A cidade é a nossa casa

Como não frequento o meio político, nem o seu círculo social, desconhecia que Maria José Nogueira Pinto estivesse doente, muito menos supondo-a em estado terminal. Foi uma péssima surpresa a notícia da morte, pois, tendo tão viva a sua continuada presença mediática e parlamentar. Mas à tristeza, o desaparecimento de uma das figuras que mais contribuia para o confronto de ideias e a dinâmica da cidadania, seguiu-se uma boníssima surpresa: Nada me faltará

Esse texto é raro, senão único, nisso de ter sido intencionado como um epílogo post mortem para divulgação pública num jornal adentro da tipologia de uma mera secção editorial. Realço estes detalhes da forma, e do meio, por me parecerem parte intrínseca do seu significado último. As mesmas palavras destinadas a uma carta, mesmo que aberta, não teriam este cunho de essencial humildade que é o horizonte idealista da actividade jornalística e a fonte, hoje esquecida, da força da imprensa ao serviço da justiça e da liberdade no simbolismo do 4º Poder.

Ideológica e politicamente, MJNP era vulgar. A morte trouxe consensuais elogios à independência, ilustrada com a referência ao “caso da pala” e à sua saída do CDS, mas a sua prática não outorga decisivo relevo aos episódicos conflitos internos no seu trajecto. A verdade é a de que sempre se moveu no mundo oligárquico da direita, e nele assumiu um aristocrático verniz que as raízes familiares permitiam e promoviam. A paleta de crenças e hierarquias sociais que assumia, um mundo onde a existência de pobres e arrivistas estava prevista e era necessária, explica tanto a sua apetência para as obras de misericórdia como aquela explosão de sobranceria senhorial com que fustigou Ricardo Gonçalves no Parlamento chamando-lhe “palhaço” e “deputado inimputável”. Também o seu apoio a Cavaco Silva, e as opiniões que proferiu acerca de Sócrates ao longo do tempo, foram manifestações de uma postura que nada deve à independência – ou mera honestidade intelectual, ou virtuosa exemplaridade ética – antes à defesa guerreira do clã.

Todas estas características passam a secundárias face ao último texto que nos legou. É uma rigorosa lição de política disfarçada de biografia. Ou melhor, será a orgulhosa biografia de uma cidadã. A primeira frase é de antologia e subsume o principal:

Acho que descobri a política – como amor da cidade e do seu bem – em casa.

A casa é a primeira cidade. Porque é o lugar do primeiro encontro com o outro. Esse outro para sempre estranho, mesmo que seja o mais próximo pelo sangue, mas cuja estranheza faremos nossa ao descobrirmos que precisamos uns dos outros para a sobrevivência e para a realização. MJNP constrói a partir desta porta, com o rigor de um fio de prumo, o edifício do seu percurso. O que lhe aconteceu privadamente explica o que escolheu publicamente, e o que lhe aconteceu publicamente moldou o que escolheu privadamente, conta serena e espalhando confiança. Porque se procurou a si própria na sua identidade, cumpriu-se plenamente. Sim, claro, se pudesse, se fosse ela ainda a escolher, continuaria viva por 10, 20, 30 ou mais anos. Mas não para ser diferente, não para se arrepender, antes para continuar a fazer da cidade a sua casa.

Este seu derradeiro testemunho é um aristocrático hino à democracia.

Os valores não se proclamam, revelam-se

Ricardo Rodrigues vai ser julgado por ter perdido a cabeça frente a um jornalista que o provocou. A única vítima do episódio foi ele próprio, tendo somado à vergonha pessoal a culpa de ter dado ainda mais munição para o desgaste do PS, do Governo e de Sócrates.

Faz sentido que seja obrigado a responder em tribunal pelo crime de atentado à liberdade de imprensa, independentemente do desfecho do processo. O Estado deve ter tolerância zero para a dimensão formal do que está em causa posto que envolve a responsabilidade de um deputado.

