TGV, aeroporto, esta direita extraordinária

TGV e novo aeroporto? Estas são as obras que causam dúvidas ao Governo.
Estas são as obras que foram pensadas por Sócrates (quanto ao aeroporto, tentando corajosamente dar seguimento a uma evidência evidenciada desde M. Caetano) e que foram usadas como duas das principais armas contra o PS.
Não se tratou apenas de um debate saudável entre oposição e Goveno.
Não. Estes dois casos foram trabalhados pela máquina laranja para fazer dos mesmos actos coisas dignas de comédia, de estupefacção e, depois, de indignação.
O povo português deveria presumir que, se um dia o Governo PS projectou um novo aeroporto e um TGV foi, com toda a certeza, por loucura ou, quem sabe, ao serviço de interesses obscuros.
À frente da sua estratégia de dissiminação da desconfiança, apareciam umas cabeças inteligentíssimas a propor coisas geniais que não haviam ocorrido a ninguém, sabendo os iluminados que o cidadão comum não tinha como dar pela ilegalidade de tantas propostas, nomeadamente à luz do direito comunitário.
Pois é, nem toda a gente sabe que não podemos obrigar sem mais certas companhias a aterrarem onde nos apetece porque queremos prolongar um nadinha a Portela.
Foi uma campanha suja enquanto do outro lado se foi avaliando a evolução da situação finaceira e tomando à medida dela decisões adequadas, a tal da evolução financeira que a direita adivinhou a título póstumo, depois de aprovar três PEC(S).
Na verdade, qual é o espanto?
Estamos entregues a quem se abraçou à extrema esquerda a babar-se pelo poder, os mesmos que cairam nesses braços para mancharem a nossa civilização com o enriquecimento ilícito.
Estamos entregues a batoteiros, demagogos e a gente com falsas amnésias.
É uma direita extraordinária.

Açambarcamento de cérebros

 

No mundo inteiro, há apenas um punhado de pessoas que percebem o que é este gráfico aqui em cima, apesar de sermos todos afectados por ele. Este gráfico é o resultado de um algoritmo, um programa de computador desenhado para os mercados financeiros e lançado nos sistemas informáticos que os controlam. O que é que está a fazer e com que objectivo, apenas quem o lançou sabe dizer, todos os outros, mesmo os especialistas, não têm a certeza. Mas sabem que está a fazer várias operações de compra e venda por segundo, e como este há milhares a correr todos os dias nas bolsas e mercados mundiais. Desde 2005, pelo menos, que há uma espécie de corrida às armas no mundo financeiro para tornar estes programas mais rápidos e mais inteligentes, ao ponto de neste momento as operações serem tão rápidas que a própria distância entre computadores faz diferença. A velocidade da luz já não chega quando se medem as operações em nanosegundos.

No entanto, para que tal seja possível, as instituições financeiras precisam de talentos. Muitos e grandes talentos. Este tipo de instrumentos requerem algumas das mais brilhantes mentes matemáticas e analíticas que existem para os criarem e aperfeiçoarem. Este é um aspecto pouco discutido quando se fala do peso excessivo que hoje os bancos,  financeiras e hedge funds têm na economia. O facto de moverem enormes somas de dinheiro, e poderem por isso pagar salários muitíssimo acima da média, dá-lhes também uma vantagem injusta na atracção de talentos em comparação com outras industrias e instituições. Afinal, entre a investigação científica num instituto ou num centro de pesquisas e a construção de instrumentos financeiros complexos na banca de investimento ganhando 10 ou 20 vezes mais, não há verdadeiramente escolha. Por duas vezes o salário, muitos destes talentos pensarão realmente o que querem da vida. Por 10 vezes, a decisão é óbvia. E a perspectiva destes enormes ganhos funciona também nas escolhas académicas de muitos jovens universitários. Não sei quantos deixaram carreiras na física, astronomia, biologia e outras ciências para ingressarem no mundo financeiro, atraídos pelo irresistível poder do (muito) dinheiro, mas não é desprezível, e os resultados estão à vista: uma indústria financeira com instrumentos tão intrincados e complexos que ninguém, verdadeiramente, os compreende. Muito menos os regula eficazmente. Porque foram pensados e construídos por génios.

