Aqueles que desejam o fim do jogo de atribuição do 3º e 4º lugar no Mundial são declarados, e descarados, inimigos do futebol. E quem é inimigo do futebol, é inimigo da paz internacional.
Arquivo mensal: Julho 2010
Pintura Naïf na Rua da Misericórdia
Sem discutir sequer o que pode ser entendido por pintura «Naïf», aqui refiro e divulgo uma exposição para quem esteja perto de Lisboa e queria visitar a Allarts Gallery na rua da Misericórdia nº 30 (ao Chiado) de terça a sábado das 10 às 19 horas.
São 30 artistas de vários países do Mundo, todos na linha «Naïf», cujos quadros podem surpreender o visitante pela qualidade da arte final e pela originalidade dos temas escolhidos, ou seja uma «arte livre de convenções e de preconceitos» na feliz síntese do convite. A exposição abre em 15 de Julho mas não é preciso esperar; desde já pode ser visto o conjunto de obras em permanência na Galeria.
Palavras em jogo 04
Gosto mais da gatinha mas não diga nada à boneca (foto Estúdio Goes)
As botas que ontem calçaste lembram-me Vila Franca de Xira e os dias de festa na romaria da Senhora de Alcamé. Íamos nas carroças dos nossos vizinhos, havia farnel, missa campal, procissão, música e arraial entre o sol e o pó. A sede matava-se com vinho branco de Pegões mergulhado num cesto de vime na água fresca do braço dum esteiro do Tejo. Como nos livros de Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes. As «jeans» azuis dão à tua silhueta nos passeios da cidade o aspecto de menina do 12º ano mas já sei que a tua resposta adversativa é sempre a mesma: «Ai eu, por detrás Liceu, pela frente Museu». E o enorme sorriso que não termina.
Hoje apareceste de saia cinzenta e vejo nela não só o pedaço de tecido mas também uma bandeira, um pendão, um estandarte. O país és tu, a nação é o teu olhar, o território é o perímetro dos teus passos quando chegas à grande cidade voltando costas à cidade de cimento e ao comboio lento. Se o país é a soma da nação com o território então a tua bandeira representa um pequeno país a Norte deslocado no Sul, longe do azeite e das castanhas, do pão e do vinho, da luz das festas de Verão. Percebo agora melhor porque motivo em Itália se chama «paese» à aldeia natal de cada um. As nossas memórias são uma História particular a que todos temos direito, a nossa capela tem o valor de uma Catedral, a nossa escola o peso de uma Cidade Universitária, os nossos santos privativos a força dos Padroeiros Nacionais.
Hesito muito na escolha entre os teus «jeans» azuis e a tua saia cinzenta tal como a menina do livro da escola primária hesitava entre a gatinha e a boneca.
Maluqueira
Sócrates tem sido acusado de optimismo. Outros ministros, idem. Parece que esta rapaziada já acabou com as crises todas, e várias vezes, mas elas teimam em voltar cada vez mais fortes. A crítica aos discursos que realçam os aspectos positivos pressupõe uma de duas alternativas: que o Primeiro-Ministro fosse pessimista ou que ele dissesse o que outros gostariam de ouvir.
Um governante é como um médico. Se disser ao doente que não acredita na sua recuperação, que duvida da eficácia dos tratamentos, esse médico está a agravar o estado do doente. Dizer a verdade ao paciente implica reconhecer que a verdade é sempre uma construção subjectiva. O médico sabe que também se engana, por falhas próprias e alheias, apesar do aparato científico da sua actividade. E sabe que parte decisiva na recuperação da saúde depende da crença, da disciplina, da calma, da motivação, dos factores psicossomáticos. Se é assim na medicina, por maioria de razão o é na política.
Claro, se Sócrates aparecesse pesaroso, sombrio, anunciando a sua descrença na recuperação económica e profetizando convulsões sociais, os mesmos que o perseguem pelo optimismo saltariam febris clamando que um governante não pode abdicar das palavras de confiança e estímulo. Exigiriam que abandonasse e desse o lugar a um crente no sucesso do Governo. Ou seja, seria perseguido por causa do pessimismo.
