Prejudice Linked to Women’s Menstrual Cycle
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Psychologists Find Link Between Ovulation and Women’s Ability to Identify Heterosexual Men
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Husband’s Employment Status Threatens Marriage, but Wife’s Does Not, Study Finds
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‘Coming Out’ Makes People Happier, But Mainly In Supportive Settings
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Fastest Sea-Level Rise in 2,000 Years Linked to Increasing Global Temperatures
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‘My Dishwasher Is Trying to Kill Me’: New Research Finds Harmful Fungal Pathogens Living in Dishwasher Seals
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The Myth of the ‘Queen Bee’: Work and Sexism
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Exposure to Parental Stress Increases Pollution-Related Lung Damage in Children
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An Explanation of How Advertising Music Affects Brand Perception
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Men quicker to say ‘I love you’ than ladies
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Beauty and the Beasts: The Sight of a Pretty Woman Can Make Men Crave War
Arquivo mensal: Junho 2011
Cineterapia

Hadewijch_Bruno Dumont
O cristianismo não-cristão, aquele que ainda não chegou a Roma, sequer à diáspora, e se mantém originariamente judaico, é uma religião como nunca se viu antes ou depois. Encontra-se preservado na sua integridade nos diferentes Evangelhos, tanto nos canónicos como nos apócrifos, e tem uma perene manifestação esotérica, artística e política ao longo dos séculos no Ocidente. Consiste numa proposta de transformação cognitiva onde os conflitos existenciais, universalmente inevitáveis seja qual for a classe social e a cultura a que se pertença, são colocados sob a esfera de autonomia do sujeito; embora diferentemente das escolas filosóficas gregas, as quais desenvolveram mediações discursivas adequadas a factores étnicos e históricos distintos daqueles em que Jesus se movia.
Cada um, por si, com os seus recursos intelectuais e volitivos, numa relação directa consigo próprio, pode dar sentido ao enigma em que se constitui a realidade na sua indomável complexidade, desafios e ameaças. Não é outro o anúncio de fé, a boa nova. E poderá fazê-lo com tão maior facilidade quão maior for a sua pobreza – entenda-se, a sua capacidade de crescimento, a sua curiosidade. Daí ser tão difícil aos ricos entrarem no Reino de Deus – isto é, abandonarem o materialismo, o cinismo, e recuperarem a juventude, nascerem de novo. A radicalidade do cristianismo evangélico, nisso se distinguindo das restantes teorizações religiosas, mostra que a própria prática religiosa, com os seu códigos rituais, com a sua moral, é impeditiva de uma vida espiritual. Jesus, nesta linha interpretativa, não era judeu nem cristão. Era um poeta e um guerreiro, um ser humano livre.
O cristianismo não-cristão é da família das tradições sapienciais onde se cultiva o paradoxo. Compreender esta super-lógica permite aceitar uma característica principal pela qual os conhecereis, esses que se inspiram naquele original pedreiro nazareno sendo ateus, agnósticos ou deístas de qualquer outra narrativa mítica: eles celebram a ideia de que só nos salvamos quando salvamos alguém.
Este filme ilustra essa esperança com uma libertinagem perfeitamente cristã, a qual encherá de alegria o cinéfilo paciente, virtuoso.
Fuga de cérebros
Lemos no Jornal de Negócios:
«O gabinete do primeiro-ministro, contactado, também não quis prestar esclarecimentos. “Não fazemos comentários sobre isso. A fuga de informação não partiu de nós e não quisemos tirar vantagens dela”, sublinhou ao Negócios um assessor de Passos Coelho.»
Nos últimos 5 anos falou-se mais em “fugas de informação” do que nos últimos 100. Não haverá português nenhum que não saiba o que são. Ora, falar de fuga de informação a propósito da notícia de que o primeiro-ministro e comitiva viajaram em classe económica num voo da TAP é um rotundo disparate vindo da assessoria de Passos. Nem era suposto tal acto ser segredo, muito pelo contrário se a ideia era dar o exemplo, nem jamais poderia sê-lo: pelo menos 100 passageiros presenciaram o evento e não consta que o comandante tenha feito, lá do cockpit, um apelo ao sigilo.
Parelhas
Uma lição para os traidores
Questionado pelos jornalistas sobre a mensagem do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, sobre a última cimeira de chefes de Estado e de Governo da União Europeia, Francisco Assis foi claro.
