Louçã e a rede social

Louçã conseguiu ofender Rui Tavares apenas com o recurso ao Facebook e à sua megalomania: Quatro são mesmo quatro. A resposta do Rui termina com uma bela amizade e deixa um problema urgente para os militantes do BE: agora que já não é possível continuar a fechar os olhos perante o narcisismo e paranóia de Louçã, a quem é que vão entregar o partido?

Aquando do caso que envolveu Paulo Campos e Joana Amaral Dias numa palhaçada literalmente ridícula, antes das eleições de 2009, Louçã explorou a oportunidade de modo febril para atacar Sócrates e o PS, pouco lhe importando existirem eventuais consequências negativas da sua desbragada deturpação a recaírem sobre a Joana. Também nesse tempo, fez comentários que pretendiam atingir Miguel Vale de Almeida, apresentado como alguém que tinha feito um pacto com o Diabo.

Entretanto, Louçã veio dizer que muita gente não tinha compreendido a recusa do BE em reunir com a Troika. Assim, após ter visto os seus deputados reduzidos a metade, declarava-se arrependido. Se fosse agora, teria ido lá dizer das boas aos gringos, admite contrafeito. Os resultados eleitorais tinham-lhe feito ver a luz.

Estes factos mostram que Louçã faz um uso revolucionário da sua rede social: magoa os amigos de longa data e abdica da coerência para tentar agradar a estranhos.

Fala do roupeiro Vítor Sério em 1997

Sou eu que tenho a chave deste espaço
Onde guardo os sonhos mais fagueiros
De quem faz desta equipa um abraço
Num mundo de caminhos traiçoeiros

Nas vitórias o vendaval é de euforia
Nas derrotas chuva de palavras feias
Custam como o duche de água fria
Ao lado das camisolas e das meias

Pela minha parte tenho a psicologia
Do resgate da sua tristeza neste lugar
Lembrando que amanhã é outro dia
E no sábado há outro jogo para jogar

Depois é um quadrado de marmelada
À espera que ele vá activar a insulina
Para que a equipa não fique cansada
E viva os sonhos fechados na cabina

As cinzas de Cavaco

Quando Cavaco faltou ao funeral de Saramago, chegando ao miserável baixo nível de ter usado a sua família como desculpa, tive a esperança de que tamanho desprezo por Portugal assinalasse a sua eventual desistência das presidenciais. Acreditava que aqueles eleitores com respeito por si próprios – na esquerda, no centro e até na direita – jamais seriam capazes de votar em semelhante criatura. E julgava que mesmo quem tinha sido complacente com a Inventona de Belém, por acharem que valia tudo contra o odiado Sócrates, não lhe perdoaria essa manifestação de vil ressentimento na hora da morte de um dos maiores símbolos pátrios da actualidade, pouco importando as suas ideias políticas perante a obra artística e sua projecção internacional. Afinal, Cavaco foi reeleito, e à primeira. Logo de seguida, com o decisivo apoio do BE e PCP, conseguiu derrubar o Governo socialista e levar o País para uma situação onde a direita tem pleno poder.

A Isabel, ainda por cima num excelente texto, deixou há meses este aquilino retrato:

Cavaco é um dos políticos com menos sentido do institucional de que tenho memória: não respeita a lógica dos seus poderes elementares; ignora o procedimento dos vetos e atira-se às televisões às 20h em drama sanguinário, odeia a democracia, donde conhecermos várias declarações do PR indignadas com o facto de ter bastado a maioria parlamentar para aprovar leis; planta mentiras nos jornais acerca do Governo; tudo isto numa lista interminável que vai ao requinte de anunciar no seu mui moderno site o pedido de demissão do PM antes que o PM pudesse dizer aos portugueses que apresentara o referido pedido.

A sua vingança contra Saramago, levando a que o Presidente da República Portuguesa tivesse preferido ficar de férias nos Açores a perder umas horas numa homenagem a um concidadão que continuará a ser lembrado pelos séculos vindouros, dá conta da impensável decadência a que chegou a direita nacional. Mesmo assim, não tão decadente como a imbecilidade dos imbecis, os quais se juntaram a esta desgraça ambulante para afastar o único político que tinha deixado apavorados e furibundos os mortos-vivos do Cavaquismo.

