ATÉ ESSE MOMENTO

Lembrarás então o pai aqui sentado
A máquina de escrever no chão
Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos
Farás promessas que não vais cumprir
E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho
Iluminado pela luz do teu olhar
À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado
Um gelado presente do indicativo
E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio
Será talvez a memória das noites
O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir
Nos desenhos (nos cadernos escolares)
Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado
Não como pai mas como anónima pessoa
Surpresa a esperar no céu do outono

Terás nas tuas mãos um retrato
O voo das aves por cima da casa
Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos
Num momento ou talvez num lugar
Na tua idade como um portão aberto

Tranquilidade

A escolha de Paulo Bento para seleccionador nacional só poderia vir da mesma moleirinha que queria Mourinho em fraction-time para dois jogos. São escolhas rigorosamente simétricas: o génio incomparável e a vulgaridade com génio, o favorito dos maiores clubes do Mundo e o que não treinou senão um clube em toda a sua mínima carreira.

Bento foi fazendo o curso de treinador em regime de trabalhador-estudante enquanto esteve no Sporting. Começou a treinar os juniores, mas só se aguentou uma época. Na seguinte, já dava ordens aos graúdos. Nos 4 anos em que acumulou classificações que deixariam o Belenenses em êxtase, conseguiu pôr a equipa a jogar o futebol mais feio dos últimos 30 anos leoninos. E foi um especialista em querelas com jogadores, preferindo ostracizar o talento a resolver problemas.

Bento passa uma imagem de operário fabril, honesto, frontal e abrutalhado. O seu moralismo calvinista espelha-se na monotonia táctica e na filosofia de ganhar com esforço, grão a grão, contando os tostões.

Pode resultar na Selecção? Claro que sim! É essa a beleza de ser dirigente e treinador de futebol: quem tiver sorte terá razão.

Good food for good thought

L’ombre historique du communisme pèse encore sur la gauche, et comment! Le fait que le socialisme au pouvoir ait pris une forme communiste, c’est-à-dire une succession de régimes tyranniques, misérables et criminels, reste dans toutes les mémoires. Surtout en Europe, où ce passé terrifiant ressurgit régulièrement au fur et à mesure que nous découvrons de nouveaux documents accablants sur cette époque, les agissements criminels des nomenklaturas, les mea culpa contraints des plus grands intellectuels.

En même temps, l’effondrement brutal et grotesque du communisme a signifié l’écroulement de quelques-uns des grands mythes de la gauche tout entière. L’idée qu’elle allait changer le monde par la “révolution“, que celle-ci fût violente, comme le voulaient les bolcheviques, ou graduelle, comme l’entendaient les sociaux-démocrates, a fait long feu.

Qui veut encore la révolution aujourd’hui, et pour mettre en place quel régime? Quant aux grands discours sur “la lutte des classes“, ou même “la haine de classe“, nous savons bien qu’ils mènent à la guerre civile et au despotisme.

La notion de “progrès” et de “progressisme“, qui veut que la gauche défende un futur meilleur, aille dans le sens de l’histoire et de la libération de l’homme, vacille aujourd’hui après les révélations des livres noirs du communisme comme suite aux effets désastreux de nos industries et du progrès technique sur l’écologie de notre planète.

De même, l’incapacité intrinsèque de la planification socialiste à développer une économie prospère et éviter la paupérisation générale, son dirigisme rétif à tout esprit d’initiative ont ruiné les rêves d’une économie tout étatique et redistributrice, et montré les avantages du libre-échange et du marché, en dépit de ses crises et de sa brutalité.

Malgré cela, il reste encore des “intellectuels de gauche” pour justifier l’époque socialiste et l’étatisme forcené. Des hommes de gauche ou de l’ultra-gauche qui persistent à diaboliser le marché et se définissent comme “anticapitalistes” ou “antiaméricanistes“, montrent des sympathies dangereuses envers des régimes dictatoriaux comme le Cuba de Fidel Castro ou le Venezuela d’Hugo Chavez, font preuve d’une négligence coupable envers l’islamisme ou le terrorisme, qu’ils “comprennent” ou “excusent“.

Raffaele Simone : “Pourquoi l’Europe s’enracine à droite”

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Sugestão da nossa amiga Penélope, selecção minha.

