Lições do Vasquinho

O dr. Cavaco está em aflições e alguns dos ministros do dr. Cavaco estão em grandes aflições. Essas aflições não têm remédio e vão fatalmente aumentar nos próximos anos. Ora sendo certo que o dr. Cavaco é um mau político e os ministros que escolheu à sua imagem e semelhança execráveis políticos, a causa do já visível fracasso deste governo de incompetentes não se deve atribuir à incompetência. Mesmo com outros ministros, um pouco menos pecos e pedantes, o governo não podia deixar de falhar pela simples razão de que prometeu fazer e se propõe fazer o que em toda a evidência não há maneira de alcançar.

Só não percebe quem não quer: as forças armadas precisam de mais dinheiro, o ensino precisa de mais dinheiro, a saúde precisa de mais dinheiro. Como também a habitação social, os transportes, os tribunais e a cultura. E os reformados, e as câmaras, e o ambiente. A dívida pública incha e o dr. Cadilhe rebusca os nossos bolsos com minhota diligência. Apesar disso, o dinheiro não chega. Nunca chega. Nunca irá chegar.

Vasco Pulido Valente, in O Independente, 17 de Fevereiro de 1989

Um livro por semana 198

«Portugal – O sabor da terra» de José Mattoso, Suzanne Daveau e Duarte Belo

Esta é a reedição do clássico de 1998 cujo título (O sabor da terra) vai homenagear Ruy Belo e que, através da mistura feliz de imagens e de texto, procura desvendar a terra e o homem nos seus caminhos em busca do pão, do amor, do poder ou da morte. Além de capítulos sobre Lisboa e Porto, o volume abarca onze regiões: Trás-os-Montes, Minho, Douro, Beira Litoral, Beira Alta, Beira Baixa, Estremadura, Ribatejo, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve. Ficam de fora Açores e Madeira por serem territórios acrescentados no século XV. O título poderia ser «Portugal ponto por ponto» e, como convite ao leitor, ficamos pela Estremadura. Em 1416 o arauto do conde Barcelos, natural de Lamego, escreveu «a Stremadura tem este nome de extremada porque é a melhor, a mais rica e a mais forte de todas as regiões do reino. É, entre todas as regiões, a mais bela e notável, está quase a meio do reino e os seus encantos deleitam.» Esta é a região que faz a síntese da geografia do país: nos cumes das serras, nas praias ricas de iodo, nas planícies férteis de vinha e pomar. As fotos de Duarte Belo mostram ora um moinho em Runa, ora uma falésia na Serra do Bouro, ora um penedo em Cheleiros, ora um maciço de calcário no Arrimal. Sintra, Alenquer, Leiria São Martinho do Porto, Zambujal, Picanceira, Sobral do Monte Agraço, Penafirme, Alcobertas, Lourinhã, Arruda dos Vinhos e Atouguia da Baleia (entre outros pontos) são registados pelo fotógrafo e cada legenda dá origem a um novo aspecto.

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Textos: José Mattoso e Suzanne Daveau, Fotos, legendas, capa e maqueta: Duarte Belo)

Assim, sim

Se o PSD quer servir para alguma coisa, e deixar de ser parte do problema por ser incapaz de se regenerar e reformar, tem de fazer sua esta lucidez. Luís Menezes Leitão é uma voz isolada, mas sólida. Se ganhar balanço, teremos algo de interessante a nascer no PSD, finalmente.

Vinte Linhas 533

Miguel Garcia, Kyros Vassaras, Pedro Silva e a fraca memória do Benfica

Quem destruiu a carreira do Miguel Garcia no Sporting foi um péssimo árbitro vindo da Grécia para arbitrar o Sporting-Udinese de má memória. O bicharoco transformou uma falta atacante numa grande penalidade contra o Sporting e a carreira do Miguel Garcia acabou: foi despachado a grande velocidade para o Reggio Emília de Itália.

Não deixa de ser engraçado ver os corpos sociais do SLB a gritarem contra o árbitro de um jogo recente esquecendo que ainda há muito pouco tempo esse mesmo árbitro em Alvalade expulsou logo aos 2 minutos um jogador do Sporting, favorecendo de modo decisivo o SLB com essa decisão. E a Taça da Liga que foi ganha no Algarve de parceria com um árbitro que inventou uma grande penalidade e alterou o resultado, destruindo ao mesmo tempo a carreira de Pedro Silva no Sporting. Na altura soube bem gozar com a situação e dizer «Eles com a azia e a gente com a Taça!».