E é uma excelente ocasião para lembrar a exemplar lealdade e solidariedade que recebeu de Assis. Nenhum calculista teria tido tal hombridade.

Vinte Linhas 641

«Diário de Noticias» – OMS não é ONU e galões são café com leite

Do «Diário de Noticias» de 9-7-2011, última página, a coluna de Ferreira Fernandes (Um ponto é tudo) usa uma expressão que em geral a nós portugueses, leitores do jornal, nada diz. Repare-se «Isto não vai lá poupando uns galões de gasolina».

O jornalista Ferreira Fernandes que eu conheci nos anos 80 na redacção do semanário O PONTO já nada tem a ver com este jornalista de hoje. Nesse tempo os mestres (como Jacinto Baptista ou Abel Pereira) ensinavam-nos que o jornalista deve informar, formar e divertir. Mas informar com dados ao alcance do leitor. Poucos leitores sabem que nos EUA a gasolina se vende aos galões. Em Portugal galões é outra oisa.

Para o comum dos leitores galões quer dizer café com leite em copo alto. A expressão galões de gasolina surge como uma dupla incongruência. Porque Ferreira Fernandes não se está a dirigir a americanos – que sabem. Porque, estando a dirigir-se a portugueses, deveria saber que eles não sabem.

No «Diário de Notícias» de 10-7-2011 a primeira página abre com «Portugal na lista negra da ONU por violência contra 40% dos idosos». Mas o título não está de acordo com o corpo da notícia pois a mesma refere a OMS – Organização Mundial de Saúde. Por muito que a OMS esteja ligada à ONU não é a mesma coisa. OMS é OMS; ONU é ONU. Mas também se estranha que Israel seja integrado numa lista de países europeus ao lado de Portugal, Macedónia, Áustria e Sérvia. Se desde 1948 o estado de Israel tem aumentado aos poucos a sua superfície no Médio Oriente não pode aparecer agora numa notícia integrado na Europa. Ou pode? Responda quem souber.

Quo vadis, PS?

Ana Lourenço mostrou, sem procurar disfarçar, a sua falta de pachorra para o seboso e gelatinoso Seguro. O militante do PS que ainda esteja indeciso teve naquela carinha laroca um farol avisando para o local do provável naufrágio.

Assis é bruto e brutal. Os moralistas, a começar por Seguro neste debate, passando pela direita hipócrita e conspiradora e acabando nos imbecis da extrema-esquerda, borram-se de medo à sua frente.

Que raio de métodos

Segundo o jornal britânico The Guardian, a CIA organizou, com a colaboração de um médico e de uma enfermeira de Abbottabad, no Paquistão, uma campanha de vacinação generalizada contra a hepatite B apenas para obter o ADN dos familiares de Bin Laden, suspeito de habitar a povoação. As vacinas ficaram-se pela primeira dose das três obrigatórias. Espero que, apesar disso, tenham surtido efeito.

Mas não posso deixar de lembrar-me do evangelho de S. Mateus, segundo o qual e cumprindo-se uma pofecia do Antigo Testamento, Herodes, rei da Judeia, terá mandado assassinar todas as criancinhas de Belém no intuito de impedir, na fonte, que o seu trono fosse usurpado pelo recém-nascido “Rei dos Judeus”.

Ai, as fontes de inspiração da CIA! Vá lá que não se tratou do extermínio de uma população. Mas ao menos podiam ter administrado as três doses…

Passaremos agora a olhar as campanhas de vacinação nos países mais pobres com outros olhos. É ou não é? Que a agulha entrava, já suspeitávamos, mas que também trazia alguma coisa de volta já demorariamos mais a pereceber.

A que preside este presidente?

