Perguntas simples

No dia 9 de Março, a meio da tarde, o espírito de diálogo construtivo capaz de assegurar os entendimentos que melhor sirvam os interesses do país, quer a estabilização financeira, quer o crescimento económico, a criação de emprego e a preservação da coesão social ainda não era imperativo? E no dia 23 de Março, no final da tardinha, ainda não era essencial que os portugueses congreguem esforços e vontades e tenham uma atitude activa de cooperação e solidariedade?

As extraordinárias PPP

Dia extraordinário, esta terça-feira passada. Não pela realização do Conselho de Estado e conhecimento das suas conclusões ordinárias, mas pela ida de Paulo Campos e António Mendonça à comissão parlamentar de Obras Públicas. O primeiro é um dos alvos favoritos de ranhosos e imbecis na imparável campanha de criminalização de socialistas. Dir-se-ia que o infeliz senhor iria ser reduzido a uma papa de incompetência e corrupção pelos feros deputados da nova maioria e seus aliados comunas, ali onde não se poderia furtar ao mais rigoroso interrogatório por parte daqueles que possuem a Verdade. Dir-se-ia, mas diz-se muita coisa.

Pois o Campos foi para a frente da manada com números que contam uma história também extraordinária: nos Governos Sócrates, o peso das PPP baixou por comparação com os valores de 2005. Talvez esta seja a tanga do século, mas a réplica ininteligível do deputado do PSD não conseguiu sequer beliscar o argumento. Já pelo lado de Mendonça, foi dito o óbvio: as PPP podem ser vistas como gasto ou como investimento. Vê-las como investimento é o que melhor cuida dos interesses futuros. A estas declarações na primeira metade do dia seguiu-se o mui extraordinário silêncio dos trastes que têm largado as maiores atoardas acerca das obras públicas do anterior Governo.

Salto para a porqueira. Crespo tinha uma reportagem sobre a sessão na comissão parlamentar onde as PPP eram descritas na locução como uma bomba-relógio. Repetia-se, insinuando, a retórica de estar nelas a raiz de todo o mal e de todas as malfeitorias à mistura com declarações de Campos e Mendonça na Assembleia. O espectador ingénuo, ainda não destituído de mínimos na sua capacidade lógica, ficou à espera de ver em estúdio um dos dois ex-governantes para se aprofundar o tema no contraditório. Só que o Crespo gosta de surpreender os ingénuos com baldes de merda que lhes atira para cima. O que tinha preparado era a enésima calúnia contra Sócrates e sabe-se lá quem mais. Apareceu António Sérgio Azenha, autor do livro Como os Políticos Enriquecem em Portugal, para dar cobertura à associação que o porcalhão queria fazer entre os governantes socialistas responsáveis pelas PPP e um qualquer ganho ilícito daí resultante – na denúncia do qual as provas deixam de ser necessárias, basta o sorriso gorduroso do Crespo para que canalhas, broncos e patarecos se babem alucinados na caça a mais um bandido do PS.

Vale a pena ver para não nos esquecermos do que Balsemão, outrora pilar do regime democrático, permite que se faça ao espaço público em Portugal.

Somos ricos, não sabíamos e possivelmente é melhor nem sabermos

A avaliar pelas declarações sempre surpreendentes do ministro da Economia, alguém descobriu que temos ferro, lítio, ouro e gás natural a rodos, prontinhos a serem explorados por multinacionais estrangeiras de todo o planeta, desde a Austrália ao Canadá. Um dos contratos vai já ser assinado dentro de dias. Poderíamos saber as condições de exploração?

Por outro lado, como conciliar a exploração mineira e de gás com o turismo para a terceira idade estrangeira?

Os outros

Quero que o mérito seja reconhecido a quem o tem e que o estado me deixe de obrigar a pagar a saúde dos outros, a educação dos filhos dos outros e os problemas dos pais dos outros.
(…)
Não quero ir ao hospital de graça, não quero ficar em casa a receber sem trabalhar, não quero meter os meus filhos na escola de borla, não quero ajuda de ninguém para comprar casa, não quero que me ofereçam um Magalhães, não quero que me paguem o curso
Aqui

Gabo-lhe, pelo menos, a frontalidade. É raro ver a teoria do “cada um por si” exposta com tanta honestidade. Os “outros” que se lixem, cerveja Cristal é que não.

