Período de reflexão

O presidente social-democrata explicou a escolha de Fernando Nobre para número um da lista por Lisboa, referindo que essa opção “não podia ser mais acertada” e deu este exemplo como um sinal de abertura do partido – um “simbolismo para o futuro” – na colaboração com independentes num futuro Governo.

Fonte

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É mesmo este o gajo que queremos ver à frente da cena? Reflictamos.

Um livro por semana 236

«Ficava em Angola e chamava-se Nova Lisboa» de Inácio Rebelo de Andrade

No seu 16º título Inácio Rebelo de Andrade (n.1935) retoma um tema anterior: «Quando o Huambo era Nova Lisboa» de 1998. São 81 fotos comentadas com a cronologia e o glossário.

A partir da memória do clima («Não há céu como o do Huambo: tão azul, tão luminoso, tão belo!») alcança o fundador da cidade em 1912: «Norton de Matos, visionário, criava uma cidade no meio do mato, criticado pela imprensa da época pelo arrojo e pela insensatez».

Havia as ruas («A Avenida 5 de Outubro era a Avenida do Colete porque começou com casas de um só lado») e o caminho de ferro: «A locomotiva entrava ruidosamente na estação, novelos densos de fumo a sair pela chaminé, a composição chiando nos carris».

Havia os colégios como o Alexandre Herculano («Era da dona Laura Pepe e do senhor Leite, ambos usando a pedagogia da época – palmatoadas nas mãos por eros no ditado e nas contas») e havia o bispo D. Daniel Junqueira: «Ouvi-lo pregar era um regalo, mesmo quando se repetia; vê-lo gesticular era um espectáculo, mesmo quando se enganava».

Havia o tempo da rádio com Fernando Curado Ribeiro («Aqui Rádio Clube do Huambo, uma voz Portuguesa em África») e o tempo dos velhos que sabiam muito como Sapalo Camunda: «Que idade tens? – Eu está quase século».

Sem esquecer os escritores como Ernesto Lara Filho («Jornalista brilhante e poeta maior, esbanjou o seu talento pela imprensa angolana da época») ou como Alexandre Dáskalos que escreveu sobre o contrato: «Cuidado com o branco / que anda por lá…/ Não sejas roubado / cuidado, cuidado!»

(Editora: Colibri, Capa: Francisco G. Amorim, Revisão: Maria Villanova)

Previsões meteorológicas

Se tudo correr como previsto, no dia 6, um dos candidatos mais inexperientes de sempre iniciará negociações com uma das raposas mais manhosas da politica com vista a formar um governo que tentará lançar o país no PLEC (Processo de liberalização em curso) durante a crise mais grave das ultimas décadas, sob o olhar atento de uma UE cada vez mais impaciente, irascível  e em desagregação, e com a orientação de um presidente e respectiva corte aborrecidos com a vida palaciana e com vontade de meter a mão na massa, como nos velhos tempos. Terá os conselhos de uma multidão de assessores, barões, comentadores e jornalistas que se dedicaram em exclusivo a atacar um homem que entretanto já não estará lá, e que esperam preencher esse vazio vendo o seu esforço reconhecido pelo “Pedro”, que todos conhecem e cuja carreira todos acompanharam, e que não tardarão, a partir de dia 7, a degladiar-se entre si. A extrema-esquerda e os sindicatos, vendo os seus sonhos finalmente realizados com um governo de direita, tentarão lançar o caos através de greves e manifestações sem fim, de modo a sabotar a qualquer tentativa de recuperação e reformas na esperança que o “povo”, atirado para o sofrimento, finalmente “acorde” e lhes dê o poder nas ruas. É agora ou nunca.  Terão a ajuda de um sistema bancário a tentar evitar a implosão através de uma pressão imensa sobre os clientes dos créditos à habitação – de uma classe média a ver o seu estilo de vida a esfumar-se – com o beneplácito do Banco de Portugal, provocando uma onda inédita de falências pessoais e uma chuva de casas no mercado que rebenta finalmente com o mercado imobiliário, mesmo a tempo de serem compradas a baixo preço por empresários dedicados ao arrendamento. Mais nas sombras, mas não demasiado, estarão os interesses empresariais salivando pelas partes mais suculentas das privatizações (HPP, mmmm….) em boas condições, “porque o mercado está como está”, e sem muitas perguntas sobre investidores estrangeiros, sendo que o governo apenas tem de durar o suficiente para concretizar esses negócios. Depois, já cá cantam. Logo a  seguir, os jornais descobrirão que boas notícias não vendem, e que há que recuperar a “credibilidade” que os leitores esperam.

