau de leviandade que se instituiu no comentário político profissional, onde se diz haver uma senhora alemã má como as cobras que estará a dar cabo da civilização por pirraça ou onde consta que o empobrecimento é merecido por nossa grande culpa, estupidifica o espaço público e consagra o absurdo como a nova normalidade. Que os políticos tenham de repetir fórmulas convencionais para irem mantendo a ordem social evitando ou reduzindo o pânico sempre pronto a irromper por influência mediática, está de acordo com o seu job description. Que os patrões de imprensa prefiram o circo à escola, eis um dos preços a pagar pela democracia.

A complexidade da arquitectura do Euro à mistura com a complexidade dos sistemas económicos e financeiros globais gerou esta situação em que ninguém vislumbra uma solução óbvia, ou consensual, ou meramente razoável para os sucessivos problemas europeus. Atacar os políticos por causa da sua desorientação e impotência é dar um notável sinal de estultícia. Pura e simplesmente, não saber o que fazer resulta da lucidez. Nunca na História apareceu desafio igual, precisamente por causa desta democracia cada vez mais enraizada no futuro e das suas dinâmicas culturais, sociais e eleitorais.

Nos últimos 100 anos o nosso continente foi destruído duas vezes. Ficámos a saber que o mal pode ir sempre aumentando, mesmo para lá do imaginável, e que só a inteligência, servida pela coragem, se lhe pode opor. Em nome de todas essas mortes, desse horror abissal, temos de festejar a felicidade de viver numa Europa onde o povo soberano se cumpre em liberdade. O resultado, seja ele qual for, será este: já ganhámos!

Take five

O PCP apresentou ontem uma moção de censura ao Governo e começou imediatamente a tentar chantagear o PS. Espero que o PS não se deixe intimidar. Que seja claro, duro e sem contemplações no ataque ao PCP. Pode, na minha opinião, fazer ao PCP perguntas simples:
1. Para que quer o PCP agora o voto do PS? Que andou o PCP a fazer, nos sete anos de governo socialista, senão a aliar-se sistematicamete à direita no desgaste desse governo?
2. Não votou o PCP como a direita queria, no momento que a direita queria, para derrotar o governo do PS, precipitar eleições e entregar o poder de mão beijada a Passos Coelhos e Paulo Portas?
3. Não tem o PCP vergonha da fraquíssima oposição que faz ao governo da direita, comparada com a que fez ao governo do PS? Tem alguma comparação a tímida contestação que hoje faz, por exemplo, aos encerramentos na saúde, nos casos Relvas, na extinção das freguesias, com a sistematicidade e a violência das manifestações contra o governo e até contra as realizações partidárias do PS?
4. Ou como explica o PCP o que passa agora com a FENPROF? Agora, que milhares de professores e formadores estão a ser lançados no desemprego, que se aumentou a dimensão das turmas, se reduziu os créditos horários das escolas ou se lançou o caos nas ditas, a poucos meses de mais um ano letivo, como é que o PCP explica a afonia de Mário Nogueira?
5. E, finalmente (porque é disso que se trata numa moção de censura) acaso o PCP pensa que a situação do país melhoraria com mais uma crise política?

Augusto Santos Silva

“Moral hazard” e cobardia

Dizem os alemães que presidem à Europa mais os seus correligionários que a adoção de euro-obrigações encorajaria os países do sul a desrespeitarem a disciplina financeira, a não sanearem as contas públicas e a não fazerem as reformas que eles consideram indispensáveis, dado que teriam o dinheiro a juros muito mais baixos. (O que não pode ser. Imagine-se! Aqueles pés rapados com dinheiro mais barato? O que não fariam? Iriam logo gastar em droga, ou pior, em linhas de comboio, quando existem por lá tantos burros.)

Mas, e se os gregos votarem (votassem?) nos partidos pró-memorando, que não desejam contestar (muito) as imposições da Troika, não seria isso incentivar a Alemanha e amigos a não reverem o seu egoismo, egocentrismo e arrogância e a não se compenetrarem de que têm mesmo muito a perder com a desagregação da zona euro, mesmo até com a redução do número de países que nela se mantivessem? E deixar de ganhar ao não irritar os alemães?

