Tive o prazer sincero de ouvir a Secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da igualdade na primeira comissão.
Conheci-a de longe, quando aos 18 anos começava a ouvir as minhas primeiras aulas de história do direito. Não era minha assistente, mas era de muitos colegas meus. Depois, fomos assistentes num mesmo período histórico.
Isto para dizer que ouvi a SEI, que ali estava para falar nessa vertente (a da igualdade), num clima formalmente simpático.
Feita a introdução, ficou claro para mim que as questões LGBT não preocupam quem faz uma introdução de meia hora exclusivamente dedicada aos problemas clássicos, e muito importantes, de discriminação das mulheres.
Esperava, sobretudo de quem, em resposta a uma pergunta acerca das suas posições contrárias à IVG ou ao CPMS, afirmou saber distinguir aquelas da obrigação de cumprir a lei, uma palavrinha que fosse acerca do previsto em matéria de discriminação de pessoas LGBT.
Esperava essa palavrinha com mais esperança ainda, quando a SEI já recebeu a ILGA, que a terá posto ao corrente dos problemas reais de discriminação no emprego, no acesso a cuidados de saúde, ou do que já está previsto implementar nos plano 2010-2013.
Graças à ILGA, depois de várias horas de inexistência da questão, pude questionar a SEI acerca de uma pergunta escrita que lhe havia feito relatando um caso de omissão de deveres de cuidados e informação médicos a uma lésbica com base em homofobia pura.
Não estava em causa arrancar um dente, mas uma doença incapacitante, que podendo implicar uma cirurgia complicada, um médico e uma enfermeira, perante a legítima pergunta acerca das consequências na fertilidade da A. responderam sequencialmente que A. não tinha que fazer essa pergunta, já que as lésbicas não têm filhos.
Esta A., que não identifico, perdeu confiança, claro, na equipa médica e ao que sei está posta em casa com dores insuportáveis sem nova consulta.
É um exemplo. E deve ter consequências. Mas os estudos mostram, logo aqui na área da saúde, uma diferença considerável entre homossexuais e heterossexuais no acesso à saúde, sobretudo quando consideramos as lésbias, mais discriminadas.
O fundo europeu para as questões da igualdade está em (re)negociação, pelo que terminei todas estas questões perguntando qual a percentagem que estava a ser negociadas para as questões LGBT.
A SEI considerou o caso da A., em abstracto, ilegal, mas não o quis comentar
em concreto
Quanto ao resto nada de concreto.
Só posso concluir que temos uma secretaria de estado dos assuntos parlamentares e da igualdade sem qualquer atitude positiva em relação às questões LGBT.
Quanto a isso, são um departamento governamental reactivo: recebem a ILGA; dão uma opinião perante um caso concreto/abstracto; acenam com a cabeça como que concordando quando ouvem os estudos e depois… depois nada.
Arquivo mensal: Outubro 2011
Maus alunos
Os que agora responsabilizam o anterior Governo pela actual situação económica do País, o que teriam feito em 2008 e 2009 para fazer face à crise internacional? Nada.
Nessa altura, tempos de pânico, convém lembrar, em que se temia o pior para a economia mundial, de tal forma que as instituições europeias autorizaram e incentivaram os Estados membros, incluindo Portugal, a adoptarem medidas para reduzir os efeitos da crise, e consequentemente a aumentarem os respectivos défices, se PSD e CDS estivessem no Governo teriam mandado os senhores dar uma volta. Por cá, ao contrário do que sucedeu nos outros países, contra tudo e contra todos, não se teriam adoptado quaisquer medidas de apoio às empresas e às famílias. Previdentes como são e adivinhando o que ainda ninguém adivinhava para 2010, teriam dado logo início aos planos de austeridade. Remando contra a maré, e orgulhosamente sós, teriam cortado nos salários, reduzido as prestações sociais, aumentado os impostos, os transportes e por aí fora. Apesar de fazerem sempre questão de ser os bons alunos da Europa, nessa altura, teriam mandado os professores à fava e as medidas de combate à crise às urtigas. Provavelmente, entre outras coisas, até lhes chamariam criminosos.