Os caminhos do Bernardino

É um conjunto de ministros que confirma a intenção deste ser um Governo apostado em aplicar uma política muito à direita, de submissão ao que está a tentar ser imposto pelo FMI e pela União Europeia, e que vai continuar a aumentar as desigualdades sociais, a impor uma recessão económica e o aumento do desemprego, abdicando de instrumentos fundamentais para o desenvolvimento do nosso país. E isso é um caminho muito negativo.

Bernardino Soares

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Bernardino elenca as razões pelas quais o PCP se aliou aos partidos que pretendiam substituir um Governo socialista por outro apostado em aplicar uma política muito à direita. Para os comunistas portugueses todos os caminhos vão dar à defesa dos trabalhadores – e aqueles percorridos de braço dado com a direita, que fingem detestar, são os caminhos preferidos.

Marx não saberia o que dizer perante este paradoxo na luta de classes, mas Freud explica.

Good food for good thought

When the current financial crisis hit, the failure of traditional economic doctrines to provide any sort of early warning shocked not only financial experts worldwide, but also governments and the general public, and we all began to question the effectiveness and validity of those doctrines.

A research team based in Israel decided to investigate what went awry, searching for order in an apparently random system. They report their findings in the American Institute of Physics’ journal AIP Advances.

“To a non-economist, economic theories seem decoupled from human reality. The fundamental assumption is that investments are made rationally. But investors can behave irrationally—driven largely by greed and fear, and other human factors,” explains Ben-Jacob. “It’s also odd that many mathematical analyses, such as the design of investment portfolios, assume no memory. It’s assumed that stock prices behave with no apparent temporal order. Yet investors, including professional traders, take into account past behavior and are particularly influenced by the variation in prices or the volatility associated with the fear index.”

Ordered Fear Plays a Strong Role in Market Chaos

O Senhor Professor Paulo Otero justifica todos os esforços

Não tenho escrito. Não posso. Se durante a campanha eleitoral não há um minuto livre, após um assalto violentíssimo à minha residência que resultou no furto de tudo o que tenho de valor – a começar pelo computador – e na destruição porque sim de muita coisa, é-me impossível escrever. Repito que não tenho computador e, como é fácil de imaginar, ando há dias e dias perdida na burocracia pós-furto.

Feita a introdução, devo dizer que tenho acompanhado há tempos a coragem de assistentes, de professores, de alunos e de funcionáros que fizeram o que devia ser um acto normal: apresentaram uma lista à Assembleia da Faculdade da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL)  (conhecida por “Clássica”). A lista foi a votos e ganhou e – imagine-se (!!!) – tinha e tem ideias que passam pela democratização da Faculdade.

Tudo isto seria normal, se não existisse de facto, naquela casa, e isto deve ser denunciado, um clima de intimidação, por parte dos Exmos. Senhores Professores avessos a votações e dados a decretarem. Tudo isto seria normal se naquela casa todas as ilegalidades que testemunhei não acabassem em nada, num “apagão” jeitoso difícil de impugnar.

Dei onze anos de ensino em tantas salas cheias de alunos que eram a minha vida, fiz lá a minha tese de mestrado e toda a gente sabe que desde o dia em que publiquei o livro com um parecer técnico sobre o CPMS a minha vida foi-se transformando num inferno. É bom ser-se mestre promissora com 18 valores até ao dia em que gente como Paulo Otero “detecta” que a tal da mestre que já tem o doutoramento aprovado e tudo defende “pecadores”.

Mas hoje não vou contar a minha história, nem a forma “totalmente livre” como rescindi o contrato com a FDUL; hoje quero comovidamente saudar os meus para sempre colegas, que têm teses para discutir, contratos para renovar, concursos por fazer e que disseram “basta” arregaçando as mangas e fazendo uma loucura: propostas.

Um desses meus colegas já fez o doutoramento e tem pela frente vários graus na carreira. É uma ameaça para o sistema de comadres da FDL.

O que fez Paulo Otero?

O mesmo que havia feito com o CPMS.