Estou pela chantagem como resposta à chantagem. O programa austeritário em dose concentrada não nos interessa. Mata a economia, condena as pessoas à pobreza ou à emigração e não dá qualquer esperança aos que permanecem. Já que, do norte, nos dizem que é austeridade ou morte, e a austeridade é, de facto, a morte, e defendem sobretudo os seus interesses, vamos por aí. As populações dos países do sul estão a ser condenadas à miséria, enquanto, a norte, se continua a viver bem e o Estado social se mantém intacto, pese embora alguma austeridade, ligeiríssima quando comparada com a que nos impõem. Não foi para isto que se passou da CECA à CEE e depois à UE. Para regressar aos nacionalismos (agora não assumidos) e às desigualdades, mais vale sair do clube e manter a independência. Ou jogar com as armas que se têm.

Se a Espanha falir e o desmantelamento da zona euro acontecer, não pensem Gaspar e Passos que a Alemanha vai premiar o seu bom comportamento convidando Portugal a integrar a nova aliança monetária do norte. Seria para rir. E Seguro, já é mais que tempo de começar a pensar com o segundo neurónio. Se não for capaz, ou não o tiver, os militantes que ainda o não perceberam que acordem e tratem de escolher novo líder. Os líderes fazem a diferença. Os sociais-democratas suecos, por exemplo, depois de décadas no poder, passaram há 6 anos para a oposição, onde se têm mantido com baixíssima popularidade e perspetivas quase nulas de recuperação, assistindo tristonhos a duas vitórias do centro-direita e condenados a assistir à terceira em 2014. Até há uns meses, altura em que mudaram de líder. Um líder sindical e ex-metalúrgico, carismático e empático, aproveitou o facto de o desemprego estar nos 7,8% (para nós, que saudades) e de a direita se ter envolvido num escândalo de armas e ter privatizado, com resultados desastrosos, parte da assistência a idosos para, em pouco tempo, recuperar 10 pontos percentuais nas intenções de voto, reunindo agora 37%.
Não podemos defender os nossos interesses sob o jugo da Troika? Claro que podemos. Os alemães não têm interesse em voltar ao marco. Têm, por isso, todo o interesse em ouvir e respeitar os países do sul. Evidentemente, refiro-me aos conhecedores da história e aos orgulhosos que tiverem alguma coisa a dizer. Não aos capachos.

Não vale já a pena ao PS invocar os compromissos assinados. Foram obrigados a isso e não governariam bem com eles. Deixemo-nos de hipocrisias. Para aplicar tão tenebrosa agenda, mais vale que sejam outros. Que ainda por cima gostam dela. Mas é essencial que haja uma oposição séria, fundamentada e determinada, ancorada noutras formas de pensar existentes também noutros países. Tendo em conta o fanatismo ideológico gasparense, o tal sado-monetarismo, e a alteração de circunstâncias na Europa, não me parece difícil a um partido da oposição ganhar credibilidade. Estes tipos têm maioria absoluta, caramba! Podem bem fazer o que querem sem os socialistas. Já não há saco para ouvir os comentadores da direita a elogiar a postura de Seguro. Como se tal postura fizesse a mínima diferença no descalabro que se avizinha. Mais: se o descalabro não se verificar, ou por milagre ou porque a Alemanha, pressionada, inverteu o rumo, o que ganhou Seguro em não descolar de tal agenda, ainda por cima altamente extravasada?

1º apoiante da candidatura do Daniel à liderança do BE

Louçã pode estar mesmo de saída daquela zona onde bate o foco do projector principal, embora jamais lhe passe pela megalomania abandonar o palco, e isso deixa o Bloco com um sarilho só comparável ao que afligiu o PCP quando teve de escolher o sucessor de Cunhal. Claro, na Soeiro Pereira Gomes tudo se passa com a previsibilidade de uma debulhadora soviética ortodoxamente oleada, pelo que nenhum sinal de angústia transpareceu para fora das paredes de vidro muitíssimo fosco. Não se adivinha tamanha mecanização no BE, um albergue espanhol colado com a abundante e gosmosa saliva do Anacleto.

