Quando se fala dos dirigentes, principais militantes e publicistas do PSD e do CDS, estamos a falar de pessoas socialmente privilegiadas. Muitas não terão fortuna, mas todas têm níveis de educação, segurança e conforto muito acima do portuguesinho. Mas mesmo muito. Elas estão nos maiores grupos económicos, nos melhores escritórios de advogados, nas melhores universidades, nos mais poderosos grupos de comunicação. Elas podem pagar as casas mais espaçosas, os carros mais bonitos, os médicos mais competentes, as férias mais deslumbrantes, os jantares mais sofisticados, os trapos mais hipnóticos. São omnipresentes e omnívoras. Nada lhes falta, nem sequer a asinina autoconfiança de quem se julga superior ao povoléu. Se não contribuem para a resolução dos nossos problemas com soluções brilhantes é só porque não querem – ou não podem. Portanto, não lhes podemos perdoar a estupidez do seu pensamento e acção. A caudalosa estupidez com que este arremedo de direita invade a política e a submerge num decadente conflito territorial.
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Arquivo mensal: Julho 2010
Leny Andrade
Já conhecias esta voz? Que achas?
Vinte Linhas 511

Cristiano Ronaldo e José Travassos – dois violinos num banco de Alvalade
No dia 17 de Março de 1998 sugeri ao Vinícius Carriço esta fotografia dos meninos à volta de José Travassos. Do lado direito temos o Cristiano Ronaldo, do lado esquerdo o José Américo e do outro menino não recordo o nome. Doze anos depois o principal parece-me ser a atracção exercida pelo Zé da Europa sobre os miúdos. Alguém, talvez Aurélio Pereira, Osvaldo Silva, Isabel Trigo de Mira, Paulo Cardoso ou Leonel Pontes, lhes deve ter contado que aquele senhor foi o primeiro jogador português a participar numa selecção da UEFA, corria o ano de 1955. O encontro foi disputado em Belfast tendo a selecção da Europa alinhado contra a equipa da Grã-Bretanha. Travassos nasceu em 1926, veio da CUF para o Sporting em 1946 e alinhou em 35 jogos da selecção nacional portuguesa. Anos depois desta foto, o Cristiano Ronaldo seguiu os passos do seu colega de banco que gentilmente o senhor coronel Cunha Bispo colocava ao dispor do grupinho onde eu muitas vezes também tomei lugar. Ao sair para o Manchester United em 2003, o jovem madeirense seguiu de facto os caminhos do senhor José António Barreto Travassos – ingressou numa esquipa que também é uma selecção da UEFA pois inclui alguns dos melhores jogadores de futebol da Europa. Se, como dizia o poeta Vinícius de Moraes, «a vida é a arte do encontro», então Cristiano Ronaldo pode lembrar esta imagem do seu encontro com José Travassos como um prenúncio feliz de uma carreira na Europa. Bem diferente do primeiro Zé da Europa pois em 1955 não se colocava a hipótese de jogar no estrangeiro dado que o nosso José Travassos estava mais preocupado com a sua empresa de frigoríficos ali no Bairro de Alvalade.
Cidade Proibida – Eduardo Pitta
Hoje é grátis.
Coisas que vão acontecendo
Queiroz, anda cá
Quem te ouve às caralhadas no banco, quem te viu mandar o casaco para o chão à doida num jogo qualquer, quem te lê os disparates a respeito dos jogadores, fica à nora sem saber o que pensar a teu respeito. Tu não eras o gajo que passava os jogos a tirar notas e depois ia para casa estudar esses rabiscos e fazer umas contas muita complicadas que só a tua carola percebia? Tu não eras o Professor, armado com metodologias científicas que mais ninguém tinha e que nos transformaram do nada numa potência mundial no futebol juvenil? Foda-se, Queiroz, que é que se passou contigo? Onde foi que perdeste a tramontana?
Volta lá para o caderninho, comporta-te como um senhor, e vais ver que tudo corre melhor. Tens de voltar às origens, se queres chegar longe.
Notícias da 25ª hora
O Zé

O Zé-Povinho na minha pequena memória catarinense
A casa onde nasci (13-2-1951 – Santa Catarina) já não existe pois está reduzida a um monte de entulho entre telhas podres, barrotes com bicho, tábuas velhas e caliça tão antiga que já ninguém se lembra das casas feitas com cal, pedras da Serra e areia.
Mas, num canto do armário da casa de fora, se ninguém o retirou a tempo para o colocar a bom recato, ainda deve estar um Zé-Povinho que o meu avô José Almeida Penas trouxe das Caldas da Rainha há muitos anos de um, mais um, 15 de Agosto.