Vinte Linhas 537

A Big Band da Nazaré, Margarida e as memórias convocadas

No passado dia 9-9-2010 às 7 da tarde ouvi no Jardim do Torel a Big Band da Nazaré dirigida por Adelino Mota. Pelo palco passaram temas famosos de Charles Mingus, Miles Davis, Mark Cally, Joe McCoy, Wayne Shorter, Errol Garner e outros clássicos. No fim do concerto, adquirido o CD para o ouvir em casa, ficou-me na retina o olhar da trompetista Margarida, a única mulher executante do grupo pois o outro elemento feminino (Júlia Valentim) é a vocalista residente. Há olhares assim: acumulam os sinais de muitos anos de memória. Este olhar trouxe a terra da Nazaré a um Jardim de Lisboa e nele me apercebi dos contornos das mulheres que povoaram a minha infância. As mulheres e os seus trajes de trabalho: as chinelas, as blusas, os corpetes, as saias, os aventais, as capas, os lenços, os chapéus de feltro com as suas rodilhas que faziam altura. As mulheres e as suas vozes que misturavam de modo sentido os sons do mar e da terra na sua voz magoada quando perguntavam à minha avó: Há por aí uma pinguinha de café? As mulheres e a sua fala arrastada pelo cansaço e pela chuva; só desanuviava num sorriso quando a minha avó atirava uma brasa para dentro da cafeteira e a espuma do café descia de imediato. Depois do café apregoavam melhor a sardinha escalada, o carapau seco ao sol além do peixe do dia a espreitar na canastra. Melhor do que a minha memória, este desenho de Abílio Mattos e Silva explica a paisagem humana desses anos 50 em Santa Catarina. E a Margarida que me perdoe mas depois das palmas para a música só vi no seu olhar as recordações das Nazarenas que chegavam à minha terra pela estrada de Alcobaça entre pó no Verão e lama no Inverno.

Queiroz forever

Queiroz não estava a brincar no aviso de que só sairia da Selecção depois de morto. Como sabemos, ele já se apresentava num estado zombie quando tirou o Hugo Almeida contra a Espanha. E os dois meses seguintes só agravaram a situação. Agora, resolveu apresentar queixa-crime contra quem fez o processo que levou aos castigos e subsequente rescisão de contrato. Vamos continuar a ter Queiroz na Selecção por mais uns anos, portanto. Se isto não der em nada, o Professor avançará para a greve de fome junto ao Estádio Nacional.

Oportunidade para sugerir o estudo que o nosso amigo Júlio Pereira fez da personagem.

Άνθρωπος

A entrada da extrema-direita no parlamento sueco, obtida por um partido que começou por atrair neo-nazis e anti-semitas, é uma boa ocasião para a esquerda pensar um bocadinho. Porque, nos últimos anos, o Sverigedemokraterna conquistou eleitores comuns, sem fanatismo e densidade ideológica. Que se terá passado, pois?

A resposta parece estar na problemática da imigração. Uma oposição radical às políticas que permitem a entrada de imigrantes desqualificados gera, no contexto de um longo ciclo de ameaças e restrições económicas, popularidade positiva – naturalmente. Isto, como fenómeno sociológico, é inevitável. Explica-se com o recurso a manuais básicos de antropologia. Qual deve ser a resposta?

Toda menos aquela que está a passar-se no caso francês com a expulsão de certas comunidades de ciganos, onde se fazem analogias com a Alemanha Nazi e a França de Vichy. Essas comparações – num certo sentido – são mais graves do que o próprio problema, por terem consequências vastas e duradouras. Infectam a discussão com um maniqueísmo que despreza e ofende pessoas que não se reconhecem como racistas, antes como vulgares cidadãos cumpridores da lei ou temerosos pela sua segurança e bens. Serem acusados de que a sua posição não passa de uma monstruosa falha moral é mais uma potencial razão para se barricarem à volta do populismo da extrema-direita. A desmesura do anátema destrói as frágeis vias para o diálogo e a racionalidade civilizacional. A cura da esquerda, pois, aumenta a doença da direita.