“Não faremos a Pedro Passos Coelho aquilo que, nalguns momentos, o PSD nos fez a nós. Portanto, nós estaremos sempre ao lado do Governo português quando o Governo português se empenha em salvaguardar os interesses do País e eu penso que foi isso que aconteceu”, disse.
Um livro por semana 244
«1961 – O ano horrível de Salazar» de António Luís Marinho
A partir de textos da RTP (Telejornal) e de recortes de imprensa (Diário Popular, Avante!, Flama e Século Ilustrado), António Luís Marinho organiza, de Janeiro a Dezembro, a memória do ano de 1961 em Portugal.
Neste ano aconteceu de tudo um pouco: guerra em Angola, invasão de Goa, Damão e Diu, golpe de Botelho Moniz, assalto ao navio Santa Maria, desvio de um avião da TAP por Palma Inácio e golpe militar em Beja com morte de Filipe da Fonseca, subsecretário de Estado do Exército.
O Mundo mudava mas Salazar em Portugal tudo fazia para que a Sociedade ficasse na mesma. Em África tornaram-se independentes entre 1960 e 1961 muitos países, entre eles: Camarões, Togo, Senegal, Madagáscar, Somália, Congo (belga), Benim, Níger, Burkina Faso, Costa do Marfim, Chade, Congo (francês), Gabão, Mali, Nigéria, Mauritânia e Serra Leoa.
O Benfica venceu em 1961 a Taça dos Campeões Europeus (3-2 ao Barcelona) com esta equipa: Costa Pereira. Mário João, Neto, Germano, Ângelo, Cruz, José Augusto, Águas, Santana, Coluna e Cavém. Os jornais de época não puderam dar a notícia de José
Dias Coelho, o escultor assassinado pela PIDE em 1961 numa rua de Alcântara mas José Afonso viria a lembrar mais tarde em «A morte saiu à rua num dia assim».
O autor do livro não se limita a percorrer textos da TV e dos jornais no ano de 1961. Cita Miguel Torga mas de modo insólito, absurdo e inesperado os seus textos aparecem alterados pelo chamado acordo ortográfico: «atua» e «tática» são duas pérolas. Por fim uma citação de Ruy Belo que dá o toque do tempo e do lugar: «É triste ir pela vida como quem / regressa e entrar humildemente por engano / pela morte dentro.»
(Editora: Temas e Debates / Círculo de Leitores, Foto: Martim Dornelas)
Ir mais longe e enfim descansar (socratista, eu?!)
O pedido de “ajuda” externa, protelado até ao limite por José Sócrates pelas razões já conhecidas, que não vou aqui repetir, e acertadas, como em breve iremos sentir na pele, levou a que, na recente campanha eleitoral, os dois principais partidos utilizassem slogans diferentes, ou pelo menos frases marcantes, sobre essa matéria. Sócrates, lutando, mas frustrado com a falta de solidariedade europeia no combate à especulação financeira com os juros da dívida e a sentir a perda de soberania a aproximar-se, para grande gáudio dos seus opositores, optou por proclamar, chegadas as eleições, que as medidas da Troika não eram o mais importante e que, para austeridade, chegariam, como, aliás, já teria chegado o PEC IV. O programa de reformas do governo PS iria prosseguir nos restantes domínios, com as prioridades já traçadas. Não convenceu, obviamente. Ele próprio se sentia em conflito com o papel para que o empurraram.
O PSD escolheu outro slogan. Para ultrapassar a questão da efectiva perda de soberania (conhecida, mas nunca referida, claro), decidiu gritar, impante, que “iremos ainda mais longe do que as medidas da Troika”. Por um lado, era uma maneira de iludir a triste realidade e de iludir os outros. Por outro, do ponto de vista da psicologia de massas, é uma frase que resulta, porque pressupõe que a base de partida é positiva: o que nos impuseram em termos de políticas ainda não está à vista para ninguém, muito menos aplicado, não doendo nem deixando de doer; a imagem benéfica que nos levam a atribuir ao que aí vem podia, e ainda pode por mais alguns dias, ser explorada perfeitamente. Mais ou menos, é como dizer: “Vêem ali aquele solar antigo? Está em obras, mas há uns tempos que as mesmas não avançam! Observámos a sua degradação (“Aqui para nós”, segreda Relvas, “contribuímos até para ela, sabem? Bloqueámos as obras. Questão de baixar o preço de venda…” (leia-se vitória nas eleições)). A vista é deslumbrante, floresta até ao rio, jardins, fragrâncias mil. Pois dos alicerces ao telhado, vereis, tudo novo! Mas não nos ficaremos por aí! Haverá mais. Vão ficar surpreendidos.” (e nós logo a imaginar courts de ténis)
Se assim não vendessem cobertores, como os venderiam?
