Vinte Linhas 684

A bota de ouro de Cristiano Ronaldo e a corrida de Aurélio Pereira

Horas depois da entrega da Bota de Ouro a Cristiano Ronaldo em Madrid cruzei-me com Aurélio Pereira na Quinta das Conchas. Nem a chuva lhe interrompeu a corrida. Parte do ouro da Bota em 2011 deve-se aos argumentos de Aurélio Pereira em 1997 junto de Simões de Almeida no Sporting. Tratava-se explicar a um vice-presidente que valia a pena apostar num miúdo de 12 anos em troca de um pagamento que o Nacional da Madeira tinha que satisfazer para com o SCP devido à formação desportiva de um jogador do Odivelas oriundo dos «leões». Outras pessoas tinham atestado a categoria do miúdo como Osvaldo Silva e Paulo Cardoso. O relatório é muito objectivo e aposta num caminho – inscrever. Outras pessoas tinham facilitado a sua vinda como o magistrado Marques de Freitas e o padrinho, senhor Fernão. Outras pessoas tudo fizeram para o acarinhar no Lar como Isabel Trigo de Mira, uma espécie de «mãe» dos meninos. Outras pessoas ajudaram a sua integração pessoal e desportiva num mundo mais complicado do que o meio madeirense de onde Cristiano Ronaldo era originário – como Leonel Pontes (não por acaso madeirense também) e Paulo Cardoso (que já o conhecia dos primeiros testes). Ambos dirigiam o Lar do Jogador em 1997. Havia alguns homens do futebol leonino que conheciam o valor do miúdo (Luís Dias, Mário Lino, Juca, Fernando Mendes e Alexandre Paiva) mas foi Aurélio Pereira que conseguiu demover a Direcção leonina a aceitar a permuta – receber um miúdo de 12 anos em vez de 5 mil contos. Mais tarde em Outubro de 1999 num jogo em Pina Manique, quando Ronaldo se sentiu mal devido a uma taquicardia, o enfermeiro Fontinha deu-lhe uma injecção e Aurélio Pereira estava junto do delegado Atanásio. Algum do ouro da bota de Ronaldo é trabalho de Aurélio Pereira.

Homossexuais britânicos dados à abstinência sexual por períodos de um ano já podem dar sangue

A proibição de dar sangue imposta pelo Reino Unido aos homossexuais para prevenir o risco de contaminação do VIH é levantada hoje, informou o Ministério da Saúde.

A restrição tinha sido estabelecida na década de 1980 como medida de prevenção, todavia os últimos estudos médicos apresentados ao Governo britânico atestam que este tipo de proibição não se justificava.

O Ministério da Saúde tomou a decisão após as recomendações do Comité de Segurança do Sangue, que avaliou os riscos de contágio com base nos estudos de especialistas e chegou à conclusão de que os homossexuais que não tenham tido relações íntimas com outra pessoa durante um ano podem dar sangue.

Nota: não são necessárias condições para os heterossexuais porque os cientistas sabem que é gente que só tem relações sexuais com “outra pessoa” quando o rei – ou no caso a Isabel II – faz anos, ou seja, precisamente uma vez por ano.

Em defesa da lentidão alemã (artigo de opinião)

Sabemos que opiniões não faltam sobre a crise europeia. Esta é mais uma, a meu ver bastante lúcida. De Fareed Zakaria (CNN) (para quem quiser ler em inglês).

Um excerto:

Many argue that Germany should come up with a dramatic solution to the debt problem. Chancellor Angela Merkel is not leading, critics charge. I disagree. Germany has a good reason for being sluggish. It is trying to force countries like Greece to enact meaningful reforms.

The German concern is that if they come up with some dramatic solution to the euro crisis, such as guaranteeing everybody’s debt, financial panic would end but countries like Greece and Portugal would feel no pressure to undertake necessary reforms.

Ler artigo

Tenho, no entanto, a ressalvar que, embora eu concorde que seria sempre necessário em Portugal grande rigor orçamental e eliminação de despesas inúteis no sector público, processo começado pelo governo anterior, mais tarde interrompido pelo pânico da crise do subprime, e depois retomado com os sucessivos PEC até ao chumbo do quarto pela oposição (pelos vistos, para que tudo fosse agravado e rapidamente), o facto de termos o salário mínimo nacional mais baixo da zona euro e de haver uma tentativa séria de qualificar o tecido produtivo do país e de reformar a administração pública (pelo anterior governo) deveriam tornar as condições do empréstimo mais razoáveis. Prazos mais dilatados que impedissem a recessão, a par de um controlo cerrado do corte das despesas. Já quanto às privatizações das empresas públicas estratégicas que não dão qualquer prejuízo, a matéria devia ser discutível.