É aqui que eu entro, propondo-me ajudar as boas gentes da esquerda pura e verdadeira – geniais mentoras e estrategas da reeleição de Cavaco e fiéis aliadas para a conquista do poder da mais decadente direita dos últimos 30 anos – a encontrar a solução para o imbróglio. E essa tem uma e só uma marca: Daniel Oliveira. São várias as qualidades que fazem desta vedeta da política-espectáculo a escolha óbvia para suceder a Louçã, do traquejo numa lábia de vendedor de atoalhados até à têmpera nervosa que lhe dá o tão mediático pathos, passando pelo crédito de honestidade intelectual que a sua actividade de publicista ainda não corroeu. Seria uma mudança de sumo na continuidade do pacote, ideal para um amontoado de fragmentos ideológicos que depende do marketing televisivo para sustentar a identidade.

Andava há muito a cozinhar esta intuição quando, semanas atrás, tropecei na prova final do acerto no raciocínio. Trata-se de um momento epifânico, que, como outros onde a transcendência se materializa em sinal, pede um olhar de iniciado, um espírito profético, para ser reconhecido – razão pela qual passou completamente invisível aos olhos do vulgo. Olhai e vede:

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Diário dos Euros

O Cristiano Ronaldo deixou a crista e põe agora brilhantina e um penteado à anos 30 e decidiu que só trabalha em um quarto do terreno, golos é que nada; os franceses branquearam literalmente a equipa, perderam peso (refiro-me mesmo a kg) e parece correrem mais; os irlandeses jogam com umas meias verdes às risquinhas, muito giras, mas vão-se embora com elas; os ingleses, tendencialmente excêntricos, vestiram o guarda-redes de pijama; os alemães jogam em formação e traçaram previamente a trajetória das bolas com régua e esquadro, sendo eficazes mas nem tanto, é só fazer-lhes uma cócegas (ao estilo das cigarras); os gregos não sabem que também se podem distribuir pela zona imediatamente antes da baliza adversária; os italianos ainda falham mais flagrantes do que nós e os ucranianos são o esplendor na relva (refiro-me também aos fatos).

Esta é a Europa despreocupada e bonita em vésperas de grande confusão no seu flanco sul. Sendo certo que ainda existirá Euro 2012 daqui a duas semanas, existirá ainda a eurozona?
Se a Grécia abandonar a área (o Euro já praticamente abandonou), os prejuízos financeiros já foram mais ou menos contabilizados: € 89 000 milhões para a Alemanha, 59 000 milhões para a França, 39 000 milhões para a Espanha (à beira da bancarrota, vem mesmo a calhar) e algo parecido para a Itália (também à beira do estrangulamento). E depois? Ninguém sabe. Provavelmente por causa disso, os gregos vão poder renegociar as condições. Mas o contrário também é possível. O que se segue, ninguém sabe.

Ao ouvirmos os políticos e economistas deste mundo, já ninguém tem pruridos em trocar as expressões “a Europa” ou “o Conselho Europeu” ou “as instâncias europeias”, até aqui muito politicamente corretamente utilizadas como introdução a uma crítica, por simplesmente “a Alemanha”. Já toda a gente percebeu que é lá que, mais uma vez, está o problema. A chancelerina alemã (numa altura destas, há inegáveis vantagens em não ser um homem, não há?) chama os espanhóis de irresponsáveis e brevemente presenteará os italianos com epítetos semelhantes (e esqueçamos o que já disse ou mandou dizer dos gregos).

Sabemos que Mario Gomez, Özil ou Lahm nenhuma responsabilidade têm na condução alemã da política europeia. Mas se os europeus do norte e os do sul não se entenderem definitivamente quanto à resolução desta crise das dívidas, perante a falta óbvia de meios para resgatar países grandes, e desatar tudo à batatada, alguém cá de baixo terá vontade de se voltar a divertir nos tempos vindouros com os de lá de cima? Só se for com uma bola de explosivos.

E se alguém um dia destes, em Itália, complicando-se a situação, se lembra de dar um tiro num alemão? Não é impossível.

Mais longe, no país de destino do Titanic, não estando os americanos nada divertidos com o que se passa na Europa, é provável que já estejam a pensar acionar o alerta de “prontidão”. Vai uma dinamizaçãozinha da economia, como em 1944?