Na minha terra, pelos idos anos 50, sempre me lembro de ver nas inúmeras tabernas os bonecos de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) a ilustrarem uma frase e um gesto: «Queres fiado? Toma!»
Como sou o mais velho da minha geração, também me lembro de as pessoas amigas dizerem às crianças da minha família, quando estavam ao colo de alguém: «Faz-lhe um toma, palerma!». E a reacção era sempre oposta: se uns diziam «Coitadinho do cachopo, não lhe ensinem isso!» já outros diziam «Já está em boa altura de aprender!»
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25 anos de atraso
João Galamba fez um breve resumo da ruína do BCP às mãos de Jardim Gonçalves e companhia. O BCP foi sempre muito mais do que um banco, era a prova suprema de que Deus, ao arrepio das Escrituras, preferia o convívio dos ricos ao dos pobres. Num Portugal sociologicamente de esquerda, mas culturalmente conservador, Jardim Gonçalves foi uma peça fundamental na mitologia cavaquista, essa patranha oligárquica que reclama para a direita – em especial, para o PSD, como predestinação – o exclusivo das capacidades governativas. Afinal, o sucesso de uns e de outros foi alcançado com benesses, favores, falcatruas, tramóias. Cavaco, esse auto-propalado génio das finanças, fez milagres só com o dinheiro da Europa, encheu o País de alcatrão e cimento, secou o partido para o abandonar e boicotar, e continuou a enriquecer à conta dessa sociedade lusa dos negócios que foi o Cavaquistão. Ao chegar à Presidência, a sua completa inépcia política ficou à vista de quem quis ver, incluindo muitos que lhe tinham cantado hossanas fervorosamente.
Jardim Gonçalves já se foi, o cavaquismo ainda resiste. Nem com a Inventona de Belém desapareceu. Entender esse fenómeno, entender as cumplicidades e ódios no seu estertor, é entender 25 anos da História de Portugal. 25 anos de atraso.
Fotojornalismo (sobre foto de Pedro Cruz)
Vi-te sempre entre o campo e as pistas
Mas sem poderes dar largas à emoção
Tens que ser rigoroso no que registas
No rolo onde fica a marca da tua mão
Não tens tempo ou espaço para preparar
Os melhores ângulos para a fotografia
Na breve demora entre a mão e o olhar
Não há tempo para fotografar a alegria
Ou a tristeza que se derrama da derrota
Do clube que tu trazes dentro do peito
No intervalo tu fotografas uma gaivota
Embora saibas que não é esse o preceito
Nem reparaste que eras tu o fotografado
Continuaste com o teu olhar profissional
Estás para além do teu colete numerado
E do espaço dos teus trabalhos no jornal
Viajar no tempo
Vinte Linhas 510
Cristiano Ronaldo – deveres de quem sabe e de quem não sabe
Depois de ter sido colaborador (Agosto 1988 – Dezembro 1996) passei a ser redactor do Jornal «Sporting» de Janeiro de 1997 a Novembro de 2006. Nessa circunstância muitas vezes entrevistei Cristiano Ronaldo. Porque conheço um pouco da sua história, revolta-me ainda mais o conteúdo de muitas afirmações que alguns comentadores despejam na imprensa, na rádio e na TV sobre o jovem madeirense. Mesmo depois de se ter transferido para o Manchester United falei com ele várias vezes em Alvalade, em Odivelas e em Barroca de Alva. Revoltam-me os comentários de quem afirma ser uma violência criar uma criança sem mãe quando o próprio jogador viveu a situação de ter um pai ausente nos tempos em que com ele convivi. Não por acaso a sua transferência do Nacional para o Sporting foi tratada pelo seu padrinho, o senhor Fernão, e pelo magistrado Dr. Marques de Freitas. Não por acaso nos primeiros tempos nos infantis do Sporting ele teve grandes amigos como Aurélio Pereira, Isabel Trigo de Mira, Osvaldo Silva, Paulo Cardoso e Leonel Pontes. Os dois últimos eram responsáveis pelo Lar do Jogador no Estádio José Alvalade. Leonel Pontes muitas vezes se levantou à meia-noite para o ir buscar ao Aeroporto da Portela, tratando-o com especial amizade pois também é Madeirense e conhece bem as circunstâncias da vida do jovem jogador. Para mim a trajectória do Cristiano é um milagre e eu admiro-o por ter atingido este ponto apesar de todas as contrariedades. Estive a seu lado em 1999 quando uma taquicardia lhe poderia ter destruído os sonhos num jogo com o Casa-Pia. Por isso considero que ele merece respeito tanto de quem o conhece como (ainda mais) de quem nada sabe da sua vida.