Na verdade, Sarkozy, involuntariamente, provocou um teste à saúde política da Europa. Pela resposta de Viviane Reding e Barroso, entre outras individualidade e partidos em diferentes países, podemos constatar da impossibilidade de se imitar qualquer tipo de violência que tenha a menor relação com a patologia suprema do Nazismo. Não se concebe que tal possa ser repetido neste espaço da União Europeia quando meras situações avulsas e ambíguas geram tamanho alvoroço – o que torna a retórica inflamatória ainda mais abominável. Mas existir uma forte e emocionada reacção às decisões do Eliseu, sendo bondosa na sua finalidade, não resolve problema algum. Só a integração económica e cívica dos marginais, de qualquer origem, pode acalmar as populações que estão dispostas a defenderem-se do que consideram – com toda a legitimidade – uma ameaça à sua qualidade de vida e segurança.

Para anular o discurso xenófobo da extrema-direita, a qual imita a estratégia da extrema-esquerda quando esta cresce através da agenda ao centro, a esquerda terá de reaprender a ouvir o povo.

O segundo segredo de Ourozinho

Oh Senhora da Assunção
Meu lugar de ser e estar
Os andores ali no chão
Esperam quem vai cantar

No desfile em lentidão
Da música, seu compasso
Os ritmos do coração
Revelam tempo e espaço

Como esquecido brasão
Invisível para o Mundo
Há em mim a inscrição
Do contrato tão profundo

Entre o instinto e a razão
Entre a paixão e a lucidez
Dum lado o apelo do chão
Do outro a luz dos porquês

Estou dentro da procissão
Vivo de novo a verdade
São momentos de paixão
Largas horas de saudade

Na festa e na ocasião
O meu corpo nada pesa
Estar aqui é a oração
Que em silêncio se reza

Oh Senhora da Assunção
Eu canto para não chorar
Os andores ainda estão
Só agora se vai andar

Oh Senhora da Assunção
Vou dar-te a despedida
Não posso dizer que não
Aos desafios da vida

Uóte?

Tive a mesma reacção da Ana quando ouvi o presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Miguel Oliveira e Silva, declarar, em modo enfastiado-descontraído, que sabe da existência de ilegalidades das quais não tem provas. Ora, essa peculiar intervenção cívica, em que se presume a existência de ilícitos sem carência de justificação válida da denúncia, não será estranha à prática da enorme maioria da população. O que origina o espontâneo uóte, então, é a suspeita de não sermos todos presidentes de conselhos nacionais de ética. Uma suspeita com algum fundamento, salvo melhor informação.

Mas isto, lá está, é a malta a presumir que a ética terá alguma relação com a definição do Bem para uma dada comunidade, num dado tempo, dadas certas circunstâncias e finalidades. Claro, podemos estar é muito bem enganados.

Vinte Linhas 536

De como José Saramago também fala de cebolas

Faço parte de um clube de leitura e hoje (18-9-2010) na Livraria Fábula Urbis em Lisboa discutimos durante duas horas «O ano da morte de Ricardo Reis». Houve uma referência na página 331 da edição de 1984 (com a dedicatória original À Isabel, outro livro, o mesmo sinal) às cebolas que me lembrou uma nota dum «pobre» a propósito do aqui publicado «Fado Feira da Cebola». Escrevi «cabos de cebola» e o «artista» disse que não era cabo mas sim réstia. Pois Saramago escreve «Um rasto de cebola. É verdade, um rasto de cebola». No famoso dicionário de Moraes, página 462 lá temos «rastra – réstia de cebolas ou de alhos». Rasto é outra coisa mas compreende-se a mudança em relação à norma do dicionário.

O livro arranca com «Aqui o mar acaba e a terra principia» em homenagem a Camões: «Aqui onde a terra se acaba / e o mar começa». O autor coloca habilmente em diálogo uma figura de ficção (Ricardo Reis) com um fantasma (Fernando Pessoa) que já não podia dialogar em 1936. No quarto 201 do Hotel Bragança o protagonista tenta escrever poemas a uma mulher sabendo, entre cálculo e ilusão, que «muitas vezes começamos por falar no horizonte porque é o mais curto caminho para chegar ao coração». São Pedro de Alcântara, o Terreiro do Paço, o Cais das Colunas, o Chiado, o Hotel Bragança e o miradouro do Adamastor (entre outros) são lugares e palcos da cidade aqui revisitados por Ricardo Reis, o médico criado por Fernando Pessoa que nasceu em 1867 no Porto e vive no Brasil até 1935, data da morte do poeta dos heterónimos. Um ano antes da revolta dos marinheiros no estuário do Tejo contra Salazar.