Good food for good thought

Why are we so predictable and tribal in our politics? In his remarkably enlightening book, The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (Pantheon, 2012), University of Virginia psychologist Jonathan Haidt argues that to both liberals and conservatives, members of the other party are not just wrong; they are righteously wrong—morally suspect and even dangerous. “Our righteous minds made it possible for human beings,” Haidt argues, “to produce large cooperative groups, tribes, and nations without the glue of kinship. But at the same time, our righteous minds guarantee that our cooperative groups will always be cursed by moralistic strife.” Thus, he shows, morality binds us together into cohesive groups but blinds us to the ideas and motives of those in other groups.

[…]

Our dual moral nature leads Haidt to conclude that we need both liberals and conservatives in competition to reach a livable middle ground. As philosopher John Stuart Mill noted a century and a half ago: “A party of order or stability, and a party of progress or reform, are both necessary elements of a healthy state of political life.”

Evolution Explains Why Politics Is So Tribal

Facadas no Estado de direito – hoje no P3

Já ouvimos a Ministra da Justiça (MJ) comentar um caso concreto entregue à Justiça afirmando, convicta, que é possível extraditar cidadãos nacionais. Disse-o e insistiu na inovadora tese ignorando os requisitos estabelecidos no artigo 33º da Constituição (CRP). Já ouvimos a MJ afirmar que seria catastrófico se o Tribunal Constitucional (TC) declarasse a inconstitucionalidade do corte dos subsídios e das pensões. O país ficou a saber que a MJ pressiona Órgãos de Soberania à custa do atropelo do princípio da separação de poderes. Já ouvimos, durante meses, uma MJ desistente perante determinados crimes a defender o crime mais pidesco que se propôs na AR – “o enriquecimento ilícito”: a democracia funcionou e o TC pronunciou-se pela evidente inconstitucionalidade da coisa.

O Governo, no entanto, não desiste de uma caminhada ao arrepio da tradição de respeito pela segurança jurídica, pela tutela das expetativas, pela proteção dos direitos adquiridos, pela excecionalidade da retroatividade da lei. Tudo princípios de boa governação, princípios que transmitem ao cidadão a certeza de que ele é o valor maior. Hoje, dos cortes à lei laboral e à crença no mercado como responsável pela solução dos produtos de imigração – os desempregados –, resulta uma triste consciência pessoal de que cada um merece menos estabilidade do que um contrato com a Lusoponte em situação de duplo pagamento.

A cruzada por um experimentalismo ideológico à luz de um apagão da inspiração constitucional revela-se agora no fortalecimento de um monstro autoritário dentro do Estado: o Fisco.

Esse controlo vai ser feito através da comparação entre o valor de aquisição do veículo e as declarações fiscais de IRS dos respetivos proprietários. Se forem detetadas diferenças, as Finanças procedem a correções adicionais à matéria coletável e ao imposto a pagar. As equipas da PSP têm nas operações STOP um elemento da autoridade tributária para verificar se o condutor tem dívidas ao fisco. Se tiver o carro é apreendido. Chama-se a isto arbitrariedade. Os inocentes terão de provar que nada há de errado na propriedade do carro (inversão do ónus da prova) mas com o carro antecipadamente penhorado. Quem tem uma dívida nas finanças mas está a contestá-la judicialmente é punido antes do desfecho do processo. Mas não por um Juiz. E há, claro, quem não consiga reagir. Um bom conselho é não aceitarem carros oferecidos, ou se os puderem comprar e mudarem de rendimentos no ano seguinte, atirarem-nos de uma ravina. E já agora: é assim que apanham tubarões?

Ando com vergonha do estado suspensivo de uma legalidade em que cresci graças a tantos.

Aqui

Carlos Magno, ó Carlos Magno!

Se precisares de falar com a minha vizinha do 4º andar para conseguires acabar o relatório, avisa-me, pá. Que não seja por isso. Eu falo com ela, ela fala contigo e tu logo descobrirás se Relvas pode ficar no Governo a dar mais exemplos às famílias da sua ética em pó com sabor a laranja.

