Breves conclusões da cimeira

Os alemães e os franceses provaram que a UE e o Euro são para levar muito a sério, o “independente” BCE pode ladrar o que quiser, mas dá a pata quando o dono manda, e mais nada. Estamos definitivamente a caminho de uma federação, e se as coisas derem para o torto, como podem perfeitamente dar, vamos todos abaixo. Mas por agora respiramos. O Papandreou, como bom socialista,  salvou o seu país e deve ser corrido em breve. O Pedro Passos Coelho é um filho da mãe com sorte, e tem governo para quatro anos, ou até começar a recuperação e o Cavaco quiser disputar os louros, o que chegar primeiro. As grandes obras e investimentos públicos com fundos da UE – para a criação de emprego e recuperação da economia – devem ser lançados para o ano e serão valentemente elogiados pela direita, para quem o betão é o equivalente da cocaína. O BE morreu ontem. O António José Seguro também, mas ninguém dará pela diferença.

Diálogos prováveis

– Abílio, que achas da ideia de acabarmos com o uso deste símbolo da burguesia e do imperialismo que é a gravata e, em troca, a empresa compromete-se a nunca mais ligar o vosso ar condicionado como forma de solidariedade para com os movimentos ecologista, naturista e sindical?

– Colossal, sr. Director.

Malucos do riso

“Não há nenhum buraco colossal nas contas públicas. Creio que todos aqueles que seguem a política em Lisboa já o perceberam nesta altura. Houve uma utilização abusiva de uma alusão, que eu fiz, a um esforço colossal que o Estado vai precisar de fazer, em praticamente meio ano, para poder acomodar um desvio de despesa de quase mil milhões de euros”, disse Passos Coelho.

21 de Julho

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Miguel Frasquilho, uma das vozes mais autorizadas do PSD em matéria de política económica, afirmou, segundo citação da Agência Lusa que não há na afirmação do primeiro ministro “qualquer tentativa de fugir às responsabilidades de cumprir o défice de 5,9 por cento este ano”. E sublinhou que “o Governo está muito determinado em cumprir os objetivos”.

Frasquilho explicou ainda que a expressão “desvio colossal”, empregada pelo primeiro ministro em reunião do Conselho Nacional do PSD se referia ao défice público de 7,7 por cento no primeiro trimestre, apurado pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE) no final de junho e que é “conhecido de todos os portugueses”.

13 de Julho

Este Governo é um colosso. Está tudo grosso, está tudo grosso.

A expressão “desvio colossal” atribuída a Pedro Passos Coelho no Conselho Nacional do PSD afinal não tinha outras palavras pelo meio, a acreditar no que está publicado no jornal oficial do partido, o Povo Livre.

Quando saiu em defesa do primeiro ministro, o ministro das Finanças explicou que as palavras “desvio e colossal” não estavam juntas na mesma frase mas a verdade é que, a mesma expressão, está escrita no jornal oficial do PSD, o Povo Livre. Na página nove da edição de 13 de Julho, a notícia do Conselho Nacional relata o discurso do líder do partido e coloca entre aspas não duas mas três palavras juntas “um desvio colossal”.

Fonte

A face dos mercados

Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, o maior Hedge Fund do mundo, gere perto de 100 mil milhões de dólares, tem como clientes principalmente fundos de pensões e instituições governamentais, e especializa-se em mercados monetários e dívidas soberanas. O ano passado, ganhou entre 2 a 3 mil milhões de dólares de remuneração, e pensa na economia como uma gigantesca máquina a ser dominada, que funciona de acordo com as leis de Darwin. Alguns chamam-lhe o “líder de um culto”. Para quem pensa que “os mercados” são uma espécie de entidade etérea, quase mítica e incompreensível, aconselho este excelente artigo de fundo da New Yorker. É longo, mas permite conhecer melhor o pensamento de quem exerce, efectivamente, esse imenso poder.