A meio do artigo refere-se o papel do BCE. E essa questão é igualmente determinante.

Impressionar no desemprego, brilhar na falência, seduzir na miséria

Physicians Who Play Mozart While Performing Colonoscopy May Improve Adenoma Detection Rate
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Religious Arguments Both Damage, Strengthen the Political Process
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Chimpanzee Studies Suggest Human Speech Perception Ability is Linked to Experience; Not a Uniquely Human Trait
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Study Suggests Women Score Low on Tech Aptitude Tests for Lack of Interest
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It Takes Two: Brains Come Wired for Cooperation, Neuroscientist Asserts
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Americans’ Circle of Confidantes Has Shrunk to Two People
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Don’t Worry, Be Happy: Understanding Mindfulness Meditation
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Mathematically Detecting Stock Market Bubbles Before They Burst
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Babies Understand Thought Process of Others at 10 Months Old, Research Suggests
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People Rationalize Situations They’re Stuck With, but Rebel When They Think There’s an out

Vinte Linhas 683

A casa, o rio e o campo na Ribeira de Santarém

O meu pai não tinha sandálias de vento mas, em 1957, pedalava na sua bicicleta noventa quilómetros semanais entre Santa Catarina e Santarém para tirar a carta de ligeiros e pesados passando pelo Alto da Serra, Rio Maior e São João da Ribeira. Trazia batatas, pão e azeite na cesta da bicicleta preta e comprava chicharros no mercado da cidade. Queria poupar no custo das refeições e por isso não as comprava feitas – era ele próprio a cozinhar os almoços e os jantares no fogareiro do quarto cedido pelo dono da escola de condução ali ao lado do automóvel desmontado para as lições de mecânica. Tempos difíceis em que as mulheres da nossa aldeia guardavam os ovos das galinhas para os trocarem na mercearia do senhor Ernesto por açúcar, arroz, massa, café e sabão – ora azul para a roupa ora amarelo para o soalho.

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Tanta, mas tanta vergonha do presidente da minha Ordem

Passa-se por muito para chegar a advogado, no meu tempo era tanto o tempo entregue em diligências inúteis, ou úteis para nos levar à loucura, mas lá se fazia, e um dia o exame final, o exame oral, depois de seis (ou oito?) escritos, depois de sessenta assinaturas de presença em actos processuais, depois da demonstração de dez intervenções (se nos chamassem, coisa insana) em tribunal, depois das oficiosas, depois de três relatórios trimestrais, depois de um relatório anual, tudo ao mesmo tempo que as aulas dadas por incompetentes, três vezes por semana, mesmo que fosse feita a prova de que não nos eram úteis as aulas, porque tínhamos um estágio à séria, num escritório onde nos ensinavam, não senhora, e eu por acaso ainda dava aulas, mas sempre se dirá que a escolha foi minha, pois foi, mas não fosse naquele ano e não haveria mais concursos por anos, tudo isto sem pontos finais, estagiar no escritório, na Ordem, correr atrás de vários tribunais, escrever 60 relatórios, mais os outros, fazer três exames de cada vez, passar a tudo, ter muito bom na oral e dizer a tremer dos joelhos, com um esgotamento, engolindo quatro pacotes de açúcar: sou advogada?
Sou, livra.
Aceitei a exigência do sistema universitário e aceitei por dois anos a exigência louca da Ordem.
Não aceito a falta de exigência do meu Bastonário, que dispara em todas as direcções, sabendo que atirando em todos, nalgum há de acertar, logo alguma audiência terá.
Não aceito o seu corporativismo, não aceito que se substitua às Universidades questionando nos exames, não o que é necessário para se ser advogado, mas o que as Universidades na sua autonomia já certificaram.
Não aceito que diga o que quer invocando a liberdade de expressão, esquecendo os seus deveres deontológicos.
Não aceito que venha à televisão dar conta do seu entusiasmo em cada caso mediático que é por ele mais mediatizado.
É o que está a fazer com Duarte Lima, atrevendo-se a ir à televisão indignar-se com o silêncio do cidadão, não porque o dito não tenha direito a ele, tem, mas porque é uma “figura pública” e o povo angustiado quer vê-lo, ouvi-lo a dar “explicações”.
Não aceito que este homem que por desgraça é meu Bastonário faça com Duarte Lima o que faz com todos os casos mediáticos: desloca o centro da questão para a sua pessoa. E vai dando conta do caso a cada dia: hoje anuncia o que vai fazer quando lhe chegar uma acusação: vai abrir um processo disciplinar, mas “não pretende afastar Lima”, diz o jornal.
Amanhã há mais para quem aguentar mais.

