Poul Thomsen foi ao telejornal

Mandado por Gaspar, só pode. Uma passagem tão rápida (será que ainda vai percorrer os outros canais?) que se diria inútil. E a impressão com que fiquei é que não disse nada de jeito, fartando-se de meter as mãos pelos pés, tentando não fugir aos estribilhos do governo, ou aos seus próprios, válidos aqui e em qualquer parte do planeta, que o governo papagueia, nomeadamente que em 2013 vamos crescer e financiar-nos no mercado.
Mas disse também, por exemplo, segundo julgo ter ouvido, que há duas maneiras de os países se ajustarem: ou através de reformas estruturais, ou através do empobrecimento com a baixa de salários. Para ele, Portugal está a escolher a via das reformas estruturais. Ah!
Atendendo ao que disse Passos Coelho sobre a necessidade e a inevitabilidade de empobrecermos, não andará um bocado distraído? Ele e, pelos vistos, o José Rodrigues dos Santos, que o deixou fazer aquela extraordinária afirmação sem o confrontar com o óbvio.

Zona Euro

Portugal apurou-se com gana. Cristiano finalmente atinou na Selecção. O povo faz uma pausa na depressão colectiva. Mas Paulo Bento agravou a sua pulsão matarruana. O que vale é que no futebol qualquer um serve para lançar os dados no relvado.

Um livro por semana 263

«A escrita a postos» de Júlio Conrado

Júlio Conrado (n.1936) além de crítico literário é romancista, poeta e dramaturgo. Publica desde 1963 e neste livro da colecção «Ponte Velha» juntou a novela «Era a Revolução» (1977) e a peça de teatro «O corno de oiro» (2009) além de uma selecção de ensaios dos livros «Ao sabor da escrita» (2001) e «Nos enredos da crítica» (2006).

Começando por falar de si («Fiz crítica por puro prazer, sem nunca ter deixado de produzir ficção e até alguma poesia e teatro. Sempre me sussurraram que isso era contra-natura») Júlio Conrado acaba por criticar o trabalho dos lobbys que «criam uma relação espúria entre edição, televisão, jornais, prémios literários, saltando por cima da opinião crítica responsável, suplementos nos jornais onde a literatura é subalternizada pelo cinema, pelas exposições de artes plásticas, pela dança, etc, pouco cuidado e muitos equívocos na promoção de autores nacionais emergentes, racismo de idades, best sellers de nulidades que trabalham na televisão, coisas assim».

A novela «Era a Revolução» parte de uma discordância pessoal («Nós não acreditamos em indivíduos, acreditamos na História») e desenvolve-se no social: «manifestações em cadeia, petardos, tiros, greves, desavenças entre irmãos, ajustes de contas, velhos ódios de súbito acesos». Há por ali (1974-1975) muito oportunismo («O A. Perneta jamais pôs os pés numa assembleia sindical durante os fascismo») mas alguma esperança: «Odeio todos os déspotas. Por isso, os campónios, revejo-os de carabinas melancólicas nas mãos espiando a materialização da esperança – quem se recorda?»

«O corno de oiro» é uma comédia em 3 actos sobre o tema do marido enganado que junta sete figuras saídas de livros: Ana Karenina, Dom Casmurro, Madame Bovary, O amante de Lady Chatterley, Resposta a Matilde, O primo Basílio e Dona Flor e os seus dois maridos. Depois de recolher ensaios sobre John le Carré, Hélder Macedo, Jorge de Sena e Fiama Hasse Pais Brandão, esta miscelânea conclui: «Língua e literatura não são, todavia, batatas. A personalidade europeia conquista-se a partir da sábia gestão das diferenças e não de harmonizações mais ou menos congeminadas por burocratas nos gabinetes de Bruxelas».

(Edição: Escrituras Editora, Organização e prólogo: Florinao Martins, Capa: Carola Trimano, Direcção: Raimundo Gadelha)

Com tabela ou sem tabela, há que pagar

O Bloco de Esquerda decidiu apresentar uma proposta de legalização das “barrigas de aluguer”.
Reconhecendo a complexidade de redigir os detalhes da hipotética lei, não tenho nada contra, antes pelo contrário, até porque é impossível proibir o recurso a tal método de reprodução, aliás já com bastante procura. Melhor seria que as regras do contrato fossem claras, na medida do possível.

A matéria merecerá sem dúvida o repúdio desta maioria. No entanto, a sua prática prova também que muita gente é totalmente indiferente aos princípios da santa madre igreja em matéria de concepção de seres humanos e que só muito dificilmente se encontrará uma prestadora do serviço que entenda estar a fazer um acto de caridade, pelo qual será recompensada no céu.