Usou os alunos, ignorou a sua função pedagógica, e elaborou um teste de direito administrativo no qual todas as datas e acontecimentos “coincidem”  com a carreira daqueloutro professor.

Um teste provocador e ameaçador.

A  tal da Assembleia da Faculdade aprovou uma resolução condenando a situação e, na expressão “mais uma vez”, vai a ligação ao que se passou com o CPMS.

O que fez o Conselho Científico?

Nada.

Eu tenho o material todo em papel, mas felizmente o mundo de Paulo Otero, bem como a cumplicidade silenciosa de outros, está aqui.

Senhor Professor, espero que tenha aprendido de uma vez por todas, porque mesmo que haja Professores famosos, semanalmente famosos, que votam contra a resolução, a maioria aprovou-a, e desta vez a sua instrumentalização do ensino para guerras pessoais veio ao de cima como nunca.

Aprenda: há quem não tenha medo de si, sejam quais forem as consequências.

E faça-me um favor: se eu acabar o meu doutoramento, esteja no júri.

Da falta de juízo

A ideia de que os cursos de Direito formam licenciados com um mínimo de interesse em levar vidas ética e deontologicamente exemplares só é comparável à ideia de que os cursos de Arquitectura formam licenciados com o máximo de interesse em passar o resto da vida a carregar com sacas de cimento no lombo.

A chantagem grega

Se tudo correr como previsto – e lamento dizer que parece que sim, embora seja tudo muito nebuloso – teremos em breve (2 a 6 meses) a oportunidade de, pela primeira vez nesta geração, assistir ao vivo e em directo ao colapso financeiro de uma das modernas nações europeias. Não vai ser bonito, e embora as consequências para a zona Euro sejam imprevisíveis, sabemos à partida que nos põe imediatamente em cheque, e temeremos bastante pelo nosso futuro, muito mais do que agora.

Isto vai abrir uma janela de oportunidade única para Passos Coelho. Podemos contar com um tsunami mediático dedicado ao assunto na imprensa controlada ou influenciada pela direita (ou seja, toda), alarmista até às ultimas consequências. O funcionários sem salários, as falências em massa, os novos bairros de lata, as bichas do combustível, os rumores de golpe de estado. Uma coisa é ver, e até apoiar, a contestação à austeridade “imposta de fora”, como agora. Outra coisa, completamente diferente, é observar as consequências dessa contestação. O tema será: ou apoiamos o governo incondicionalmente, todas as medidas, ou somos a seguir. Reformar “com coragem” ou morrer, será dito. Constituição? Olhem a Grécia, socialistas! Querem que nos aconteça a nós? Privatizações? Olha a Grécia! SNS? Grécia! Segurança social? Grécia, porra! É preciso repetir? Greves e contestação? Vocês são estúpidos ou quê? Querem acabar como os gregos?

E por aí adiante. Apesar de não ser assim tão evidente que o que vai acontecer ao gregos se repita inevitavelmente aqui – a estratégia da UE deverá passar pela tentativa de  containment, na minha opinião, o que poderá jogar a nosso favor – do susto ninguém nos livra, e será uma estratégia de medo a ser utilizada cinicamente para moldar o país à imagem liberal. Sem a forte oposição e contestação com que todos contavam para moderar o novo governo, Portugal daqui a dois anos poderá ser um sítio muito diferente. E o azar de Sócrates será, afinal, a sorte de Passos.

A monarquia de Passos

A promessa eleitoral de ter um Governo reduzido a 10 ministros e 25 secretários de Estado, inclusa no Programa do PSD, fez parte da demagogia anti-políticos que a São Caetano cavalgou numa estratégia de terra queimada para capitalizar nas insatisfações inevitáveis e na ignorância ignominiosa. A mensagem era a de que havia excesso de governantes, assim validando o populismo mais rasteiro que pretendia defenestrar ministros sob o pretexto de serem apenas despesa a pedir abate. Eles nem previram a magna complicação de realizar a efectiva redução de ministérios, o que até suscitou admoestações públicas de Belém.