Compinchas

Ter por compincha, correligionário e alto quadro de confiança o Dias Loureiro é uma coisa;
ter por compincha, correligionário e alto quadro de confiança o Oliveira e Costa é outra;
ter por compincha, correligionário e alto quadro de confiança o Duarte Lima é outra;
ter por compincha, correligionário e alto quadro de confiança o Isaltino Morais, outra ainda.
Ter os quatro em simultâneo por compinchas, correligionários e altos quadros de confiança é arte, é gosto refinado, é exigência; uma selecção
gourmet, jamais um acaso.

Aníbal Cavaco Silva

Vinte Linhas 682

Tomás frente ao jardim ao som de «La línea scura» de Ludovico Einaudi

Cabe no teu olhar uma herança invisível que é a de seres o filho mais velho, um pequeno pai para o teu irmão Lucas na permanente preocupação de que ele esteja sempre bem. Que nada lhe falte e nada o assuste – seja em casa, seja no jardim ou seja à beira do mar.

Tens apenas cinco anos, nasceste em 2006 e só agora em 2011 percebes o que é ser o irmão mais velho de alguém, essa obscura tarefa de infinitas preocupações e cuidados, esse trabalho invisível e sem horário pois não se entra às nove para sair às cinco da tarde. É para sempre.

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Inconstitucional, pois claro

Não há constitucionalista que se preze ou jurista em geral que faça sem mais juízos de inconstitucionalidade.
Esta certeza banal adensa-se quando o objecto da nossa análise é um documento que traça, essencialmente, e por natureza, opções políticas legítimas, como é o caso do Orçamento de Estado (OE).
Este diploma é o resultado político de um programa de governo e dificilmente o plano da discussão é colocado no da constitucionalidade.
Mesmo, como é o caso presente, se o OE desmente todas as promessas eleitorais dos seus obreiros. A discussão continua a ser moral, se quisermos, e politica.
Às vezes acontece essa coisa rara de nos vermos perante um documento claramente ofensivo da Constituição. É o caso deste projecto da direita que surprendeu uma multidão pela sua injustiça, pela sua desigualdade, pela sua excessiva austeridade não justificada, pela sua ambição três, quatro vezes para além da troika.
Este sentimento certíssimo que se apoderou de tantos tem uma tradução jurídica e ela é a da inconstitucionalidade das medidas extraordinárias (ou permanentes) previstas para os funcionários públicos e para os pensionistas, confundidos com “desperdícios” ou “gorduras”.
Qualquer jurista sabe que a direita ignorou os princípios da igualdade, da justiça, da proibição do excesso, da razoabilidade e Cavaco sabe, à porta de um evento, que o OE é “iníquo”.
Defendi a inconstitucionalidade destas medidas, que se traduzem num novo imperativo ideológico “o Estado, esse empecilho, é o culpado”, num debate, há dias, na SICN.
Ontem, na Comissão Política do PS, mais uma vez, apelei para a necessidade de trazer para a mesa da discussão com a direita não só a injustiça das medidas atrás referidas como a sua inconstitucionalidade.
Hoje veio a público este manifesto, com figuras de todas as cores políticas e com constitucionalistas que, precisamente, só em casos de gritante inconstitucionalidade é que tentariam levar a quem de direito a repensar as suas opções em matéria orçamental. É o caso de Jorge Miranda.
É tempo de parar, de ouvir e de cumprir a Constituição.
A tempo.