“No caso da maternidade de substituição — as referidas “barrigas de aluguer” —, a proposta do BE circunscreve- as aos casos em que haja “razões clínicas” como “a ausência de útero, lesão ou doença incapacitante da gravidez” e recusa “qualquer componente comercial”. Traduzindo: a maternidade de substituição será legalmente aceite “numa base altruísta e a título gratuito”. Quando assim não for, a pena pode chegar a dois anos de prisão ou 240 dias de multa. Afastada a perspectiva comercial, Semedo explica que tal não signifi ca que a mãe de aluguer não possa ser compensada “pela perturbação e prejuízo decorrentes da gravidez, à semelhança das compensações que existem na doação de órgãos para transplante”. (Público, sem link)

No entanto, do que se lê no jornal, parece-me incompreensível, e até ridículo, que se mencione o carácter gratuito e altruista do “serviço”, ainda por cima quando, na mesma proposta, se menciona o direito a uma compensação. Alguém acredita que uma mulher se disponha a prestar esse serviço gratuitamente e por simpatia pelo próximo? Para sermos realistas: e gémeos, não deve ser mais caro?

Só nos saem duques

João Duque foi hoje sovado no Fórum da TSF e saiu de lá prostrado em maca. Nuno Santos, pela RTP, levou-o ao tapete. E depois apareceu António Pedro Vasconcelos para um exercício de pura carnificina. Mas o espantoso é que Duque merecia levar mais, muito mais. Esta figura que se notabilizou na SIC por difamar o Governo anterior, fazendo parte da legião de comentadores cuja única agenda era espalhar o pânico e promover o ódio, aceitou liderar um grupo de trabalho numa área em que não percebe patavina de nada. Está ao nível de qualquer outro cidadão que se limite a consumir televisão desde que nasceu. Todavia, foi para a cabeça deste grupo apenas munido dos seus preconceitos e raivas de estimação para despachar um documento onde a ignorância compete com o delírio.

O que tresanda no Relatório é o asco à possibilidade de existir um espaço informativo imune às escolhas dos donos dos grupos de comunicação social. Pelos exemplos dados na TVI do casal Moniz e na SIC de Balsemão, onde se fez e faz manipulação da informação ao serviço de interesses partidários, fica claríssimo o intento de entregar aos critérios privados de conjuntura a ocupação do espaço noticioso e opinativo. Isso choca tanto com a percepção da genérica isenção da informação na RTP e RDP como com os benefícios sociais e culturais que essas empresas também geram naquilo que é um verdadeiro serviço público especificamente pelos produtos jornalísticos os mais relevantes e eclécticos.

Toda a actividade deste grupo de reflexão, começando na escolha do elenco e acabando na sua desautorização ministerial ainda antes de ter terminado o trabalho, é um exemplo crasso da anedota em que consiste a elite intelectual da actual direita partidária.

Vinte Linhas 688

Dissertação para uma fotografia a verde e branco (a Mário Lino)

Em 1954 não havia já o Relvão da Doca mas o amor à camisola continuava na «mais bela pequena cidade do Mundo» – como escreveu, para sempre, o poeta Pedro da Silveira. Havia três clubes de futebol na cidade da Horta: Fayal Sport Clube, Atlético da Angústias e Sporting da Horta. A rivalidade no campo era uma semanal tempestade de emoções. Vejamos os nomes dos rapazes. No primeiro plano da esquerda para a direita: Manuel Lima, Fernando Morisson, João Rodrigues (cap.), Manuel Gaspar e Eduíno da Costa. No segundo plano e da esquerda para a direita: António Almeida, Manuel Maria, Josué Canário, João Cardoso; Antero Lino, António Jorge e Mário Baptista. Havia o atletismo, o hóquei em patins, o teatro, a música, os espectáculos de variedades. Cada figura uma história. Antero Lino é o irmão Mário tal e qual. Dois anos depois os dirigentes do Lusitânia compraram a carta de desobrigação de Mário Lino por 15 contos e Antero desejou-lhe felicidades num abraço apertado. As viagens eram de barco, tudo era longe e Mário Lino viria a desfilar na pista com o estandarte dos verdes de Angra na inauguração do estádio José Alvalade em 1956. Passada a Instrução primária da Horta, completado o Liceu em Angra, Mário viria para a Universidade de Lisboa. Universidade do futebol, entenda-se, com direito a pós-graduação, mestrado e doutoramento.