Neste Fórum da TSF – Futuro Governo PSD/CDS-PP – discutiu-se a questão. Os participantes dividiram-se entre os crentes e os analistas. Os crentes apoiavam a diminuição, dando como principal argumento o popular pressuposto de que os governantes devem ser poucos, mas bons; entenda-se: devem ser trabalhadores, coisa que os actuais não são; devem ser transparentes, coisa que os actuais não são; devem ser honestos, coisa que os actuais não são. Os analistas rejeitavam a diminuição, realçando que pelo lado financeiro a poupança assim gerada é completamente irrelevante, e que pelo lado da gestão há graves problemas a caminho de um Governo reduzido. A acumulação de pastas levará a várias disfunções dado não ser possível termos no futuro próximo dias de 72 horas e ministros com o dom da ubiquidade. Isso causará uma irremediável perda de autoridade dos super-ministros, obrigados a delegar em secretários de Estado e a falharem eventos e conversações com os representantes dos diversos sectores tutelados.

Paulo Baldaia, juntando ao cargo de director da TSF a reputação de não ser propriamente um tosco, deixou no Fórum um curioso sofisma: reduzir o número de ministros pode vir a ser bom em matéria de coordenação política, sendo indiferente haver ministros ou secretários de Estado. E detalhou: um só ministro decide com mais visão e rigor caso domine duas áreas distintas, pois as vê num conjunto e pode obter resultados impossíveis de alcançar caso elas estejam separadas e entregues a distintas individualidades. Baldaia, entusiasmado consigo próprio, leva-nos para o psicologismo, prensando o processo político no momento cognitivo da decisão. De caminho, promove a tese de que uma cabeça pensa melhor do que duas. Às malvas manda a morosidade na assimilação da informação e a complexidade na obtenção de acordos, a que se junta a complexidade na assimilação da informação e a morosidade na obtenção de acordos. Tudo se resume ao quero, posso e mando.

Pois bem, o corolário destes raciocínios só pode também ser um: que Passos Coelho acumule todas as pastas e abdique de todos os ministros. Depois poderemos fazer um referendo para saber se ainda vale a pena continuarmos a chamar “república” a esta absolutista poupança.

Um livro por semana 240

«Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial»

de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi (org.)

Entre memória e resgate – poderia ser o subtítulo deste livro de 646 páginas. Memória como em Carlos Garcia de Castro («Todos se lembram mas poucos recordam») e resgate como em Belmira Besuga – «Escrevo para ligar de novo o que a morte separou». Natércia Freire inscreve a morte na perspectiva da mãe: «São meus filhos. Gerei-os no meu ventre. / Nove meses de esperança, lua a lua. / Grandes barcos os levam, lentamente». Manuel Alegre recorda Fernando Assis Pacheco, camarada de guerra e poesia: «Não me venham dizer que foi enfarte / ou acidente cardiovascular. Eu sei / que foi mina / armadilhada no coração». Fernando Assis Pacheco que tinha avisado: «Há um veneno em mim que me envenena / um rio que não corre, um arrepio, / há um silêncio aflito quando os ombros / se cobrem de suor pesado e frio.»

Para Liberto Cruz os poemas são colectivos mesmo se escritos por cada um: «Pertenço a uma geração que o País perdeu». Em José Correia Tavares é outro o calendário das paredes: «Natal transparente e puro e frágil como os olhos de minha mãe, como as lágrimas de minha mãe, como a recordação de minha mãe». José Bação Leal morreu na guerra depois de gritar: «Ah vazio! Eterno vazio! / Vais-me matando aos poucos / estou farto de não viver / não tarda estarei louco / ou morto sem morrer». Álamo Oliveira, por sua vez, inscreveu o vazio noutro poema: «O soldado não tem memória. Os seus olhos esquecem-se na floresta / e picam-se na inconstância e no aborrecimento. / O soldado nem gosta de pensar na mãe». Em Eduardo Guerra Carneiro a guerra faz-se longe da guerra: «Lá te foste embora, António. De ideias ao ombro, todo vestido de bombazina. De que cor são os lagos da Suíça?» Já os «lusíadas» de Manuel Simões («carregados de anos de silêncio / e cólera mil vezes reprimida / eis-nos enfim saciados do mar») poderiam perguntar como o poema de Fernando Grade: « – E os crimes, meu general? / – Ah, isso foi há muito tempo…Já ninguém se lembra!»