Mensagens que passam

  1. O PS, embora não concordando aqui e ali, não se opõe a este orçamento. E por extensão, a este rumo politico. Faria simplesmente algumas coisas de maneira diferente. Pontualmente, claro, como se verá “na especialidade”.
  2. Há uma razão pela qual as decisões “por comité” após “cuidada ponderação” são universalmente desprezadas e alvo de chacota.
  3. O António José Seguro é um PC.
  4. Se me dissessem, há um mero mês atrás, que Cavaco Silva seria a face da esperança dos cidadãos para moderar a loucura incompetente e irresponsável do PSD de Passos, aconselhava-os a mudarem de dealer.

E porque será, A. J. Seguro?

Eu tenho de liderar um combate em nome do PS contra o Governo – e espero que os deputados do PS estejam comigo. À vezes vejo com preocupação camaradas mais preocupados em ver o que eu faço ou digo do que em combater o Governo”, declarou.”

Fonte

Porque será que há camaradas preocupados com isso que dizes?
Não será porque o que dizes e fazes não combate este governo? Ou porque mais do que aquilo que dizes e fazes, os camaradas estão talvez preocupados com o que não dizes nem fazes, mas devias dizer e fazer, como líder?

Ontem, por exemplo, ouvi num canal de televisão que consideras que todas as consultas – cá e no estrangeiro – que recentemente te têm ocupado foram contributos muito úteis para uma tomada de posição sobre o orçamento (!). Com isto, penso que sim, que deves estar preocupado. Mas não é com os camaradas, é antes com o teu futuro.

Boa tarde

O ladrão não respondeu ao desejo de boa tarde

Do morador que com ele se cruzou na escada.

Colou-se ainda mais à parede, desceu depressa

E sumiu-se veloz no fim da Travessa sem gente.

Boa tarde era para ele uma mochila tão repleta

De relógios, ouro, prata, jóias e casquinhas

Sem esquecer o meu computador portátil

Com poemas, crónicas e imagens desde 2002.

A pressa do ladrão era a carrinha à espera

Uns chegam de Espanha e os outros de Itália.

Das obras do telhado o compatriota avisou

E no domingo à tarde se rasgou o aro da porta.

Quarenta e cinco anos de vida na mochila

Valor sentimental escapa às contas do Banco.

Este postal da Polícia até já está impresso

E avisa não se poder avançar no assunto.

No domingo à tarde a vida fica suspensa

Gavetas pelo chão e móveis arrombados.

Alguém que não conheço violou o silêncio

Do espaço onde meus filhos gatinharam.

O ladrão não respondeu ao desejo de boa tarde

Tinha pressa em chegar a Madrid ou a Milão

Para derreter o ouro roubado na minha casa

Em barra com número de série e contraste legal.

Lá como cá…

A ânsia de «ir ao pote» justifica todas as piruetas. Aquela oposição grega de direita, que há mais de um ano berra contra as sucessivas medidas de austeridade, mal vê uma hipótese de poder, dá uma volta de 180 graus no discurso.

Chegámos aqui com a política do governo (socialista), o novo acordo para a continuação da ajuda à Grécia é inevitável e é preciso garanti-lo”, declarou aos jornalistas Samaras, que até agora se tem oposto às medidas de austeridade adoptadas na Grécia e a qualquer ideia de um governo de união nacional. Apelo à formação de um governo temporário de transição que tem como missão exclusiva a organização de eleições (legislativas antecipadas) e a aprovação do acordo da UE”, acrescentou Samaras, citado pela Lusa.

O acordo sobre a nova ajuda à Grécia “não deve ficar pendente” e a sexta prestação do empréstimo de 110 mil milhões de euros concedido pela UE e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) “deve ser entregue o mais rapidamente possível para que as eleições decorram em condições normais“, afirmou.”

Fonte

Neste caso, imagino as pressões externas, dos EUA à Alemanha e à Grã-Bretanha, sobre uns e sobre outros, de uma intensidade garantidamente equivalente às veladas ameaças de morte sobre dirigentes da América latina que, há uns anos, não respeitavam os cânones nem os interesses da alta finança. Tiveram um triste fim. Como no Equador: http://www.youtube.com/watch?v=G9SaiKfKC8c&feature=player_embedded

Agora os tempos mudaram e, afinal, isto é a Europa, não é?
Não escondo uma certa revolta. Refiro-me também ao abandono do referendo, um expediente dilatório que, penso, não vai impedir que as coisas acabem mal. Até quando vai o povo grego aceitar ser transformado em Sísifo? Eles conhecem bem demais a sua mitologia.