A quem possa interessar
Estudo de opinião
Sócrates, o enigma
Bruno Sena Martins assina um texto fatigado que é salvo pela generosidade do seguinte comentário:
Só faltam dois ou tres pormenores. Passos Coelho, um jovem, enérgico, novo, cheio de vontade e valor nada agastado, sem responsabilidades, sem o temor da decisão, Passos Coelho é tudo isto, mas o que se lhe reconhece até agora? uma boa ideia mobilizadora que tenha mérito não por apontar erros mas por apontar caminhos? claro que já as deverá ter tido e talvez dito. Mas não as conheço, e a maioria das pessoas não as conhece também. E isso é pouco demasiado pouco para quem ainda tem tanto. Imagino agora um outro exercicio. Pedro Passos Coelho depois de 6 anos (são 6?já nem sei) de governação, depois de corrigir um défice elevado, de aguentar a maior crise desde 1930 – e sim é aguentar!porque aguentar é o que está a fazer a Espanha, a Alemanha, a GB, os EUA, a Bélgica, a Irlanda e por deus senhores, por deus sejamos realistas, e quem está fora percebe-o tão bem, o que é Portugal? pequenino, muito pequenino!pela história que o fez no ultimo século, e se os outros aguentam, Portugal pouco mais pode fazer do que aguentar também e surpreendentemente está a faze-lo muito bem, leiam os jornais estrangeiros – depois de promover uma renovação do parque escolar como nunca vi ser feita, uma reforma da rede de distribuição dos cuidados de saúde, uma aposta fortissima (leiam o guardiam) nas energias renováveis (espanha acaba de inaugurar uma central de energia solar de grandes dimensões, portugal já inaugurou duas, menores mas substanciais, à mais de um ano), reformou ainda procedimentos para criação de empresas e tentou estabelecer algumas mudanças na administração publica, por exemplo. Tudo isto com erros, com defeitos, mas também, com alguns méritos, com novidade e em muitos casos bem pensados e estruturados. Podemos discordar das ideias, é certo, do motivação que estas demonstram, mas em muitos casos foram bem pensadas e isso merece reconhecimento da nossa parte. Tudo isto num país onde os niveis de educação são baixissimos, onde os niveis culturais são infimos – sim educação é diferente de cultura, e é aberrante conversar com a maioria dos jovens espanhois, britanicos, dinamarqueses e perceber quão frágil é o nosso conhecimento, em geral, e não vão mudar com nenhum primeiro ministro, não vão mudar em 20 anos, onde o contributo da sociedade civil é misero, onde os orgãos de informação não questionam devidamente, porque não pensam, e para perguntar é preciso saber, onde o debate político prima por uma falta de conhecimento avassaladora. Ninguém é alguém sem bons pares. Sócrates tem-nos a nós. Sarkozy tem a França. Cameron tem GB, e acreditem, estes primeiros-ministros estão melhor servidos, por muito que isto me custe admitir. E o que fazem? muito, muito pouco, é sempre pouco, mas é semelhante ao que faz Sócrates com ainda menos. Em tudo isto eu olho para Pedro Passos Coelho, que neste momento deveria ser melhor do que Sócrates, sem sombra para dúvidas, devia esmagar Sócrates com novas ideias e propostas. E em vez disso vejo um… talvez, e uma passeira vermelha que se estende, ou que já está estendida, não porque a tenha conquistado mas porque assim lhe caiu em sorte, pouco, é pouco para tão fortes palavras e convicções Caro Bruno Sena Martins.
Ricardo Fernandes
Catch 22 à moda da Lapa
O PSD de Passos é uma entidade também fragilizada, tal como as anteriores desde a fuga de Barroso, a qual – mesmo que ganhe alguma eleição – estará sempre à beira do precipício. Começa pelo seu Presidente, que não tem visão nem carisma, passa pela equipa onde se apoia, um conjunto de vulgaridades, e acaba no baronato ressentido e venenoso, que espera a primeira ocasião para espetar a faca. Para mudar este partido, teria de se mudar a sua epistemologia, ainda antes de se mudar a sua praxis – e tal não vai acontecer, como se viu espectacularmente ao castigarem Mota Amaral por ter respeitado a Constituição e defendido a liberdade!