E, claro, o BPN teria falido, o Alberto João teria sido impedido de gastar à maluca e até os submarinos seriam devolvidos à procedência.
É isto, não é?
Entretanto
Vinte Linhas 674
«Não se brinca com o amor» no Teatro da Politécnica
Vai estrear no próximo dia 19 de Outubro às 19 horas a peça «Não se brinca com o amor» de Alfred de Musset no Teatro da Politécnica – como o nome indica fica na Rua da Escola Politécnica nº 56 telefones 213916750 ou 213876078. A encenação é de Jorge Silva Melo em co-produção com o Teatro Viriato, a tradução de Ana Campos, o cenário e os figurinos de Rita Lopes Alves, a luz de Pedro Domingos, a assistência de Andreia Bento e Joana Barros e os actores são Catarina Wallenstein, Elmano Sancho, Vânia Rodrigues, Américo Silva, António Simão, João Meireles, Pedro Carraca, Alexandre Viveiros, Joana Barros, Diogo Cão e Tiago Nogueira.
Quem morde o isco das sucessivas mentiras?
A catadupa de mentiras, antes, muito antes, e durante o processo eleitoral, que levou o actual governo ao poder e com que, já em funções, prossegue para sustentar a sua actuação não poderá continuar por muito mais tempo. A menos que dêem um golpe de Estado ainda mais clássico, que implique censura a jornalistas e televisões, vai-lhes ser difícil prolongar a farsa, esperando não serem desmascarados. E, mesmo assim, como tentam!
Tardiamente do ponto de vista político e a uma hora de pouca audiência, na sexta-feira à tarde, foi o ex-secretário de Estado das Finanças, Emanuel Santos, finalmente convidado pela RTP Informação para esclarecer o “buraco” de mais de 3000 milhões alegadamente da responsabilidade do anterior governo e com que o actual primeiro-ministro justificou as novas medidas de austeridade. Com legítima indignação, Emanuel Santos repõe a verdade.
Pouco tempo depois, o vídeo não só percorreu os blogues de esquerda como ficou disponível no YouTube. É que a Internet substitui-se rapidamente à “nobreza” do horário das televisões quando as coisas que lá se passam interessam. Apesar disso, entre as19h00 e as 22h00, o espaço das televisões está predominantemente reservado aos Joões Duques, Barretos, Gomes Ferreiras, Miras Amarais e Medinas da nossa praça, os quais são convidados a pronunciar-se mais em cima dos acontecimentos para deixarem uma primeira impressão na opinião pública. Técnicas.
Note-se a forma escandalosa e despudorada como Passos adiantou aos jornalistas que entretinham os telespectadores nos minutos que antecederam a sua comunicação ao país que haveria um novo desvio de 3000 milhões nas contas públicas. E a forma como os jornalistas caíram que nem patinhos. Engoliram o isco, o anzol e a cana! Nem esperaram para confirmar de que desvio se trataria. A insinuação em relação ao anterior governo começou de imediato, ainda nem o discurso tinha começado. A ideia ficou, evidentemente, a pairar sobre todo o discurso, tornando as violentas medidas “compreensíveis” e, mais uma vez, lançando o ónus e o descrédito sobre o governo anterior. Chegado o discurso, nem uma palavra sobre a Madeira. Zero. O principal responsável pelo agravamento da dívida e do défice, o mentiroso-mor e distinto militante do PSD, está, para este governo, completamente “limpo”. Ganhou as eleições e não se fala mais nisso, ou melhor, não se fala mais nele. De tal maneira que ninguém sabe de que modo essas dívidas astronómicas se vão repercutir nas contas e nos orçamentos!