É assim a estupidez, uma maluca.
Desbloquear – III
Vou continuar a aproveitar as palavras da nossa amiga Sofia Loureiro dos Santos, por trazerem aspectos que pedem discussão:
Valupi, é verdade que este governo tem liderado um governo de crise. Mas o problema é a falta de liderança política e a sensação de que não dirige, mas antes é dirigido. Pelas circunstâncias internacionais, já todos percebemos que todos somos dirigidos, Portugal e os outros países. Mas pelos outros partidos, pelo Presidente da República e por algumas figuras do PS, que têm tido intervenções na vida política que descredibilizam o Parlamento e o PS, não.
O cenário de um Governo dirigido pelos outros partidos, e até pelo Presidente, não é correcto. Sem maioria, há que negociar ou abandonar. Como o PS insiste em assumir as suas responsabilidades, e como também espera pelas eleições presidenciais para se poder lançar num novo ciclo, temos a actual situação de fragilidade geral. Todos os actores políticos, sem excepção, estão a passar por um terreno que não conhecem, onde as areias movediças são bem mais perigosas do que os pântanos. E ainda poderíamos juntar a este ramalhete de desgraças a desgraça da Justiça, a qual tem tido influência na actividade política. Quanto às figuras do PS que descredibilizam o Parlamento e o partido, e sem saber ao certo a quem alude a Sofia, esse é o menor de todos os problemas. Polémicas e casos imprevistos são inevitáveis, pois estamos vivos e cada um pensa pela sua cabeça. O PS, contudo, é muito maior do que os melindres desses episódios, alguns meramente do foro psicológico.
Estamos sem estabilidade governativa porque os eleitores acreditaram que os males do País resultavam da maioria do PS. Como agora se vê, perante a demissão da oposição face às suas responsabilidades, o pior que pode acontecer numa democracia é o ataque e boicote ao Governo pelo simples facto de tentar governar. Há algo de profundamente errado no modo como se entende o papel da oposição.
TZ
Este país (ou este mundo…) não é para velhos.
Acho que toda a gente sabe por aqui, porque estou farta de o dizer, que tenho duas filhas. A mais nova tem 12 anos. Em Fevereiro de 2007, aquando do referendo do aborto, tinha 9 anos. Um dia, por essa altura, perguntou-me se eu também achava que se devia poder deixar matar criancinhas.
Sou muito cuidadosa, mesmo com gaijinhas de 9 anos, nas explicações que dou, evitando, na medida do possível, condicioná-las de alguma forma. Assim, expliquei-lhe o melhor que soube e consegui os dois lados da questão e pedi-lhe para pensar. O facto da irmã mais velha dela ter trissomia 21 e já na altura ser legal o aborto nestes casos deixou-a baralhada, afinal já se podiam matar criancinhas, e comunicou-me que a opinião dela era que a lei devia ser mudada porque achava inconcebível que uma mulher que abortasse corresse riscos de cadeia.
Poucos dias depois de me ter comunicado a sua decisão apanhei-a ao telefone com a avó, a minha mãe, a senhora minha mãe. Discutiam o referendo e o voto. A gaijita estava a meter uma cunha à avó, assim tipo presente de Natal – pedia-lhe para votar “Sim” por ela já que ela não podia votar. O argumento? O argumento era fatal – a lei, qualquer lei que dali saísse, era para ela e não para a avó, a avó já não iria nunca ter de decidir se abortava ou não mas ela, do alto dos seus 9 anos, não sabia o que a vida lhe reservava e se tivesse que tomar uma decisão difícil como essa preferia fazê-lo não tendo de pensar que, para além de tudo o resto, corria riscos de vir a ser presa. A minha mãe, a senhora minha mãe, avó dela, desligou-lhe o telefone. Explicou-me depois que se recusava a falar “dessas coisas” com miúdas. Eu ainda hoje me rio.