(Editora: Afrontamento, Fotos: Manuel Botelho, Notas biográficas: Luciana Silva e Mónica Silva)

A fotografia e o retrato

Tenho condições para sair do exercício deste cargo com consciência tranquila, de quem pôs sempre o interesse do país acima do interesse pessoal. Se eu quisesse ficar bem na fotografia, já não estaria aqui. Mas nem sempre o mais importante na vida é uma fotografia. O mais importante para mim foi servir o país, foi ocupar este cargo com sentido de responsabilidade, enfrentando condições de grande dificuldade.

Teixeira dos Santos

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Aqueles que têm o desplante de apontar falhas a Teixeira dos Santos a partir do começo das sucessivas crises económicas e financeiras, por isso também fiscais e orçamentais – cuja dimensão afectou gravemente todos os países do Mundo, e depois ainda mais a Zona Euro, de forma inescapável e desvairada – teriam feito melhor ou sabem de alguém que tivesse feito melhor? E a redução do défice, enquanto o Governo lançava um ambicioso programa de reformas e ainda se mantinha a racionalidade dos mercados, pode ser de boa-fé ignorada na sua avaliação?

Acima e antes de tudo, o exemplo de Teixeira dos Santos é magnífico – uma magnífica lealdade a Sócrates, e a todos os restantes colegas de Governo, quando teria sido tão mais fácil, cómodo e proveitoso fugir.

Que belo retrato de carácter.

A cena do ódio

Este é o país da completa bagunça.

Chegámos aqui com um trabalho bem orientado pelo senhor primeiro-ministro, que tem tido o cuidado de se fazer rodear de indivíduos absolutamente incompetentes, que manifestam o maior apreço pela sua própria incompetência e pelo carácter de ditador inconsequente e sem consciência. É um indivíduo impreparado para qualquer coisa que seja uma actividade política.

Nesta entrevista à Renascença, o antigo bastonário da Ordem dos Advogados apela a Cavaco Silva para que se recandidate à Presidência da República. “Eu ficaria surpreendido que ele [Cavaco Silva] estivesse disposto, mas daqui, como o indigitado candidato que não sou nem nunca fui pelo Diário de Notícias, o incito a que concorra outra vez para nos livrar desta escumalha que tem governado o país”, refere Pires de Lima.

Sócrates é um aldrabão de feira.

Pires de Lima, Fevereiro e Julho de 2010

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Os ataques virulentos à suposta incompetência dos políticos começaram na antiga Grécia, com o advento mesmo da democracia – isto é, da política feita pelos cidadãos. Quem fazia os ataques nessa altura eram os poderosos, donos das terras e da tradição. As leis do sangue e da riqueza, as que melhor serviam os seus interesses, permitiam conservar a ordem social e as hierarquias de classe cujas origens se perdiam na noite dos tempos. A democracia grega, aumentando incontrolavelmente a quantidade daqueles com direito a exercer o poder, provocou uma reacção de defesa, e repulsa, nos oligarcas que permanece até aos dias de hoje. Há até quem diga que toda a ciência política não passa da reflexão acerca desse trauma inicial, feita a partir do ponto de vista da aristocracia.

Este Pires de Lima, filho de um próximo colaborador de Salazar, verbalizou publicamente o que os derrotados de 2005 e 2009 diziam em almoços e jantares, casamentos e baptizados, empresas e clubes. Aliás, ele apenas apresentou eufemismos, pois na privacidade os senhores sempre se confundiram com os carroceiros quanto ao gasto do vernáculo e pulsões animalescas. Estas citações têm a vantagem de ilustrar o ambiente moral da nossa elite social e financeira, pela primeira vez após o 25 de Abril afrontada por um rival que conhecia a sua decadência e contava com ela. A raiva que cega Pires de Lima é exactamente igual à que invadiu o espaço público vinda de Soares dos Santos e Belmiro, Ferreira Leite e Pacheco, Paula Teixeira da Cruz e Maria João Avillez, Moura Guedes e Crespo, Francisco José Viegas e Eduardo Cintra Torres, Henrique Neto e Carrilho, entre dezenas de outras figuras – à cabeça das quais está Cavaco Silva – que publicamente manifestaram o seu ódio repetida e crescentemente até ao dia 5 de Junho de 2011.