Não sei até que ponto a revolta e os desmentidos posteriores de pessoas autorizadas têm efeitos esclarecedores na opinião pública sobre o calibre desta gente. Está à vista que há aqui uma guerra a travar. Enquanto puderem, vão usar esta estratégia. Quando começarem a não poder, reforçam o ataque passando à fase em que exigem o julgamento dos “responsáveis” pelo estado do país, sabendo nós a quem se referem. Essa fase parece já ter começado. E é perigosa. Mais uma razão para que houvesse uma liderança da oposição determinada e combativa da parte do principal partido. Por enquanto, não há.
Que a situação do país é péssima ninguém tem dúvidas. Que esta cambada chegou ao poder pela via do embuste e desprezando completamente o interesse do país, cada vez mais pessoas percebem. Desculparem-se eternamente com a situação herdada tem os dias contados. Devido à crise externa, o anterior governo viu-se obrigado a aumentar a dívida e o défice, que até 2008 estava a conseguir controlar. Quando começou a pressão sobre a dívida soberana começou a cortar a despesa, sempre com a resistência ou a oposição dos restantes partidos, PSD incluído e à cabeça. A precipitação do derrube do governo só agravou as coisas.
Seria melhor que parassem de mentir e que não varressem o Alberto João para debaixo de um tapete – persa – caro para nós e conveniente para ele. Já alguém ouviu do ministro Gaspar alguma coisa que se relacione com austeridade agravada para os madeirenses? Eu não.
OE: manobras de diversão
Esta semana o PM apresentou ao país um OE que não tem desculpa.
Uma vez que não tem desculpa, vem, tal como a direita nos habituou no passado, acompanhado de uma infame tentativa de justificação do mesmo num passado socrático, já se vê, um passado que deixou um buraco que Passos Coelho ilustrou com um número mentiroso.
Foi assim que começou a apresentação ao país de um OE que não tem desculpa; com um número que qualquer pessoa com acesso ao site do INE pode verificar ser uma ficção.
Estava, no entanto, dado o primeiro passo para o fôlego necessário para apresentar a receita para o desastre.
Não bastava, porém, um número mentiroso, a repetição da palavra “desvio”, a máquina e até a imprensa (a máquina) tinham montado mais fumo para tapar um OE que não tem desculpa: a ideia era responsabilizar os políticos do Governo anterior (deixando no ar a ambiguidade de uma responsabilização meramente política ou mesmo (mesmo!!) criminal). Houve declarações sobre esta nova caça às bruxas limitada no tempo, um CDS a dizer generoso que a responsabilização criminal “pode afastar gente da política”-
A patifaria não conhece limites. Esta gente acreditará realmente que as pessoas reais, afectadas por medidas sem precedentes, são burras?
Quem deve ser julgado politicamente, na sua legitimidade de exercício, é este Governo. O Governo que é Governo porque teve por monstruoso o PEC IV e aliou-se à extrema-esquerda para fazer melhor, afirmando, na sua campanha “nem mais um imposto”.
Quem deve ser julgado politicamente é o PM e todo o seu Governo, gente em exercício, gente que explicou aos portugueses o que era a Troika, a inevitabilidade da descida da TSU, e de repente o corte do subsídio de Natal – medida liminarmente rejeitada antes das eleições -, o corte do subsídio de férias, o aumento de impostos – não era só, se calhar, talvez, o IVA? – e a espectacular tentativa de equidade e aumento de produtividade que é aumentar em meia hora o horário dos trabalhadores por conta de outrem.
Quem deve ser julgado politicamente é Passos Coelho, que visto antes e depois das eleições parece politicamente bipolar, é hoje um homem apostado na morte da economia portuguesa, apoiado num Ministro das Finanças que gosta de “almofadas”, o que retira legitimidade, até constitucional, aos cortes salariais por falta de demonstração do requisito da estrita necessidade.
Bonito era 1 milhão de recursos para o TC. Talvez fosse muita a despesa em papel na Rua do Século.
Podem disfarçar, lançar números falsos, culpar Sócrates e esquecer Santana, Barroso, Cavaco, a Madeira, o BPN, como queiram, a verdade é que não conheço ninguém que não tenha alguém próximo a afundar-se.
