Passos Coelho ainda é um amador preocupante e, talvez, para bem de todos, o choque com a realidade que se chama Estado (que ele por vezes confunde com país) atenue a sua visão de uma pátria inexistente.
Em primeiro lugar, proclamou orgulhoso que teria 10 ministérios, não sabendo que tal implicaria fazer novas orgânicas, em lei, uma trabalheira, donde ter passado a uma redução de ministros que acumulam ministérios monstruosos, o que não significa nada em termos orçamentais, antes significando um pesadelo de gestão para os empossados.
Temos então menos ministros, mas trinta e tal secretários de estado, como é evidente, não sendo de excluir que surjam sub-secretários de estado, e temos inevitavelmente adjuntos que amparam o castelo de cartas.
Em segundo lugar, na apresentação do programa de governo, lá estava o PM a anunciar orgulhoso o fim dos governadores civis, esses inúteis que todos os portugueses querem no lixo. Ainda ninguém lhe explicou que os GC são uma exigência constitucional.
Em terceiro lugar, lembram-se quando nos últimos anos apareciam números surpresa, não do INE, mas de todas as instituições habilitadas par os ditar? O que sucedia? A oposição e um exército de comentadores alinhados no ódio e não no contraditório democrático a Sócrates apelidavam-no de mentiroso, de “faltar à verdade”, de já conhecer os números das instituições internacionais que os cuspiam ao ritmo da crise. Sócrates reagia à realidade e lá estava o ódio, o ataque, o sem número de adjectivos.
Com Passos, tudo é veludo. Abraça o INE e os respectivos números para o primeiro trimestre, depois de todo este tempo de escrutínio das contas por parte das instituições nacionais e sobretudo por parte da troika e toca a criar um imposto extraordinário sem ter demonstrado que não havia alternativa ao mesmo.
Adjectivos?
Zero.
Ódio?
Zero. E ainda bem. Ainda bem que esta oposição se atira ao que discorda com argumentos e não com uma inexplicável estratégia de ódio pessoal.
Nem mesmo quando não se fala verdade. Ouvir Passos e Portas dizerem que o imposto não afecta os mais pobres, os que recebem o salário mínimo nacional, é aflitivo. Por que não dizer que afecta todas as classes sociais, incluindo os mais pobres – quem ganha 483 Euros é rico? – mas que se estabeleceu a fronteira no salário mínimo? Não queriam tanto falar verdade?
A verdade, essa coisa tramada.
Finalmente, esta gente é dada a eufemismos. Quem recebe o subsídio de desemprego ou o RSI vai trabalhar, assim tipo trabalho para a comunidade ou voluntário, para simplificar. Por outras palavras, chama-se escravatura. Os meus amigos que recebem o RSI e que passam o dia à procura de emprego, até porque o RSI é transitório, agora vão trabalhar para o Estado, sei lá, talvez a varrer ruas por oitenta e tal euros.
Eles sabem poupar.