A magnitude do fenómeno não se explica através da redução ao simplismo do par Governo-oposição e seus conflitos, pois os poderes fácticos querem é fazer negócios, lidando igualmente bem com a direita ou com a esquerda – como se constata banalmente a nível autárquico, por exemplo. Para algo com esta dimensão nunca antes vista, em que diariamente podíamos ouvir e ler relatos pungentes da brigada dos deprimidos e apocalípticos, e tendo inclusive recorrido à tentativa de criminalização de um primeiro-ministro envolvendo polícias e magistrados, só há uma realidade psíquica e sociológica onde as peças encaixam na perfeição: o medo.

Estavam apavorados por não terem quem alcançasse superar Sócrates em força executiva, coragem reformista, carisma na liderança. Então, repetindo as conspirações na antiga Grécia contra Péricles, recorreram à calúnia sem vergonha ou hesitação. Como nem desse modo o conseguiam chantagear e assustar, a impotência aumentava ainda mais o seu desespero. A cena do ódio foi, assim, a medida do medo.

Vinte Linhas 628

Em 1990 a bagageira do C15 era a casinha do cão

Uma tarde destas, lá para cima de Marvão, depois da casa do moinho, o teu inesperado sorriso com 94 anos de memórias. A porta da casa aberta era um anúncio de vida, de movimento, de gente a sorrir lá dentro.

Tivemos em 1990 umas férias dentro do espaço do seu anexo. De manhã vinha o padeiro a buzinar e a sua irmã trazia o mais fresco leite do estábulo para a menina Marta. Uma vez por outra trazia os ovos amarelos para os melhores bolos de iogurte.

Tenho memórias das lancheiras (alguns operários diziam marmitas) que ficavam a aquecer no seu forno de lenha, gigante e silencioso. Era em Lisboa. No intervalo do almoço as oficinas eram o esplendor do silêncio.

Foi em 1990 porque (eu sei) a Marta tina cinco anos e chamava casinha do cão à bagageira do C15. Íamos para a praia de São Lourenço a trinta à hora e ninguém pensava em cintos de segurança. Mas pensava em segurança e por isso ia devagarinho. Havia no asfalto sempre lugar para estacionar, hoje é diferente.

Em 1990 os seus beijos pareciam não ter fim. Aquelas despedidas, a amizade, a emoção, era tudo como se a Ericeira fosse muito longe e nunca mais a gente se pensasse em ver de novo. Estamos em 2011 mas é como se fosse outra vez 1990, o ano em que a Marta tinha cinco anos e levava para a casinha do cão o Pedro e a Teresa.

Sobejava pouca gente para ir nos lugares normais do C15 da porta da sua casa à praia de São Lourenço. Hoje o seu sorriso inesperado resgatou a tristeza trazida pela neblina do lado de Torres Vedras. E a casa do moinho tem cada ano mais uma árvore.

Cineterapia



Running on Empty_Sidney Lumet

Os anos 60 geraram muitos grupos de esquerdistas radicais na América, usualmente ligados ao activismo universitário e unidos na rejeição do sistema capitalista e na luta contra a guerra no Vietname; entre outros ideais de que comungavam e que permanecem bandeiras cívicas ainda a fazerem o seu caminho, como a ecologia e a condição feminina. Alguns dos revolucionários nascidos na cultura do Tio Sam chegaram a cometer actos criminosos, sob a forma de assaltos e atentados terroristas. Isso levou a que muitos desses militantes envolvidos na luta armada entrassem na clandestinidade, perseguidos pelo FBI em qualquer canto dos EUA, sendo suportados por uma extensa rede de secretos apoiantes locais. Este filme conta-nos uma dessas histórias, ficcionada a partir de vários casos reais. Mas pura ficção.