A verdade é que o Passos Coelho já falou num “novo pacote” lá para 2013. Talvez ande a sonhar e bem com a Grécia.
É que sem explicação ele viu um poço e saltou.
Blogger’s Digest
Uma selecção das melhores opiniões da semana, traduzidas para português corrente. Edição especial OE2012
***
Carlos Botelho, Cachimbo de Magritte
Pinho Cardão, Quarta República
Rui Crull Tabosa, Corta-Fitas
Vasco Campilho, Forte Apache
Fernando Moreira de Sá, Forte Apache
João Gonçalves, Portugal dos pequeninos
Luis M. Jorge, Vida breve
Nuno Gouveia, 31 da armada
Luis Naves, Forte Apache
Paulo Pinto Mascarenhas, ABC do PPM
Todos em coro agora: Sócrates! Sócrates! A culpa é do Sócrates. Ele é que faliu o país, ele é que chamou o FMI, ele é que é o responsável pelo orçamento de 2012. Quando é que o prendem?
***
Rui a, Blasfémias
I love the smell of napalm in the morning.
***
João Miranda, Blasfémias
The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like victory.
***
Alexandre Homem Cristo, Cachimbo de Magritte
A malta que protesta contra o orçamento é a mesma que defendia as obras públicas que nos arruinaram, incluindo as que ainda não saíram do papel. E como todos sabem, as obras que ainda não sairam do papel foram as que nos conduziram até aqui. Isso, as estradas de Cavaco, e os spas que Sócrates construiu para os miudos.
***
Henrique Raposo, Expresso
Não gosto da ideia de se criminalizar a governação e a politica, como propõe Medina Carreira. Por isso, vou sugerir aqui uma maneira de fazê-lo de outra forma. Resume-se assim: Freeeport, Paulo Campos. Perceberam, ou é preciso um desenho?
Estão bem uns para os outros
Coisas que os cínicos e os snobes nunca irão entender
Quem nos dera ser a Grécia
Perguntas simples
Vinte Linhas 673
Dissertação para um nome (sobre foto de Álvaro Carvalheiro)
Entre mar e Maria, soltam-se na espuma da tarde, as várias sílabas de um nome.
O teu nome é mistério, memória e lugar de ser. É um espaço de interrupção de alegria intensa no mais cinzento dos dias que passam por nós quase iguais uns aos outros.
Vejo o mar das ameias de um castelo e pressinto a massa líquida dos teus olhos disfarçada na sombra dos grandes óculos escuros que trouxeste hoje de manhã.
Junto com a espuma das marés chegam à praia restos de sinfonias, memórias de marinheiros, naufrágios e outros desastres marítimos porque as palavras mais fortes são «mar, medo e morte» e os relatos escritos dos pilotos da Índia todos apresentam essa espantosa linha de unanimidade.
Ouço Maria, o outro nome parecido com o teu, ouço nos meus caminhos e atalhos esse nome desde sempre – nas escolas, nos escritórios, nos cinemas, nas esplanadas e também nas ruas de todas as cidades.
Entre mar e Maria, existe um som íntimo que os registos da sonoplastia não alcançam, é um espaço que tu convocas para a lenta construção de um novo mundo.
Talvez a rota de uma viagem, talvez a música de uma canção, talvez as letras de um poema.
Não sei nem nunca o saberei.
Vou perder o som do teu nome no bulício da cidade, entre a pressa e o trânsito, o ruído e a escuridão, o vento e a chuva inesperada.
Perdi o som do teu nome e procuro de novo o seu volume no precário do meu poema em vagarosa construção.
Oposição precisa-se
E pronto, aí vamos nós a todo o pano para o calvário grego, para o abismo, para o reino de Hades.