RTP

Já sabíamos que Durão Barroso pouco se tem afirmado à frente da Comissão Europeia. Ontem, em entrevista ao canal 1 da RTP, veio confirmar não só isso mesmo, mas também a total ausência de visão própria da Europa e dos últimos acontecimentos e até o desconhecimento de muito do que se tem dito sobre eles, parecendo Barroso viver noutro planeta. Serão efeitos da irrelevância a que os principais líderes europeus o votam? O homem, no entanto, deixa transparecer que assume o seu papel de joguete “com inteira responsabilidade”. A entrevista foi medíocre. Não pelas perguntas, que até não foram mal colocadas, embora tenham deixado de fora alguns assuntos e pudessem ter ido mais longe noutros, nomeadamente a questão do PEC 4 e da reacção da UE. Mas sobretudo pela falta de qualidade das respostas: vagas, desinteressantes, sem chama, circulares. Em suma, uma entrevista batante inútil e que só serviu para expor o total servilismo de Barroso e a descoordenação e desorientação que paira na Comissão, que parece mais intrigada com tudo o que se passa do que competente para o enfrentar.

O homem transparente

Ninguém, fora do aparelho, sabe o que este homem defende. Ninguém, fora do aparelho, sabe quais são as suas posições, as suas convicções, qual o rumo que quer para o partido, muito menos para o país. Ninguém, fora do aparelho, o viu combater por qualquer coisa que seja, defender o que quer que seja, revoltar-se pelo que quer que seja. Da sua boca, apenas banalidades tiradas da “Enciclopédia das generalidades em política”, estudadas ao milímetro para não provocar polémica e não o comprometer. Todas as críticas para os adversários internos são indirectas, entendidos, meias-palavras, frases assassinas no sentido da morte pelo tédio, ditas apenas nas alturas convenientes.  Todas as críticas para os adversários externos são suaves, “responsáveis”, politicamente correctas, submissas para não ofender e não “crispar”, podemos ser todos amigos não é, claro que aplaudo de pé, Sr. Presidente, olha o “respeito institucional”. Comparado com ele, o Jaime Gama parece o Hugo Chavez. Este homem é a encarnação da abominável expressão “fulano esteve menos feliz”. Não tem chama, não provoca qualquer tipo de entusiasmo, não ofende, não ameaça, não nada. É o politico genérico, marca branca. Para efeitos práticos, não existe. O anti-Sócrates de tal maneira perfeito, que o único motivo pelo qual não se aniquilaram num flash de luz é porque um deles é constituído exclusivamente de neutrões. Este homem, a ser eleito, completará o círculo de uma maneira que nem Sá Carneiro sonhava: Uma maioria, um governo, um presidente, uma oposição. Mas se calhar é bom. Depois de seis anos de governo duríssimo, e estando o futuro do país fora das nossas mãos, o PS está a precisar de uma cura de sono. E o barulho, realmente, incomoda.

Paradoxos da crise à portuguesa

Uma das curiosidades na crise portuguesa, radicando na nossa identidade e História recente, é a existência de uma profunda disponibilidade intergeracional para assumir projectos com dimensão nacional. Só falta a liderança para indicar o caminho.

Por exemplo, imaginemos que se estabelecia um consenso para transformar Portugal num pólo de indústrias tecnologicamente avançadas. Ou para recuperar a pesca e a agricultura. Ou para expandir os sectores do calçado, vinha, azeite e automóveis. Ou tudo isto ao mesmo tempo. Aparecendo uma decisão, e os respectivos meios políticos e económicos, centenas de milhares de portugueses estariam agora em condições de reproduzir por cá qualquer padrão de excelência internacional.

O que criou este potencial são os mesmos factores que alguns apontam como a causa da crise: o tremendo investimento público, nesta terra que vivia numa miséria salpicada de enormes fortunas, no ensino, saúde, redes viárias, estruturas de comunicação e segurança pública desde o 25 de Abril.

A árvore deu excelentes frutos. Haja alguém para lhes aproveitar as sementes.