Vinte Linhas 535

A música dos gatos entre Elza e Fernanda

O gato de Fernanda faz do seu telhado uma ameia de castelo. Não há invasores capazes de vencer a muralha de indiferença superior deste gato. Perto da febre do trânsito, os passos vagarosos do gato de Fernanda, no fim da tarde, pelas telhas, são música no lugar onde a chaminé projecta sombra. Não foge; afasta-se. Não teme; desvia-se. Não vacila; avança até ao limite do espaço do telhado, feito uma ameia de castelo.

O gato de Fernanda fica sempre por cima. Nenhum conflito o envolve, nenhuma guerra o mobiliza, nenhuma disputa o desgasta. Sobranceiro e distante, afasta-se para o outro lado das telhas, solene e vagaroso. Procura o sorriso de Fernanda, uma espécie de vírgula num discurso de amizade partilhada, algures no esgaço e no tempo da janela onde os seus dois mundos se misturam de modo apropriado, rápido e feliz.

A música dos gatos passa veloz e intensa do telhado para a tela em acrílico. O mesmo é dizer do telhado de Fernanda para a Galeria de Arte de Elza. Ali, na Rua da Misericórdia nº 30, perto do Chiado, o sol incide sobre as linhas do eléctrico 20 (Cais do Sodré – Gomes Freire), percurso há muito desactivado. O brilho do sol faz dos ferros um espelho que devolve às telhas um resto dos compassos de João Sebastião Bach.

A música dos gatos oscila entre os olhares de Elza e de Fernanda. De um lado a paixão do rigor das imagens, dos pormenores quase infinitos que podem caber numa tela de reduzidas dimensões. Do outro a ternura derramada que começou nas prateleiras de álbuns da livraria e passou para o perímetro da casa com a janela aberta para o castelo invisível onde o gato permanece de atalaia. Quando o telhado parece um castelo.

Um partido a vapor

Ferreira Leite nunca associou o TGV ao problema do financiamento externo pela simples razão de esse problema só ter surgido em 2010. Primeiro, saiu-se com o fantasma de que o TGV não iria dar lucro, depois que seria um encargo que não permitiria baixar os impostos, a seguir que ficaria como despesa a pesar durante os próximos 30 anos, por fim que o Governo devia adiar a decisão para depois das eleições em Setembro, não comprometendo um eventual Governo do PSD. E isto sempre em relação com o novo aeroporto e restantes grandes obras públicas. Era algo que tinha para dizer, prontos, faltando algo que valesse a pena ser dito.

Foi isso, e só isso (se esquecermos a internacionalista alusão aos cabo-verdianos e ucranianos), que a Manela andou a papaguear sem ter alguma vez explicado o que faria para além de parar tudo. Não espanta, então, que a sua claque – comentando agora uma decisão tomada e publicitada em Maio – venha mentir à boca cheia. Os proprietários da verdade são sempre os maiores mentirosos, isso é sabedoria banal de conto infantil. De resto, não existe nenhuma correlação entre as notícias acerca do TGV e do aeroporto e as flutuações no risco da dívida – quem quiser perder tempo, que faça quadros cronológicos comparativos. O mercado reage num misto, indiscernível, de estratégias individuais de ganhos, e de reacções colectivas, a certas fontes de informação seleccionadas pelo seu valor de referência para o cálculo de curto prazo. Se alguma autoridade europeia de topo se pronuncia, seja de que forma for, acerca da economia nacional, o mercado ouve e age no imediato. Se o Governo anuncia que faz obras públicas, seja qual for a dimensão do investimento, o mercado tem mais em que pensar. Não se ganha dinheiro, num sistema onde os agentes são especialistas em volatilidade, fazendo cálculos a 15, 10 ou 5 anos. Isso é para os pacholas animais domésticos dos governantes e comunidades locais, não para os felinos e abutres da alta finança global.

Aliás, se o mundo não mudou no princípio de 2010, que mal fizemos ao PSD para não nos ter avisado do que vinha a caminho? Não podiam ter explicado logo, um mês ou dois antes das eleições, que a Grécia andava a fazer maroscas com as suas contas públicas? E que a União Europeia seria atabalhoada na resposta aos ataques à sua moeda, fragilizando os países que mais precisavam de investimento público para acelerar e robustecer a recuperação económica? Isso teria muito maior impacto nos resultados eleitorais do que a aposta na Moura Guedes, Pacheco Pereira e pastéis de Belém. Seria como um TGV em direcção ao Poder, em vez do barulhento, poluidor e lentíssimo comboio a vapor com que foram a votos.