O único amigo de Merkel em Portugal

Nunca se tentou no Mundo um projecto de união política tão improvável como aquele que está em curso na Europa desde 1957. Nem a formação dos Estados Unidos da América, muito menos a criação da ONU, têm paralelo quanto às dificuldades organizacionais inerentes à construção da União Europeia. Isso faz da Europa o local da experiência mais vanguardista do modelo político que começou na Fenícia há perto de 3 000 anos e se consagrou historicamente na Grécia nos séculos VI e V a.C. como δημοκρατία.

A par desta evidência, temos assistido a um desprezível cortejo de simplismos intelectuais, e fragilidades psíquicas, face à actual crise financeira na UE. A repetição de que ela se vai agravando apenas por causa de uma birra alemã de uma alemã, ou o disparatar catastrófico que já vê tanques gregos, irlandeses e portugueses a atravessarem o Danúbio, são exemplos de dissonância cognitiva porque não é possível supor que as figuras que assim se expõem ao ridículo ignorem as reais razões que estão na base da actual situação política europeia e os previsíveis modos em que ela se resolverá.

Por estes singelos factos, aplaudo as palavras de Merkel:

No decurso de uma conferência de imprensa conjunta com o Presidente russo, Dmitri Medvedev, em Hannover, Merkel assegurou que «nem amanhã [quarta-feira] nem quinta-feira» vai ser possível dar um «passo espectacular» para resolver a questão do endividamento grego, por se tratar de uma questão «muito complexa».

Merkel, que avisara ainda no domingo que só se deslocaria a Bruxelas com uma real possibilidade de acordo em cima da mesa quanto ao segundo pacote financeiro que a zona euro está a desenhar para a Grécia, deixou claro que “são precisas medidas adicionais” para responder à crise das dívidas soberanas, mas “não um grande passo que solucione todos os problemas”.

Esta concordância faz de mim o único amigo que a senhora tem neste momento em Portugal.

Aprender a viver com a verdade de Passos Coelho

Que não espante se o colossal desvio detectado, ou antecipado, pelo Primeiro-Ministro, cuja existência ou lógica tem sido negada do seu Ministério das Finanças a Bruxelas, dito superior a dois mil milhões de euros, venha a ser de dois mil novecentos e noventa e nove milhões de euros, ou ainda uma qualquer outra verba superior, a qual, por ser superior a dois mil milhões de euros, mesmo que acabe por ser de vinte ou duzentos mil milhões, continuará como prova da transparência e coragem com que se lida com a verdade.

Perguntas embaraçosas

Primeira pergunta – A nossa direita não se coibiu de tecer loas a Barak Obama desde a sua eleição. Agora, o jogo dos republicanos em relação ao limite da dívida, que se arrisca a mergulhar de novo a América e o mundo numa crise, assemelha-se muitíssimo às rábulas por aqui também representadas por PSD e CDS no último ano. Em que campo estarão agora? Rejeitarão a imagem que vêem no espelho?

Segunda pergunta – A propósito do 93.º aniversário de Nelson Mandela, afirmou o nosso presidente da República, em tom enfático de veneração, que, apesar dos 27 anos de prisão, nunca o mais ligeiro grão de “ressentimento ou vingança” (fim de citação) aflorou à mente daquele ser superior. Não faz parte da moral cristã, que sua excelência pretensamente pratica, seguir os bons exemplos?

A História é paciente

Paulo Pedroso tem feito um curioso, e generoso, trabalho de recolha de opinião a respeito das eleições no PS:

O processo eleitoral em curso no PS: o debate blogsférico, parte I (até 12 de Julho)

O processo eleitoral em curso no PS: o debate blogsférico, parte II (do debate televisivo a 18 de Julho)

É consensual a expectativa de que Seguro ganhará. Se se verificar, será o melhor do pior que pode acontecer ao PS. Tal como com a vitória de Passos, a História é paciente e gosta de comparações. A continuação de Sócrates como primeiro-ministro teria levado o Cavaquismo para o absoluto histerismo e provocaria uma descontrolada pulsão revanchista. A dimensão das conspirações que seriam lançadas com a conivência, ou mesmo activa cumplicidade, do PCP e BE teria uma dimensão imprevisível. Em vez disso, com a vitória do PSD, em poucos dias assistimos ao degradante espectáculo do reviralho argumentativo daqueles que se calavam a respeito dos factores externos na crise económica e financeira e que apenas promoviam a irracionalidade persecutória. É desta matéria plástica que eles são feitos e quem nasce para videirinho não mudará nunca.