Isto já não é política (?): dá para ler a Constituição?

Nos termos do artigo 76º/2 da CRP, “As universidades gozam, nos termos da lei, de autonomia estatutária, científica, pedagógica, administrativa e financeira, sem prejuízo de adequada avaliação da qualidade do ensino”.
O artigo 43º do OE para 2012 que procede à alteração da lei nº 62/2007 reza assim:
(Controlo do recrutamento de trabalhadores nas instituições de ensino superior
públicas)
1 – O disposto no artigo 9.º da Lei n.º 12-A/2010, de 30 de Junho, na redacção introduzida pela presente lei, aplica-se imediata e directamente às instituições de ensino superior
públicas, incluindo o recrutamento de trabalhadores docentes ou investigadores, com as
especificidades previstas nos números seguintes.
2 – Para efeitos da emissão da autorização prevista no n.º 2 do artigo 9.º da Lei
n.º 12-A/2010, de 30 de Junho, na redacção introduzida pela presente lei, os órgãos das
instituições de ensino com competência em matéria de autorização dos recrutamentos
enviam aos membros do Governo mencionados naquela disposição legal os elementos
comprovativos da verificação dos seguintes requisitos cumulativos:
a) Existência de relevante interesse público no recrutamento, ponderada a evolução
e a eventual carência dos recursos humanos no sector de actividade a que se
destina o recrutamento;
b) Impossibilidade de ocupação dos postos de trabalho em causa nos termos
previstos nos n.ºs 1 a 5 do artigo 6.º da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de Fevereiro,
alterada pela Lei n.º 64-A/2008, de 31 de Dezembro, pelo Decreto-Lei
n.º 269/2009, de 30 de Setembro, e pelas Leis n.ºs 3-B/2010, de 28 de Abril,
34/2010, de 2 de Setembro, e 55-A/2010, de 31 de Dezembro, ou por recurso a
pessoal colocado em situação de mobilidade especial ou a outros instrumentos de
mobilidade;
c) Demonstração de que os encargos com os recrutamentos em causa estão
previstos nos orçamentos dos serviços a que respeitam;
d) Demonstração do cumprimento dos limites máximos de pessoal estabelecidos nos
termos dos artigos 120.º e 121.º da Lei n.º 62/2007, de 10 de Setembro, alterada
pela Lei n.º 55-A/2010, de 31 de Dezembro;
e) Cumprimento, pontual e integral, dos deveres de informação previstos nos artigos
112.º, 113.º e 125.º da Lei n.º 62/2007, de 10 de Setembro, alterada pela Lei n.º
55-A/2010, de 31 de Dezembro, e na Lei n.º _______/2011, de ______
[PL 21/XII];
f) Demonstração do cumprimento das medidas de redução mínima, de 2%, de
pessoal, tendo em vista o cumprimento do PAEF, considerando o número de
trabalhadores da instituição de ensino em causa no termo do ano anterior;
g) Parecer prévio favorável do membro do Governo responsável pela área da
educação e ciência.
3 – O disposto no presente artigo aplica-se imediata e directamente à contratação de pessoal
pelas instituições de ensino superior públicas de natureza fundacional, previstas nos
artigos 129.º e seguintes da Lei n.º 62/2007, de 10 de Setembro, alterada pela Lei
n.º 55-A/2010, de 31 de Dezembro.
Os recrutamentos efectuados ao abrigo do presente artigo não estão dispensados do
cumprimento do artigo 26.º da Lei n.º 55-A/2010, de 31 de Dezembro, alterada pela Lei
n.º 48/2011, de 26 de Agosto.
5 – O disposto no presente artigo tem carácter excepcional e prevalece sobre todas as
disposições legais, gerais ou especiais, contrárias.

Já não tenho paciência para despotismos destes.