Que será feito dos sonhos destes rapazes de 1954? Entre emigração, cabo submarino, escritórios e oficinas, quem sabe da monotonia dos dias quebrada pelos desafios de domingo à tarde? Quem os guardou, quem escondeu os sonhos dos rapazes da camisola verde e gola branca? Onde está a Zézinha e as meninas do Liceu da Horta com os ramos de flores à espera dos campeões? Quem mandou o telegrama a anunciar que podem chamar as filarmónicas?

Num café perto de si

Estrela Serrano fez um micro ensaio que, no fundo, radiografa a sociedade que somos: BPN e Face Oculta: veja as diferenças

Esta matéria pede uma sumária introdução: a ideia de que a corrupção é generalizada tem não apenas anos e décadas, antes séculos e milénios. Desde que há registos escritos que podemos ler escribas a queixarem-se do seu tempo presente, o qual constatam estar cheio de maleitas e sofrimentos, e a bendizer um qualquer passado mais ou menos distante onde tudo teria corrido às mil maravilhas e a malta era feliz ou, no mínimo, teria vergonha na cara. Por isso se fantasiaram idades de ouro nos antanhos, paraísos perdidos, Atlântidas afundadas, Shambhalas no cu de Judas. Enfim, as saudades da infância são uma característica antropologicamente universal em todos os tempos e lugares. Se os animais falassem língua de gente, não diriam outra coisa.

A problemática da corrupção em Portugal também não poderá ser tratada olvidando a existência dos cafés. É que basta frequentar esses antros de cafeína e duvidosa pastelaria para sermos inelutavelmente doutrinados acerca da tipologia e extensão da corrupção pátria. Até se revelam à boca cheia de migalhas as percentagens que os patos-bravos têm de pagar aos fiscais das câmaras para que os projectos avancem sem demoras (é o mesmo valor de Norte a Sul, está tabelado). Esta corrupção é entendida como uma taxa, mais uma, e ninguém denuncia ninguém sob pena de ficar com as obras futuras entaladas no marasmo burocrático que existe precisamente para justificar a tal taxa por baixo da Lei e do imposto. Do mesmo modo, as pequenas corrupções que vão das cunhas para empregos a cunhas para intervenções clínicas, passando pelas cunhas para as cunhas, são vistas como a natureza das coisas que ninguém considerado adulto é suposto contrariar se quiser tratar da sua vidinha. Há, pois, razoáveis expectativas de que aquilo que é ensinamento corrente nos tascos seja igualmente do conhecimento das polícias, dos magistrados, dos deputados, dos governantes, da maioria dos padres e até de um ou outro Presidente da República.

Continuar a lerNum café perto de si

Aceitam-se sugestões de nomes

Que tal aproveitar a maré de substituições de governantes eleitos por governantes tecnocratas não eleitos e correr com Merkel? Qualquer economista, ex-comissário, ex-governador, etc. que tenha uma visão correcta e benéfica para a Europa do que deve ser o papel do BCE fará melhor trabalho do ques esta frau, com a vantagem de, também na Alemanha, não ter de dar satisfações ao eleitorado nem estar por ele condicionado.

Este novo método bizarro de suspensão da democracia parece não suscitar, para já, grande contestação das populações. Devia era aplicar-se a todos. O eleitorado alemão e as preocupações da senhora Merkel com esse mesmo eleitorado não estão a ajudar em nada a Europa a sair da crise. Assim sendo…

Impressionar no desemprego, brilhar na falência, seduzir na miséria

Extreme Antisocial Personality Predicts Gang Membership, Finds Study Based On Survey of Male Prisoners
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Volunteering, Helping Others Decreases Substance Use in Rural Teens, Study Finds´
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Body Posture Can Influence Decision-Making
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Children’s Spatial Skills Improved By Learning Spatial Terms
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“If I’m Scared, So Are You.” Study Reveals How Fear Impacts Stock Market Decisions
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Physical Functioning Declines More Rapidly Among the Poor
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Breakthrough Scientific Discoveries No Longer Dominated by the Very Young
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OMEGA-3 Reduces Anxiety And Inflammation In Healthy Students
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More Facebook Friends, Fewer Real Ones, Says Cornell Study

Um livro por semana 262

«Averbamento» de Paulo da Costa Domingos

Em 1986 assinei na Revista Seara Nova o artigo «Poesia Portuguesa anos 80 – algumas direcções» no qual me referia a Paulo da Costa Domingos e à sua poesia. Tal como em Asfalto, 4, Patchwork e Violeta Náutica, a sua poesia actual não hesita em chamar as coisas pelos seus nomes: «Havia que cumprir objectivos: / estudar, casar, inscrever num partido/ arranjar emprego. Ou melhor: / inscrever num partido para poder / estudar, casar, arranjar emprego».