Com Seguro passa-se algo similar. Caso perdesse, continuaria a minar a direcção do partido, gerindo a sua afectividade militante para atacar na próxima oportunidade. Ora, é melhor despachar o quanto antes este simulacro de líder, aproveitando-se a estadia na oposição para o levar a gastar os seus cartuchos. Caso não sejam de pólvora seca, como parece, pois tanto melhor para a política nacional. Se se confirmar estarmos perante uma fraude, fica arrumada a questão e não se fala mais nisso.

O ódio que Sócrates e Santos Silva despertaram nas oligarquias e corporações não pede especial inteligência para ser explicado: estavam a vencer como e onde nunca ninguém tinha vencido. Os grandes senhores, os Balsemão, Belmiro e Soares dos Santos, tinham pela primeira vez à frente um Governo que não temia as suas ameaças nem a sua perseguição. Cavaco desesperava de impotência e raiva, atirava-se à doida para golpadas infames e desonrosas. O PSD era a imagem acabada da decadência e o CDS da irrelevância. Não fosse a crise internacional, depois a da Europa, Sócrates continuaria sem rival e a apresentar serviço.

Ora, quem representa esta escola no PS, neste momento, é Assis. Seguro nem sequer a compreende, ofuscado como sempre esteve consigo próprio.

Projecto Intimidades via Questionário Anónimo

Gostaria pedir a sua ajuda no sentido de divulgar a minha investigação de Doutoramento, relativa à Intimidade no Casal. Iremos executar uma grande análise de dados no final do mês de Julho e gostaríamos de ver incluídas tantas participações quando possível.

Poderá participar preenchendo o questionário online ANÓNIMO disponível no site do projecto:
https://sites.google.com/site/intimacyanddesire/

Para participar, basta estar casado/o (não interessa há quanto tempo) ou coabitar com o/a companheiro/a há pelo menos 2 anos, e ter concluído o 9º ano de escolaridade.

Contribua para a investigação nacional, participado e também divulgando este questionário pelos seus amigos, colegas e familiares.
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Muito obrigada pela sua colaboração!

Luana Cunha Ferreira
Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa
Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

Cineterapia


Good Bye Lenin!_Wolfgang Becker

Apesar do Verão, apesar de Julho, apesar da lógica que leva a considerar uma excelente ideia projectar filmes ao ar livre, a noite de 14 de Julho quis imitar o clima de Berlim algures no Outono. Depois de ter passado por lá armado em valente, só com uma camisola pintarola neste corpinho de Adónis, desatei a correr até casa para me equipar com camisolão, blusão da vela e gorro de montanha. Ao voltar, espalhados pelo relvado, vi casais e grupos debaixo de mantas e cobertores. E ainda não tinham chegado as rajadas de vento mais fortes.

Na Quinta das Conchas venta bem. Mas até há poucos anos, 2005, havia a protecção de uma densa mancha de arvoredo a partir da inclinação. Este foi um espaço selvagem durante toda a minha infância e adolescência. Era o território dos índios da Musgueira. E nós, os betinhos dos prédios, não ousávamos ultrapassar o vasto relvado pantanoso onde nem futebol se conseguia jogar em condições. Rugby sim, e correr também, mas havia sempre a ameaça dos musgas que utilizavam a quinta como caminho de fuga quando roubavam alguém nas ruas próximas. Sabiam-se numa zona não policiada e dominavam aquela pequena-grande selva. O espaço foi completamente requalificado pela Câmara Municipal de Lisboa e oferece agora condições soberbas – tanto em instalações, desenho de trajectos e segurança – para a sua frequência por crianças, idosos, famílias. É uma jóia de bem-estar.