O interesse nacional, segundo Passos Coelho

Sempre que olharmos para Passos Coelho com o propósito de adivinhar o que vai naquela cabeça, devemos fazer um favor a nós próprios e recordar estas palavras:

“Recebi há momentos a confirmação do Dr. Fernando Nobre de que aceita o convite que lhe dirigi para ser, na próxima legislatura, o candidato do PSD a Presidente da Assembleia da República”, revelou Pedro Passos Coelho.

“Não vos escondo a enorme satisfação que sinto neste momento. Quando fiz este convite, sabia que se tratava de uma iniciativa arriscada e que não seria fácil conseguir um sim da sua parte, pois o Dr. Fernando Nobre foi candidato a Presidente da República e não contou, nessa ocasião, com o apoio do PSD. Mas entendi que o deveria fazer, sobretudo, em nome do interesse nacional”, explica.

Passos Coelho elogia a adesão que Fernando Nobre conseguiu “de cidadãos que se têm mostrado progressivamente desiludidos com a política e com as instituições.”

“O resultado que o Dr. Fernando Nobre alcançou há poucos meses é bem demonstrativo de que existe um segmento expressivo de portugueses que acreditam na capacidade de regeneração da política e na possibilidade de reconquistar a confiança nas nossas instituições democráticas”, acrescenta.

“Senti que nos encontrávamos perante uma oportunidade única: tentar convencer alguém que gerou, com a sua candidatura presidencial, uma nova esperança de cidadania livre, a levar essa esperança ao Parlamento”, adianta.

Num certo sentido, tudo o que Passos venha a dizer e fazer no Governo não passará de uma nota de rodapé do que aqui revelou de si e do modo como entende a política.

Orçamento bipolar: nacional nas causas, internacional na substância

Coisa estranha.
Quando ouvimos o Governo justificar este OE para 2012, descobrimos que no que toca às causas do mesmo, elas são exclusivamente nacionais; quando toca à substância infernal do documento, está tudo explicado pelo cenário internacional.
Nunca tinha visto uma fuga descarada destas: nacional nas causas, internacional na substância.
Mas não enganam ninguém, já toda a gente percebeu: este é o OE que o Governo quer, é uma opção política livre. Tem uma parte técnica, sim, mas é uma gigantesca estratégia ideológica desenhada a pretexto da crise.

Dissertação sobre a peça no Teatro da Politécnica

(a Jorge Silva Melo)

O encenador é o poeta do palco / Levanta do quase zero um plano / Palavras eficientes, roupas e cortinas.

Há 40 anos era aqui uma cantina / No primeiro andar uma reprografia / Fazia comunicados da malta em stêncil.

Eram uns folhetos em tamanho A5 / Os da Associação vinham de eléctrico / Era conforme, umas vezes o 24, outras o 5.

Em 1718 um caso parecido em Portugal / Luísa de Noronha recusou casar com o primo / E entrou para o Convento da Madre de Deus.

Tinha ela então 25 anos e ele apenas 15 / As famílias tinham já tudo decidido / Mas faltava o acordo da futura noiva.

Assumar, Alorna, Fronteira, as Casas / Não contam com o factor surpresa / E Luísa com 25 anos recusa casamento.

Sua irmã mais velha deu seu nome / A uma sua menina nascida em 1718 / Que veio a casar com 13 anos de idade.

Nesta peça se percebe como é inútil / Tentar alguém brincar com o amor / Porque a morte da camponesa é verdade.

O Teatro como a Poesia faz a ponte / Entre os mundos mais distantes / Separados pelo tempo que passou.

Cinema – 5 estrelas é demais!