Vinte Linhas 640

Um forno de pão de Santa Catarina ao lado do Casino Estoril

Há muitos, mesmo muitos anos, que eu não visitava a Feira de Artesanato do Estoril, ali mesmo ao lado do Casino. Entre a gastronomia, o artesanato e a animação musical, tenho boas memórias daquele espaço mas, se os miúdos eram pequenos e hoje a mais nova já tem 26 anos, percebe-se que passou muito tempo desde a última visita. Outra coisa que mudou – havia sempre lugar para o automóvel e agora é um pesadelo.

Mas hoje (dia 9 de Julho de 2011) foi mesmo especial. Ao dar uma volta pelo certame que comecei pelo lado esquerdo de quem entra, dei de caras com uma curiosa inscrição «Padaria – Forno de pão» num dos stands e os empregados envergando umas T Shirts com o nome da minha terra – «Pão de Santa Catarina».

Mais do que uma curiosidade (descobrir um bocado da minha terra natal junto ao Casino Estoril) tratou-se de uma emoção: o rapaz que está à frente do projecto (produz pão, bolos, sopas, filhoses, pão com chouriço) é filho de um padeiro que tocou na Filarmónica Catarinense ao lado do meu avô José Almeida Penas. Lembro-me bem de a mãe do João (ao tempo ele com 12 anos) ter ido a casa da minha avó para autorizar o seu filhote mais pequeno a tocar na Filarmónica Catarinense desde que o meu avô tomasse conta dele nas deslocações às terras vizinhas. Ele era pequenino e o meu avô foi a sua âncora naqueles Verões com festas todas as semanas pelos arredores da nossa terra. Trouxe da Feira de Artesanato do Estoril duas filhoses e três bolos secos mas o mais importante foi descobrir um forno e uma padaria que vende pão da minha terra ali ao lado da catedral do jogo – o Casino Estoril.

Supremo desdém

Tem sido bastamente referida a ausência das realidades política e económica da Europa no discurso de tomada de posse presidencial, onde Cavaco apresentou aquela que foi considerada – por um constitucionalista do estatuto e probidade de Jorge Miranda – uma inaudita, absurda e pérfida moção de censura ao Governo. A ninguém escapou, a começar pelos ranhosos que aplaudiram frenéticos, que o fim justificava o meio: para diabolizar Sócrates, fazendo do PS o único responsável pelas consequências da crise, era curial apagar o contexto mundial e europeu desde 2008 até ao presente. Tal como nem uma palavra gastou com as opções da oposição após as legislativas de 2009, primeiro recusando partilhar responsabilidades parlamentares ou executivas, depois boicotando celeradamente o Governo com as coligações negativas. Para Cavaco, tudo se resumia a culpar os governantes, até os políticos em geral, e a deixar o seu asco pela democracia:

Mostrem a todos que é possível viver num País mais justo e mais desenvolvido, com uma cultura cívica e política mais sadia, mais limpa, mais digna […]

Discurso

Contudo, e por incrível que pareça, a ausência ainda mais reveladora da falta de ética republicana, e de respeito pátrio, do actual Chefe de Estado é o facto de não ter mencionado nessa solene ocasião, sequer por mera avulsa ocorrência, as Forças Armadas de que é Comandante Supremo. Nem a propósito das celebrações do centenário da Revolução de 5 de Outubro recentemente findas, nem do 25 de Abril que instaurou o regime democrático e a liberdade no qual acabava de ser eleito, nem das missões no estrangeiro, onde milhares de militares portugueses têm arriscado as suas vidas em nome da paz ao longo dos anos, Cavaco encontrou ocasião para reconhecer algum mérito à instituição e concidadãos que a servem e nos servem. No discurso não há nada de nada de nadinha de nada para este pilar do Estado, da República e da Democracia.

