Vinte Linhas 509

Dissertação sobre uma fotografia de 1958

(a Francisco José Viegas)

Os enviados especiais a Munique vestiam fatos completos, escreviam em blocos pequenos, usavam canetas de tinta permanente, fumavam, alguns com o respectivo cachimbo. As notícias eram breves e os jornais feitos em granéis de chumbo e caixotins nas mesas de mármore das tipografias. São irreais, feitos da substância dos sonhos, os nossos camaradas de 1958 a caminho de Munique. Os seus nomes foram omitidos como se não tivessem, também, morrido, como se só houvesse jogadores no avião sinistrado, como se a morte dos jornalistas não fosse também um pano no casaco, um vazio na família e um lugar a menos no Pub da esquina. No The Ring nos anos 20 havia combates de boxe à hora do almoço. Esses combates clandestinos não vinham nos jornais. Os enviados especiais a Munique usavam colete. Nos seus bolsos guardavam as canetas e as cigarreiras prateadas. Os blocos só cabiam nos bolsos do casaco. Nesse tempo, a lentidão perseguia a comitiva do Manchester United. Veloz apenas a morte que ceifou os jogadores e a posteridade que esqueceu os jornalistas das fotografias de 1958. Tu não sabias, não tinhas sequer nascido nesse ano do desastre de Munique. À beira do Rio Douro chegavam no comboio da tua infância O Século e o Diário de Notícias ao fim da tarde nos maços defendidos por um cordel em cruz. Anos depois foste director de um jornal desportivo e aprendeste o ofício árduo de separar a cada momento o pó do esquecimento da luz da posteridade. Nem tudo o que se ouve se escreve, nem tudo o que se escreve se publica. Hoje estes homens distraídos da morte não páram de me chamar. Não morreram. Um ginger ale espera por mim no Pub da esquina. Chama-se The Ring.

Aviso à navegação

A política de comentários do Aspirina B segue esta regra de ouro: cada um que faça e diga o que lhe der na gana. Não há moderação outra que não seja a consciência de cada um. Parte-se do princípio de que estamos entre pessoas responsáveis, tanto pelo que escrevem como pelo que lêem.

Claro, o mesmo se aplica a mim. Isso leva a que possa censurar comentários, dado ter esse poder. É raro, mas acontece. Mensagens que apelem a crimes, violem a privacidade ou sejam atentados contra os direitos humanos, não estando inseridas num contexto que as justifique, serão apagadas. E comportamentos persecutórios ou psicóticos, depois de esgotados os apelos ao bom senso, também.

Este aceno vai ao encontro do que se tem passado com alguns comentadores que se comportam como rufias, hostilizando outros comentadores de forma infantilóide e bovina. Tais fenómenos são inevitáveis e cíclicos. Cada um que aprenda a viver com isso, mas tenha em conta que não passa de html. E o que é o html? Será o que tu quiseres. Para mim, é uma festa. Poder comunicar com amigos, a maior parte deles que só conheço através da escrita, é uma forma lúdica e cívica de celebrar o mistério de todos. Não vão ser uns foliões na desbunda que me vão incomodar, pelo que aconselho a mesma noção das prioridades a quem se tiver sentido agastado com alguma parvoeira por cá despejada – inclusive, por mim.

Vinte Linhas 508

Uma memória para a professora Gabriela

O seu nome é inesquecível – Gabriela Alluni Basilissi Serra. Quarenta e quatro anos depois continua a memória desse nome e do seu som assim pronunciado. Era a minha professora de História e sempre que podia dava um saltinho às suas paixões italianas de fora dos manuais – Miguel Ângelo e Dante. Nunca se cansava de falar do Renascimento e de Francesca, a primeira criação feminina na «Divina Comédia».

Um dia soubemos que a nossa professora fazia anos e resolvemos pôr a tocar um gira-discos (julgo que era da Marieta) com uma canção da Rita Pavone. Era o que a gente conhecia. Hoje podia ser «A força do Destino» de Giuseppe Verdi ou um extracto de «Aconteceu no Oeste» de Ennio Morricone.

Como professora era competente, exigente e intransigente mas uma vez «passou-se» com um rapaz de nome Vítor Manuel Cachado Lourenço, o «Chichas», que vinha da Azambuja. Já perto do fim do ano lectivo, perante as suas evidentes fragilidades de conhecimento, avançou com uma pergunta: «Vítor, diga-me você uma coisa que saiba para eu lhe poder perguntar!» E o Vítor respondeu a sorrir: «Aquilo das palafitas e da pré-história, setôra!». Foi o estrondo geral em riso na malta toda da turma. Rapazes e raparigas numa explosão de humor – o que ele queria eram perguntas sobre as primeiras páginas do manual, a Revolução Francesa era muito chato.