E ficção da mais pura. Com actores que fingem tão completamente que chegam a fingir que é amor o amor que deveras sentem. Exacto, bem lembrado: River Phoenix e Martha Plimpton apaixonaram-se durante as filmagens. Ou aquela puta daquela cena onde Christine Lahti vai ter com Steven Hill e nunca, jamais, alguém, jamais, nunca, irá conseguir apagar esta certeza de termos testemunhado uma filha e um pai a partirem o coração um do outro após 12 anos de separação e silêncio, só para descobrirem que o sentimento de pertença à família é indestrutível. O final? Judd Hirsch podia ter estado calado no resto do filme desde o princípio, e num certo sentido esteve, que as suas derradeiras palavras justificariam plenamente a presença num mergulho ao que fica depois de se perderem as ilusões de pretender mudar o Mundo. E o que fica é a esperança, ainda mais louca, de que seja o mundo a mudar aqueles a quem mais queremos.

O género musical, seja em cinema ou teatro, define-se pela função narrativa dos números de dança e canto, os quais fazem avançar a acção, acrescentam ou alteram a história em curso. Em sete mil milhões de seres humanos actualmente a devorarem este planeta, não passaria pelo bestunto a nenhum deles catalogar Fuga sem fim como um musical. Porém, a música é aqui um elemento mais importante do que muitas das personagens. Ouvimos Beethoven, Madonna, Bhrams, Roy Orbison e James Taylor. Temos até direito a uma aula de iniciação à música clássica. Mas temos um momento cuja centralidade e síntese é tão densa que opera com um epílogo antecipado, alegórico, do destino de todos, do deles e do nosso. Ao som de Fire and Rain – uma canção nascida na morte, no desespero e na tortura – estes cinco, minutos depois de estarem ali sentados, dançam a mais feliz das danças. Esse momento tornou-se num imperativo categórico para a minha cinefilia: eis um dos mais surpreendentes musicais alguma vez feito. E por fazer.

Pausa publicitária

Caro blogger, comentador, jornalista, colunista. Famoso, bicos-de-pé ou anónimo. Chegou a hora de te olhares ao espelho. Não é bonito, eu sei. As olheiras, o cabelo desgrenhado, o pingo permanente no nariz que te provoca esse fungar compulsivo. As mãos que te começam, ao de leve ainda, a tremer no sacana do teclado. Caro amigo, sei que não é o sol que provoca esses suores frios, nem é a gripe que te faz tossir. A estranha irritabilidade que sentes crescer não tem nada a ver com o trânsito, por muito que culpes aquele anormal do BMW, melhor que o teu, que hoje de manhã te cortou a faixa. As sombras que julgas ver pelo canto do olho não estão lá realmente, tu sabes, mas já te arrepiam. Esse sentimento de ansiedade é crescente, embora ainda te enganes a ti mesmo ao dizer “isto já passa”. Mas é mais grave do que isso, sentes que sim. É por isso que não dormes. Não como antes.

E o problema é ele. O que já não está, que perdeu e se demitiu. Vai-se embora, o filho da mãe, sem querer saber de ti. Assim, a frio. O objecto do teu ódio, aquele que foi a razão de viveres nestes últimos anos, de escreveres, de respirares, de te relacionares com os amigos, de tantas e tantas noites de conversas à volta de jantares e copos, está agora ausente. E não volta tão cedo. E tu, caro amigo, estás a entrar em ressaca. Da forte. Tentas combater esse sentimento, agarrar as ultimas migalhas, eu sei, mas chamar xuxas ao Seguro e ao Assis não é a mesma coisa, estou certo? Não tem o mesmo efeito, nem sequer são governo. São SG ultra light, quando estavas habituado à cigarrilha sem filtro. O Passos e o Portas, tão novinhos, com o sorriso da esperança, ainda são como a tua família, não é?  Nem queres pensar numa coisa dessas, mas sabes que quando a necessidade apertar, quando os instintos vierem ao de cima, também vão marchar como gente grande. E quando vires os seus olhos marejados de lágrimas, sem acreditar na traição, verás no que te tornaste. Uma máquina de ódio, de escárnio, de maldizer, uma boca de onde apenas sai bílis, para gáudio dos que observam sem ser atingidos. Desdenhas secretamente o Vasco Pulido Valente e o Graça Moura, mas estarás em breve exactamente como eles, menos o talento. Uma besta deformada, uma atracção de freak-show, um Medina Carreira babando-se na televisão. Até o Carrilho já admiravas, vê lá a que ponto desceste. É isso que queres? É esse o legado que deixarás aos teus filhos?