Ontem, Passos justificou as medidas duríssimas do próximo orçamento, muito para além das exigidas pela Troika, mais uma vez com a descoberta de desvios enormes, da ordem dos 3000 M€, na execução orçamental. Aproveitou, evidentemente, a ocasião para lançar culpas difusas ao anterior governo. Como não concretizou, insinuou. O facto é que continua a não dizer que desvios são esses e a que se devem: à quebra das receitas fiscais? à integração da dívida oculta da Madeira? a quê? a quê exactamente? Note-se que, em todo o discurso, não se lhe ouviu uma única palavra sobre a querida ilha.
Ora, os portugueses têm o direito a saber exactamente a que desvios se refere o governo quando os invoca para aumentar a austeridade desta maneira. Caso contrário, teremos de concluir 1) ou que tudo não passa de uma agenda neoliberal que, à boleia da Troika e com grandes actores teatrais, visa desmantelar completamente o Estado, reduzir salários e entregar tudo aos privados, que agradecerão a mão-de-obra barata, ou 2) a Madeira tem aqui um peso não revelado, ou 3) as duas razões combinadas. Mas queremos saber!
Constato e lamento que, nos comentários que se seguiram à comunicação, o PS tenha mostrado que continua a passar ao lado de grandes oportunidades, optando por uma argumentação em novelo. Custará assim tanto ser incisivo e contundente?
Vinte Linhas 672
Dissertação breve para uma cidade – dormitório
Alain Carron desenhou um quadro insólito com estes dois inesperados prédios de uma cidade – dormitório, algures na periferia de uma cidade – capital, um lugar escuro e frio onde não apetece viver mas as diversas circunstâncias a isso obrigam. O pintor soube transfigurar a realidade e fez dos prédios móveis de madeira e das varandas gavetas onde todos os habitantes são arrumados.
E quando não são gavetas são pequenas camas onde os cansados trabalhadores dos escritórios da cidade (bancos, seguros, transportes, comércio, turismo) são colocados cheios de sono pouco tempo depois de chegarem à periferia nos cansativos comboios suburbanos, tão cansados como nos outros da sua viagem da manhã.
Como disse alguém
Ainda iríamos ter saudades do PEC 4. O tal acordo com os parceiros europeus que a oposição chumbou porque não gostava do PS. O tal plano faseado, sem imposições draconianas como as que decorrem de uma ajuda externa de emergência, que em tudo procurava salvaguardar os interesses dos mais desfavorecidos adentro de uma crise sistémica. A tal solução para um problema que não criámos, a crise das dívidas soberanas, que o Presidente da República vilipendiou na cara dos deputados. A tal procura de um equilíbrio entre a austeridade e a protecção ao crescimento económico e aos direitos sociais que a direita e a esquerda, unidas no ódio, deitaram para o lixo sem nada quererem negociar ou propor como alternativa.
Que abéculas, que trastes.
Pedido de esclarecimento
No Parlamento, há o mundo das Comissões especializadas em função da matéria e o mundo do Plenário.
Consigo entender que ali, nas Comissões, onde mais se trabalha, o tom de quem governa seja outro, mais cordato, mesmo quando se lhes diz, por exemplo, que seria bom ouvir o conjunto de entidades evidentes que se pronunciaram pela inconstitucionalidade do enriquecimento ilícito.
Podem concordar, não concordar, concordar mais ou menos, mas não querem, enfim, uma lei que esbarre no TC. E é asim noutras matérias. Trabalha-se, discorda-se, respeita-se o que é o contributo de cada um.
Chegamos ao Plenário e há, claro, o efeito mediático a que nenhum Partido pode ser imune. É aqui que estão os minutos dos telejornais e é aqui que sem cuidado se escorrega para a demagogia.
O que já não entendo nem aceito é esta superioridade moral que tomou conta da direita, excitada com o poder, pouco disfarçando os seus tiques autoritários. Em todos os debates, como no de hoje, lá vem a cartilha de frases:
“quem são vocês para isto e aquilo?” (porque só estamos aqui há 3 meses);
“está a perguntar, senhor Deputado? Com que lata se só estamos aqui há 3 meses?
E por aí adiante.
Sempre sorrindo.
