As viagens em económica, e não sei quê das gravatas, já se reflectem nas contas públicas e na confiança dos mercados ou ainda é preciso esperar mais um bocadinho?
Arquivo mensal: Novembro 2011
UM TÚMULO ROMANO
Deitado num coxim de pedra nua
O adolescente morto, morria.
Sonha-lhe no ombro a cabeça fria.
Aquece-lhe a mão maternal a coxa de mármore.
Imóvel e latino renascia
Num corpo de pedra fria.
Ferida pelo silêncio que a ignora
Envolve-o a mãe com o olhar que a morte estremece.
Apega-se-lhe à memória o peso triste
Do repousado olhar do corpo a que assiste
E na pausa sensual do corpo
Ressuscita o olhar morto
Que reflecte o olhar que olha
A calma mudez daquele olhar sem olhar.
Sofria-lhe na memória o que sofrera
E no pálido assombro que a envolvera
Círios de paixão ardiam nos escombros
Das margens de um tempo que silenciosas fugiam.
Pelos rios da tarde estival
Do passado lhe traziam
Do amor ausente a taça vazia.
Deitado num coxim de pedra nua
O adolescente morto, morria.
Sonhava-lhe no ombro a cabeça fria.
Joana Ruas, (Roma, 1978)
(Todos os anos em Novembro é Primavera no jardim dos mortos. Todos os anos a face dos mortos, entre lágrimas e flores se oculta. Cria-se entre a massa dos vivos um elo de irmandade no luto. Se confraternizamos na alegria, na dor que nos irmana existe uma separação sagrada. Somos parecidos no riso e diferentes nas lágrimas. Foi em Roma que compreendi, através das esculturas mandadas erguer pelas mães a seus filhos falecidos, do que de triste, carnal e terno é feita a Piedade. Michelangelo Buonarroti prestou-lhe um verdadeiro culto, legando ao mundo a representação esculpida mais formosa deste complexo sentimento — a Pietà. A muitos causa estranheza a extrema juventude patenteada no rosto da Virgem Mãe que acolhe no regaço o seu filho Jesus Cristo, morto na cruz. Facto é que velho, jovem, criança ou recém-nascido, um filho morto é um antepassado vivo, pois franqueou primeiro a passagem para esse tempo sem duração que é a Eternidade. Foi diante de uma dessas inumeráveis esculturas que escrevi este poema que hoje dedico a todas as mães órfãs de seus filhos).
Recuperado e divulgado por JCF em 1-11-2011
Velhacos e dançarinos
No seu habitual comentário no programa Política Mesmo da TVI 24, o antigo presidente do PSD, recuou até 2010, o ano em foi decido colocar portagens nas Scut, lembrando que houve um acordo entre o Governo de Sócrates e o grupo Mota para a introdução de portagens nas auto-estradas Costa de Prata, Grande Porto e Beira Litoral.
[…]
O antigo presidente do PSD, lembrou que os prejuízos “quase davam para pagar o subsídio de férias e de Natal que vai ser cortado aos funcionários públicos e pensionistas” (cerca dois mil milhões em termos líquidos) e falou na possibilidade de se estar perante “um caso de polícia”.
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A figurinha a que se presta Marques Mendes, alguém que muito provavelmente terá amigos e conhecidos na administração da Mota-Engil, expõe a matéria moralmente putrefacta que enche as entranhas desta actual direita partidária que nos calhou em desgraça. O que ele diz publicamente será apenas uma pequeníssima parte, e sem o vernáculo, do que a oligarquia vocifera contra Sócrates em restaurantes, jantares, casamentos, jogatanas de golfe e idas aos saldos a Londres. Estamos a falar de marmanjos que celebram compulsivamente a riqueza pela riqueza, desbundando desde o berço com as historietas das negociatas deste e daquele que se encheram à grande e à portuguesa. Estamos a falar de passarões que estão juridicamente blindados pelos melhores escritórios de advogados e têm acesso directo à protecção dos mais poderosos que servem ou poderão vir a servir. Estamos a falar da pândega, bolorenta, elite nacional.