Europa, Forças Armadas e História de Portugal desapareceram das palavras do homem mesquinho, parolo, odioso que ia permanecer instalado no Palácio de Belém nos 5 anos seguintes. Em sua substituição tivemos uma golpada longa e friamente planeada. A sonsice chegou ao ponto de ter dito que a crise à volta do chumbo do PEC 4, que durou semanas, tinha sido rápida demais para a sua capacidade de intervenção, ao mesmo tempo que transmitia a mensagem de ser a hora para deitar abaixo Sócrates com todas as forças que a direita tivesse. A sua actual postura de obscena contradição com posições assumidas quando o PS governava só vem confirmar, pela enésima vez, que estamos perante um vale tudo desenfreado e ilimitável. Também para a compreensão do seu tremendo sucesso ficam as alianças tácitas que recolheu no BE e PCP, os quais adoraram o desgaste provocado por Belém em Sócrates. Recorde-se o modo complacente e divertido como bloquistas e comunistas reagiram à Inventona das Escutas, por exemplo, para vermos o que é uma suposta esquerda que acaba por ser uma aliada da direita mais revanchista e conspiradora sempre que tal permita derrotar o socialismo democrático.

Do carácter político da criatura, e da sua decisiva influência na marcha dos acontecimentos nacionais ao longo de 30 anos, não temos falta de informações e opiniões. Só gostava era de saber o que ficaram os nossos militares a pensar do supremo desdém do seu Comandante.

Acordaram tarde, não são unânimes e parecem delirar

“A Europa não pode permitir que o euro seja destruído por três empresas privadas norte-americanas”, disse a comissária luxemburguesa, exigindo mais transparência e mais concorrência na avaliação de Estados pelas referidas agências.

“Só vejo duas soluções, ou os Estados do G-20 decidem desmantelar o cartel das três agências de ‘rating’ norte-americanas, e de três agências fazer seis, por exemplo, ou criar agências de ‘rating’ independentes na Europa e na Ásia”, acrescentou Reding.

Fonte

1. Das três agências referidas, uma tem propriedade francesa – a Fitch. Existem centenas de agências de notação, mas estas são as mais influentes. Até uma agência ganhar credibilidade passarão muito anos.

2. A Moody’s mais não fez do que reconhecer oficialmente que os planos de austeridade impostos pela Troika aos Estados em apuros não resolvem a situação e, pelo contrário, a agravam. A conclusão de que a análise feita pela agência e a consequente decisão visam atacar o euro é baseada na susceptibilidade de quem sabe perfeitamente que aquilo é verdade (como está demonstrado pelo exemplo da Grécia) e não gosta que lho lembrem.

3. Na Comissão, já ouvimos Olli Rehn a defender a criação de uma agência europeia, Barroso a não achar boa ideia, preferindo regulamentar as existentes, e agora a comissária Viviane Reding a defender a divisão das três para dar lugar a seis e nenhuma nos Estados Unidos. Eis o que me parece já próximo do delírio.

4. É evidente que estas agências têm muito de questionável, começando pela notação excelente dada a instituições financeiras à beira da falência, em 2008. Mas só agora que se sentem “às aranhas” para resolver a crise das dívidas soberanas europeias é que se lembram de atacar as agências de notação financeira? O próprio BCE se tem orientado pelas suas notações!

A meio da guerra

A fotografia, esquecida, acabou por se tornar «histórica».

Vejamos: o fato alugado apenas para a fotografia, a própria camisa que teve de ser apertada nos cotovelos, a gravata sujíssima mas que a fotografia disfarça.

Depois, a cara jovem não transpira o medo daqueles dias a meio da guerra.

Pensamentos horríveis enchiam o quarto nas horas de solidão: aviões a disparar durante horas, o pó familiar só nos relatos dos veteranos, a enfermaria a encher-se lentamente.

Quando império ridículo caiu como um pacote de biscoitos no chão um supermercado
já a fotografia tinha alguns anos.

A triste figura do cidadão Duarte

 

Já que temos um Rei a fingir, depois deste espectáculo lamentável, está se calhar na altura de uma abdicação a fingir. Se não ceder, proponho um regicídio com uma pistola de fulminantes, desde que concorde em fingir-se de morto. Sempre poupava a causa, e nós já agora,  a mais embaraços deste calibre.