Segundo li, o realizador João Canijo reagiu com violência física contra um crítico do Expresso que ousou atribuir apenas duas estrelas ao seu filme “Sangue do meu sangue”. Quer isto dizer que se tem em muito alta conta. Terá razões para isso?
Vi o filme na semana passada. Com tanta crítica laudatória, as expectativas eram altas, mas o que vi não me suscitou tanto entusiasmo como a algumas pessoas. Explico:
O ritmo é, em geral, lento (daí as quase três horas) – longos percursos das personagens de e para casa, à boa maneira dos filmes insuportáveis portugueses, cenas demasiado demoradas. Para percebermos que uma casa é minúscula não é necessário filmar os seus interiores repetida e longamente. As conversas prolongadas às refeições, a dos carapaus por exemplo, que até podem ser realistas, não acrescentam muito à trama.
Duas histórias correm em simultâneo (por vezes os seus protagonistas partilham o écran em diálogos distintos), emanando de e convergindo na casa de uma família pobre dos subúrbios da capital, onde, através da chefe de família, encarnada por Rita Blanco, ganham sentido os laços de sangue que dão o título ao filme. Existe uma solidariedade familiar, embora em facções.
De um lado, o bas-fonds do narcotráfico, história violenta, que culmina na cena final extrema de humilhação e sangue, para muita gente, eventualmente, a cena mais marcante do filme. Palavrões em barda, ao bom estilo “fuck” e “fucking” das centenas de filmes hollywoodianos que já vimos sobre essa temática, desta vez em língua portuguesa. Os actores vão bem, com destaque para o chefe do gangue. Mas só isto não faz um bom filme. O tema é demasiado batido.
Do outro lado, uma história amorosa que parece prometer grande realismo e também alguma originalidade, mas que depois descamba, com grande prejuízo, para um enredo telenovelesco, risível e bastante inverosímil dando, quanto a mim, cabo do filme. Os diálogos são maus e o pior deles todos é o da conversa de rompimento dos amantes, candidato ao pior diálogo da história do cinema. Agravado pelo péssimo desempenho do actor que faz de médico. Já Rita Blanco é sem dúvida uma boa actriz e domina o filme. Quase arrisco dizer que os diálogos que protagoniza são provavelmente de sua autoria, atendendo à qualidade dos restantes.
Em conclusão, o que nos fará dizer que ganhámos algo ao ver este filme? Muito pouco. Que nos subúrbios há muita crueldade e também bons sentimentos, muitas vezes coexistindo na mesma pessoa? Que um criminoso pode ser um bom pai? Que o realizador estudou bem o meio? Sim, tudo indica que sim, e o aspecto para mim mais bem conseguido é o da relação tia-sobrinho. Mas falta contexto, falta história àquela gente. Falta a diferença que faz um bom filme.
Parece-me que, entre alguns dos nossos críticos (no Público, por exemplo, os três críticos atribuem ao filme 5, 5 e 4 estrelas), há uma tendência para valorizar demasiado determinados filmes portugueses só por serem portugueses e não serem maus. Não é assim que vamos lá. Objectividade precisa-se. Cinco estrelas, meus deus?

Centrum multivitamínico

1) UM DIFUSO MAL ESTAR
Sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.

Verdades verdadinhas da gente séria, Fevereiro de 2008

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À esquerda e à direita, a principal táctica política consiste em espalhar o medo. A esquerda diz que a direita irá sempre explorá-la e a direita diz que a esquerda irá sempre roubá-la. Ambos os lados cultivam o histerismo, a paranóia, a desconfiança letal. Isto dura desde sempre e para sempre durará numa dialéctica circular que varre como tempestade de estupidez a condução e gestão da coisa pública.

Foi precisamente esse o papel da, ao tempo, célebre metáfora do “difuso mal-estar”, vinda de um dos braços ideológicos da oligarquia. Estávamos já em pleno desmoronamento de parte principal do edifício bancário da direita, com BCP, BPN e BPP em convulsão. Existia uma crise do petróleo que ninguém conseguia explicar, prenúncio de outra crise muito maior a rebentar daí a nada. E o PSD estava entregue a um cómico chamado Menezes quando Cavaco não tinha mão em Sócrates. Havia que começar a minar, promover o catastrofismo e difamar os governantes em vez de perder horas de sono a desenvolver propostas alternativas, pensou a gente séria com séculos de prática na aplicação da mesma fórmula: destruir para ocupar. A imagem do, assim o grafaram sem hífen, “mal estar difuso” que punha em causa a “coesão nacional” era congénere da “asfixia democrática” e dos temas da “verdade” que foram explorados por Ferreira Leite e Cavaco meses depois. Tratava-se de sugerir que o Estado tinha sido tomado por mafiosos capazes das maiores vilezas ainda por revelar. Esta estratégia culminou, dois anos depois, com o Pacheco a consultar escutas ilícitas e a declarar que eram “avassaladoras” embora não tenha depois feito nada em coerência com essa declaração. Apenas lhe interessava chafurdar na porcalheira, não o cumprimento da Lei nem a defesa da ética. Pacheco foi o mais notável e raivoso Torquemada dos ranhosos no ciclo da perseguição a Sócrates.