Descobri esta fotografia de Gabriela Alluni Basilissi Serra numa conferência da nossa professora de História na Biblioteca-Museu Municipal Dr. Vidal Baptista. Os temas eram os do costume – Miguel Ângelo e Dante – e todos ficavam encantados no fim.

Boato Comercial Português

Estava nos Açores, na sexta-feira, quando me fizeram a pergunta – Tens dinheiro no BCP? Aquilo vai rebentar neste fim-de-semana. Perante a minha incredulidade, a garantia – Quem mo disse é uma pessoa da maior confiança. E era.

Este pânico colectivo conseguiu o feito de ser uma síntese de dois dos maiores clássicos da boataria nacional: aliou a iminência da onda gigante que vinha devastar o Algarve com o escabroso do dano causado pelo Reinaldo, sendo cada cliente do BCP a Laura Diogo da história.

Existe uma predisposição para a irracionalidade que é explorada por charlatães há milénios. Tempos de insegurança, nacional e internacional, aumentam essa apetência desvairadamente. Se juntarmos o desejo de vingança e o deserto moral dos cavalheiros de indústria, não custa perceber o que tem acontecido ao BCP desde 2008.

Alternativa

As Jornadas Parlamentares do PSD reuniram seres tétricos, num ambiente soturno, sob o lema Alternativa. Como se pode ver pela imagem, a alternativa que procuram é a si próprios. São demasiados anos, demasiada inutilidade, demasiado ressabiamento, demasiada decadência.

Eduardo Pitta lança-lhes um desafio: desempatem.

Vinte Linhas 507

VISÃO – entre o panegírico e a falta de visão

Na edição de 1/7 de Julho a revista VISÂO apresenta um trabalho intitulado «Sebastião Alves – Sempre tive uma grande curiosidade pelo mundo» assinado por Miguel Judas. A sua leitura sugere que o autor não fez o trabalho de casa e se limitou a registar o que ouvia sem sequer anotar as incongruências e os absurdos. Comecemos pelo princípio: não há uma empresa AtralCipan. Os Laboratórios Atral são uma coisa; a CIPAN é outra. Os Laboratórios Atral nascem como A. Travassos Lda. e o senhor Alves deu continuidade a uma empresa já existente; não a criou a partir do nada como o texto sugere. Depois está mal explicado se ficou em primeiro lugar num curso de enfermagem como é que ia mudar, sem mais nem menos, para «fiscal de lanifícios» (sic). Seriam talvez as novas oportunidades daquela época. Falta uma pergunta sobre a guerra colonial, o período mais feliz no Grupo. Trata-se de facto de um Grupo, não de uma empresa: CIPAN, ATRAL, TECNODIDÁCTICA, MEDIQUÍMICA, GRAXAS, SOTIMA, etc. Mas o mais engraçado (sem ter graça nenhuma) é a referência aos processos em Tribunal de Trabalho. Está escrito no texto que as pessoas protestaram depois de receberem a indemnização. Ora isso é mentira; as pessoas, dezenas e dezenas de pessoas, foram para o Tribunal de Trabalho porque não receberem as indemnizações a que têm direito – um mês de ordenado por cada ano de trabalho. Não se pode chamar indemnização a um diferencial entre o valor do ordenado e o valor do fundo de desemprego. Uma nota final – Conselho de administração com «c» duas vezes será erro de ortografia ou é já em brasileiro?

Integridade e comunhão

O nosso amigo José Albergaria dá Miguel Veiga como exemplo de integridade. A este nome, com o qual concordo sem reservas, quero juntar o de Freitas do Amaral. E, a respeito dos dois, manifestar a mesma perplexidade: como é que eles foram capazes de apoiar desgraças ambulantes como Paulo Rangel e Cavaco Silva?

No caso do Miguel, esse apoio foi dado no contexto das eleições do PSD. Porém, e honra lhe seja feita, foi retirado assim que Rangel mostrou a sua raça ao ultrapassar Aguiar-Branco pela direita. Ficou claro que valia tudo até contra os colegas do partido. No caso de Freitas, o seu apoio à reeleição de Cavaco é triste. Implica a sua cumplicidade com a pior Presidência desde o 25 de Abril. Acima de tudo, e escandalosamente, significa que a inventona de Belém recebe a sua caução. Eis uma surpresa vexante.

Mas o problema é meu, pois não duvido da integridade destes dois homens. O meu erro consiste em presumir que temos os mesmo valores, e não temos. A integridade não obriga à unanimidade, embora seja condição sine qua non para a comunhão.