A gaijinha tem 12 anos, vai fazer 13. Não, não vai votar no próximo PR mas o outro, o a seguir, já vai contar com o voto dela. E com o voto de muitos outros da idade dela. Que não fazem a mais pequena ideia do que é isso de esquerda e de direita, porque se estão nas tintas para quem se sentava onde no Parlamento. A noção de Direita ou Esquerda está datada historicamente e tenho sérias dúvidas que a geração que aí vem a compre. Eu, que nas mesmas eleições já votei PP e PCP, espero sinceramente que baralhem e voltem a dar.
Desbloquear a esquerda? E que tal desBloquear a política?
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Oferta da nossa amiga Tereza
Vinte Linhas 505

Elegia para a turma de Outubro de 1963
Aqui estão os 19 rapazes da turma com uma professora cujo nome hoje já não recordo. Ela que me perdoe. Esta é a turma do Curso Geral do Comércio, as escolhas já tinham sido feitas. Uns foram para serralheiros e outros para electricistas.
Na primeira fila temos dois futuros lideres: Horácio José Cecílio Rufino, fundador e secretário-geral da JCP e José Carlos Pereira Lilaia, fundador e porta-voz do PRD.
Na segunda fila temos o Novo, o Fernando, o Joaquim Narciso, o Cardoso, o Carlos Félix e o Dias. Os três primeiros vinham de Alenquer e de Cheganças, o Cardoso veio uma vez visitar-me a Lisboa para concorrer a um Banco, o Carlos Félix foi presidente da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira, o Dias tinha blocos e canetas do BNU.
Na última fila estão o Bento Fumaças, o Vidaúl Froes Ferreira e o Zé Afonso de A-dos-Loucos. O Vidaúl fundou o MRPP em 1970 numa casa de Benfica com mais três companheiros de aventura. O Fumaças vinha de Samora Correia numa motoreta. O Horácio terá vindo do Couço para Vila Franca porque ali era mais fácil apanhar o comboio para o forte de Caxias onde estava um familiar. Nesse tempo as pessoas deslocavam-se no país por esses motivos. Visitar um preso político não era tarefa fácil para quem vivia na zona de Coruche, daí a família do Horácio ter assentado arraiais na terra do colete encarnado. Bastava dar uma volta à procura de vidros com escritos.
Graças ao jornalista Adelino Gomes recuperei os contactos do Lilaia e do Vidaúl além do Álvaro Pato e do Arnaldo Ribeiro que não estão nesta foto. Sei que o Horácio vive no Algarve mas dos outros pouco ou nada sei. Perdi muitos nomes mas nenhum rosto.
Salada de polvo
Alice#2
Desbloquear – II
Sofia Loureiro dos Santos comentou as declarações de Paulo Pedroso relativas ao desbloqueio da esquerda democrática, e acrescentou outro aspecto da questão que pede debate:
E, já agora, também não está a falar deste PS. O vai-vem de medidas, o dizer e o desdizer, a defesa de atitudes lamentáveis, a paragem do movimento reformista do anterior governo, tudo isto tem alguma coisa de esquerda?
Creio que este protesto será partilhado por muitos militantes e simpatizantes do PS. O Governo tem estado ocupado a gerir um gabinete de crise, permanentemente, tendo passado por situações nunca antes vividas por um Executivo português. Começa pela minoria parlamentar, a qual deixa periclitante e desvirtuado qualquer Programa, como se viu nos meses que antecederam a aprovação do Orçamento, continua com a crise económica internacional, a qual obrigou a um desvio dos já parcos recursos, e acaba na crise da Zona Euro e capacidade de financiamento, situação que rebentou com toda a racionalidade das propostas votadas pelo eleitorado em Setembro. Assim, que está o Governo a fazer que não devia ou a não fazer como devia?
A resposta a esta pergunta leva-nos para a realidade política, onde ninguém concebe o que pudesse ser um Governo BE-PCP neste momento. Que fariam? Onde iriam buscar o dinheiro? Que investidores apostariam em Portugal se o código do trabalho impedisse os despedimentos e acabasse com os modelos de reconhecimento do mérito e de estímulo à produtividade em favor de uma igualdade sovietizada? Qual seria a resposta dos bancos? Iriam colectivizar a economia, desatando a nacionalizar as grandes empresas outra vez? E como lidariam com a inevitável convulsão social num país que cultural e sociologicamente não quer ser comunista? Pela força?