Sair desta circularidade, onde a esquerda se alia com a direita na erosão e boicote dos Governos e passam o resto do tempo numa diabolização senil, implica ocupar o centro. Por inerência geométrica, o centro é o lugar das negociações, das cedências, dos compromissos. Logo, tanto pode ser o lugar da mais abjecta cobardia como da mais gloriosa coragem. O que leva ao reconhecimento de um eixo vertical com três posições: centro baixo, centro médio e centro alto. No baixo, o centro perpetua as desigualdades, fomenta a corrupção, aumenta a injustiça. No médio, o centro é politicamente frágil, socialmente confuso, economicamente volátil. No alto, o centro abre espaços de encontro, acolhe o talento dos adversários, confia na inteligência da comunidade.

E sim, sim, sim. No centro podes ser de esquerda ou de direita. Ou de outra coisa qualquer que descubras ou inventes quando lá chegares.

Por morrer um ditador não acaba a primavera

A morte de Khadafi às mãos de uma turba ululante pode não ter sido bonita nem justa, mas está longe de ser a excepção à regra, de configurar algum presságio em especial para o futuro do regime líbio, ou de servir de bitola para avaliar a justiça do desfecho da guerra civil. A violência e arbitrariedade são parte integrante do ADN das ditaduras, e é natural que estejam presentes no fim destas, em directa proporção com a brutalidade com que foram exercidas e da maneira como caíram. Muitos ditadores foram executados imediatamente após a queda do regime. Nos países em que isso ocorreu, alguns transitaram para a democracia, outros nem por isso. Depende muito mais de como está estruturada a sociedade, quais as instituições que a suportam, se funcionam ou não, do que a “cultura” que é “revelada” por um acto de vingança mais ou menos compreensível e pontual. Os Romenos e os Italianos vingaram-se dos seus ditadores com execuções sumárias, e hoje são democracias perfeitamente normais. Os Iraquianos e japoneses julgaram em tribunal e executaram os seus, e hoje ninguém imagina um Japão não-democrático, embora para o Iraque isso possa ainda acontecer. Não foi nenhum julgamento que teve influência no respectivo desfecho.

Se os Líbios exibissem o cadáver de Khadafi na praça central durante uns dias, como exemplo, imagino o clamor indignado na bem-pensante sociedade ocidental, e os gritos de “selvajaria” que se fariam ouvir, as alegações que seria “impossível” que um regime desses sustentasse uma democracia baseada no primado das leis. Foi, no entanto, o que os italianos fizeram com Mussolini. E a sociedade e democracia italianas estão bem, muito obrigado.

O futuro da Líbia vai depender de inúmeros factores. O assassinato do ditador à margem de um julgamento não é um deles.

 

Um livro por semana 258

«Ansiedade» de Isabel Moreira

Depois de «Pessoas só» (2004) e de «Quando uma palavra não basta» (2007), Isabel Moreira (n. 1976) assina «Ansiedade», uma ficção organizada a partir do blogue «consolação». Apesar de algumas citações poéticas (Sophia, Daniel Filipe, Fernando Pessoa, Ezra Pound, Anna Akhmátova) e dos Evangelhos («o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça»), a referência maior deste livro é «Sedução» de José Marmelo e Silva.

A partir de um universo cinzento, onde a vida é precária e a morte inevitável, só o amor pode resgatar esse misto de ansiedade, amargura e pânico. Ou dito de outra maneira – «Talvez a ternura nos salve». Tal como nesse livro de 1937, num espaço de marasmo e de pouca esperança, há uma ave de rapina: a morte. Não por acaso o livro surge dedicado à memória de alguém que morreu: «tão nova, tão bonita. Minha querida, porquê?»