Seria bom explicar às bancadas que suportam o Governo que o PS e os restantes Partidos têm a função de fazer as perguntas que tiverem por pertinentes, explicar a esta gente que fomos mandatados para isto, que começamos a abrir a boca no dia um, e tem sido um espanto, um espanto fazer perguntas e propostas alternativas à direita que nunca resolveu uma crise que seja em Portugal e que revogou nos tais 3 meses, três mesinhos, o contrato com os seus eleitores.
É assim: da sede do poder ao medo do poder.
Curtas – personagens contemporâneas que exigiriam alguém diferente de Seguro
Cavaco
“Cavaco Silva dedica apenas dois breves parágrafos da sua intervenção à situação portuguesa. Para dizer, basicamente, que o país honrará os seus compromissos, mas que para isso também é necessário que a União tome, também ela, as “decisões sistémicas” necessárias para estabilizar o euro, fortalecer os sistemas fi nanceiros e promover o crescimento.” (in Público)
Exactamente o que Sócrates dizia e que, à época, deixava Cavaco com o seu sorriso hidráulico suspenso… aparentando nunca ter ouvido falar da Europa lá em Boliqueime, enquanto engendrava o próximo golpe e a oposição, no Parlamento, se divertia a chumbar tudo o que significasse redução de despesa que não fosse despedimentos.
Paulo Portas
Diz o Público que: “Antes de chamar “tempestade perfeita”, expressão outrora utilizada por José Sócrates, à “confluência dos problemas estruturais [portugueses] com as actuais crises das dívidas soberanas na zona euro”, Portas, à saída de um encontro com o seu homólogo britânico, William Hague, confi rmou que o chumbo, pelo Parlamento eslovaco, do alargamento do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), “é mais uma dificuldade para um país [Portugal] que já tem imensas dificuldades pela frente”, garantindo, contudo, que esta “não é insuperável”. Portas lembrou que o panorama nacional se deve a uma “situação típica de gastar hoje, usar amanhã e pagar um dia”. Apesar da ironia, o ministro dos Negócios Estrangeiros fez questão de sublinhar que a “realidade portuguesa é diferente” da dos outros países benefi ciários do resgate financeiro, dando como exemplo o facto de “o programa que está a ser seguido usufruir de amplo apoio no Parlamento”.
Soundbytes habituais. Desta vez, do exercício resultou esta espécie de slogan publicitário: “Gastar hoje, usar amanhã e pagar um dia”. Missão soundbytiana do dia cumprida, portanto. E não é que lhe assenta na perfeição? É que me ocorrem de imediato os submarinos e a Madeira, ah, e os submarinos!
“Amplo apoio no Parlamento” – Ah, pois.
Gaspar e Passos, Lda.
“O Governo vai deixar cair a redução da Taxa Social Única (TSU), que não vai constar da proposta de Orçamento do Estado para 2012. Apesar de o relatório das Grandes Opções do Plano (GOP) referir a possibilidade de se avançar com uma redução faseada da taxa, o Diário Económico sabe que a medida acabou por ser descartada numa reunião entre membros do Executivo e da ‘troika’.”Fonte
Palavras para quê? Lembram-se dos debates com Sócrates para as eleições legislativas? A descida da TSU era tão-só a pedra filosofal.
Lomba
Que tem para nos dizer, no Público, este “inconcebível” mas não “inimitável” cronista? “Eu não sei se há aqui ou não mais do que fumo. E bem sei que não se pode responsabilizar ex-governantes por gerirem de forma danosa contra o interesse do Estado e o erário público. Mas enquanto o antigo secretário de Estado das Obras Públicas, o inimitável Paulo Campos, o homem do Aeroporto de Beja, se passeia por aí com a sua conhecida displicência, seria bom que tudo isto fosse muito bem escrutinado e investigado, desde logo na sede própria que é o Parlamento, visto que não é porque o homem saiu do governo que não tem de prestar contas sobre a forma como negociou a revisão das concessões de auto-estradas. Esta gente inconcebível andou a brincar com o nosso dinheiro. E assim se faliu um país.”