Bom, por estes dias, aguardamos com alguma ansiedade a tal surpresa, embora ainda não tenhamos visto sequer a mais pequena martelada no solar. Em Bruxelas, há dois dias, insistia Passos Coelho em que irão já ser tomadas, de imediato, medidas adicionais, prolongando o slogan da campanha. A tal surpresa, mais cedo do que o prometido? Excelente! Posso ir comprar as raquetes!
E quanto ao “Ir mais longe?” Segundo as teorias que animam por estes tempos o PSD, quase tudo no Estado pode ser dispensado. Os privados prestarão com muito mais eficácia e eficiência os serviços aos cidadãos e, sem a concorrência de empresas públicas, as privadas poderão enfim sentir-se livres para se organizar, criar empregos, exportar, vender cuidados de saúde, etc. Não é verdade que “empresas prósperas, trabalhadores felizes”? Pois é. Mais ou menos, dependendo dos salários, que por sua vez dependem dos que estão lá fora, sem emprego. O novo Ministro da Educação propõe mesmo que os exames nacionais sejam encomendados a privados, sem dúvida muito mais competentes e, a haver vários, mais baratos.
Ora, nessa óptica, poderiam ter começado melhor. Ir mais longe, muito mais longe, logo no governo, por exemplo. Para quê ministros e secretários de estado pagos pelo orçamento de Estado? Consideremos os vários sectores da economia – Energia, Banca, Indústria Transformadora, Agricultura – e dos serviços – Justiça, Educação, Saúde. O primeiro-ministro eleito reunia as diversas empresas de cada ramo, através das suas associações representativas. Não precisaria sequer de estar presente. O objectivo último já todos sabem qual é. Cada associação elegia então um decisor que representasse os seus interesses e definisse as políticas mais convenientes, pagava-lhe bom salário e teríamos o país governado. Revista a Constituição, o mesmo valeria para os serviços – privatizados, entregues. Restaria o ministro das Finanças para cobrar os impostos, de preferência baixos para as empresas. Passos poderia então ir dormir descansado para Massamá. Ser primeiro-ministro não é mesmo a profissão ideal?
Regresso ao futuro
Depois da aposta na ciência, universidades, investigação, eólicas e energias alternativas, educação, Magalhães, carros eléctricos, inovação tecnológica, simplificação do estado, e-government, voltamos à era Portugal tem condições para ser (inserir ideia estúpida) da Europa.
Estamos bem entregues, sem dúvida.
É ou não é?
A solução para a esquerda, a solução ideal, é esta: Assis ser eleito Secretário-Geral do PS, a partir daí abrindo o partido aos cidadãos, e Seguro ir para Coordenador do BE, onde realizará a prometida liderança colegial, que incentive o debate, que incentive a diferença. Quanto ao PCP, nada há a mudar num partido que conseguiu parar a História, pelo que podem ficar no actual marasmo.
É ou não é a solução perfeita?
Penélope salva o Aspirina B
A nossa amiga Penélope, habitual presença na tertúlia dos comentários e conversas, aceitou o convite para se juntar à equipa de autores do Aspirina B. É um favor que nos está a fazer. A verdade é a de que tínhamos sido ameaçados pelo Rato de estar iminente a nossa substituição por um grupo de operacionais treinados na Sorbonne, o qual tinha ordens para metamorfosear o blogue num centro de falsificação de testes e exames usados nos cursos franceses de Filosofia.