O ano passado gozaram com os adversários vendo-os serem sistematicamente prejudicados e a acabarem os jogos com apenas dez jogadores. O ano passado houve casos de jogadores adversários postos fora de combate pelos chamados processos dos túneis. Os árbitros são sempre influentes e muitas vezes decisivos. Fui jornalista desportivo entre 1988 e 2006, vi centenas e centenas de jogos de todas as categorias (escolas, infantis, iniciados, juvenis, juniores, equipa B, primeiras categorias e jogos internacionais) por isso já tenho a minha conta e estou vacinado contra estas pandeiretas do SLB. Uma última nota: ponham os olhos nestes jovens de 1966 que quando entravam em campo não se preocupavam em saber o nome dos árbitros.

Cineterapia


The American President_Rob Reiner

Para uma genealogia das conspirações políticas, não vale a pena a longa viagem até à China das dinastias, nem visitar o bizarro Egipto dos faraós, muito menos entrar nas movediças areias bíblicas, fiquemo-nos pela Europa; com a acrescida vantagem de estarmos no berço da democracia nesse exacto momento em que esta dava os primeiros passos.

Anaxágoras, nascido há 2.510 anos na actual Turquia, foi para Atenas algures na sua idade adulta. Levava ideias nunca antes pensadas. Como esta:

Em todas as coisas, há uma parte de todas as coisas.

Parece coisa simples, coisa de somenos, mas pressupõe uma coisa do camandro: que não há dimensões absolutas na realidade, não existe algo que seja o mais pequeno ou o maior por comparação com o restante, e que a matéria é infinitamente infinita, que estamos cercados por uma multiplicação de infinitos. Vou-te poupar à explicação de como ele chegou aqui, até porque tens de ir a correr preparar o jantar, mas não admira que esta cabeça fosse alérgica ao sistema religioso, mitológico e supersticioso das geografias que atravessava. O que via com a sua inteligência fazia do Olimpo uma casinha de bonecas.

Já adivinhaste, as grandes cabeças gostam de conversar umas com as outras, especialmente quando se cruzam numa cidade mediterrânica servida por mobiliário urbano de estética aprimorada e jarros de vinho a preços módicos. Foi o que aconteceu entre Anaxágoras e um dos mais famosos cabeçudos da História: Péricles, o tio da Democracia (o pai foi Clístenes, Sólon o avô, toma e embrulha). Rapidamente ficaram amigos, o cientista genial e o genial político.

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Na veia

Salazar é quem nos vai salvar. Para isso, precisamos de acabar com dois tabus: aquele criado pelo PCP, para efeitos de apropriação e exploração da lenda antifascista; aquele criado pela Democracia, quando preferiu varrer para debaixo do tapete o lado criminoso do anterior regime. Em ambos os casos, por mitificação e ocultação, cortava-se o acesso à realidade histórica.

Nesse sentido, a biografia política de Salazar que Filipe Ribeiro de Menezes escreveu promete ser a inauguração de uma nova era onde os académicos, ufa!, começam a fornecer à comunidade elementos objectivos e detalhados para uma nova compreensão do século XX português a partir do seu mais importante estadista. Inevitavelmente, a polémica nascerá – e ainda bem, significa que estamos a fazer caminho.

Leia-se, pois, a crónica de Fernanda Câncio – e respectiva discussão na caixa de comentários – onde ela pega numa ideia veiculada pelo autor em entrevista, nem sequer esperou para ler o livro. Isto diz bem do melindre da problemática. E leia-se, na sequência, Irene Pimentel, num texto que alia a minúcia de investigadora com a síntese e simplicidade de pedagoga.

Venham mais polémicas. Quão mais conhecermos Salazar, e a estrutura social que lhe permitiu o mando, mais nos iremos conhecer como comunidade.

É impressão minha ou…

Uma das situações mais encaralhantes da realidade portuguesa está aqui subsumida. Duarte Levy, jornalista freelancer, pôde publicar no DN uma notícia causadora de alarme público por atingir o cerne da credibilidade do Ministério Público precisamente num caso de gravíssimas implicações e consequências políticas. Seguiu-se a usual exploração do boato pelos trastes do costume e, 3 dias depois, os magistrados em causa publicaram uma declaração formal que estancou a sangria. Finalmente, o próprio Serious Fraud Office confirma a falsidade do documento que fundamenta a notícia de Duarte Levy, publicada pelo DN. A isto tudo responde o autor com um ataque à agência inglesa e a insinuação de ter mais informações em seu poder que comprometem as declarações e honorabilidade dos visados.

É impressão minha ou o DN não poderá, sob pena de ficar igual ao Sol e ao Correio da Manhã, continuar em silêncio num episódio a que deu a sua chancela sem validar as informações publicadas, tornando-se ainda mais responsável do que o próprio jornalista? Se Duarte Levy tem razão, façam o favor de publicar os restantes documentos que o senhor alega ter em seu poder. Se não tem razão, afirmem-no inequívoca e urgentemente.

Não pensaste nesta, Darwin

Sempre haverá quem se sinta vingado com o terrorismo, justificando com a assimetria, os mortos das guerras causadas pelas potências ocidentais e a longa tradição do ataque a civis para fins políticos e militares. No fundo, dizem que o terrorismo pode ser uma justa reacção, uma legítima defesa, uma questão de sobrevivência de causas, povos, soberanias.