Do CDS e do PSD, como se constata sucessivamente, não vem nenhum ideário reformista que galvanize os sectores mais produtivos, democráticos e dinâmicos da comunidade. Já no PS há uma diversidade de recursos humanos e caminhos ideológicos que daria para fundar vários partidos. Ou substituir as lideranças, tão-só. Por exemplo, Seguro podia ir para o BE e Pedroso para o PCP. Então, sim, a esquerda seria toda democrática e estaria em condições de completar o projecto reformista que um PS com maioria absoluta apenas conseguiu começar.
Vinte Linhas 504

Elegia para a memória da turma de 1962
Havia nestes 31 rapazes os sonhos mais diversos, ainda não era o tempo das escolhas. Só no ano seguinte se decidia o futuro: Curso Comercial, Montador Electricista ou Formação de Serralheiro. Na fila da frente recordo três nomes: o Zé Carlos Lilaia, o Horta e o Campino. Uma vez foi um grupo ver a secretária do Lilaia porque era o único a ter uma: o pai fez o pequeno móvel com as tábuas onde vinham os tecidos vendidos a metro. Na segunda fila o Álvaro Pato com um sorriso teimoso e era o que tinha mais sofrimento na vida: com o pai na clandestinidade, só o conheceu aos nove anos. Na terceira fila o Horta («Boguinhas»), o Catoja («Talita»), o Vidaúl, o Zé Bolota, o Abreu e o Nuno, filho do senhor Manel sacristão. O Horta jogava hóquei-em-patins no recinto do Jardim. Municipal. O Catoja tem uma clínica de fisioterapia na Castanheira. Deveria ter começado pelo senhor Nicolau, sempre disponível a apagar fogos, a apaziguar conflitos, a ajudar. No caso da foto foi ele que se juntou à turma porque não havia professores disponíveis e o homem dos retratos apareceu sem avisar. Quando se começou a popularizar o frango assado no espeto, o senhor Nicolau servia à mesa no Zé dos Frangos. E ao fim da tarde havia os pipis. Um pipi e um papo-seco com um copo de gasosa era um lanche de rei. Na quarta fila o João Alfredo Danado Picanço, o Zé António e eu. O Zé António continuava a falar da vida boa que havia em Roterdão: pagavam bem e o trabalho era só colocar carimbos vermelhos em sacas de café. Sonhava com a Holanda todas as noites. Eu também sonho mas é com este Mundo que aos poucos desapareceu da minha memória, com os nomes que perdi.
Não se metam com a Europa
André Cruz (em 2000)
Festejo um golo finalmente conseguido
Na convergência da força e da precisão
Há quem se lembre do jogo transmitido
Jogos de Seul em directo pela televisão
Nessa altura eu era um jovem jogador
Numa equipa brasileira de alta nota
Perdemos essa final entre um clamor
Porque foi tão injusta a nossa derrota
O golo nasce sempre de um instante
De luz, de falta de erro, de pontaria
Neste caso acabou por ser importante
Abrir as portas deste estádio à alegria
Pela cidade até parecia um casamento
Nas buzinas bem fortes das viaturas
Estou feliz porque criei esse momento
Foi o intervalo feliz entre amarguras
Desbloquear
“Para desbloquear a esquerda democrática portuguesa é preciso também que haja alternativas sólidas aos governos de maioria absoluta”, referindo depois que este apelo não se dirige apenas ao PS, mas também aos restantes partidos da esquerda (Bloco e PCP) “para que aceitem o princípio da realidade, a opção europeia do país, para que sejam capazes de gerir as lideranças e saber o que é necessário”.
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Que pensam Bloco e PCP deste pedido de Paulo Pedroso? Talvez o mesmo que pensa o PS quando ouve Louçã ou Jerónimo a reclamar o seu simétrico: que o PS aceite a meta do idealismo, admita a saída do colete europeu, promova a rotatividade das lideranças e saiba o que é justo. Todavia, vai bem Pedroso por este caminho, posto que nele acredita. A grande curiosidade é descobrir se encontrará algum interlocutor na esquerda da esquerda. Nenhum sinal, o mais ténue, aponta nesse sentido. Bem pelo contrário.