O plano é grandioso, ou não viesse do nosso amado líder, e envolve uma rede de informadores gauleses a mando do Pauleta; a que se vai juntar o Rui Tavares, logo que assine o contrato com o PS para nunca mais largar a chucha de Estrasburgo. O Rui tratará das partes mais académicas da operação. A ideia, do pouco que aqui sabemos pois é mais uma manobra secreta daquelas que ficam impecáveis depois de registadas nos despachos dos magistrado de Aveiro, passa por encher os faxes das universidades parisienses com respostas aleatórias a testes imaginados na esperança de que alguns deles acertem, o que permitiria ir obtendo aproveitamento e, finalmente, sacar o respectivo diploma. De modo a aumentar a probabilidade de êxito, estas acções só se farão ao domingo, dia em que as maquinetas estão completamente disponíveis 24 horas inteirinhas para receberem faxes, faxes e mais faxes. Isto resulta, garantem os especialistas do partido agitando os currículos com provas dadas no passado.
Assim, estando na berlinda a progressão escolar do nosso mais que tudo, para continuarmos com o estaminé aberto tínhamos de ter uma derradeira razão: aumentar a quota de anónimos. Os anónimos são a força mais poderosamente subversiva do actual combate político, capazes de alteraram o sentido de voto de bairros, cidades e distritos inteiros a partir de blogues que têm poucas centenas de leitores – um terço dos quais estando irreversivelmente contra o que lê, um outro terço que o frequenta só porque cultiva opiniões similares faz tempo e o restante terço que vai lá parar por engano e abala a correr passado um segundo. Mesmo com estes valores, compensa investir em anónimos para as tarefas de lavagem cerebral, e o repto que nos lançaram não deixava margem para dúvidas: ou recrutávamos mais um anónimo ou ainda corríamos o risco de acabar a trabalhar no Correio da Manhã em condições moralmente indigentes, apesar de podermos ganhar carcanhol do bom. Era uma falsa escolha, óbvio, pelo que nos pusemos logo à procura de mais um desses seres tenebrosos. A Penélope é só a primeira desta nova vaga.
Inspirados num lema do PSD, a fruta da época, anunciamos cheios de convicção e esperança: Hoje já somos muitos, amanhã seremos milhões.
Vinte Linhas 631
Ai as nossas Gazetas, ao que isto chegou…
Não é preciso ser muito velho para perceber que as notícias são uma coisa e o barulho feito à sua volta é outra coisa bem diferente.
Há tempos na TV um pobre «pivot» disse que os bancários já estão integrados na Segurança Social mas errou ao não dizer «bancários no activo» porque estas duas palavras marcam a diferença entre a verdade e a mentira. Foi um erro crasso.
Há dias na TV uma pobre «pivot» disse por engano a Fernando Ruas (Associação Nacional de Municípios) que em Lisboa a questão das freguesias já está resolvida quando deveria ter dito que existe um projecto para alterar as freguesias da cidade. Nada mais. Projecto é projecto, não é facto consumado.
Agora aparece na TV esta notícia das receitas médicas fraudulentas mas pagas pelo Ministério da Saúde. Ou seja, a tal palavra – reembolsadas.
São muitos milhões de euros mas as notícias referem apenas médicos e doentes em vez de explicarem que ganha com a falcatrua: as farmácias que vendem e os laboratórios que produzem os medicamentos.
Trata-se (segundo me parece) de uma estratégia para desviar as atenções pois de facto não interessa nada saber se o médico é velho ou novo ou se morreu. Muito menos saber se o doente está vivo ou morto. Isso é folclore noticioso. Importante é saber quem arrecada o lucro da miserável impostura: as farmácias e os laboratórios. Os que vendem e os que produzem os medicamentos.
A maneira como a notícia está desenhada cheira a esturro, tudo aquilo é suspeito.
Expresso da manhã
Há uma coisa que eu e o Cavaco temos em comum. Não compro jornais. Nem um. Nem de vez em quando. O máximo que chego hoje em dia a um jornal é quando tenho o vidro aberto no semáforo vermelho e fico com um desses gratuitos, porque tenho pena do tipo que é pago para tentar distribuir o máximo número de exemplares possíveis antes de ser atingido por um estafeta de mota, razão pela qual, caso não tenham reparado, mudam com frequência. Mas até isso acaba por me chatear, porque fico com o trabalho de ter de o deitar fora (pronto, reciclar) depois de confirmar pela enésima vez que não há nada lá que justificasse o derrube daquela árvore em particular. A maior parte das vezes já os recuso, para coleccionador de papeis inúteis já basta o Pacheco.