Vai estar sol e calor, com o aguaceiro ocasional, e o Crespo continua sem ir para Washington. O que é que pode correr mal?

O belo é difícil

O voto no PS é o mais difícil, o que exige mais cognição e domínio emocional, por isso é o mais gratificante. Tirando os casos de pura ligação militante e afectiva ao partido, imunes ou resistentes à dúvida, quem se questionar para votar PS tem de passar pela barragem de fogo cerrado dos assassinatos de carácter e do catastrofismo que a oposição lança há anos, que a comunicação social promove diariamente e que os moralmente ou intelectualmente brutalizados reproduzem na rua com fanatismo. Para além disso, o aceno romântico e abstracto que PCP e, especialmente, BE podem representar, com a sua infrene demagogia e deturpação ideológica, aumenta a dificuldade de escolher racionalmente, apelam à fragilidade volitiva e despertam a tentação de esgotar o voto num protesto que só serve para manter o sistema bloqueado à esquerda. Como se isto fosse pouco, o inevitável desgaste do exercício governativo, mais as pesadíssimas consequências sociais das crises que afectam a economia mundial e as finanças europeias, tornam quase irresistível o canto das sereias que promete tesouros e delícias caso se mude o rumo da navegação. Por fim, e nunca antes visto nas eleições passadas, o PS fez uma campanha que, na sua estranheza – como exemplo mais bizarro e notório do aparente absurdo da comunicação socialista, temos a recusa de Sócrates em participar no Fórum da TSF, onde durante as duas semanas de campanha os líderes dos restantes partidos apresentaram as suas propostas para as principais áreas da governação – só admite duas hipóteses explicativas: ou a estratégia foi a de procurar intencionalmente perder pela mais pequena margem, mas garantindo a derrota, ou estaremos face a uma estratégia absolutamente brilhante, onde a vitória se alcança pela artimanha de fingir fraqueza, desse modo levando o eleitorado para o confronto prévio com o choque de ver no Poder este PSD tão incompetente e volúvel. Claro, ninguém acredita na segunda hipótese, nem sequer se fala dela. E para a primeira há vários sinais que parecem indicar um processo de mudança de ciclo em marcha já desde o congresso em Abril.

Quanto ao PSD, começou como prévio vencedor e cheio de medo, apavorado. A sucessão de erros foi quase indescritível – aqui bastamente anotados – e chega ao fim da campanha como começou: provável vencedor e cheio de medo. O medo é diferente do inicial, o qual nascia do temor que Sócrates suscitava a um vasto grupo de impotentes e delirantes. Agora, o medo nasce da exibição da falta de preparação política, e de salubridade moral, da laranjada que pretende governar o País. Passos Coelho revelou ser um líder não só fraco tecnicamente como incapaz de resistir às pressões e convulsões internas, está refém desse mesmo Cavaquismo que simulou combater antes de chegar a Presidente do PSD. Nesse sentido, é o exacto oposto de Sócrates, e não admira que tantos pretendam essa troca para reconquistarem influência perdida desde 2005.

Seja o que for que aconteça domingo, porém, há um triunfo garantido: quem votar PS está a mostrar, nem que seja a si mesmo, que defender a liberdade pode ser difícil, mas é também a nossa realização mais bela.

Parem as máquinas

O melhor texto de reflexão política neste período eleitoral tem a autoria da Alda Telles. É de uma inteligência tectónica tão acutilante que está fatalmente condenado ao ostracismo. Ironicamente, foi publicado num dos antros do ódio blogosférico a Sócrates e ao PS, por isso não surpreende a recepção calada e ressentida que teve, inclusive do próprio sujeito que a convidou a escrever.

A Alda tem poiso certo no Lugares Comuns.