Este é apenas um aspecto, se calhar marginal, da ameaça que se tornou o sistema financeiro. Não devemos ser contra ele por princípio, como os comunistas e a esquerda pueril. Como alguém disse, e bem, os bancos são o óleo que permite que as engrenagens da economia de mercado funcionem sem atritos. São um orgão integral e essencial da nossa sociedade sem o qual esta não vive. Mas se o orgão cresce demasiado, assume demasiada importância e peso, consome demasiados recursos, e não só financeiros, asfixiando todos os outros, temos então que reconhecer uma coisa simples: estamos na presença de um tumor. E a imagem acima deixa de ser um gráfico, para passar a ser uma tomografia.

Acabou o tempo das ilusões?

Quando Cavaco disse que ‘acabou o tempo das ilusões’, muitos interpretaram a frase como mais uma crítica ao Governo de Sócrates. Mas tempo de ilusões assenta que nem uma luva na campanha eleitoral do PSD. Assim de repente, não estou a ver tempos mais ilusórios. O PSD criou a ilusão, na qual muitos acreditaram, de que bastaria substituir Sócrates por Passos para a credibilidade perdida do País ser reconquistada. Destacados membros do partido iludiam ao afirmarem que mal o PSD chegasse ao poder os mercados tornar-se-iam dóceis, os juros dariam um trambolhão, enfim, a crise, que então era só nossa, ficaria resolvida em três penadas. O próprio Cavaco, durante a campanha das Presidenciais, criou a ilusão da descida das taxas de juro com a sua reeleição. Ao contrário do PS, o PSD tinha tudo estudadinho, centenas de pessoas competentíssimas trabalhavam dia e noite para que Passos pudesse prometer como prometeu que, para além de pôr as contas em dia, iria pôr a economia a crescer, pois, para este mago da Economia, sem crescimento não fazia sentido a austeridade.

Claro que com a vitória nas eleições acabou o tempo daquelas ilusões, mas a direita não perdeu tempo e já trabalha afincadamente na criação de outras. Por exemplo, ontem, na Quadratura do Círculo, Lobo Xavier garantiu que, afinal, nos próximos tempos será impossível pôr a economia a crescer. Chegou a dizer que o PS devia ter na cabeça uma coisa mágica quando falava em crescimento. Criando assim a ilusão de que o actual Governo nunca poderia ter prometido tal coisa. E o Pacheco percebeu, finalmente, que a crise é internacional, e é tão grave que prevê que se prolongue por vários anos. Criando outra ilusão, a de que se o nosso pobre Governo falhar não será por culpa própria mas do que se vier passar no exterior. Quem diria.

Nem as ilusões são um exclusivo de Sócrates, pelo contrário, a direita poderia dar-lhe lições, nem o seu tempo acabou.

Elogio de PSP (II)

Não sou tia, nem prima, nem filha, nem mãe, nem conhecida deste homem, mas, mais uma vez, aqui lhe rendo homenagem e lhe deixo o meu elogio, dando a ouvir a entrevista que deu hoje à Antena 1 e à qual cheguei via o blogue Sem Embargo. Com classe e de forma absolutamente clara, responde a uma série de questões que não passam de insinuações e desinformação do actual governo e que praticamente ninguém questiona/desmente. Parabéns também à Maria Flor Pedroso.

Entrevista audio

Razão e baixa política

O Plano Estatégico dos Transportes (PET) será hoje apresentado pelo ministro Álvaro na Assembleia.
Segundo o Jornal de Negócios, “Com o projecto do novo aeroporto de Lisboa adiado e com o objectivo de proteger a Portela da degradação mais acelerada, o PET prevê que o tráfego das companhias aéreas de baixo custo seja “transferido para outro aeroporto de Lisboa”, admitindo-se as pistas de Alverca e Alcochete como as melhores hipóteses.”
Pelo que tenho lido ultimamente, as companhias “low-cost” andam a pressionar a ANA para obterem o local ideal para aterrar – a Portela, o que leva a TAP a barafustar bastante alto. Deduzo, por isso, que a matéria seja urgente, nomeadamente para a Ryan Air, e que a solução não possa esperar, digamos, três ou quatro anos.
Quando se discutiam, há uns anos, as localizações para o futuro aeroporto, ficou bem claro que Alverca nunca poderia ser alternativa para uma solução Portela+1, dada a coincidência das rotas de aproximação e descolagem com as do aeroporto da Portela. Afinal, porque está Alverca em cima da mesa agora?
E Alcochete? Tem condições tal como está? Que obras serão necessárias? E how much?