O mais saboroso texto acerca do Euro 2012

Sericaia 1 – Euro 0

E um dos melhores no que respeita aos aspectos técnico-tácticos da cena por causa das cenas e tal. Não vai ser fácil destroná-lo dos lugares cimeiros, embora a própria autora seja uma fortíssima concorrente para a façanha posto que vai continuar a beber o cálice até ao fim.

E falando de façanhas e de façanhudos, o jogo com a Dinamarca será um dos mais interessantes dos últimos anos para a Selecção. Isto porque temos um treinador matarruano, ideal para pegar em equipas feitas em farrapos e dar-lhes os mínimos de forma a se conseguirem aguentar nas canetas, mas para o resto completamente inepto por não ter imaginação. No Sporting, o futebol era feio e pobre, penúria agravada por criar conflitos com o talento (Vukcevik) e permitir desaforos à incompetência (Miguel Veloso). Na Selecção, foi a panaceia indicada para se recuperar do desastre Queiroz, mas num mundo perfeito teria sido outro o treinador a preparar a equipa depois de conquistado o apuramento.

Sim, amanhã o Postiga poderá marcar 5 golos no primeiro quarto de hora de jogo. Ou o Cristiano resolver de livre. Ou toda a equipa voltar a ser o Brasil da Europa, como nos anos 90. A sorte é que manda e o resto apenas conversa. Mas se aparecer mais do mesmo que vimos contra a Turquia e a Alemanha, ou se a Dinamarca empatar nem que seja aos 95 minutos e por autogolo, então o Manuel José está livre e disposto a acabar a carreira em grande.

A ascensão de Tsipras (3) – O cavaleiro e o dragão

Se pudesse resumir numa frase o que espera Alex Tsipras caso forme governo, seria esta: o garboso cavaleiro da armadura reluzente fará bem em recordar que os dragões têm o hábito de cuspir fogo, e há um em particular que está muito zangado. E é importante, antes do mais, reconhecer que os alemães têm razões legítimas para estarem zangados. Apesar de terem beneficiado enormemente com a zona Euro, o abandono do Marco Alemão em favor do Euro foi feito com a promessa muito específica de que não haveria transferências da economia alemã, ou seja, dos impostos alemães, para os restantes países. Isso, sabemos hoje, era mentira. Não sendo a UE uma federação com um governo central, a promessa baseava-se unicamente no compromisso pelos restantes estados que se portariam bem, não gastariam demasiado, e não aldrabariam as contas públicas. Ou seja, que cada um gastaria conforme as possibilidades do seu tamanho, e não pelas possibilidades do tamanho total. Daí a regra dos 3% de défice, e a importância por vezes maníaca com que era relembrado aos estados, apesar da própria Alemanha e França não cumprirem em várias ocasiões. Mas a mentira passava despercebida.

Depois veio a crise financeira, e logo a seguir a Grécia. E o que significava a moeda única veio ao de cima. A mentira revelava-se, para pânico e negação dos países mais poderosos. E o desespero de ocultar a realidade – que o sarilho da Grécia era também o sarilho dos restantes países – levou a uma “ajuda” de má-vontade e com condições punitivas, para prolongar no eleitorado nórdico e rico a sensação que era um problema “grego”, que os gregos teriam que resolver com muito esforço da parte deles, e sem esforço algum dos primeiros. Isto teve duas consequências: em primeiro lugar, uma recessão que tornou impossível qualquer recuperação da economia grega, por mais reformas que fizessem. Em segundo, assinalou aos mercados que a moeda única se calhar não era assim tão única, que a união era um tigre de papel pouco disposta a defender o seu próprio território. E como resultado dessa decisão, os dominós começaram a cair uns atrás dos outros, cada vez maiores: Irlanda, Portugal, Espanha, em breve Itália, e por aí em diante e cada vez mais rápido. Tudo porque a União recusou e ainda hoje se recusa a admitir o que é cada vez mais óbvio: uma moeda, uma economia. Ponto final.

Este é o dragão que Tsipras se propõe enfrentar. Não é impossível, mas terá que ser no entanto bastante astuto. Há felizmente muitos sinais de que é.