Foi aqui, em 2008, que alguém tomou a feliz decisão de começar a passar filmes à borla: CineConchas. A iniciativa vai no quarto ano consecutivo e regista crescente popularidade. O entusiasmo, carinho e profissionalismo da equipa organizadora pode e deve ser desfrutado através das suas próprias palavras. São testemunhos inspiradores, que permitem ver estes eventos a partir do esforço e cuidado de quem os concebe e produz. O que encontramos no bondoso website do CineConchas revela um cunho de pessoal compromisso com vista ao sucesso da acção que fica como exemplo perfeito do potencial da participação cívica e do poder autárquico.

E o filme? É mais um daqueles, ainda raros, que nos sabem falar daquilo que a Europa tem de melhor: a liberdade. É por aí, por esse ideal conquistado com sangue ao longo de séculos de uma História comum, que começa a união europeia. É por isso que temos orgulho em sermos europeus.

A valsa dos mentirosos

Nos últimos anos, tudo que o PSD fez, enquanto oposição, foi mentir. E mentir. E depois mentir ainda mais. Mentiram tanto, e tão descaradamente, que isso se tornou um modo de vida, uma maneira de estar. Qualquer assunto, qualquer acontecimento, qualquer desenvolvimento é já processado, automaticamente, segundo a melhor maneira de mentir sobre ele. E  aconteceu uma coisa curiosa, entretanto: de tanto o fazer, tantas vezes e tão naturalmente, sem serem confrontados, começaram a acreditar nas próprias mentiras. A fronteira com a realidade começou a esbater-se, tal como acontece com os comunistas, e criaram a sua própria. Isto é o que eles são neste momento: uma máquina bem oleada de spin. Ou seja, de mentira.

É por isso que me espanta a ingenuidade de quem pergunta, perante o inevitável confronto com a realidade que a governação acarreta, se entretanto “já viram a luz”, se já “perceberam a crise internacional”, se “já dão razão a Sócrates”. Espanta-me que se pense que quem vive a mentira de uma maneira tão natural e profunda possa subitamente mudar quando é governo, como se achassem que antes estavam apenas equivocados ou, no máximo. de má-fé. Não estavam, eles sabiam perfeitamente qual era a situação, as suas causas, e as soluções possíveis para sair dela. Há reputados economistas, gestores e académicos no PSD, que estavam fartos de saber o que se passava. Há lá gente inteligente. E todos eles, após cuidada análise das causas, consequências, e evolução da crise, mentiram. Processaram essa realidade para a realidade alternativa, aquela que sai cá para fora através dos média que controlam totalmente, e dos outros que se deixam controlar. Não houve melhor exemplo do que a de Miguel Frasquilho, que escrevia uma coisa nos seus relatórios profissionais, sérios e ponderados,  enquanto dizia o oposto em público com a cara mais natural do mundo. E quando confrontado, deixava a entender que, no fundo, só o escrevia porque a tal era obrigado. “Enganar o bifes”, estão a ver? É só isso, o Sócrates está a mandar isto para o abismo com as suas políticas erradas, isso é que têm de acreditar, não é no meu “relatório”.