Também se fica a saber, por um artigo do Público, que o TGV avança praticamente nos moldes em que o governo anterior o previu, subtraída a nova estação de Évora, desenhada por Souto Moura. (Diz o Público “O Governo avança, assim, com um projecto que mantém, no essencial, o que já estava assinado por Sócrates com o consórcio Elos, que ganhou a concessão do troço de alta velocidade Poceirão-Caia. A linha será construída para suportar comboios que viajam a 350 km/hora,… “.)
O que diziam estas criaturas que agora estão no governo da construção da linha do TGV! A ordinarice em política, pelos vistos, compensa.
Seria bom que o líder da oposição deixasse a “elegância” de lado e o antagonismo ao anterior governo (o que, aliás, o deixa numa situação algo repugnante e insustentável), porque, em primeiro lugar, não se deve ser elegante com gente mentirosa e sem qualquer tipo de escrúpulos e honestidade e, em segundo, porque o governo anterior estava certo em TUDO – seja na resistência a uma subjugação à Troika, seja nas diligências junto da UE, seja na contenção racional das despesas (adm. pública, saúde, educação), seja no ritmo, repito, no ritmo das reformas, seja nos investimentos públicos, seja na aposta na ciência e na educação, seja no modo de promover as exportações, enfim. Tudo.

O maioral de Portugal

Nós, os ingénuos, ficamos perplexos com o deserto de publicações – monografias, ensaios, meras divagações – a respeito do Cavaquismo. Nem académicos, nem politólogos, nem curiosos, muito menos jornalistas, ousam verter um linha que seja na investigação e análise metodológica do fenómeno político mais longo, e mais influente, após o 25 de Abril. É um ciclo que já ultrapassou os 25 anos, o qual subsume as matrizes que passaram intactas do Estado Novo para o regime democrático. Compare-se com o panorama norte-americano, mutatis mutandis, onde todas as semanas sai um livro acerca de Obama. Este silêncio generalizado reflecte um efeito do próprio Cavaquismo, o resultado de uma cascata de censuras e, acima de tudo, auto-censuras.

Contudo, tendo a esquerda, especialmente a extrema-esquerda, tantos professores universitários e jornalistas sabidos nos seus bornais, a situação atinge o nível do escândalo – ou, então, o do absurdo. Que estará a impedir aos fogosos revolucionários e impantes defensores do povo a dissecação de uma força tão poderosa como aquela que Cavaco Silva exibe e frui? Não faço ideia. Mas constato a factual proximidade entre o Cavaquismo e o comunismo português. Por um lado, houve eleitorado comunista a votar Cavaco para as presidenciais. Por outro, o PCP nunca hostilizou o boliqueimense desde que este entrou em Belém, nem sequer aquando da Inventona das Escutas. Neste quadro não podem faltar as declarações dos cavaquistas a apelarem a uma coligação PSD-CDS-PCP para derrubarem Sócrates no frenesim que antecedeu e envolveu o chumbo do PEC IV. O argumento sustentava que os comunistas eram sérios como eles… Ou seja, cavaquistas e comunistas estariam bem uns para os outros, conheciam e respeitavam as mesmas regras; o mal estava com aqueles que pretendiam aplicar regras novas.

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Um livro por semana 255

«A Monarquia do Norte» de Rocha Martins

Esta obra em dois volumes corresponde à reedição actual do trabalho do jornalista Rocha Martins (1879-1952) que era vivo ao tempo dos acontecimentos e entrevistou alguns dos protagonistas duma época em que se tentou de novo estabelecer a Monarquia em Portugal. Em 19 de Janeiro de 1919, um grupo de militares e civis, chefiados por Henrique Paiva Couceiro, proclamou a República no Porto. Paiva Couceiro estava contra as atitudes internacionalistas dos Governos da I República e avançou com um grupo de conservadores, ex-republicanos e monárquicos para uma acção que definiu como patriótica e nacionalista. O rei D. Manuel II nunca sancionou nem incentivou essa revolta. Esse foi um dos factores que contribuíram para a derrota de Paiva Couceiro e, a prazo, para a ascensão ao poder do Partido Democrático.