Quem escreve «deportado pelo novo regime ortográfico» sente-se «expulso do coração da fala» e só pode repudiar as «Hordas despojadas de privacidade / a troco do holograma do acesso / a um nirvana de crédito, órfãos / em permanente estado de fome / à espera de acolhimento / num patrão».

Quando o real não anda nem desanda («A igualdade não fez de nós / indivíduos: transformou-nos numa frota») então a única saída é quando «Julga-se que a lógica é / salvar os ricos e esperar/ que eles deixem cair / dos seus sacos a abarrotar / de dinheiro, algum / na praça pública.» Ou dito de outra maneira: «Talvez por decreto d´óbito e / acordo da cristandade e dos outros / ela morra: a economia de mercado.»

Impresso na cor e nas linhas do velho papel selado, o livro exercita um contraponto da prosa perante a poesia: «Pouco ou nula lealdade nos obrigamos ou nos é exigida fora de recintos (e selectivamente) como a pátria, o clube desportivo, o apego à família. As epidemias talvez passem ao lado: o emprego, garante máximo do futuro, resta assegurá-lo sem fazer ondas.»

(Editora: & etc)

Vamos lá a saber

O que é que, exactamente, se deve dizer a um marmanjo, este marmanjo, que diz isto:

“Os militares têm a tendência para estabelecer um determinado limite à actuação da classe política”. Esse limite, considerou, foi ultrapassado em 1974 e culminou com a “revolução dos cravos”.

Hoje, Portugal está “a atingir o limite”, disse, corroborando o que há seis meses dissera à Lusa: “Se soubesse o que sei hoje não teria possivelmente feito o 25 de Abril”.

O coronel na reserva acredita que há condições para os militares tomarem o poder e vai mais longe: “bastam 800 homens”.

Em comparação com o golpe de 1974 – do qual afirma ser um “orgulhoso protagonista” –, Otelo considera que um próximo seria até mais fácil, pois “há menos quartéis, logo menos hipóteses de existirem inimigos” da revolução.

Otelo

Chamem o Freud e tragam o Adler

Tenho para mim que os ódios de estimação ao Sócrates seguiram de facto um trajecto muito mais simples do que geralmente se supõe, passando sobretudo pela constatação da sua capacidade de debate — bem visível na AR e nas entrevistas televisivas — e sua resiliência no poder. Daí as campanhas dos humilhados e ofendidos (pela superioridade e boas maneiras alheias) que pela sua intensidade invulgar acabaram por recrutar muitos patetas.

Uma citação realmente de gargalhada, sobretudo para quem se lembrar das passagens da ministra pelas entrevistas do Crespo, nos tempos mais intensos da caça ao homem. Mas o mais interessante de tudo são os transes de alucinação histérica que a sugestão de presença — mesmo fantasmática — do Grande Satã continua a despoletar nalguns comentadores, agora, ao que parece, como uma espécie de catarse frente ao coelhismo castigador que lhes vai ao bolso. Chamem o Freud, depressa!