A flor no meio dos tarrafes

Não se via Titina, a rapariga mais bela
Com o seu corpo colado aos tarrafes

(São os tarrafes umas plantas gigantes
Bom esconderijo para guerrilheiros)

Nasceu em 45 como Ernestina Silá
Foi morta em 73 mas já como Titina

Presságio triste, depressão profunda
No rio Farim, rio da vida e da morte

Virou-se a canoa na ida para o funeral
Titina ficou para trás, foi ela a última
Veio o tiro súbito da lancha portuguesa
Tiro que se podia dispensar nesse dia

Amílcar Cabral tinha sido assassinado
As canoas do Farim iam cheias de gente
Nas corvetas podem ter percebido logo
Que nesse dia não valia a pena disparar

Morto o corpo de Titina, fica a lenda

Hoje nos lugares discretos da Guiné
Uma flor não fugiu, canta e continua
No rio Farim, algures entre os tarrafes

Para que servem, e a quem servem, os jornalistas?

Outro aspecto importante destes últimos anos e desta campanha é a demissão dos jornalistas por uma informação isenta e exigente. Os jornalistas transformaram-se em actores políticos partidários. A informação livre é um dos pilares do regime democrático. Esta informação é tendenciosa, superficial, incompetente, com falta de rigor e sem o mínimo interesse de ser imparcial. Haverá excepções, obviamente, mas o panorama geral é desolador.

Sofia Loureiro dos Santos

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Tudo o que a Sofia diz pode ser aferido diariamente, e não só em período eleitoral, mas o problema não está na falta de isenção dos jornalistas – ao ponto de se poder pôr em causa a mera possibilidade real de uma informação livre. O que seria? Em que parte do mundo existe? A produção de informação é sempre uma actividade inerentemente política, axiológica, posto que selectiva e hierarquizante. O que nos falta é a exigência do público para que os órgãos de informação, e os jornalistas individualmente, assumam as suas preferências partidárias quando relatam acontecimentos políticos ou os criticam. Porque quem feio ama, bonito lhe parece. E vice-versa.

Os jornalistas são useiros e vezeiros nos ataques aos políticos. Tanto aqueles que elegem como ódios de estimação, como à classe, numa rivalidade corporativa despeitada nascida da intimidade, da copofonia, das histórias de alcova. Todavia, dos políticos podemos dizer que se sujeitam a uma tarefa bastante complexa, desgastante e arriscada. Arriscam passar por incompetentes, arriscam perder amigos e ganhar inimigos, arriscam serem ameaçados e devassados – para além de não se conceber como apetecível o dia-a-dia de um Sócrates ou de um Teixeira dos Santos, dá ideia de que são obrigados a passar o tempo de forma algo distinta daquela pela qual os paxás ganharam a sua fama. Que arriscam os jornalistas? E que oferecem à comunidade, para além dos seus egocêntricos estados de alma? Têm suado a camisola na educação do povo, mas andamos todos distraídos e não reparamos?

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DN ensina como se faz

O modo como o DN entrou nesta campanha em modo propagandista desbragado a favor do PSD poderá servir para muitas futuras teses de mestrado e doutoramento, em diferentes disciplinas e áreas de investigação. Está a ser um festival.

O Público não é diferente, mas neste ainda manda o Zé Manel ou os seus fantasmas.

À atenção dos labregos

Os labregos que acham que o anonimato na Internet se evita ao assinar com um conjunto de caracteres que eles aceitem como nome verídico (que tansos…), ou que um assumido pseudónimo não chega para identificar o autor ou utilizador que se decide por essa forma de expressão pessoal, devem ler esta notícia:

Professor fazia-se passar por mulher na Internet para conquistar outros homens

A história é rocambolesca, até com um lado hilariante para além das consequências criminosas, e dá-nos a ver um aspecto da PSP e da Judiciária que assusta: a facilidade com que se corrompem agentes.

Lúcidos e optimistas

Uma das características com maior expressividade na oposição política e social da direita a partir de finais de 2007, o período em que começou a crise do preço do petróleo e onde os bancos BCP, BPN e BPP entraram em queda, foi a do pessimismo. Este sentimento evoluiu rapidamente – fruto dos receios, medos e pânicos originados, sobretudo, com a saída em desgraça de Jardim Gonçalves do panorama bancário, acontecimento que abalou profundamente a alta sociedade e classes médias à direita – para um incontrolado síndrome conspirativo e para uma retórica catastrofista. À medida que as sucessivas crises económicas e financeiras se iam sucedendo sem que Sócrates e PS fossem derrotados, uma neurose generalizada transformou-se em situação psicótica para muitos. Era um desfecho inevitável, pois à fragilidade da condição opositora, agravada pela incompetência das lideranças partidárias na direita, juntava-se a real ameaça de perda de bens e privilégios por via das crises e pelo desabamento de instituições consideradas intocáveis, simbólicas e efectivos pilares do seu modo de vida – como o BCP, invadido por esse desclassificado do Vara e demais matilha socialista, vociferava cega de raiva a oligarquia. Colhe também aqui lembrar que as classes abastadas tendem a ser conservadoras pela mais lógica das razões: pretendem conservar o que têm e o que ambicionam ainda vir a possuir. Esta natural cobiça gera um individualismo que aumenta as inseguranças daqueles que se passam a imaginar rodeados de invejosos e ladrões. Tendem a ficar mais desconfiados, mais agressivos, mais cínicos. E apostam quase tudo nos assassinatos de carácter, como retintos hipócritas que são e pretendem continuar a ser.