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Aqueles que os deuses amam

Hoje, se alguém morre aos 70 anos, podemos ouvir dizer que morreu novo. Morrer aos 56 é morrer na segunda ou terceira juventude. E quando se é genial, é morrer na infância.

Não devia haver no Mundo um só médico, especialista, equipa de médicos, equipa de especialistas, magotes de prémios Nobel que não largassem tudo para ir a correr tentar salvar Steve Jobs. E nem seria pelo dinheiro, ilimitado, à disposição para a investigação, tratamento e recompensa. Seria pela imperdível oportunidade de entrar na História junto de tão icónica figura da cultura popular global no auge da sua produtividade e influência.

O desaparecimento prematuro daqueles que os deuses amam humilha a nossa necessidade de sentido. A nossa necessidade de sentido, porém, devia sentir-se ainda mais humilhada por não conseguir sequer despertar um mísero olhar de curiosidade a esses mesmos deuses amadores.

Palavras para quê?

É um artista português … do PSD. Logo, é sempre necessário clarificar, interpretar, corrigir, desmentir. Mesmo que se ocupe um lugar respeitável no FMI.

Segundo o Público de hoje (sem link) “Numa conferência de imprensa realizada em Bruxelas, Borges fez declarações que foram entendidas pelos jornalistas presentes como uma disponibilização do FMI para, quando o reforço dos poderes do Fundo Europeu de Estabilização Financeira estiverem em vigor, colaborar na tentativa de ajudar a Itália e a Espanha a evitar o contágio proveniente da Grécia, comprando dívida. O FMI pode “investir em conjunto com o FEEF”. “Estaríamos certamente prontos para desempenhar esse papel”, afirmou António Borges, citado pela Reuters. […] No entanto, mais tarde, António Borges, ex-vicegovernador do Banco de Portugal, emitiu um comunicado com o objectivo de clarificar os seus comentários. Aqui, já assinalou que “o fundo apenas pode emprestar os seus recursos aos países e não os pode usar para intervir directamente nos mercados”, acrescentando que o FMI “não está a contemplar qualquer envolvimento no mercado com o FEEF”.

Um homem desconfiado

Cara Isabel Moreira,

Todos os dias e quase a todos os momentos que Cavaco e actuais ministros abrem a boca é, para bom entendedor, uma tentativa irracional de apagar a obra de Sócrates. Esse facto, sem mais, marca uma forte presença iniludível do anterior PM, pois o acto em si de tentar apagar, riscar, rasgar, amesquinhar, destruir, vulgarizar e apequenar as obras emblemáticas deixadas pelo governo anterior vão fazer que elas possam voltar a ser comparadas com o que faz, ou pretende fazer, o actual governo e desse modo renasçam das cinzas onde as querem enterrar. E um dia breve, brevemente, não havendo nada em troca para dar aos portugueses contra a destruição pura e simples, farão que o povo as relembre e constate que afinal aquele fazia e estes limitam-se a destruir e arrasar tudo sem contrapartida.

Cavaco é um homem sem chama nem qualquer espécie de carisma, ousadia ou coragem para estar à frente dum país com as dificuldades actuais. Recentemente voltou ao velho argumento de que dissera o que só agora disse: que se devia ter pedido ajuda muito mais cedo. Isto é, que se devia ter desistido de lutar à primeira dificuldade. Este homem em vez de ser um comandante-chefe à frente do país a lutar para evitar uma qualquer troika a mandar no país, preferiu ser o comandante-chefe e o estado-maior da luta para derrubar o governo legítimo da República.

Um presidente a sério e arguto teria visto logo que o pedido de ajuda externa era o último recurso e que esse tinha sempre à mão de usar. Que era preciso lutar por outra solução que evitasse a tal ocupação por uma qualquer troika. Mas o presidente ao dever de ousadia e argúcia na defesa do país preferiu a rendição: preferiu cair de joelhos a cair de pé.