Desbloquear – IV

Sofia Loureiro dos Santos desenvolveu o tema da responsabilidade do PS, enquanto partido, pela actual situação política. O texto está cheio de considerações que suscitam boas, e rijas, discussões. Contudo, a Sofia parece queixar-se de figuras e intervenções que são absolutamente legítimas. José Lello, António Vitorino e Vitalino Canas, por exemplo, são opinadores e políticos profissionais. O que fazem é parte das responsabilidades partidárias: criam opinião pública. Isso não obriga a concordar com eles, escusado seria dizer, mas é bizarro considerar a sua actividade perniciosa em si mesma. O mesmo para a defesa de Sócrates por parte de alguns Ministros e deputados, a qual não é mais, nem menos, do que a defesa do Governo e do partido. Os ataques de carácter a Sócrates, que começaram em 2004 quando elementos do PSD, CDS e Judiciária puseram em marcha o processo Freeport, atingiram proporções bíblicas com a entrada em cena dos magistrados de Aveiro – seria suicídio do PS deixar Sócrates ainda mais isolado do que tem estado, por um lado, e fazer declarações a refutar declarações da oposição é prática quotidiana em qualquer democracia do Mundo, pelo outro.

Neste particular da defesa de protagonistas de casos mediáticos, e ao arrepio da opinião de muitos socialistas, reafirmo que esteve muito bem Francisco Assis ao ter segurado Ricardo Rodrigues. Esse episódio é cristalino: não existe nenhuma vantagem possível, seja de que ordem for, para justificar o arresto dos gravadores; pelo que só uma perturbação emocional grave pode explicar tamanho erro político. O Ricardo sai da história com a pena às costas, e o Francisco deu uma lição de ética.

Mas a passagem que me parece mais fértil é a que questiona as forças vivas do PS:

Onde estão os criativos, os pensadores, os ideólogos, os que têm ambição, os que podem apoiar Sócrates e o governo? Ou que podem substituí-lo dentro do PS? Onde estão as alternativas?

Ora, o que não tem faltado são alternativas dentro do PS. De Alegre, que viu a sua irresponsabilidade e arrogância premiadas pelo mesmo Sócrates que atacou à má-fila, passando por António Costa, Vitorino e Francisco Assis, qualquer deles com um capital de credibilidade e experiência que lhes garante inevitável sucesso eleitoral, a Seguro, que está em campanha e é o estratega de Alegre. E podemos juntar Pedroso, Ana Gomes e João Soares, entre outros mais parlamentares, só para compor o retrato de um partido que está pejado de recursos humanos em qualidade e quantidade, como não há outro. Um partido onde não se viu qualquer delito de opinião na era Sócrates, bem pelo contrário.

Em suma, quando se realçam falhas deste e daquele, inevitáveis em quem exerce e se expõe politicamente – mas que devem ser apontadas pelos interessados, obviamente – a sua contabilidade só adquire sentido se somarmos a actividade dos restantes, muitos mais, que cumprem com as suas responsabilidades e dão o seu melhor.

Balada da Praça da Fruta

(a Carlos Querido)

João Cristo, sua cocheira

Onde o meu avô sabia

Que a burra trabalhadeira

Era a dez tostões por dia

Ficava ela a descansar

Nas cocheiras da cidade

Desconfiada do lugar

E moscas em quantidade

Minha tia Francelina

Nascida no Zambujal

Vinha vender obra fina

Os bichos do seu quintal

Numa carroça pequena

É que o seu mundo cabia

Sempre calma e serena

Dava-me um beijo e sorria

Exame era uma guerra

Bebemos uma gasosa

O grupo da minha terra

Não levou uma raposa

Nos armazéns do Chiado

Pronto-a-vestir é um fato

Nunca tinha reparado

Neste novo artesanato

Meu exame da terceira

Foi feito sem companhia

Em Abril, segunda-feira

Já não me lembro o dia

Chamado para a inspecção

Sou dado como capaz

Dentro duma contradição

Não sou guerra mas paz

Minha prima Deolinda

Professora de crianças

Na doçura que não finda

Dava-me muitas esperanças

Suas torradas matinais

A caminho do regimento

Davam-me forças especiais

Para marcha e movimento

Fosse das suas orações

Ou fosse da entrevista

Eu passei sem ralações

E fiquei em contabilista

Com três filhos crescidos

E acrescentado um neto

Compro beijinhos pedidos

E cavacas no Gato Preto

Praça da Fruta eterna

Onde o mundo nunca pára

És tão antiga e moderna

Porque és uma praça rara

Povoada por mil paixões

Todos nós mesmo distantes

Trouxemos nos corações

A força dos teus instantes

E mesmo na chuva londrina

Tomas, meu neto à escuta

Recorda Santa Catarina

E lembra a Praça da Fruta

Ninguém pára a Ibéria!