Vou ocasionalmente aos sites do Publico e do DN, mas muito pouco, uma vez que são bastante maus, de uma pobreza que chega a ser confrangedora. Estou mal habituado se calhar, já que o Guardian, o NYT e a Atlantic estão à distância de um clique. Quando algo se passa no mundo, é lá que vou. A profundidade das notícias e análises não tem rival, muito menos por cá. É provavelmente injusto, porque esses jornais têm recursos que aqui nem sonham, mas é o que é. Mais facilmente subscreveria um deles do que todos os nossos por um décimo do preço. Sou um consumidor ávido de informação, e há muito pouco no meu próprio país que me satisfaça, pelo que me vejo obrigado a recorrer a produto importado.
O que é pena, porque não vejo porque é que tem de ser assim. É certo que não deve haver muito dinheiro para mandar um repórter para o Paquistão, mas há certamente para cobrir as nossas guerras internas, e o resto é jornalismo e escrita. Saber contar uma história, fazer com que a notícia tenha interesse para quem a lê. Tão simples quanto isto, na minha opinião de leitor. E o que se vê é de uma pobreza franciscana. A maior parte limitam-se a ser reproduções, sem nenhum tipo de enquadramento ou contexto, de “este afirma isto” ou “aquele fez aquilo”. Estenografia, portanto. A esmagadora maioria das notícias esgotam-se no título, para dar um exemplo. Abre-se o link, e nada acrescentam de interesse, nada nos prende, nada demonstra que a pessoa que escreve aquilo sabe o que está a fazer, ou tem sequer interesse no que faz. Queres estar informado? Lê os títulos, e depois percorre os blogues para perceber qual o significado. Aí sim, há quem enquadre, quem desmonte, quem explique, quem sabe escrever. Dentro do jornal não vale a pena procurar, não existe lá nada. E o valor de “nada” é, por vezes, menos que zero, daí a recusa dos gratuitos, quanto mais os tradicionais, pagos. Isto é para mim muito difícil de entender, porque o conhecimento e a escrita são o essencial de um jornalista, não? Eles vivem os acontecimentos, é o trabalho deles estar informados, saber, para depois passar isso cá para fora. Ler um jornal devia ser um exercício diário de prazer, como são os estrangeiros, e os blogues, mas não é. É uma obrigação de quem sente que tem de se manter informado, e não tem escolha. É, resumindo, uma seca monumental. Não é se calhar por acaso que os artigos de jornal mais relevantes sejam as entrevistas: é o entrevistado que faz o conteúdo, não o jornalista. E mesmo assim, sobretudo nas entrevistas politicas, o que se vê é a utilização do jornal como um telefone – é para transmitir alguma coisa, para promover alguma coisa, o jornal e o jornalista são apenas meios de o fazer. Estenografia, mais uma vez. Não admira que os jornais portugueses recebam prémios gráficos: quando o conteúdo é medíocre, aposta-se na forma para tentar vender. Marketing a abrilhantar o vazio.
Estou a ser injusto? Estou, claro, mas menos do que devia. Há bons jornalistas? Há, certamente, mas parece-me que são cada vez mais uma reduzida minoria. E um jornal não vive de um ou outro que escreve melhor ou sabe mais. Vive do todo, da impressão geral que provoca, da confiança que dá ao leitor, do interesse que desperta. Vive de se tornar indispensável, de sentirmos que se não o comprarmos estamos a perder alguma coisa, a ficar mais ignorantes. Sejam sinceros: em quanto tempo despacham agora um calhamaço como o Expresso? No meu caso, quando me vem parar um exemplar às mãos, em menos de nada. Flip, flip, Miguel Sousa Tavares, flip, flip, nada que me prenda a atenção. Agora vão ao site do NYT e cliquem numa notícia. Uma qualquer, por exemplo esta, escolhida, juro, puramente ao acaso. Dentro de uma notícia simples sobre um orçamento local que não me interessa particularmente, dá vontade de ler até ao fim, porque está lá tudo explicado. O acontecimento, os factos, as reacções, o enquadramento, a história para trás, o que é que significa. É uma história ali contada com princípio, meio e fim de maneira a prender o interesse do leitor e a ensinar-lhe qualquer coisa. Jornalismo, não é? É pena haver tão pouco por cá.