Agora que tudo vai de mal a pior, começa a estar novamente acagaçado, e não tarda começará a sacudir responsabilidades. Este presidente só tem astúcia para a manhosice que é filha e alimenta-se da ignorância ao contrário da argúcia que nasce da inteligência.

Aqui, no Algarve terra de Cavaco, a uma pessoa com tal carácter nós chamamos um homem desconfiado. E de um desconfiado todo o mundo joga à defesa com um pé atrás.

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Oferta do nosso amigo josé neves

Balada triste do Bairro Alto

Meu Bairro, terra queimada
Campo de batalha perdida
Minha lágrima tão isolada
A quem não respeita a vida

Viver era uma aventura
Hoje o medo é distribuído
Sacos cheios de amargura
Passam, não deixam ruído

São Bombeiros Sapadores
Câmara, Junta e E.M.E.L.
Que se curvam os senhores
Para nos darem taças de fel

Quando os dísticos trocados
Veio a E.M.E.L. ao lugar
E fomos todos burlados
Passar não é estacionar

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Pergunta ao Governo

Agora que a direita descobriu que os factores da crise têm origem internacional e que não são pregos orgulhosamente sós; agora que já podemos falar nos mercados e assim, por que é que apesar das palavrinhas da senhora alemã, toda a gente fala na Grécia e quase não fala na Irlanda?
Então e os mercados e as taxas de juro e o crescimento?
Ficamos pelo elogio da Senhora?

Cavaco deixa aviso a todos aqueles que se encheram no BPN e na Madeira

Durante alguns anos, foi possível iludir o que era óbvio, pese os avisos que foram feitos dos mais diversos quadrantes.

Perdemos muitos anos na letargia do consumo fácil e na ilusão do despesismo público e privado.

Acabaram os tempos de ilusões.

Não podemos agarrar-nos a soluções fáceis que a realidade depressa irá desmentir.

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Intervenção do Presidente da República na Enésima Cerimónia de Comemoração da Rambóia Cavaquista

Agitação institucional

Com as vacinas em dia, leiamos este artigo de Vasco Graça Moura no DN de hoje, do qual aqui transcrevo estes sugestivos parágrafos:

Os problemas imediatos da Europa e de um país falido como o nosso não se resolvem com cortejos da ideologia desfilando nas ruas e avenidas e movimentos de massas. Tão pouco se resolvem com bloqueamentos do aparelho de Estado cujos resultados só podem ser negativos.
Como a situação vai piorar, as reacções corporativas tendem a agravar-se. Se não houver autoridade, rapidamente se chegará a uma situação de desregramento e conflitualidade social de consequências imprevisíveis
.”

Não vou sequer mencionar o quão imposssível teria sido este artigo há uns meses, nem o aproveitamento que a direita fez na anterior legislatura das manifestações de rua e o quanto estas lhe convieram. Como já percebemos, essa é a desfaçatez característica de gente politicamente rasca.
Mas acontece que este governo e os seus fanáticos admiradores estão manifestamente a descontrolar-se no que respeita à agitação social. Revelam-se mais agitados do que os poenciais agitadores. Será mesmo assim?

Na Universidade de Verão do PSD, Passos decidiu introduzir o tema da potencial contestação no seu dircurso de encerramento, aparentemente a despropósito, pois, na altura, até Jerónimo e a CGTP se encontravam a banhos! De novo o brandiu em intervenções na Assembleia e noutros locais públicos. Muitos dos comentadores televisivos seus apoiantes não largam o espantalho.

