Véu de Maia

Passos Coelho disse à saída do Parlamento, depois do debate sobre o programa do Governo, que desiludiria os portugueses se não falasse o que prometeu.

Ou seja, explica o primeiro-ministro, «falar a verdade e com transparência» para «não andar a reboque dos acontecimentos e não deixar o exercício orçamental chegar ao fim do ano para anunciar medidas extraordinárias».

O Passos Coelho refuta a ideia de que não falou a verdade aos portugueses durante a campanha eleitoral. «Aquilo que eu prometi aos portugueses foi transparência e coragem. É isso que procurarei fazer e foi o que quis fazer na minha primeira vinda ao Parlamento», frisou.

O anúncio do corte no subsídio de Natal não foi a forma mais simpática de se estrear no Parlamento, considera o primeiro-ministro, e sublinha que o que o «Governo pretendeu fazer nesta altura é o mais transparente e mais verdadeiro».

E conclui: «Não vamos andar de três em três meses a apresentar novas medidas».

Fonte

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Só um partido decadente chegaria ao ponto de fazer do vocábulo verdade o fundamento último – e agora também o primeiro! – do seu programa e discurso. Aconteceu em Portugal e permitiu um excelente resultado nas legislativas, dados os meios propagandísticos à disposição e o contexto político e económico. Acontece que esse partido não possui qualquer talento intelectual, é um coio de cavalheiros de indústria, pelo que está condenado a transformar em cassete o que utilizou como retórica eleitoral. É o que acaba de fazer Passos, apenas 10 dias passados após a tomada de posse. Vejamos o que ele está a dizer como justificação para uma decisão política – portanto, para uma escolha.

Diz-nos que a verdade prometida na campanha consiste na transparência e na coragem. E que são estes dois bichinhos? Ele também explica. A coragem consubstancia-se nas medidas do Governo, sejam elas quais forem posto que todas emanam da mesma substância. E a transparência é o anúncio mesmo dessas medidas; opondo-se, portanto, à opacidade, a qual equivalerá na axiologia dos passados a não tomar medidas.

As consequências são totalitárias e opressivas. Este Governo terá de repetir o mesmíssimo argumentário, sem alterar uma vírgula, a cada decisão sob pena de os portugueses ficarem desiludidos. A ilusão que está em causa manter é a do extermínio dos políticos, esses cidadãos que gerem os maiores conflitos comunitários assumindo as contingências, substituídos por leigos consagrados da religião da verdade. Nesta religião não se anda de três em três meses a apresentar novas medidas, aconteça lá o que acontecer no Universo. Reina um estado de necessidade suportado tão-só pela omnipotência daqueles que não mentem. Quem não mente, pode dizer qualquer coisa que passará a ser irrefutável. E se é irrefutável, então é verdade. E se é verdade, então nasce da coragem e exibe-se em transparência.

A verdade acaba com os conflitos, acaba com a doença da política.

Sentemo-nos

Vai ser giro observá-los a descalçar esta bota:

Questionado pelos jornalistas sobre o facto de o Governo português ter decidido suspender a construção do TGV, Siim Kallas sublinhou que os fundos comunitários disponibilizados para projectos da rede trans-europeia de transportes “não podem ser realocados”.
“Sempre encorajámos os Estados-membros a não cancelarem os grandes projectos em infra-estruturas”, disse o comissário europeu dos Transportes, lembrando o seu contributo para a criação de emprego
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Para já não falar dos espanhóis.

O seguro da direita

Seguro escolheu para lema de campanha uma chachada: O Novo Ciclo

Assis escolheu para título da sua moção estratégica uma galhardia: A Força das Ideias

Devia chegar para resolver a questão logo à partida. Entre um molusco ciclotímico e um Platão cujo mestre acaba de beber a cicuta não pode haver grandes nem minúsculas dúvidas. Acontece que o PS vai pelo Seguro, abdicando, aliviado, das ideias fortes. E prepara-se para se pôr nas mãos de um marmanjo que aplaudiu o discurso de Cavaco na tomada de posse, ao arrepio dos seus colegas de partido. Que autoridade política – e até moral – pode ter quem festejou como deputado mais uma golpada cavaquista, desta vez com o supremo desplante de ter sido dada na própria Assembleia da República?

Creepy!

Cadernos do viajante

Dança comigo

(sobre um óleo de António Carmo)

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiros, soltos e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

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