Ombro amigo
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Na entrevista que deu à Meios&Publicidade, 20 de Maio, a propósito do lançamento do seu novo livro, João Pinto e Castro diz:
Pelo que vejo, os departamentos de marketing passam 80% do tempo a tratar de promoções. Vê-se relativamente pouco trabalho de construção de marcas.
Este é o lamento que mais se ouve nas agências de publicidade (ou de comunicação, ou criativas, escolher a designação que aprouver), variando apenas nas percentagens. Para algumas, a redução à actividade promocional chega aos 100% do trabalho prestado aos clientes. Criar marcas é um privilégio que tem tanto de entusiasmante como de raro.
Os departamentos criativos continuam iludidos nessa promessa disciplinar de estarem ali para serem os demiurgos de realidades tão vastas que vão desde o logotipo à campanha milionária, passando pela embalagem, monofolha A5 e linear ou montra, entre milhentas facetas da marca – todas, todinhas, a começar onticamente no produto: não há marca sem produto; este é o axioma inviolável, mesmo que o produto seja um serviço, um candidato político ou um simples nome.
Podíamos, e sem dificuldades de maior, defender a tese de serem as marcas as entidades artísticas mais complexas que é possível imaginar. Muito superior ao cinema em ecletismo técnico, a criação de marcas pode ser vista como a 10ª ou 100ª arte. Ninguém fora da indústria, e poucos dentro dos departamentos de marketing, imagina a erudição, densidade estética e paixão com que se pode discorrer só a respeito de tipos de letra para uma dada marca ou mero anúncio de imprensa. Ou o fervor religioso com que se luta pela exclusão ou inclusão de um plano de 2 segundos num filme. Ou a miraculosa rapidez com que se assimilam, relacionam e transformam camiões de informação dispersa e se consegue organizar um disforme e periclitante grupo de decisão. Ou as maravilhas de síntese intelectual a que se pode chegar numa assinatura com 5, 4 ou 3 palavrinhas apenas.
E o que é uma marca? Especialmente, o que é uma marca no século da digitalização das relações sociais, da procura de informação e da aquisição de produtos? O João contribui para a resposta a estas, e outras, questões com uma visão analítica de largo espectro.
Já somos dois
Górgias (workflow)
Há um exercício retórico ao qual me dedico amiúde e que surge sempre sem eu querer:
1. Indigno-me com alguma coisa e começo a escrever sobre ela, argumentando ao sabor da minha indignação - tanto que, grande parte das vezes, não estou a escrever sobre o que me indignou, mas sobre a indignação em si.
2. Mais ou menos a meio do texto apercebo-me de que a minha posição é indefensável.
3. Mais por prazer do que por orgulho ou teimosia continuo a defender a minha posição indefensável.
4. Limo o texto, usando de subterfúgios pseudo-estilísticos banais e de uma lógica aparente (e aparentemente lógica).
5. Quando estou satisfeita com a minha fraude, releio-a várias vezes, com prazer.
6. Se a cadência e a fluidez do que escrevi me conseguirem fazer esquecer as minhas mentiras, retiro-me do texto.
7. Se me acontece voltar ao texto, muito tempo depois, penso: que bem que eu escrevia, que diletante que sou.
A ver se eu percebo a guerra aos governadores civis e outras coisas
Passos Coelho, durante a campanha, falou em emagrecer o Estado, muitas vezes de forma genérica. Por exemplo, para gente comum como eu às vezes o “Estado” correspondia a Ministérios, que passariam a 10. Depois de eleito, Passos (ou Relvas, já não sei) veio explicar que nunca estivera em causa diminuir as máquinas e estruturas ministeriais mas o número de ministros.
É de chorar. Então a poupança foi em Ministros? Isso pesa quanto no OE? Nada. Para mais criou ministérios monstruosos que vão gritar por gente, sob pena de não ser possível a articulação entre as áreas postas debaixo de uma só cabeça.
Depois veio a história dos governadores civis. Passou-se claramente a ideia de que são cargos supérfulos, facultativos, que concorrem com as autarquias locais, pelo que não servem para nada. Já temos aquelas, já há descentralização, PPC não quer nem mais um.
Estamos, mais uma vez, a ouvir PPC a falar para um país imaginário.