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Vinte Linhas 622

Da «missa em fado» à «aspirinab» – uma coisa lembra a outra

No passado dia 22-5-2011 às 19h 30m assisti comovido a uma missa em fado na Igreja do Sacramento ali à Calçada do Sacramento entre a Rua Garrett e o Largo do Carmo. Com voz de Filipa Galvão Telles e José Campos e Sousa (também na viola) apresentou-se Bernardo Couto na guitarra portuguesa. Não vou (nem vale a pena) descrever a missa em fado porque só se percebe ouvindo a mistura feliz das duas vozes e da guitarra portuguesa, das duas vozes e da viola. Tudo aquilo tem a ver com Poesia pois na Poesia há sempre metade canção e metade reflexão. Cantar é juntar as palavras caídas no chão do quotidiano e levantá-las mais altas que o altar da liturgia dominical. Foi uma tarde maravilhosa.

O que me fez recordar o Blog «aspirinab» foi uma coisa bem insólita. Já passavam dez minutos das 19h 30m quando em voz baixa e com cuidado perguntei às duas pessoas que estavam comigo: «Que horas são?» A resposta veio também em tom muito baixo: «Já passa das sete e meia!» Pois apareceu uma parva que estava ali perto, com um ar de camafeu, a sorrir e a dizer como se estivesse num jardim-de-infância: «Não podem falar na casa de Deus! Esta é uma casa de oração!» Meio refeito do susto da intrusa, lá respondi: «Não preciso dos seus avisos, dispenso as suas opiniões, vá-se embora!». E ela foi. Ainda bem porque logo um senhor me veio dizer: «Ela não queria que eu acendesse uma vela!». Mas pronto, o incidente foi sanado. A parva foi-se embora e o padre Armando Duarte apareceu às 19h 40m – mais coisa menos coisa, a missa em fado lá arrancou os primeiros acordes para bem de todos nós.

Pela justiça da liberdade

Não me lembro de alguma vez ter votado PS para as legislativas (nem PSD, já agora). Para as autárquicas, sim. Várias vezes. E para o Parlamento Europeu, uma só vez, por causa do Vital Moreira. A principal razão para nunca ter votado a favor de um Governo PS – especialmente em 2005 e 2009 – é a mesma que me leva obrigatoriamente a votar PS em 2011: a Justiça.

Não é preciso ganhar a vida a desenhar foguetões para saber que a dimensão da Justiça é a mais importante numa república e numa democracia. A sua importância é tal que até as eventuais disfunções, e perversões, que mantenha afectam a economia dessa sociedade, inibindo ou afastando investimentos e promovendo a corrupção. Para além disso, e descendo do abstracto ao concreto, centenas de milhares de portugueses viram as suas vidas gravemente prejudicadas pelo efeito de uma singela anomalia do sistema, ainda antes da qualidade dos juízes, procuradores e leis: a lentidão processual. Assim, fico banzo por não haver um pacto de regime onde se decidisse dotar a Justiça com todas as condições materiais e humanas que pedisse para executar o melhor possível o seu trabalho e a sua missão. As imagens de documentação amontoada em pardieiros, as queixas de falta de computadores ou seu estado obsoleto, a sempre propalada carência de funcionários e magistrados, as notícias acerca de instalações indignas ou inseguras, são, para mim, realidades inacreditáveis, escandalosas. Perto de 40 anos passados após o 25 de Abril, os partidos, sem excepção, são cúmplices desta infâmia histórica. E os que tiveram maiores responsabilidades governativas são os que têm maiores culpas. Daí, nunca ter votado PS ou PSD para a Assembleia da República.

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