O voto no PS é o mais difícil, o que exige mais cognição e domínio emocional, por isso é o mais gratificante. Tirando os casos de pura ligação militante e afectiva ao partido, imunes ou resistentes à dúvida, quem se questionar para votar PS tem de passar pela barragem de fogo cerrado dos assassinatos de carácter e do catastrofismo que a oposição lança há anos, que a comunicação social promove diariamente e que os moralmente ou intelectualmente brutalizados reproduzem na rua com fanatismo. Para além disso, o aceno romântico e abstracto que PCP e, especialmente, BE podem representar, com a sua infrene demagogia e deturpação ideológica, aumenta a dificuldade de escolher racionalmente, apelam à fragilidade volitiva e despertam a tentação de esgotar o voto num protesto que só serve para manter o sistema bloqueado à esquerda. Como se isto fosse pouco, o inevitável desgaste do exercício governativo, mais as pesadíssimas consequências sociais das crises que afectam a economia mundial e as finanças europeias, tornam quase irresistível o canto das sereias que promete tesouros e delícias caso se mude o rumo da navegação. Por fim, e nunca antes visto nas eleições passadas, o PS fez uma campanha que, na sua estranheza – como exemplo mais bizarro e notório do aparente absurdo da comunicação socialista, temos a recusa de Sócrates em participar no Fórum da TSF, onde durante as duas semanas de campanha os líderes dos restantes partidos apresentaram as suas propostas para as principais áreas da governação – só admite duas hipóteses explicativas: ou a estratégia foi a de procurar intencionalmente perder pela mais pequena margem, mas garantindo a derrota, ou estaremos face a uma estratégia absolutamente brilhante, onde a vitória se alcança pela artimanha de fingir fraqueza, desse modo levando o eleitorado para o confronto prévio com o choque de ver no Poder este PSD tão incompetente e volúvel. Claro, ninguém acredita na segunda hipótese, nem sequer se fala dela. E para a primeira há vários sinais que parecem indicar um processo de mudança de ciclo em marcha já desde o congresso em Abril.
Quanto ao PSD, começou como prévio vencedor e cheio de medo, apavorado. A sucessão de erros foi quase indescritível – aqui bastamente anotados – e chega ao fim da campanha como começou: provável vencedor e cheio de medo. O medo é diferente do inicial, o qual nascia do temor que Sócrates suscitava a um vasto grupo de impotentes e delirantes. Agora, o medo nasce da exibição da falta de preparação política, e de salubridade moral, da laranjada que pretende governar o País. Passos Coelho revelou ser um líder não só fraco tecnicamente como incapaz de resistir às pressões e convulsões internas, está refém desse mesmo Cavaquismo que simulou combater antes de chegar a Presidente do PSD. Nesse sentido, é o exacto oposto de Sócrates, e não admira que tantos pretendam essa troca para reconquistarem influência perdida desde 2005.
Seja o que for que aconteça domingo, porém, há um triunfo garantido: quem votar PS está a mostrar, nem que seja a si mesmo, que defender a liberdade pode ser difícil, mas é também a nossa realização mais bela.