As autarquias locais constituem um fenómeno de descentralização administrativa, com legitimidade democrática e competências próprias.
O que se passa com os GC?
Os GC estão ligados aos distritos, à divisão distrital nacional, e, em cada distrito, num fenómeno de desconcentração e não de descentralização, há um GC que representa o Governo e exerce os poderes de tutela na área do distrito . É por isso nomeado pelo Governo, como seu representante, numa lógica de proximidade, e como autoridade de tutela administrativa, de segurança pública e de protecção civil.
Faz todo o sentido algumas competências do Governo, que não podem ser delegadas nas autarquias locais, sejam exercidas numa lógica de proximidade.
É este o desígnio constitucional (artigo 291º), concretizado na lei.
Pergunto então: se a Constituição faz depender a divisão distrital da concretização das regiões administrativas (artigo291/1), ocorrendo a previsão da norma, que dirá PPC do artigo 262º da Constituição, o qual, imagine-se , prevê a possibilidade de um representante do governo junto de cada região?
Um livro por semana 243
«Lugares de passagem» de José Brás
José Brás (n. 1943) recebeu em 1986 com «Vindimas no capim» o prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Neste livro recente são muito diversos os lugares das histórias: «Soeiro-Cunhado, Vila Franca, Montreal, Guiné, Lisboa, New York, Rio de Janeiro, Montemor». O ponto de partida é o lugar onde o narrador descobriu o Mundo: «Terra de vinhas foi aquela onde nasci. Aldeia de homens nados do amor que se faz entre gente e cepas. Aldeia de mulheres-terra. Estremadura-Ribatejo. O pulo sobre a colina. Sobre a barreira. Sobre barreiras. Entre a Vila, Vila Franca e a paveia da seara, tem o Tejo. O Tejo. O rio que se faz de rios. De rios de gente; de rios de suor de gente; o rio que se faz de gente de luta. Alves Redol, varino, avieiro, campino, ceifeiro, ratinho, gaibéu, valador, monda-dôr, pesca-dôr de ser, de ter. De ser e não ter, Vila, rio, rede, pão… Soeiro! Mais rio. Mais terra. E fábrica e povo e fome e luta e grades».
Entre a guerra e a morte há o amor: «Passaste a ser meu homem de verdade todos os dias e quando marido visitou, encontrou-me doente porque pediste ao doutor remédio que fingisse eu tomar». Mas o Mundo não é pequeno: «Percebi então que mundo não era assim pequeno como morança de tabanca, como lavra de mancarra, como estrada de Buba, como caminho de batelão para o Bissau, teu mundo era maior que diferença entre tropa branca e tropa guerrilheira, maior que Lisboa, maior que mar de navio para Lisboa e era isso que te trazia tão de raiva contra morte de brancos e de pretos, contra os dias abafados, contra as fomes que vias no povo da tabanca, nos pratos pequenos dos soldados no quartel do Quebo e nas suas mesas de aldeia portuguesa». Na memória interminável da guerra, hoje como ontem, ficam «contando os dias para voltar ao puto».
(Edição: Chiado Editora, Capa: Vítor Duarte, Prefácio: António Loja)
Política, essa doença
Esta girafa ’tá muito mal. Muito mal… Vê estas malhas todas aqui? Isto é fígado! Sim senhor, fígado… Eu preciso é de lhe ver a língua. Tem a língua suja. Ela tem comido bem? Mal? Mal, sim. Olha, de hoje em diante, só água fervida, mais nada. Regímen absoluto, absoluto.
Canção de Lisboa
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A decisão de viajar em classe económica nos voos europeus, que Passos passou a cumprir, não é censurável. Para além de ter sido anunciada na campanha, está de acordo com a moral que vem de ser validada politicamente em dois actos eleitorais consecutivos: legislativas e presidenciais. Também o voto em Cavaco legitimava o discurso contra a classe política que ele assumiu em crescendo desde 2008, e que este tipo de medidas hipócritas e irracionais simboliza. Na sua faceta mais radical, estamos no território dos remédios contra a doença, a metáfora que – na ausência de uma real criminalização de Sócrates e sua equipa governativa – atinge o propósito de castigar e anular o inimigo. Se não vão para a prisão, irão para o hospício. Veja-se o à-vontade, mesmo júbilo, com que César das Neves espalha esta mensagem.