Vir a publico defender um regime ditatorial e sanguinário que não hesita em torturar crianças para se manter no poder. Crianças! E para quê? Para que as empresas portuguesas aproveitem as “oportunidades” dadas pela “pessoa decente” responsável pela barbárie, oportunidades essas que existem graças ao boicote, mais que justificado, de outros países. Ignorem a repressão feroz, a morte, a tortura de homens, mulheres, velhos e crianças – vou repetir novamente, crianças – , a absoluta falta do mais básico sentido de humanidade, e há dinheirinho para vocês, perceberam? Foi isto que Assad o encarregou de transmitir, e que ele prontamente fez, deliciado com a importância que lhe davam.

Tinha de Duarte Pio uma imagem de alguém simpático, dado a causas humanitárias e inofensivo, como qualquer outra celebridade. Mas não é. É um tipo sem a mínima noção de decência. É este que quer ser Rei? Não obrigado, antes o Cavaco.

Impressionar no emprego, brilhar nos jantares, seduzir em festas

You Are What You Tweet: Tracking Public Health Trends With Twitter
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Pigeons Never Forget a Face
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Couples Report Gender Differences in Relationship, Sexual Satisfaction Over Time
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Bigger Than Football: Study Shows Sports Can Help Communities Recover from Disaster
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Beauty Is in the Medial Orbito-Frontal Cortex of the Beholder
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Leaving Anger On the Field: Statistics Show That Sports Help Ease Aggression in Boys
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Outrage as Obedient Wives Club spreads across south-east Asia
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Sex Is Not About Promoting Genetic Variation, Researchers Argue
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It’s Time to End the War on Salt
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Ironic Effects of Anti-Prejudice Messages
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Power from the Air: Device Captures Ambient Electromagnetic Energy to Drive Small Electronic Devices
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Voting in Elections Is Stressful – Emotionally and Physiologically
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Women Less Likely Than Men to Fake Soccer Injuries

Recordar é viver

Em Junho de 2010, Portugal tinha um Presidente da República que era uma incontestada sumidade em Economia e Finanças, o qual fazia questão de falar verdade (ahahah!) sempre que dizia coisas. Por infortúnio, foi obrigado a suportar um primeiro-ministro famoso pelo seu optimismo delirante e funesto, o qual arrastou uma série de países europeus para o abismo apenas por ter decidido respeitar os acordos já financiados com vista à construção da linha de TGV entre Lisboa e Madrid, explicaram com genuíno entusiasmo as pessoas sérias. Este senhor teve ainda a trágica ideia de que devia tentar afastar Portugal de uma ajuda externa (ahahah!) que estava a piorar a situação da Grécia e da Irlanda, quando as pessoas de bem desesperavam era pelo FMI e tudo faziam para que a sua entrada fosse inevitável e em força. Havia que higienizar os nativos, curar as doenças espalhadas pelos socialistas. Este tal senhor gajo era um traidor, pois.

Recordemos:

O Presidente Cavaco Silva considera que Portugal está numa “situação bastante complexa”, e, num alerta a todos os presentes, não deixou de esclarecer qual a sua opinião sobre a situação actual do país.

“A maioria dos que estão aqui sabem que há bastante tempo que o país se encontrava numa situação económica insustentável (…) bastava ter presente a evolução de três variáveis: o desequilíbrio das contas externas, a dimensão da dívida externa e o pagamento ao exterior de juros e outros rendimentos. Analisando estas três variáveis nós sabíamos de certeza que chegaria o dia em que os mercados internacionais exprimiriam dúvidas quanto à capacidade de Portugal gerar riqueza para cumprir os compromissos assumidos no passado”, referiu.

Perante a situação actual, o chefe de Estado não tem dúvidas de que “chegaria o dia em que alguém seria chamado a pagar a factura.”

– * –

“Não gostaria de comentar as palavras do Presidente da República, eu digo as minhas. O que o país precisa é de confiança. Não acentuem o negativismo”, disse José Sócrates aos jornalistas no final do debate quinzenal, na Assembleia da República.