Eis o que Mendes se permite despejar na rua: tivemos um Governo embrulhado em duas crises internacionais, um bocadinho para lá de colossais, que aproveitou a necessidade de reduzir as despesas do Estado para entregar dois mil milhões de euros a uns senhores que os pediram apenas porque o seu papel na sociedade é sacar o nosso papel. Que devemos pensar de gente assim? De acordo com este ex-presidente do PSD, insigne cavaquista, devemos louvar o sucesso do Grupo Mota na tramóia e devemos gritar à janela que os tais ex-governantes envolvidos na coisa são criminosos da pior espécie, tão ruins, tão ruins, tão ruins que o actual Governo, um Governo de e da gente séria, não teria de cortar os subsídios de Natal e de férias aos funcionários do Estado e aos pensionistas não fora este gamanço a pedir polícia e tribunal. Muito bem, até aqui estou com o Mendes, acho que ele é um bravo, um exemplo para a mocidade portuguesa com a sua excitação na denúncia da malandragem. A chatice é que o Mendes não informou a respeito dos passos seguintes, nomeadamente da sua ida à Procuradoria para entregar provas ou indícios, o que me faz pensar na alta probabilidade de estarmos perante mais uma escabrosa pulhice com sabor a laranja.
Perante estas declarações, vindas de quem vêm, o silêncio dos visados na calúnia pode significar que assumem a culpa, restando-lhes esperar pela bófia, mas também pode significar que não querem perder tempo com velhacos que atiçam os piores instintos dos mais ignorantes e doentes, muito menos com dançarinos para quem o Estado de direito é apenas música na grande festança dos privilegiados.
Máximas para os mínimos
Vinte Linhas 681
Fausto no Santoínho ou o esplendor do insólito
No passado dia 29 de Outubro à noite estive no arraial minhoto do Santoínho, em Darque, Viana do Castelo. Para além de toda a panóplia da festa popular (caldo verde, sardinhas, broa, bifanas, vinho tinto e branco, frango assado e champorreão) havia a música do grupo folclórico privativo da Quinta e música para dançar. Foi aí que, surpresa das surpresas, apareceu um tema de Fausto Bordalo Dias. Ao ouvir os primeiros acordes de «O barco vai de saída» do álbum «Por este rio acima» de 1982, eu estranhei o som embora me tenha sido agradável. É sempre muito bom ouvir uma canção do Fausto mas ali, no arraial minhoto, o registo era mais… Quim Barreiros. Digamos assim.
Horas antes tinha deambulado por Viana do Castelo e, a meio do passeio, fui agredido por um mamarracho que, tal como os eucaliptos, seca tudo à sua volta. Num certo sentido aquele prédio a obstruir a visão da foz do rio Lima a grande parte da cidade de Viana do Castelo é um Quim Barreiros da arquitectura e do urbanismo. Para meu azar a camioneta da excursão que me calhou tinha um CD do Quim Barreiros e durante largo tempo fui também agredido com as baixas graçolas do tipo «Ó Maria deixa-me ir à tua padaria!».
Talvez por isso tudo conjugado é que ouvir uma música de Fausto Bordalo Dias no arraial minhoto do Santoínho foi uma grande e boa surpresa. Uma ilhota de perfeição e de bom gosto num mar de mau gosto e de música a metro. Uma pobreza franciscana interrompida para dar lugar a uma canção de um álbum inspirado na «Peregrinação» de Fernão Mendes Pinto, uma das referências fundamentais da Música Popular Portuguesa Contemporânea e um dos discos mais vendidos da nossa indústria discográfica.