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Blogger’s Digest

Uma selecção das melhores opiniões da semana, traduzidas para português corrente.

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José Manuel Fernandes, Blasfémias
Tiago Mendes, Cachimbo de Magritte
Henrique Raposo, Clube das Republicas mortas
João Ferreira do Amaral, 31 da Armada
Rodrigo Moita de Deus, 31 da Armada
Et tu, Cavacus? masmasmasmas…como te atreves? Não eras dos nossos? Então se não és dos nossos, és dos deles, e passas a levar o mesmo tratamento. Por isso, toma: Ignorante! Incompetente! Devias ter mas é vergonha! Deitaste o país abaixo! Só estás a defender mas é o teu bolso, não é?

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Fernando Moreira de Sá, Forte Apache
A  Fernanda Câncio escreveu um texto sobre o amor. E a Sábado – não eu, que detesto essas cuscuvilhices – diz que é de certeza dedicado ao Sócrates (Esta parte não tem nada a ver com a tese do post, é só para lembrar que a Câncio foi namorada do Sócrates, embora – repito – eu deteste coscuvilhices e considere a vida privada sagrada. Por isso leva só dois parágrafos sobre o tema. Sou um tipo decente, como podem ver. Bom, adiante) Ora, este texto não acaba na glória do  casamento envelhecer juntos, e quem não segue essa via é uma pessoa fútil, egoísta, pulha, ou ainda pior, uma arrivista que descarta as pessoas quando já não servem. Não que esteja a dizer que a Fernanda Câncio seja tudo isso, longe de mim tal ideia. Deve ser ficção, de certeza.

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Paulo Marcelo, Cachimbo de Magritte
Se o aborto fosse legal nos anos 50, o Steve Jobs teria sido abortado e agora não havia iPhone. Porque nos países que permitem o aborto toda a gente o faz porque é giro e está na moda, e por isso já não existem crianças para adopção. Foram todas abortadas.

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José Manuel Fernandes. Blasfémias
Querido filho, vou cantar-te uma canção de embalar. É assim:

Com que voz chorarei meu triste fado / que em tão dura prisão me sepultou / que mor não seja a dor que me deixou / o tempo, de meu bem desenganado?
Mas chorar não se estima neste estado / onde suspirar nunca aproveitou / triste quero viver, pois se mudou / em tristeza a alegria do passado.

O quê, agora não consegues dormir? Descansa, o cavaleiro Victor Gaspar vai salvar-nos. Já viste o meu carro? Grande máquina, hã? O problema é que todos quiseram ter um também. Cambada de fúteis.

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Tavares Moreira, Quarta República
1. Há uns patetas a pedir crescimento económico.
2. Não há financiamento
3. Muito menos ideias para isso
4. Eu pelo menos não tenho nenhuma. Nada. Zero.
5. E o governo também não.
6. Logo, se nós não sabemos, ninguém sabe.
7. Pelo que a única alternativa é empobrecer.
8. É o que os mercados esperam e premeiam.
9. Sendo assim, quem pede crescimento económico é patético.

***

Pedro Brás Teixeira, Cachimbo de Magritte
Espero que os gregos se lixem em breve, e em grande. Para os podermos usar como exemplo.

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Daniel Oliveira, Arrastão
Uma menina foi atropelada na China e ninguém a foi salvar. A culpa, quase de certeza, é do capitalismo.

Alguém dá por ele?

Onde está o número dois do Governo?
O que anda a fazer Paulo Portas?
Temos notícias de umas viagens por ali e por ali sempre em nome da sua paixão pela diplomacia económica, mas quando acordará o Ministro dos Negócios Estrangeiros para a necessidade de aparecer com um discurso sobre a Europa, para a Europa e na Europa?
O desaparecido em combate desconhecido, que não aparece em qualquer debate na AR ao lado do PM, que dê um ar da sua graça, porque temo que tenha produzido sobre si próprio um apagão.
E não tem esse direito.