O Bloco tem de manter a estratégia de fractura do PS, sob pena de se reduzir ao que é: uma manta de retalhos incoerentes e anacrónicos, mantida unida pelo marketing de Louçã. E o PCP é uma organização religiosa, cada vez mais dependente das liturgias e dos fanáticos.
Talvez o caminho tenha de ser outro: desistir de quem não aceita a democracia e partir ao encontro daqueles que estão afastados da política. Esses ignoram o seu poder, pelo simples facto de ignoraram os seus direitos e os deveres de todos.
V9
O que é revoltante, mas absolutamente revoltante, é que uma classe profissional que se encarrega (ou devia encarregar) de formar as próximas gerações se comporte como funcionários de repartição, preocupados com o seu umbigo, com a mediania que a todos protege, esquecendo completamente qual a missão, e deixando-se manipular da maneira mais abjecta. Mas é uma consequência da falta de ligação que têm à escola, aos alunos, aos pais. Porque é que haviam de a ter, quando tudo o que lhes interessa é decidido por uma estrutura gigantesca e impessoal em Lisboa?
Esta estrutura educativa é uma aberração. Todos sabemos quais os resultados dos grandiosos “planos quinquenais” na antiga União Soviética, e no entanto continuamos a tratar a educação como algo que pode ser planeado e gerido a partir de um centro. Não pode. São demasiados funcionários, demasiados professores, demasiadas realidades e especificidades locais, é um alvo demasiado fácil e suculento para interesses puramente políticos. Quem tem as melhores condições para decidir como organizar a escola, que professores contratar, que condições oferecer, são as estruturas locais. Gostava de ver o Mário Nogueira a fazer as mesmas fitas se do outro lado estivesse um presidente da câmara, com a população do seu lado, preocupados com os resultados nos exames nacionais. Como dizia o Maradona aqui à uns tempos, e com o qual concordo completamente, a avaliação dos professores é simples: há um director de escola. Esse director decide quem são os professores competentes, e promove-os. Os incompetentes, despede-os. Responde, apresentando resultados, perante os principais interessados – os pais. Como acontece em qualquer estrutura que se preze. Como acontece, por incrível que pareça aos nossos funcionários educativos, nos colégios privados.
Continuar a lerV9
Experiencing Different Cultures Enhances Creativity
É também por esta razão que abomino o racismo, para lá de todas as outras.
Vendetta
A ferocidade, e em muitos casos demência, dos ataques à direita contra Sócrates nasce de um objectivo reconhecimento do seu valor eleitoral e governativo, por um lado, e do pânico em que esse tecido sociológico entrou por causa dos acontecimentos no BCP, BPN e BPP, pelo outro. De repente, olhavam à volta e já não tinham os banqueiros amigos que tanto lhes tinham dado a ganhar ou tanto os tinham ajudado em situações de perda. A CGD e o BES também estavam feitos com o Engenheiro, pensavam com os seus neurónios conspirativos, e a crise internacional ia agravando desvairadamente o pesadelo. A situação era insustentável para quem vinha do cavaquismo com o papo cheio até 2008, algo teria de ser feito. E fez-se: Ferreira Leite e Pacheco espalharam a estratégia da asfixia democrática e Belém começou a bombardear S. Bento sem parar. Chegava? Não, era ainda preciso recorrer ao trunfo na manga para cortar todas as vazas: magistrados entraram na cena política como nunca antes se tinha visto em Portugal.
Vara, amigo de Sócrates, era um dos alvos mais apetecidos para a calúnia. Figura já chamuscada à conta de alegadas irregularidades cometidas pela Fundação para a Prevenção e Segurança, nunca provadas e acabando o processo por ser arquivado, com um currículo partidário extenso que o tipificava negativamente, representava a infâmia socialista: passeava-se pelos corredores do sacrossanto BCP, outrora símbolo do poder financeiro-religioso e cúpula suprema de uma pirâmide social que reunia famílias e empresários habituados a 20 anos de triunfo capitalista pela férrea mão de Jardim Gonçalves. Exigia-se vingança.