E essa é uma das mais fortes provas de que descendemos dos macacos.

Vinte Linhas 532

José Torres – 1938-2010 – uma certa memória 11 anos depois

Faz hoje (9.9.2010) 44 anos que comecei a trabalhar. Ganhava 900 escudos por mês e descontava 18 escudos para o Fundo de Desemprego, 9 escudos para o Sindicato, 25 tostões para a Caixa de Abono de Família e 25 tostões para o Grupo Desportivo. O curioso é que tinha 15 anos e pagava quotas ao Sindicato mas só podia ser sócio aos 18 anos e se ficasse no desemprego não recebia nada. No mesmo dia recebi a edição do jornal O MIRANTE que reproduz a entrevista que fiz a José Torres em 16-6-1999 na sua casa da Amadora. No essencial, além de recordar a carreira de jogador e de treinador, o bom gigante explica que na Segurança Social só constam os descontos efectuados entre 1953 e 1959 na empresa Claras de Torres Novas. Tudo o resto (Benfica, Setúbal, Estoril Praia. Estrela da Amadora, Varzim, Boavista e Portimonense entre outros) não consta e voou dos talões de ordenado para o vazio. Estes os factos. Daí a frase de José Torres: «Para a Segurança Social eu não existo como jogador de futebol». Filho de Francisco Torres (que jogou no Carcavelinhos) e sobrinho de Carlos Torres (que jogou no Torres Novas e no Benfica) José Torres cumpriu um fado triste que foi jogar no Benfica doze anos e nunca ter tido um ordenado maior do que 4 mil escudos mas mais grave foi os descontos terem desaparecido entre os Clubes e a Caixa – como então se dizia. Este dia 9 de Setembro fica como uma data especial na minha vida. Passaram 44 anos sobre o meu primeiro dia de trabalho e sobre os meus descontos para nada. Passaram 11 anos sobre a entrevista que fiz a José Torres sobre os seus descontos para nada. Moral da história: é por sermos portugueses. Não há remédio.

Balada para Filipa

(sobre foto Estúdio Goes)

A princesa do mouchão
Menina no meio da terra
Tem nos olhos a canção
Coração em pé de guerra

Da água toda a frescura
Mata a sede aos animais
Em manadas na lonjura
Do lado oposto do cais

Papoilas são raparigas
Na voz da terra a cantar
Água e terra são amigas
Só a água vai para o mar

Olhas a terra trazida
Pelas cheias deste rio
Milhões de dias de vida
Entre o calor e o frio

Memória é pensamento
Auto-estrada é novidade
Os baldinhos de cimento
Passam sem velocidade

Sobre os carros da gente
Numa nuvem de poeira
Vem o vento de frente
Mistura o pó da caldeira

Neste ar em circulação
Onde os nosso pulmões
A olhar para o mouchão
Fazem dos olhos canções

O País é que não presta

Não sei, porque nunca me aconteceu, mas suponho que deva ser tramado: passar meses, anos, numa desvairada campanha de assassinato de carácter, num constante boicote ao Governo apenas porque estão lá os outros, num berreiro imparável contra a colossal inépcia e irresponsabilidade de Sócrates, declarar todos os dias que o abismo onde Portugal se afundará chega amanhã, e depois termos de nos levantar, ir ao banho e ao papo-seco, sair à rua e enfrentar esta sondagem nos idos de Setembro. Terrível, não gostaria nada que me acontecesse.

Claro que os zerinhos não o vão entender, nem ficando a tentar explicar até que o Estoril-Praia ganhasse a Champions, mas aqui segue por descargo de consciência: se Sócrates é tão mau como vocês o pintam, se é esse monstro de incompetência e corrupção, talvez esteja na altura de reconhecerem que há mais onde ocuparem o vosso tempo sem ser a coleccionar humilhações desta magnitude.

Portugal, decididamente, não merece o vosso titânico esforço, a vossa admirável inteligência e, acima e antes de tudo, a vossa salvífica verdade.

Blogosfera, modo de usar

O nosso amigo GiróFlé, companheiro de longa data e de vários carnavais, fez um comentário ao seu estilo: sulfúrico, irrelevante, alucinado e divertido/patético (riscar o que não interessa). O típico espasmo gerôntico, injecção de cinismo calejado, que ajuda a suportar os dias (os dele). A essa prosa respondeu o nosso amigo José Albergaria, sempre com contributos que acrescentam informação e ideias, que suscitam discussão e pensamento.

Ora, a blogosfera é precisamente o resultado dinâmico, mas poucas vezes dialéctico, destas duas polaridades, a egoísta e a altruísta. Aceitar a inevitabilidade da primeira e a raridade da segunda, eis o caminho da sabedoria digital.