Viver e morrer no inferno

As imagens da morte de Khadafi – um linchamento com execução, captadas com telemóveis e sem qualquer distanciamento da agitação a decorrer – dão-nos a ver um homem desorientado, apavorado, destituído de qualquer dignidade ou possibilidade de redenção. Um pobre diabo que viveu a maior parte da sua vida como um faustoso demónio.

Impressionar no desemprego, brilhar na falência, seduzir na miséria

Vacuum Tube: Kids under 2 Should Not Watch Television
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After Pregnancy Loss, Internet Forums Help Women Understand They Are Not Alone
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Too Much Undeserved Self-Praise Can Lead To Depression
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The Effects Of Existential Fear On Politics
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Gratitude As An Antidote To Aggression
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Advertising Goes to the Dogs
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Moving Poor Women to Less Poor Neighborhoods Improves Health
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New Psychotherapy Helps Depression Patients Cultivate Optimistic Outlook Instead of Traditional Therapy Focus on Negative Thoughts About Past
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Minority Consumers Will Voluntarily Pay More for Goods and Services to Assert Status
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Elections Increase Market, Economic Volatility

Vinte Linhas 677

Um poema de Maria Valupi em 1979

Há quem diga que o acaso não existe. Trata-se de uma questão sobre a qual nunca se chega a uma conclusão definitiva; nesse tema tudo é precário. Mas a verdade é só uma: outro dia andava na Faculdade de Letras a fazer tempo para uma sessão do Congresso de Manuel da Fonseca quando descobri uma Feira do Livro ali no corredor. Palavra puxa palavra percebo que o jovem encarregado do «estaminé» é filho de um casal – são dois escritores portugueses muito importantes e revelados nos anos 60. Vejo uma revista (Sema) com data de 1979 – Outono e que custava ao tempo 120 escudos. Não hesitei e comprei de imediato. Ao lado de poemas de António Osório surgem três poemas de Maria Valupi. Vamos ao poema escolhido:

«Eu vim depois dos mortos

que não estão imóveis,

dos náufragos itinerantes

de rosto e gesto tonto

que a água dos meus olhos

também guarda.

Eu vim depois dos puros,

dos fortes e dos exangues

– falsamente pálidos –

que no meu sangue aquecem.

Esses têm o meu amor

que não quer ser amado.»

(Recolhido e divulgado por José do Carmo Francisco)

Que vai Passos fazer à cimeira?

O primeiro-ministro avisou hoje que seria “imprudente aumentar a carga fiscal” sobre o sector privado admitindo que os patrões estão pressionados a cortar nos salários para aumentar a competitividade das empresas.

Sabemos que a racionalização de custos no sector privado significará em muitos casos um aumento do desemprego, a redução dos salários ou de outras compensações como bónus, benefícios e prémios de desempenho. Sabemos que significará em muitos casos a redução dos lucros e portanto dos lucros distribuídos. É o que farão os nossos competidores internacionais. Teremos de fazer o mesmo se quisermos ultrapassar a crise económica e lançar as bases do crescimento futuro.”

Fonte

Pergunto-me se estas (e outras) declarações, se lá chegarem, assim como o empenho deste governo nas suas novas políticas, se dele houver notícia, não causarão alguma perplexidade na União Europeia. Ou seja, para quê procurarem-se soluções europeias para a crise do euro e para “aliviar” a consequente carga brutal de austeridade que pesa sobre as populações de alguns países, entre os quais Portugal, se há palhaços destes a comprazerem-se e a promoverem convictamente o empobrecimento generalizado do país para fazer face aos “nossos competidores internacionais”? Aos nossos competidores internacionais!? Estará a referir-se à China ou à Índia, ou apenas à Roménia e à Bulgária?
Realmente, faltam-me as palavras perante tal frieza.
Corre-se até o risco de a cimeira ser decepcionante para Passos e Gaspar, agora que tudo estava a correr tão de acordo com o plano!
Mas comprova-se, se dúvidas ainda houvesse: Estes dois defendem o que, para políticos, vá lá, normais, seria absolutamente de combater.
Já desde Abril que Angela Merkel e outros se devem debater com esta dúvida: “Ils sont fous, ces portugais?”