Balada da Escola de Brooklands em Blackheath

Passa pelo seu porteiro
Gente de vários tamanhos
Passa aqui o dia inteiro
Não deixa entrar estranhos
As mães são todas bonitas
No olhar dum coração
Combinam chá e visitas
Entre a sala e o portão
Na mesa dos animais
Tomás toma o seu lugar
Os monstros originais
São pesadelo a sonhar
Nesta escola de crianças
O horário é pequenino
A manhã das esperanças
Sonha o futuro destino
Onde os meninos de agora
Que chegam de bicicleta
Aprendam que estrada fora
Há no fim a luz da meta

No sorriso do consolo
Cada criança trazia
Um pequenino bolo
Feito entre a alegria
Entreajuda, amizade
Todos iguais na diferença
Vão viver numa cidade
Onde o ódio é doença
Uma cidade, um futuro
Onde o sonho se faz acção
A escola é lugar seguro
Porque todos dão a mão
Ao sonho em teimosia
Dum mundo onde a gente
Prefere uma harmonia
Em vez da voz divergente
Por isso não dão pelas horas
Levam a pasta oferecida
No olhar das professoras
Está um programa de vida

Deficitários

A ideia de que Sócrates e Teixeira dos Santos cometem erros crassos atrás de erros crassos, que promovem uma cultura de irresponsabilidade e que preferem a bancarrota às medidas que salvariam a economia de um Governo para o outro, é sintoma de um défice muito maior, e muito mais grave, do que o da dívida soberana.

Vinte Linhas 534

Uma memória do «Record» a propósito do Eduardo

«Morreu o Eduardo!» – esta notícia dolorosa chegou-me através do Cândido, um amigo e vizinho de Santa Catarina. Uma coincidência de datas leva-me a 7-9-1986. Era domingo na minha estreia nas páginas do «Record». Fui convidado pelo Ricardo Tavares mas foi graças ao Eduardo que fui acamaradar com a malta do andebol. Muitas vezes ele organizou idas colectivas dos simpatizantes do Passos Manuel («Passos! Passos!») ao recinto desportivo do CACO – Clube Atlético de Campo de Ourique. Íamos a pé e às vezes víamos vários jogos de enfiada. O Eduardo andava sempre com o «Record» debaixo do braço e a minha colaboração entre 1986 e 1987 só foi interrompida por um processo em Tribunal por abuso de liberdade de imprensa mas um juiz ex-jogador da Académica resolveu o caso em três tempos a meu favor. O queixoso saiu com o rabo entre as pernas. Nunca me disseram mas esse processo acabou por ditar o meu afastamento. Sempre me dei bem com o Ricardo Tavares, com o Alves de Carvalho, com o Rui Cartaxana mas a minha colaboração (paga a 50 escudos a linha) cessou para não mais voltar. Mais tarde no BPA convivi com o António Lopes que jogava no Belém e era amigo da grande equipa «leonina» do treinador Matos Moura. Também se dava com os irmãos Vasconcelos do Benfica. Conheci essa malta toda – o Carlos Silva, o Hernâni, o Franco, o Luzio, o Castanheira, o Bessone, o Anaia. Todos. Em Alvalade, no estádio, muita gente reparava num bombeiro que ouvia o relato num rádio pequenino e dava informações ao «banco» dos sportinguistas sobre a evolução dos resultados dos adversários directos. Há fotografias. Esse bombeiro era o Eduardo.

E mais dois

Mourinho pode treinar Portugal (isto é, fazer a convocatória ao calhas e montar a equipa pelo telefone), Portugal pode ganhar os dois jogos, toda a minha gente pode ficar feliz e contente, até o futebol pode ser bonito de ver. Isso em nada alterará a natureza efémera, provinciana e burlesca da solução. Na verdade, estará a criar-se um novo problema para o seleccionador seguinte, visto como mero recurso por não se poder contar com Mourinho para mais dois jogos, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, […]

[…]

[…]

[…]

e mais dois.