Está na altura de reconheceres o problema. De dares esse primeiro passo para uma existência livre e sem vícios. E de te inscreveres na clínica de reabilitação “Vida sem Sócrates”.

O modelo de tratamento proporcionado é o comprovado modelo Minnesota, baseado na vertente humanista em que o doente é tratado de uma forma individualizada e no seu todo, quer física, quer psicológica e emocionalmente, por reconhecidos profissionais que te mostrarão, de maneira progressiva e com o mínimo de dor, o lado bom do ex-primeiro-ministro, as suas obras, visão e legado, permitindo-te, pouco a pouco, livrares-te dessa dependência através do verdadeiro conhecimento. No final, levas um diploma e uma visita à central de informação socialista, com áudio-guia gravado pelo Pacheco Pereira e onde conhecerás, finalmente, a mainframe IBM a que chamamos “Miguel Abrantes”. Não negues à partida uma politica que desconheces, e acaba com esse sofrimento. Antes que ele acabe contigo.

O tratamento personalizado tem a duração de um ano, sendo 12 a 14 semanas de internamento e os 9 meses seguintes em cuidados continuados no conforto do teu blog, coluna ou jornal. Não hesites, inscreve-te já na caixa de comentários, é livre e sem censura. Pagamento antecipado e sem direito a devolução caso o tratamento falhe. Financiamento em 24H disponível, sujeito a aprovação. Não recomendado a pessoas com QI abaixo de 70, excepto militantes do BE. Comunistas, anarquistas, revolucionários e restante maralha acresce 50% para tratamento prévio de história (via rectal) antes da admissão. Temos livro de reclamações, mas está fechado no armário e o patrão saiu.

O regresso da ingrícola

Caro Adolfo Dias,

então agora a União Europeia não quer a destruição da agricultura portuguesa? O que terá mudado na política agrícola europeia para alterar os factos?

O que a CEE da altura quis, não foi acabar com a agricultura em Portugal, mas acabar com o tipo de agricultura que se praticava.

Ainda hoje, conheço centenas de proprietários que são pagos para não cultivarem, porque será?

Porque é que a agricultura do Thierry Roussel recebeu 1 milhão de contos (5 milhões de Euros) da CEE, a fundo perdido, no tempo do senhor Cavaco, e deu cavaco com a guita deixando centenas no desemprego e milhões em débito à CGD por via do seu projeto agricola?

Onde estará o senhor Cavaco que dizia em 87 que o Alqueva só avançaria se a sua reforma agrária avançasse, e que depois colocou as obras em banho-maria?

Já não quero falar no seu programa de sucesso, lembra-se, o JEEP (Jovens Empresários de Elevado Potencial), que serviu para a compra de jipes Toyota (do apoiante Salvador Caetano) com os dinheiros do FSE e da PAC e de umas obritas em casas que se destinavam a turismo rural mas onde os únicos hóspedes eram os moradores e respetivos familiares e amigalhaços.

A agricultura começou a ser destruida quando não se ouviram as sensatas palavras do Sousa Veloso sobre o associativismo a sério, a mecanização agrícola prudente, o desemparcelamento do minifúndio, as colheitas especializadas, a ordenação das propriedades, a escolha das espécies a produzir, a rede de frio e de silagem equilibrada, a aposta na diversidade e na qualidade.

Onde estão os rebanhos, que é feito da pastorícia, onde está a protecção das espécies nacionais, onde pára o ordenamento florestal, por onde andam os carvalhos nacionais, os castanheiros que dão castanhas, os negrilhos para forragens, as nogueiras que nos dão nozes e bela madeira, os amieiros fixadores de azoto, e toda uma flora diversificada, amiga do ambiente e resistente ao fogo.

Será que o Cavaco se preocupou com isto ou foi a CEE que não deixou?

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Oferta do nosso amigo Teófilo M