Ora, em matéria de protestos, a única coisa que constatámos até agora (além das três dezenas de professores não colocados que invadiram, sem o Mário Nogueira, o ME) foi a manifestação da CGTP no sábado passado, um evento que, em termos relativos, tendeu para o pindérico.
Não sei se é burrice ou se existe algum desígnio neste aparente esforço de convocação – provocação? – das, digamos, forças do mal. A pergunta mais directa e extrema que me ocorre fazer é a seguinte: será que pretendem mesmo impor um regime de ditadura, servindo-se para isso da agitação social, desejada, mas que, pobres coitados, tarda? Gente! Mais de 50% dos eleitores votaram em vocês, ainda por cima avisados das medidas “duras”! Não devia esse dado apaziguar-vos?
O facto é que, seja inépcia, seja estratégia altamente sofisticada, esta linha de actuação deixa-me, depois de perplexa, inquieta.
Claro que há uma terceira hipótese: a de tudo não passar de um jogo com regras tacitamente combinadas. Ou seja, o PCP que, se não agita alguma coisa, perde a sua razão de existir e teme a decepção dos seus apoiantes, vai-se manifestando de vez em quando. Como ajudaram a pôr lá este governo, os seguidores não haverão de ser muitos.
O governo, por sua vez, sabendo bem a distância intransponível que separa Jerónimo de 1917, vai, mesmo assim, invocando o papão da agitação social e das suas consequências tremendas para ir impondo mais e mais auteridade, à medida que a recessão for provando que o programa de cura é um logro. E assim vamos. Iremos?

Um livro por semana 254

«Domínio público» de Paulo Castilho

O ponto de partida deste livro de Paulo Castilho (n. 1944) é a ideia de se criar uma Fundação com o património de uma família: «uns irresponsáveis a nadar em dinheiro mas precisavam de mais para os esquemas do Eduardinho, os disparates da Sofia, as manias da Filomena, a casa no Mar da Palha». Uma Fundação em Portugal tem que entrar na regra de ouro: «tudo se resolve pelo processo de não se resolver». As pessoas contactadas para a Fundação viveram no passado («ninguém acreditava no Estado Novo tirando meia dúzia de fanáticos») e chegaram ao presente: «Hoje toda a moral é pública, só existe o que se exibe».

A Fundação começa a ser pensada a partir da ideia de defender a língua Portuguesa e os escritores cujos livros não estão disponíveis porque ninguém os publica: «Gaspar Simões, Casais Monteiro, Branquinho da Fonseca, Marmelo e Silva, Alberto Serpa, Saul Dias, Carlos Malheiro Dias, Miguéis, Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho, Namora, Redol». Mais tarde se percebe que a Fundação não é possível: «a língua hoje está na televisão, nos SMS, no Twitter. Sound bites. Os livros são irrelevantes, são para a elite e a elite é irrelevante». O escritor Falcão escreve no seu Blog: «No tempo do Salazar eram os areópagos internacionais, nestes tempos de calote fixamo-nos nas agências de rating. Reina a falta de rigor, o mais ou menos, o aproximadamente, o tanto faz». E conclui: «As pessoas queixam-se do IVA e do IRS mas há em Portugal um imposto bem mais sinistro, o imposto da espera».

Esta é também uma história de palavras. Seja o neopalavreado («positivo, proactivo, transparente, aprofundado, empenhado e sustentável») seja o jantar onde um ministro distribui palavras e expressões como «alavancar, arregaçar as mangas, determinação e sucesso». Sem esquecer uma homenagem a Eça de Queirós com os protagonistas a passearem pelo Largo Camões, Rua da Misericórdia, São Pedro de Alcântara, D. Pedro V, Príncipe Real, Rua da Escola Politécnica. Tudo porque um encontro privado no Connecticut pode passar ao domínio público em Lisboa.

(Editora: Dom Quixote, Capa: Rui Garrido sobre imagem de Julião Sarmento)

Passividade boa e passividade má

“São dois anos de sacrifício, depois virá a ‘terra do leite e do mel’. Nada de mais demagógico para levar as pessoas à passividade. Daqui a dois anos estaremos com a economia afundada e, mesmo qualquer crescimento que se viesse a verificar parte de um nível tão baixo e seria tão incipiente que não tinha significado, nem em termos económicos, nem em termos financeiros, nem de criação de emprego”, afirmou Jerónimo de Sousa, na abertura das jornadas parlamentares do PCP, a decorrer em Torres Vedras.

Com a manifestação de sábado da CGTP, “a operação resignação sofreu um revés”, afirmou, alertando para futuras operações a desenvolver perante a “ofensiva contra o povo português e os trabalhadores”. “O verniz e as falas mansas vão começar a estalar”, adverte.