“Muitas vezes sinto-me sozinho a puxar pelas energias do país e acho que o negativismo e o catastrofismo, próprio da lógica do quanto pior melhor, não terá sucesso”, declarou.

Bónus

Neste episódio, Cavaco também nos brindou com a sua peculiar aritmética das virtudes, ao melhor estilo do Almirante Américo Tomaz:

Eu sou uma pessoa que tem dois princípios fundamentais na vida: a honestidade e a verdade e cumprir as promessas feitas.

Vinte Linhas 639

A não perder as 300 sardinhas da Rua Augusta

Na Rua Augusta nº 96 está patente ao público até ao dia 3 de Setembro próximo uma exposição muito especial – são as 300 sardinhas pré-finalistas do concurso das Festas de Lisboa 2011. No espaço da Fundação Millenium BCP (entrada livre) lá estão, de 1 a 300, as peças escolhidas entre as 2.080 que participaram no concurso lançado pela EGEAC no início do ano.

Neste mesmo espaço da Baixa Pombalina funciona o Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros com entrada livre e encerrado aos domingos e feriados. As escavações feitas revelaram tanques das fábricas de conserva de peixe. A sardinha já era importante no tempo dos Romanos e a exportação de peixe em conserva (ânforas de argila) em muito contribuiu para a opulência económica de Olisipo, a actual Lisboa.

Nesse aspecto não poderia ser melhor escolhido o espaço para a exposição das 300 sardinhas finalistas das Festas de Lisboa de 2011.

Em vez de aberta apenas a ilustradores, designers e artistas plásticos, desta vez participar no certame ficou ao alcance de todos.

Ver a exposição é uma festa: seja a sardinha táxi de Nuno Coutinho ou a sardinha Zé Povinho de L. Frasco, seja a sardinha Camões-Fernando Pessoa de João Leal Pereira ou a sardinha Bandeira de Bruno Rei Santos, seja a sardinha Cutelaria de Josep Escale Casas ou a sardinha Musical de João Abraúl, tudo aqui é uma festa de talento e de imaginação, tendo a sardinha como ícone – que o é desde 2003 nas Festas de Lisboa. De segunda a sábado das 10 às 13 e das 14 às 17 horas aqui fica o convite a não perder.

Our man in Saint Benedict

Para além dos protestos ridículos das alimárias que nos governam contra as agências de notação e dos comentadores seus apoiantes que parece só agora terem visto a realidade, provocando-nos uma imensa vontade de rir, e para além da austeridade plus plus que este governo se propôs adoptar (a ver vamos) com grande entusiasmo e amadorismo, convém não perder de vista o programa político e a missão de que se incumbiu Passos Coelho e para os quais os aparentes “murros no estômago” são meros acidentes de percurso.

Por estes dias, muitas empresas, sobretudo as mais importantes no mercado, devem andar eufóricas e com mal contida ansiedade perante as benesses que aí vêm, apesar e por causa da degradação da posição do país. Ele é a TSU que baixa mais do que esperavam, ele é as empresas públicas à venda a preço de saldo, ele é a privatização de centros de saúde, ele é a venda das acções douradas, ele é o desmantelamento do Estado com que sempre sonharam, ele é a mão-de-obra barata, ele é a rédea solta, ele é uma ministra da Justiça “amiga”, enfim, o paraíso está bem perto.

Pedro Passos Coelho, por mais empenho que exiba (o homem parece-me cínico) em pôr na ordem as contas públicas para o país voltar a crescer (olha a Grécia, querem que ria ou que chore?) é claramente o seu agente. Depois de devidamente afundado o país em dívida, mais dívida, recessão e desemprego, restará a Passos ser corrido e, depois do interregno e da missão cumprida, retomar a sua florescente carreira de empresário numa das empresas cujos interesses tão diligententemente foi defender para São Bento. Haverá várias, agradecidas, à escolha. E assim tudo acabará bem. Para ele, claro está.