O início é óbvio, embora requeira bastante coragem: fazer saltar o dragão da toca. Isso foi feito com a promessa/ameaça de rasgar o memorando. A partir daí é que as coisas se complicam, e muito. À primeira vista, os gregos parecem ter todas as cartas na mão. Caso a Grécia entre em falência, toda a união vai atrás, com custos incalculáveis. Caso seja expulsa, e ressalvo que não há nenhuma maneira de o fazer se estes se recusarem, a primeira coisa que os mercados dirão será: já sabemos que os países podem sair. Quem é pois o próximo? E toda a União se desmorona, com custos incalculáveis. Ou seja, mal o próximo governo grego diga “recusamos o memorando”, há decisões muito difíceis a fazer por parte dos outros países, sendo que a mais segura e menos dispendiosa é continuar a apoiar a Grécia, condições ou não. Mas tem por outro lado um custo político incomportável mais a norte, e é isso que Tsipras tem de ter consciência. Os alemães precisam de salvar a face, ou sabe-se lá o que farão quando encostados à parede. E o custo do falhanço é, para os gregos, também incalculável, razão pela qual não existe, no programa do Syriza, uma única referência ao que fariam em caso de falhanço. Falhar não é pois opção.

Até agora, no entanto, creio que há bastantes razões para ter alguma esperança. Do lado europeu, apesar da retórica inflamada e de muitas ameaças, há alguns sinais encorajadores. Começo com a entrevista de Lagarde. Já disse que a linguagem utilizada me parecia bizarra, quase feita de propósito para inflamar os gregos. Houve outra coisa no entanto que me chamou a atenção: o ênfase único no pagamento de impostos, e a total ausência de apelos a “reformas estruturais” e quejandos com que a troika se entretém a fazer experiências para “salvar” as economias. A mensagem pareceu-me clara: a fuga aos impostos é o assunto crucial para a União. Resolvam isso, ponham ordem na corrupção, e as portas abrem-se. E nesse ponto, um partido de extrema-esquerda sem ligações a grupos de poder poderá fazer a diferença. A seguir, há o pânico cada vez maior com o acelerar da crise a países too big to fail, o que significa que algo terá de ser feito e a curto prazo, nos próximos três meses, e Tsipras vem no tempo exacto para influenciar o que esse “algo” poderá ser. O que não existia há um ano atrás, quando os mitos do firewall estavam mais enraizados, apesar dos avisos. Depois, há Hollande na França, para além de vários responsáveis europeus que já perceberam que a Grécia tem de ficar na União.

Tudo isto, mais os vários sinais por parte do Syriza que querem negociar – recentemente, um responsável já veio dizer que não podiam impor acordos unilaterais – dá também a ideia que será possível chegar a um acordo. E que terão a paciência necessária para as negociações mastodônticas que caracterizam a União.

Há no entanto perigos, e muitos. Em primeiro, a UE não vai abdicar do seu acordo apenas por pedido. O que significa que vão esticar a corda até ao máximo possível, provavelmente até a uma situação de falência eminente, no dia seguinte, e será necessário muito sangue-frio para evitar e controlar o pânico e consequentes tumultos. Teremos pois o privilégio de ver a extrema-esquerda a tentar manter a ordem pública, o que será no mínimo interessante. O outro perigo é o de, mais uma vez, tentar isolar a Grécia como um “caso especial”, ou seja, tentar a expulsão ao mesmo tempo que se reforçam as muralhas dos restantes, os “cumpridores”. Isto pode ser feito, e é aliás uma séria hipótese favorecida pelos países nórdicos. Se resulta a prazo é muito questionável, mas para os gregos será indiferente.

A história do cavaleiro e do dragão começa no próximo Domingo. No final, saberemos qual o reino que nos resta.