Fonte

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É por estas, e por muitas outras, que a direita adora o PCP. Para além de serem completamente previsíveis, como inveterados conservadores que são, ficam felizes sempre que enchem as camionetas para trazer a malta até Lisboa a passeio. A lógica é exactamente a mesma das paradas militares, por isso os desfiles são organizados com disciplina férrea e os camaradas não suportam miúdos armados em revolucionários da montra partida e do gás lacrimogéneo.

Jerónimo diz que a “operação resignação” sofreu um “revés”. Jerónimo combate a demagogia declarando que a passividade consiste em não participar nas manifestações do PCP e da CGTP. Jerónimo é um dos mais simpáticos pilares do sistema.

Os paneleiros não merecem misericórdia

Alberto João Jardim contrapôs dizendo que “eles [Sócrates e Portas] é que são muito parecidos, eu não tenho nada a ver, nem com um, nem com o outro”.

E acrescentou, à margem da inauguração da primeira fase da reabilitação do Bairro de São Gonçalo erigido em 1943 durante o Estado Novo, que “além de serem muito parecidos são cúmplices, porque o dr. Portas absteve-se na Lei de Finanças Regionais, foi cúmplice na roubalheira que o engenheiro Sócrates fez à Madeira”.

Fonte Vídeo

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Como o vídeo comprova caso restasse alguma dúvida, Jardim ao falar da parecença com Portas está a convocar o boato da suposta homossexualidade de Sócrates lançado pela campanha de Santana para as eleições de 2005. Estaremos perante um exercício de estilo, diria Cavaco mais dado à promoção de boatos doutro calibre, e perante um novo capítulo da Política de Verdade, diria Ferreira Leite azougadamente. Aguardemos curiosos para ver o que dirão os eleitores da Madeira.

Entretanto, urge chamar à pedra Santana Lopes. Que eu recorde, e apesar das evidências, este homem nunca foi interrogado por algum jornalista a respeito da origem desse boato que até metia o Diogo Infante à mistura. Poderá não ter nada de nada de nadinha de nada a ver com o seu lançamento, clarinho. O que já não poderá negar é ter cavalgado o tema da vida familiar e relacional de Sócrates, porque existem documentos que o registaram. Assim, eis-nos perante a inferência clássica onde se identifica o suspeito principal pela vantagem obtida ou procurada com o dano em causa.

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Vinte Linhas 670

Dissertação para uma missa de sétimo dia

Na passada quinta-feira, dia 29 de Setembro pelas 18h 30m, atravessei o Largo do Chiado a caminho da igreja de São Paulo com um som de concertina nos ouvidos. Era a música de um filme e eu ainda não acreditava na tua morte, Rui.

A missa de sétimo dia foi marcada para uma igreja onde a tua gente, do lado do teu pai, tem muitas das suas raízes. O teu pai viveu ali. A tua avó tinha um lugar no mercado da Ribeira onde vendia mariscos. O sorriso não tinha preço.

No fim do ritual da liturgia a celebrar São Miguel, dia da festa das colheitas e dos pagamentos dos rendeiros, na festa da abundância, a única coisa abundante era a angústia no olhar de cada um de nós. No fim formou-se um grupo informal mas coeso de gente do BPA: o Esteves, o Dinis, eu, a Ana Matilde, a Paulinha; ainda e sempre Paulinha.

De repente já não estava à porta de igreja de São Paulo mas sim no número 110 da Rua do Ouro num dia qualquer de 1969. Todos estamos a sorrir para a objectiva à porta do BPA, alguns são apenas memória e afecto (o Pinho, o Gonçalves da Silva, o Rui Carlos) outros seguiram caminhos de não saber, outros estão em direcções desconhecidas no mapa da vida. As três meninas cresceram e já estão à espera da reforma. Todos estamos velhos, meu querido Rui. Até eu, que tu muito jovem conheceste em 1966, também no terrível mês de Setembro, o mês da morte.

Não sei porquê mas de todos os sorrisos o que mais me apetece fixar é o do teu pai, lembro-me logo de ti e estou na ilusão de que ninguém saiu dessa fotografia de 1969. E fico a ouvir em fundo a música de um filme numa concertina no largo do Chiado. Sempre. Para sempre.