Como se viu pelo jogo da final, Portugal poderia tranquilamente ter vencido a Espanha nos oitavos. Bastaria ter marcado mais um golo do que os espanhóis. Chegava um.

Entretanto, os nuestros hermanos vão entrar numa euforia económica que nos vai levar de arrasto para o pleno emprego e o superavit. Não? É perguntar ao polvo.

Vinte Linhas 506

Ser «leão» e voltar as costas a Costinha

Este ano o Sporting Clube de Portugal não participou na final do campeonato nacional de bilhar na Figueira da Foz por falta de fundos. Ao mesmo tempo pagava oitocentos mil euros de indemnizações a dois «fabianos» que deveriam ser eles a indemnizar o Clube tantas as tropelias que protagonizaram. O Sporting é, depois do Barcelona, o clube europeu com mais títulos europeus – basta somar os de atletismo com os do hóquei e os do futebol. Basta recordar Manuel de Oliveira, Joaquim Agostinho, Fernando Mamede, Carlos Lopes. Mais de cem atletas olímpicos em cem anos de olimpíadas. Irrita-me que os jogadores formados na Academia de Barroca de Alva sejam dispensados para outros clubes enquanto se gastam fortunas de dinheiro que não há em jogadores estrangeiros que todos os dias enchem as primeiras páginas dos jornais. Para jogar para o 4º lugar não é preciso gastar tanto dinheiro nem tentar imitar o Benfica com as manchetes diárias dos três matutinos desportivos nacionais. Foram buscar o treinador do 5º lugar substituindo o que chegou ao 4º lugar. Não é para perceber.

Não vale a pena quererem imitar o Benfica, nunca o vão conseguir na perfeição. O Benfica é o esplendor da mentira: mente sobre a data da fundação, mente sobre o número de campeonatos ganhos, faz de conta que as Ligas foram campeonatos e que nos anos de 1934 a 1938 não houve campeonato de Portugal, venceu o campeonato de 2004 com um jogo comprado ao Estoril e disputado no Algarve. Festejou o centenário no ano em que de facto celebrou 96 anos. Não compro bilhete de época, ponham no meu lugar uma fotocópia do fato «armani» do Costinha. Sector A19 Fila 31 Lugar 11.

V9

É interessante esse ponto de vista, porque o optimismo está profundamente ligado à credibilidade, e esta ao reconhecimento da verdadeira dimensão dos problemas, mas também à correcta divulgação do que foi, ou será, feito. Não é nunca, para um político, um exercício fácil, sobretudo num país ainda muito marcado pelo derrotismo e tremenda falta de amor próprio. Eu por exemplo acho que quem acusa Sócrates de “apenas fazer propaganda” está profundamente enganado. Aliás, acho que o PS tem tido uma actuação deplorável nesse aspecto, não aproveitando minimamente tudo o que já realizaram, sobretudo no anterior governo, e deixando-se constantemente encostar à defesa. Tiveram o melhor ministro da economia que há memória. Tiveram a melhor ministra da educação também. Fizeram investimentos importantíssimos em investigação, em novas tecnologias, em novas indústrias de altíssimo valor acrescentado, levando a que algumas empresas nacionais (a EDP, por exemplo) sejam hoje players mundiais. Fizeram algumas das mais importantes reformas no sector público, introduzindo um nível de acesso que é elogiado nos quatro cantos do mundo. (Falharam tremendamente na justiça, mas isso fica para outra conversa…). Com o mesmo nível de actuação, o PSD já teria inscrito a fogo na história que tinham sido o melhor governo desde D. Afonso Henriques, e todos concordariam. Basta ver a aura que ainda hoje gozam os governos de Cavaco Silva.
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Para acabar de vez com o jornalismo

O Sol publica conversas privadas em segredo de Justiça e faz negócio com essa pulhice. Mas não divulga conversas entre os seus jornalistas e as vítimas da pulhice do próprio jornal.

Este pasquim merecia que nunca mais ninguém respondesse directamente aos seus jornalistas. Eles enviariam as perguntas aos Carlos Queiroz que estivessem na linha de tiro e estes publicariam as respostas no seu website, blogue, Facebook, Twitter ou num lençol nas traseiras da casa onde morem. Os jornalistas do Sol dariam o seu melhor para copiar o que lessem e lá fariam os títulos e destaques à sua maneira. Uma maneira onde vale tudo menos respeitar o jornalismo.