Os tempos estão bons para populismos. O magnífico triunfo de Cavaco, ao conseguir derrubar o Governo e dar a maioria a PSD e CDS, foi feito apenas com essa estratégia. Não havia mais nada para dizer, muito menos para pensar, tratava-se só de uma questão de insistência, de repetição. Tendo na mão os patrões da comunicação social, e parte da RTP, conseguiu-se uma transversal base sociológica, da extrema-direita à extrema-esquerda, de apoio ao ataque às instituições democráticas. Os discursos das capturas dos políticos, das negociatas com as empresas e da gordura do Estado nunca eram substantivados, nunca se demonstrava a suposta ilegalidade ou falha de gestão, ficavam apenas pela exploração das aparências no intento de as deturpar. Quem aparecesse com uma proposta a desconstruir as calúnias e a promover a racionalidade, chamando a atenção para os institutos e mecanismos fiscalizadores, tanto nacionais como internacionais, não seria sequer levado em conta.
Quando o maior partido da oposição, secundado por uma legião de comentadores a ocupar todos os espaços de opinião, aposta na envenamento da honorabilidade dos governantes, levando ao extremo a natural desconfiança que sempre existe em relação ao exercício do poder, gera-se uma vaga de fundo que vai aplaudir aquilo que consegue entender. Passos a voar em económica é algo que qualquer um entende; saber se as suas políticas para a Saúde, Educação e Ciência são as melhores, isso já poucos entendem. São coisas lá dos políticos, doenças.
Peço pouco
Juros da dívida aproximam-se dos 16 por cento a três anos
Durante ano e meio não se calaram. Os juros da dívida pública subiam porque o PS estava no Governo e Sócrates era um tarado que não descansava enquanto não cobrisse Portugal de Norte a Sul com uma camada de alcatrão com 10 metros de altura, aeroportos internacionais em todas as freguesias e mais linhas de TGV do que auto-estradas e caminhos de cabras. Diziam que bastava mudar de gente, pôr lá a boa, a séria, a da verdade e da poupança, para de imediato os mercados voltarem a atinar.
Não peço muito. Peço só que os voltemos a ouvir agora.
Vinte Linhas 630
Para ver «Quem vai à guerra» só mesmo indo ao cinema
O filme «Quem vai à guerra» de Marta Pessoa estreou a 16-6-2011 em Aveiro (Fórum Aveiro), no Porto (Mar Shoping) e em Lisboa (City Classic Alvalade) ali à Avenida de Roma. Já foi mais fácil para mim falar de filmes: as minhas primeiras idas a uma tipografia foram na União Gráfica (ali a Santa Marta) para revisão de provas dos programas do Cine Clube Católico de Lisboa. Nesse tempo eu era assinante do magazine trimensal «Sight & Sound» de Londres e também da revista da Federação Francesa dos Cine Clubes de Paris que todos os anos mudava de nome: «Cinema 70», «Cinema 71», assim por diante.
Este documentário de Marta Pessoa começa por se organizar num discurso apenas feminino. Coerente do primeiro ao último minuto, não há cedências e tudo se intercala no depoimento das diversas mulheres. Noivas, mães, viúvas, irmãs, esposas, madrinhas de guerra, enfermeiras – há, no seu discurso e nas suas memórias, a amargura de quem sofreu muito nos bastidores da guerra e nunca teve quem revelasse o seu espanto, os seus fantasmas e as suas lágrimas.
A sua revolta também. Num dos depoimentos se revela a fala revoltada de uma mãe: «este não é o meu filho, este é outro!». O chamado «stress» de guerra só muitos anos depois passou a ser tomado a sério; o pânico perante os foguetes das festas populares e perante as portas a fechar, só agora começa a ser bem percebido.
Não é fácil ser espectador deste espantoso documentário de Marta Pessoa. Nele nenhum fotograma se perde, nenhum som se desperdiça, nenhum olhar se deixa distrair.
Grandes questões
Se o Porto for campeão com o Vítor Pereira já na próxima época, fica definitivamente numa classe exclusiva, distinguindo-se do Benfica e do Sporting: super-grande.
E se o Sporting não lutar pelo título até ao fim, depois de ter ficado a 36 pontos do 1º classificado e a 15 do 2º, passa a ter o seu estatuto de grande em risco.