Mas a economia belga vai bem

Problema que Portugal não tem:
Há coisa de duas semanas, houve um sarilho numa “comuna” de Bruxelas, chamada Molenbeek, onde a maior parte dos habitantes é de origem magrebina e/ou de religião muçulmana. Uma mulher que circulava vestida com um “niqab”, indumentária que cobre integralmente o corpo feminino, com exceção dos olhos, foi interpelada pela polícia e levada para a esquadra, onde aproveitou para fazer um escarcéu, chegando mesmo a agredir com violência as agentes da autoridade que com ela tentavam dialogar, expondo-lhe a lei. De imediato se juntaram à cena elementos da comunidade muçulmana local e, mais tarde, elementos de um movimento fundamentalista islâmico intitulado “Sharia4Belgium” (título mais do que sugestivo; há alucinados que querem impor a “Sharia” no ocidente), que acrescentaram verdadeira gravidade ao, chamemos-lhe assim, diferendo inicial. O líder do movimento foi preso, obviamente.
Escusado será dizer que o episódio suscitou uma série de debates políticos (e de acusações mútuas) em tudo o que é meio de comunicação social e parlamento (há vários) sobre a integração dos imigrantes, sobretudo na região belga de Bruxelas, onde os muçulmanos abundam e numa forma não dispersa.

Mas, ainda no rescaldo do debate, hoje um jornal nacional trazia um artigo do Secretário de Estado ecologista da região Bruxelas-capital a defender que as aulas de integração dos estrangeiros, a par das disciplinas de língua e civismo, deviam substituir as de religião pelas de filosofia (o senhor tem nome de origem grega). Só posso aprovar. Filosofia, claro. É um bom princípio. Uma passagem do que ele diz e link para o artigo integral: « Les cours de religion c’est un débat des années 50. Il est dépassé. Il faut maintenant faire partager des valeurs communes comme la laïcité de l’État, l’égalité homme/femme… ».

E, para confirmarmos, como se fosse preciso, que as sociedades podem regredir, aqui fica um vídeo com um discurso proferido por Nasser, Presidente do Egito, em 1953.


Nasser e o véu (1953)

Obrigado, José do Carmo Francisco

O José do Carmo Francisco foi um dos mais activos, e mais originais, autores que passaram pelo Aspirina B, muito tendo contribuído entre nós para a riqueza desta experiência social de partilha e convívio que a Internet estimula. A sua longa permanência num blogue de natureza política e vocação polemista surpreende pela perseverança e constância. Se para alguma coisa, os meios digitais servem para esta liberdade gratuita, cheia de graça.

Quem quiser entrar em contacto com o Zé do Carmo pode utilizar o nosso email.

Vinte Linhas 798

Aspirina B – um inventário e uma despedida

Na vida real, ao contrário dos filmes, os maus ganham sempre. Bastou um paranóico para transformar a caixa de comentários do Aspirina B numa pocilga. O cheiro é insuportável.

Mas comecemos pelo lado bom. Quando há um ano a minha casa foi assaltada por uma quadrilha de profissionais, foi graças ao Aspirina B que foi possível recuperar os poemas, as notas de leitura e as crónica lá publicadas. Os gatunos roubaram o computador mas não os conteúdos do Blog. Convidado pelo Fernando Venâncio, seguiu-se o apoio da Susana Campos e logo a seguir o Valupi com uma paciência sem fim para os meus textos e imagens que colocou «on line» ao longos destes últimos anos.

Agora vou sair pois o paranóico não desiste e vai torpedeando as outras caixas de comentários já que as minhas estão bloqueadas. Tenho três filhos e três netos, por isso não faz sentido eu continuar a sofrer com um paranóico a inverter as verdades da minha vida. Por exemplo – Sou natural de Santa Catarina e fiz o exame da terceira classe em Abril de 1961 para fazer o da quarta em Julho desse ano e o de admissão logo em Agosto. Entretanto ele, o paranóico, vai debitando tudo ao contrário.

Agora vai ficar sozinho a inverter verdades à sua inteira vontade e capricho. Pode inverter tudo o que quiser. Eu trabalhei com pessoas como Óscar Lopes, Fausto Lopo de Carvalho, David Mourão-Ferreira, Orlando da Costa, Jacinto do Prado Coelho, Carlos Eurico da Costa, Jacinto Baptista, Carlos Pinhão, Carlos Miranda, Vítor Santos, Homero Serpa, Aurélio Márcio, Wanda Ramos, José Cardoso Pires, Mário Ventura, Dinis Machado e Olga Gonçalves – por exemplo.

Obrigado a todos; em especial Fernando, Susana e Valupi. Obrigado aos leitores. Até sempre.