Não faço ideia se Vara é culpado de alguma ilegalidade ou imoralidade, obviamente. O que sei é que já está a pagar.
Vinte Linhas 503

Elegia para um retrato de turma em Outubro de 1961
A Escola Técnica de Vila Franca de Xira estava sempre em obras. O professor chamava-se talvez Eurico. Desapareceu mas não se podia falar no assunto porque, diziam, «quem falar vai para a ilha do sumiço». Da primeira fila recordo com nitidez três figuras: o Mário Tui, um rapaz que era do CASI e o Zé António que passava o tempo a falar de Roterdão onde se ganhava bom dinheiro e o trabalho era simples – pôr carimbos nas sacas de café. Na segunda fila o primeiro morto, o Rosa, Sei que fomos de comboio para Alhandra e depois a pé para o cemitério de São João dos Montes. Levei um fato de Verão e apanhei muito frio. Depois está o Manuel Moreira, o Eliziário, o Zé Afonso, o Modesto e o Abreu. Na terceira fila está o Félix, o Zé Bolota, o Vidaúl e o Picanço. Ao todo 27 alunos e um professor, são passados quase 50 anos e não me lembro do nome de todos os rostos. Há outras memórias: os pais do Zé António tinham um café, o Rosa morreu, o pai do Modesto tinha um conjunto musical, o Vidaúl vinha de Povos e disse uma vez na aula de Trabalhos Manuais «prefiro ser castigado a denunciar um colega». O Manuel Moreira sabia uma quadra: «Vila Franca, rosa branca / diz a canção popular / tens uma escola velhinha / onde eu ando a estudar». O José Afonso era de A-dos-Loucos. A mãe do Zé Bolota vendia na praça e era muito simpática. Um polícia novo multou o cigano em 80$50 mas foi por engano; era nosso vizinho. O meu pai guardava a camioneta ao lado das carroças da Câmara, o porteiro era o Tio Pecas, pai do Mário Coelho, grande artista da Festa Brava. O nosso jornal chamava-se Velas do Tejo. Ainda lá estará na parede? Quem se lembra?
Verde cor da esperança
Caça aos bruxos
Paulo Querido e Luis Rainha defendem que é preferível usar o nome de registo civil para assinar na Internet, ainda a propósito do episódio que remete para a perseguição a alguns pseudónimos (só alguns, claro, escolhidos a dedo). Os dois textos seguem caminhos completamente diferentes. Enquanto o Paulo enquadra a questão dentro do óbvio e relaciona-a com o próprio conhecimento que tem de mim, o Luis anuncia a sua propensão para assumir a chefia da Entidade Reguladora da Comunicação Digital e passa-me um responso pateta como se não me conhecesse.
E tudo vai dar ao conhecimento, né? Miguel Torga era conhecido, logo não era anónimo, apesar do pseudónimo. Por sua vez, um nome próprio pode não chegar para uma correcta identificação se existirem outros nomes iguais e nenhum outro dado biográfico estiver presente. Assim, a acusação de anonimato contra pseudónimos não é mais do que o protesto contra a ignorância. A própria.
Um pseudónimo pode não ser mais do que uma alcunha. Passa pela cabeça de alguém tratar os familiares, amigos, colegas e conhecidos que sejam nomeados por alcunha como anónimos? Nas minhas relações, pessoais ou profissionais, não se ignora que escrevo num blogue assinando Valupi. E mesmo que o quisesse, e não quero, seria impossível manter qualquer segredo a esse respeito dada a livre circulação da informação. Este assunto, no fundo, só deu que falar porque a pseudo-direita que o Pacheco e o Mascarenhas representam é um fiasco intelectual e uma miséria moral. Acossados pelo excelente Câmara Corporativa, pegaram nas tochas e saíram à rua para uma caça aos bruxos. A sua pulsão difamatória espalhou-se como uma doença que teve no Carlos Santos o cordeiro sacrificial.