E é este tipo de comportamento que vai continuar a acontecer agora que, no governo, têm a responsabilidade. No primeiro grande teste do embate com a realidade, o downgrade da Moody’s, vimos um exemplo do futuro. Pegar na realidade – o país, com a trajectória que segue, está condenado como a Grécia –  e transformá-la noutra coisa, um “ataque” de uma força malévola com más intenções, uma “conspiração americana” contra o Euro. Vimos quase todos os comentadores, em tom histérico, a defender esta teoria ridícula como antes celebravam e se se atiravam a Sócrates quando o rating descia. Mentir, novamente, com tal ferocidade e de maneira tão avassaladora que todo o país foi atrás. Estava criado o bode expiatório, a mentira que ocultava a situação para onde nos empurraram. O mesmo se vê agora, com o “desvio colossal” e os novos impostos. Porque eles sabem, perfeitamente, que a meta do défice é quase impossível de cumprir, que as medidas no acordo com a Troika são muito difíceis de implementar (Fusão de autarquias? Com este governo? Está certo…), que não terão força suficiente, nem competência, nem a vontade férrea para os cortes necessários, e que mesmo que tivessem o efeito recessivo é de tal maneira que as receitas são afectadas. A pescadinha de rabo na boca que ditou o falhanço das medidas na Grécia, que condenou a Irlanda, e que vai ter o mesmo efeito por cá, porque o que interessa não é cortar, é crescer. O défice, no final do ano, vai estar acima do acordado, e todos sabem isso. Todos eles. Por isso, tem de se arranjar desde já mais um bode expiatório: um “desvio” nas contas do governo anterior que escapou a toda a gente: governo, FMI, União Europeia, todos os que certificaram as contas antes do empréstimo. É importante dar a entender, para os cidadãos, que há “algo” que não se pode falar nem medir, que se sussurra à porta fechada e que é “veementemente” negado em público, mas está lá. Para no final do ano, a “folga” resultante do novo imposto servir para encobrir a incompetência (e para ser justo a impossibilidade)  em reduzir os gastos. Mais uma vez, mentir, desta vez por antecipação. É apenas a isto – mais uma mentira – que se resume o folhetim do “desvio colossal”. É tão óbvio que dói. Chegará a altura em que a anterior governação deixará de ser desculpa? Podem esperar sentados, e ter a certeza que outro bode expiatório virá. Enriquecimento ilícito, alguém? Substima-se esta gente sob própria conta e risco.

Por isso, enquanto não se convencerem do tipo de pessoas com que estão a lidar e ajustarem a estratégia de acordo com essa realidade, a imagem que o PS e o seu provável novo líder querem passar para o eleitorado vai ser, curiosamente, a mesma o PSD lhes quer colar: o partido responsável. Nessa dança de salão, eu sei quem irá conduzir, e quem se deixará guiar.

Sócrates has left the building

Leia-se esta coisa. O escrevinhador (se alguém souber quem é, faça o favor de partilhar) tenta umas chalaças primárias que só conseguem despertar no leitor aquele sentimento altamente estranho e desconfortável que consiste em sentir vergonha pelas figuras tristes que terceiros estão a fazer em público. Sentimento esse intensificado pela qualidade da escrita, um texto tão indigente no conteúdo como na forma.

Mas há uma conclusão a retirar do voyeurismo do Expresso: Sócrates é o Elvis da política nacional. Mesmo que não apareça por cá, está vivo e cheio de rock and roll.

Vinte Linhas 643

Dissertação no Cais da Rocha Conde de Óbidos

Pelos olhos de Marta digo adeus à cidade onde passei o dia.

Cheguei no primeiro comboio da manhã e regresso a Cascais ainda com algumas horas de Sol – não por acaso o Turismo lhe chamou nos anos 40 a Costa do Sol.

Entre a estrada negra e o estuário azul do Tejo, o comboio é uma linha de escrita com o Bugio a servir de imaginado ponto final.

Termina o estuário e logo começa o oceano.

Na imagem dos navios porta-contentores que se dilui no horizonte, surge a memória dos grandes transatlânticos com centenas de turistas e dos grandes cargueiros com mercadoria a granel.

Pelos olhos de Marta percebo a ruptura de dois tempos determinados. No mesmo espaço sinto os anos 60 (com seus eléctricos de atrelado, seus autocarros de dois andares, seus táxis verde e preto) e sinto o tempo de hoje, o tempo actual, com o Metropolitano a despejar passageiros ansiosos na plataforma do comboio para Cascais.

Desapareceram os polícias sinaleiros.

Mudam os táxis, mudam os eléctricos, mudam os autocarros, muda toda a velocidade de quem se despede de Lisboa no fim de um dia de trabalho e parte em direcção em Cascais.

Na Costa do Sol. No olhar de Marta que projecta o sorriso de Carlota ao lado de Maria. Quem as vê ao longe julga perceber que são três meninas a caminho do mar, voltando as costas ao inferno do trânsito do fim da tarde.