Coragem no desespero
Há muitas, muitas razões para ser cínico com a decisão de Papandreou de convocar um referendo ao acordo europeu. Em primeiro lugar, aparentemente, isto não tem a ver com a Europa ou com algum desejo de “mais democracia” no seio das decisões tomadas nos encontros europeus. Tem a ver quase exclusivamente com questões de politica interna, e é um acto que nasce do desespero. Não do desespero da austeridade imposta pela UE, mas desespero face à impossibilidade politica de cumprir o que foi acordado. Estão relacionados, mas não são exactamente a mesma coisa.
Em segundo, este é um referendo perfeitamente chantagista, e aí concordo com os cínicos, mas que parte de uma realidade que tem de ser assumida: no contexto actual europeu, este acordo que – vamos ser francos, não resolve nada e é manifestamente insuficiente – é o melhor que se consegue, e mesmo assim a custo. Temos portanto um referendo que consiste numa dupla chantagem:
- a primeira é claramente sobre os outros membros da UE. O mero anúncio do referendo – ou seja, que a Grécia pode rejeitar o acordo, ou seja, que a Grécia pode ir à falência descontrolada – foi o suficiente para causar uma devastação imensa nos mercados financeiros. É um sério aviso aos outros líderes europeus sobre o que acontecerá se de facto se concretizar a bancarrota, e que talvez não fosse má ideia repensar toda a estratégia de ajuda europeia. O primeiro-ministro grego apostou o país inteiro numa jogada de altíssimo risco, porque os alemães e franceses podem ser agora confrontados com a escolha entre financiar a dívida grega ou financiar os seus bancos que irão à falência caso não escolham a primeira. Ou seja, entre salvar os seus bancos salvando os gregos, ou em simplesmente salvar os seus bancos. A favor dos gregos está o facto, que se vai tornar cada vez mais óbvio, que uma saída da Grécia põe em xeque todos os outros países periféricos e outros não tão periféricos. A catástrofe espreita.
- a segunda chantagem deriva da primeira, e é sobre os cidadãos gregos. Caso os outros europeus não façam uma oferta melhor ou mudem de rumo politico na gestão desta crise, há então que fazer uma escolha entre dois tipos de caminhos: uma austeridade dura imposta do exterior, ou uma ainda mais dura mas controlada pelos gregos. Entre serem servis e miseráveis, ou ainda mais miseráveis mas livres, esta é a verdadeira escolha dos gregos, por injusta que pareça. Mas será uma escolha que responsabilizará os cidadãos, que por uma vez não poderão culpar “os políticos” pelo caminho escolhido. Pensem, informem-se, reflitam sobre os estado do país e os caminhos que se apresentam, e escolham – mas depois acabaram as lamurias. Esta é a mensagem, e é clara. Não admira que os partidos da oposição estejam lívidos. Acabaram as promessas fáceis e a diabolização para ganhar eleições.
Do ponto de vista táctico, é uma jogada brilhante de Papandreou. Mas não tenhamos ilusões, isto é o equivalente à ultima carga da cavalaria. Pode resultar, e espero que sim, e a coragem, mesmo resultante do desespero, ninguém lhe tira – não fosse ele um Socialista – simplesmente os grandes gestos desesperados ou românticos acabam muitas vezes em tragédia, e quero ver onde estarão os que agora elogiam o “sentido democrático” e a “lição de soberania” do líder grego quando despedirem metade dos funcionários públicos por falta de fundos, ou quando os hospitais começarem a ficar sem medicamentos. Já para não falar da hipótese séria de um golpe militar. A bancarrota não é bonita, e é neste momento a hipótese mais provável.
Mas quando resultam, caramba, são o material de que são feitos os mitos.
Reconhecer a Palestina – diz que é mau para o processo de paz
Votei favoravelmente a proposta de resolução do PS que pedia a continuação de esforços por parte do Estado português no sentido de uma posição comum da UE quanto ao reconhecimento da Palestina (AP) como membro da AG da ONU bem como esse reconhecmento por parte do Governo português.
Votei também favoravelmente a proposta de resolução do PCP que pedia o referido reconhecimento (imediato) por parte do Governo português.