Mais um que, além de apelar a atiradores furtivos, gostaria de, na falta deles, ver todo o governo anterior, e só ele, na prisão (porque o conceito de “gente inconcebível” obviamente não inclui nem Cavaco, nem Ferreira Leite, nem Oliveira Costa, nem sequer Santana ou Barroso) e arranja uns rodriguinhos pseudo-irónicos para passar por pessoa decente.
A gente desta laia tenho a dizer o seguinte: o que dizem de meter na prisão toda a oposição que, sendo o governo minoritário, tudo fez para boicotar certas medidas de contenção de gastos de que são exemplos flagrantes o congelamento das transferências para a Madeira ou o estatuto da carreira docente, ou mesmo o encerramento de escolas e maternidades, além do chumbo do PEC 4? A responsabilização levar-nos-ia longe. Tão longe que fariam melhor em estar calados. Se fossem decentes.
Convite
Mais um crente no método da qualificação natural
Carlos Queiroz, ex-seleccionador nacional, garante que a selecção portuguesa já estaria apurada para o Europeu do próximo ano se o próprio não tivesse sido demitido.
“Comigo, já estávamos no Euro. A qualificação teria sido natural”, disse o actual seleccionador do Irão, em declarações à Antena 1, acrescentando que foi despedido devido às “turbulências criadas pelo senhor Laurentino Dias e pelo senhor Amândio de Carvalho e seus pares”.
Esquerda fácil, direita difícil
É muito mais difícil ser de direita do que de esquerda. Em relação à riqueza, a direita justifica e protege as desigualdades quanto à sua posse, enquanto a esquerda defende a sua diluição pelo maior número, acabando na abstracção comunista da abolição da propriedade privada. Justificar racionalmente uma desigualdade material é tarefa difícil, defender a partilha do que não é nosso é apetite fácil. Em relação à moral, a direita justifica e protege uma ordem imperativa e punitiva, enquanto a esquerda defende o relativismo e a subjectividade. Justificar racionalmente um qualquer código social coercivo é tarefa difícil, defender a liberdade individual é apetite fácil.
Por estas razões a esquerda é maioritária e mais diversificada do que a direita, incluindo no seu espectro a social-democracia. Marx chegou a pretender fazer da evidência quantitativa uma suposta ciência, ao imaginar que não faltaria muito para o número de proletários ser suficiente para a então inevitável revolução. Saiu-lhe o sector terciário pela culatra e lá se foi a utopia para o galheiro. Já a direita tende a uniformizar-se colectivamente, cultivando as diferenças na dimensão da privacidade e do estilo de vida. Entre a esquerda e a direita há variados pontos de contacto e de fusão , há baldios que podem ser ocupados à vez ou ao mesmo tempo e há migrações, como é o caso dos liberais, que podem ser de direita ou de esquerda consoante as épocas e lugares. O mínimo denominador comum entre a esquerda e a direita, todavia, é a muralha da Cidade – isto é, o respeito pela Lei que garante os direitos e estabelece os deveres, e, last but not least, o zelo pela coesão da comunidade.
À luz do que se passou nas duas últimas legislaturas, onde a elite do PSD e CDS conspirou abertamente com vista ao derrube do Governo através de assassinatos de carácter e tentativas de criminalização, podemos perguntar se existe direita em Portugal pois não se pode reclamar de direita quem faz da calúnia uma ideologia. Neste dois partidos não se vê nem um exemplar para amostra, tendo de se recorrer a comentadores avulsos e figuras de referência actualmente afastadas da vida política activa para identificar genuínos representantes da direita. Mas ainda mais interessante é o caso da esquerda, onde muitos dos que nela encontram a identidade política por falta de status, ou por acaso intelectual, não resistiriam às primeiras e mais básicas tentações do poder. A História tem mostrado uma e outra vez as propriedades transitivas da natureza humana.