Miguel Relvas representa na perfeição o homem-PSD: picareta falante e fala-barato. Há dias, na porqueira, conseguiu num minuto transmitir duas ideias antagónicas. Começou por dizer que o Governo continua arrogante, a comportar-se como se tivesse a maioria e não precisasse de negociar. Segundos depois, estava a usar o exemplo de Gabriela Canavilhas, que foi ao encontro dos pedidos do sector, para acusar o Governo de desorientação. Eis a lógica: se o Governo tem algum plano que tente concretizar, é arrogante; se o Governo acolhe os anseios de terceiros, está perdido.
É com este atestado de desonestidade intelectual que pretendem convencer o centro? Mais bem empregue o vosso (e o nosso) tempo se se dedicarem à literatura.
Balada da Serra dos Candeeiros

Grande parte da minha vida
Feita de paz e sem guerra
Foi numa casa construída
Com pedras daquela serra (Mote)
Na Serra dos Candeeiros
Parava o vento do mar
Eram lentos os carreiros
Com os olhos a cantar
Traziam pedras gigantes
Para a mão dos britadores
Fazer em poucos instantes
As pedras dos construtores
Os pedreiros sujos de cal
A pegar no fio de prumo
Que traça numa vertical
Lugar do fogo e do fumo
Sem desenhos ou papéis
Nascia a planta dum lar
Quatro canas dois cordéis
São os limites dum lugar
Na Serra dos Candeeiros
O azeite era o mais puro
Os ventos tão verdadeiros
A cantar por sobre o muro
Vinha a água das cisternas
Sempre boa e sempre fria
Sem as técnicas modernas
A limpeza era uma enguia
Vinha o leite já fervido
Vinha o queijo saboroso
O dia era mais comprido
Tudo era mais vagaroso
A pedra que me defende
Do Verão e do Inverno
Não se paga nem se vende
É um valor forte e eterno
A actualidade tem dois anos de atraso
Esta notícia da LUSA é um microcosmo da política à portuguesa. Repare-se: o INE lançou informações relativas ao ano de 2008. 2008. Não oferece dúvida, não se confunde com 2007 ou 2009. Ainda menos com 2010. Pois a LUSA recolhe declarações de mui importantes figuras que batem todas na mesma tecla: as informações estão desactualizadas. A evidência rivaliza com a redescoberta do fogo, da roda e do copo de água.
Sim, isto de vermos a pobreza a diminuir é uma péssima notícia. Ainda por cima, logo em 2008, o ano da alta do petróleo e da explosão da crise internacional. Provavelmente, os números estão falseados. Quando surgirem os dados de 2010, em 2012, já baterá tudo certo outra vez. Mesmo com dois anos de atraso.
Portas, larga o vinho
Portas, um inveterado pantomineiro, quer que o PS derrube Sócrates, coloque no seu lugar um bacano que ele aprove e que o Governo seja repartido com o PSD e o CDS.
A ironia é esta: ninguém das suas relações lhe vai dizer que fez um rasgadíssimo elogio a Sócrates. De facto, não querer o Engenheiro por perto do seu gabinete ministerial faz todo o sentido. Todinho.
Aniperismos
Como a história e o tempo nos atiram assim com situações tão contrastantes! Sentava-se MOTA AMARAL (escrevo em maiúsculas para condizer com a grandeza da sua estatura de homem e de político) na chamada Assembleia Nacional do Estado Novo, embora já na digna posição de contestatário e andava o pacheco pereira (em minúsculas pela mesma razão atrás invocada) de pistola à cintura naquilo a que chamava e que era, a sua luta anti-fascista. Quarenta e cinco ou cinquenta anos depois…é isto! O primeiro transforma-se num gigante de dignidade, o segundo, não pode descer mais baixo na escala de ignomínia!
Uma coisa me espanta. O que raio passou pela cabeça do PSD quando deu o seu Amen à escolha de Mota Amaral para presidir à tal comissão! Mediu-o pela sua própria bitola?! Só pode ser!
Não me tinha ocorrido, ó José Albergaria, que o Mota Amaral é da Opus Dei. Embora se trate de instituição com a qual estou longe de ir à bola, isso não retira um cisco à consideração que acrescentei à figura proba de MOTA AMARAL que, aliás, com esta digna atitude, não faz muito jus ao tal São?! José Maria Escribá!
Agora que a direita manhosa e rasteira da Câmara do Porto foi capaz da desvergonha de recusar dar o nome de Saramago a uma das suas ruas, seria interessante que os deputados municipais do PS na Câmara de Lisboa propusessem para uma das ruas da cidade o nome de MOTA AMARAL. Que curioso seria ver a reacção de toda a restante câmara: do PCP ao CDS passando naturalmente pelo BE e o PSD. Seria uma maneira de pôr a nu o tipo de compromisso que esta gentinha tem com a dignidade e a honradez.
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