Não vale a pena explicar por que é que este reconhecimento é um acto politico e moral com anos de atraso.
Quando decido votar neste sentido não faço considerações acerca da decisão que melhor interessa ao processo de paz.
Está em causa um acto de reconhecimento que deriva do direito à autodeterminação de um povo massacrado, com gerações e gerações a viveram sempre numa espécie de campos de concentração.
Lembro-me de ouvir os nossos representantes gritarem contra o putativo interesse de alguns países quando defendiam Timor.
Mas, ainda que eu entrasse no jogo de saber o que mais interessa à comunidade internacional, a resposta à questão seria sempre a do reconhecimento da Palestina.
Sabendo disso, Israel está a tomar medidas contra o processo de paz para atrapalhar o que é um processo de reconhecimento.
Agora que a UNESCO aceitou a Palestina como membro de pleno direito da Organização, imagine-se que os EUA e Israel ficaram irritados. Irritados, dizem que a UNESCO veio atrapalhar o (tão produtivo e imparcial) processo de paz.
Uma pessoa lê isto e pensa que Israel está a dizer que os reconhecidos vão começar a fazer loucuras, mas não, é Israel, para variar, que inicia um processo de retaliação, acelerando a construção de colonatos e cortando fundos à Autoridade Palestiana.
Vamos mesmo ter um discurso sério sobre os perigos para o “processo de paz”?
Vamos. Comecemos pela inconsequência de tanta amizade com um Estado que não reconhece as decisões soberanas dos outros ou de organizações internacionais vingando-se delas inflingindo sofrimento num povo.
Vamos. Vamos a isso.
Vamos lá a saber
Um livro por semana 260
«Que paisagem apagarás» de Urbano Bettencourt
Percebe-se que Urbano Bettencourt (n.1949) tem o gosto da miscelânea. Na linha de Camilo Castelo Branco («Narcóticos») e Carlos de Oliveira («Aprendiz de feiticeiro»), Urbano Bettencourt reúne em 183 páginas um conjunto de narrativas, memórias e aforismos. Ficcionista, poeta e ensaísta, uma fina ironia atravessa a sua obra desde 1972, data do seu inicial livro «Raiz de mágoa».
O primeiro texto regista uma conversa num comboio entre Del Guidice e Antero de Quental: «Vou atrás de uma mulher que existe, desde o momento em que o autor lhe deu vida pela escrita. Você vai atrás de uma vaga figura possível, a revolução». Cruzam-se memórias de Raúl Brandão no PIco («Aquilo foi um sonho e nenhum sonho se chega a concluir – o sonho não cabe no mundo») e de Romana Petri: «a garrafa de aguardente de figo – Romana Petri talvez preferisse um copinho de angélica como ela tontamente insiste em escrever». Mais à frente as ruínas de uma abadia em Howth (perto de Dublin) abrem para uma memória de James Joyce («a luminosa manhã de Junho de 1904 em que Leopold Bloom saiu de casa para comprar rins de carneiro») enquanto Álamo Oliveira aparece no Corvo: «Desembarcados no Porto da Casa, tomámos rumos diferentes. Álamo Oliveira foi levado pelos seus anfitriões do teatro e eu meti-me a caminho da casa de D. Crisantema».
Também comparece uma memória da guerra colonial: «ainda te vais lembrar do tempo de África. Das gentes que viveram um pouco melhor graças a ti. Caminhos, estradas, casas, água potável. Mas a sombra das pessoas que destroçaste há-de seguir-te como um cão açoitado. E as casas a que deitaste fogo vão continuar a arder nos teus olhos. Como uma festa ou um inferno. Estas coisas apagam-se alguma vez?»
Por último um aforismo breve: «Reciprocidade – Quando o censuraram por não ir ao funeral do seu companheiro de letras, o escritor limitou-se a perguntar: – E ele vai ao meu?».
(Editora: Publiçor, Fotografia: Magda Medina, Participação: Juan Carlos de Sancho)