Oferta do nosso amigo Conde Zaroff

A minha declaração de voto sobre a proposta de lei do OE para 2012

“De acordo com o Regulamento do Grupo Parlamentar, estou sujeita a disciplina de voto em determinadas matérias essenciais, como é o caso da votação da proposta Lei do Orçamento do Estado.
Este dever é mais forte, quando o sentido de voto pela abstenção resultou de uma votação democrática em sede de Comissão Política.
Apesar de compreender a racionalidade subjacente à abstenção do PS, não adiro à mesma senão por disciplina de voto.
Fosse possível a liberdade de voto e votaria sem hesitação contra a proposta de Lei do Orçamento de Estado para 2012 pelas razões que se seguem:
Em primeiro lugar, do ponto de vista político, Portugal não perde credibilidade externa sem a abstenção do PS, já que o Governo tem um apoio parlamentar maioritário;
Por outro lado, o voto contra do PS seria um voto a favor do respeito pelo memorando da TROIKA, do consenso nacional e internacional vertido nesse compromisso, revogado, rasgado e esquecido por uma maioria governamental que suporta o Governo que foi eleito para registar numa proposta de Lei do Orçamento de Estado uma fraude sem precedentes aos seus compromissos eleitorais;
Este Orçamento de Estado não é, assim, o cumprimento do memorando da Troika. É um exercício voluntarista de experimentação de um liberalismo ultrapassado que levará Portugal à maior recessão de que podemos ter memória (veja-se a crença infantil nos méritos da flexibilização laboral).
Podendo, votaria contra a lei que consegue não ser apenas o resultado político de um programa de governo, caso em que a discussão se coloca no plano da política, da moral e da legitimidade.
Neste caso não: acontece essa coisa rara de nos vermos perante uma Lei do Orçamento de Estado claramente ofensiva da Constituição. Quando ainda era projecto, surpreendeu uma multidão pela sua injustiça, pela sua desigualdade, pela sua excessiva austeridade não justificada, pela sua ambição três, quatro vezes para além da Troika.
Este sentimento certíssimo que se apoderou de tantos tem uma tradução jurídica, e ela é a da inconstitucionalidade das medidas extraordinárias (ou permanentes) previstas para os funcionários públicos e para os pensionistas, confundidos com “desperdícios” ou “gorduras”.
Qualquer jurista sabe que a direita ignorou os princípios da igualdade, da justiça, da proibição do excesso, da razoabilidade e o Presidente da República sabe que o Orçamento de Estado é “iníquo”.
Defendi a inconstitucionalidade destas medidas, que também se traduzem num novo imperativo ideológico “o Estado, esse empecilho, é o culpado”, no dia 28 de Outubro na SICN num debate com o Professor Jorge Bacelar Gouveia.
No dia 4, fomos surpreendidos por um manifesto alertando exactamente para a inconstitucionalidade das medidas atrás referidas, com a fundamentação baseada nos tais princípios que fazem o Estado de direito. É um documento impressionante, porque se tantos de nós, juristas, constitucionalistas ou não, tínhamos por certo que o previsto para os funcionários públicos e pensionistas viola a Constituição, raro é essa certeza ser tão revoltante que se produza um documento assinado por gente da direita à esquerda e por constitucionalistas “cautelosos” como o meu primeiro Professor, o Professor Jorge Miranda.
Em suma, sou socialista, sei que os cortes na saúde e na educação são ideológicos, sei que este Orçamento de Estado é um atentado ao Estado de Direito, sei que são os obreiros desta lei que quebraram os nossos compromissos internacionais, pelo que se pudesse votaria contra a proposta de lei do Orçamento de Estado para 2012.
Sirva esta declaração para expressar a minha consciência e convicção, não exteriorizadas por força da natural e desejável, nesta e noutras matérias, disciplina de voto.
A Deputada,
Isabel Moreira”

Vinte Linhas 687

Dissertação sobre a memória dolorosa de um tempo que passou

Cheguei muito cansado ao alto desta calçada depois de uma manhã passada à procura de raridades na Feira da Ladra. São coisas que ajudam a entender uma certa memória do meu tempo de jovem. São revistas, programas de teatro, jornais, fotografias de artistas de cinema desse tempo, uma memória de papel. Recorto e colo em cadernos.

Mas há outras memórias. São fortes como quistos, são negras como papilomas, agarram-se à pele e fazem sofrer. Eu tinha sete anos de idade. Um dia na Rua da Verónica estava um grupo de rapazes a jogar à bola. Passavam poucos automóveis, era o tempo da II grande guerra, a gasolina estava racionada e havia táxis a gasogénio. Essa era a alcunha de um jogador que veio dos Açores para o Benfica e, visto ao longe, parecia um automóvel com o seu depósito de gasogénio. Era o Teixeira. Estava eu distraído com o jogo quando um polícia apareceu e me levou para a esquadra. Os miúdos foram dizer ao meu pai e, passados alguns minutos, lá apareceu ele. Identificou-se perante o agente da PSP que lhe fez continência e me deixou em paz. Não houve multa. O meu pai era militar de carreira e o polícia não quis alimentar conversas. Passado poucos dias eu cheguei à Escola e disse ao director: – «Bom dia senhor director!» A resposta da cavalgadura foi uma estalada que me deixou marcas no rosto até ao fim do dia. O canalha queria que eu fizesse a saudação nazi com o braço levantado. Era o tempo da guerra e aquele porcalhão era germanófilo. O meu pai soube do caso por uma vizinha mas não fez nada. Ao contrário do polícia (um pobre diabo) o director da Escola (um pulha) ficou sem punição. Hoje subo a calçada e olho para esses momentos dos meus sete anos com um repúdio feito de ódio, rancor e ressentimento. Não lhes posso perdoar.