Mundial 82

(á memória de Edilberto Coutinho)

Certo.

Houve neste Mundial grandes jogos.

O Itália – Brasil com três golos nos primeiros vinte e cinco minutos.

O Alemanha – França com 8-7 nos pontapés da marca de grande – penalidade

depois de dois empates sucessivos.

O Itália – Polónia em Barcelona.

O Brasil – Argentina.

O Polónia – França jogado em Alicante no desconsolo do terceiro lugar.

O Itália – Alemanha no Santiago Barnabéu com Breitner insuficiente para Altobelli, Rossi e Tardelli.

Certo. Houve neste Mundial grandes jogadores.

Vimos Schachner a iluminar a Áustria

Vimos Maradona, Trevos Francis, Boniek e Platini, Rummenigge e Zico,

o escocês Jordan, Sócrates e Falcão, Tigana e Éder, Paolo Rossi enfim –

o homem dos golos decisivos, dos golos inesperados, dos golos impossíveis.

Certo.

Mas a imagem mais forte deste Mundial é a de um animado jogo de cartas no avião de regresso a Roma.

Cauzio e Zoff jogam com Bearzot e com o presidente Sandro Pertini.

Jogam no usufruto dum tempo suspenso,

intervalo entre o esplendor na relva e as condecorações no Quirinal.

Jogam a partida contra o tempo dos relógios.

Eles sabem: quando o trunfo é morte nada mais podemos fazer que assistir.

Joyce

Não ter berço afecta o destino do cidadão em vexantes modalidades e com vexantes consequências. Nas BASF LH de 60 minutos que os meus pais me serviram nepotista e imperialmente nos trajectos automóveis que fui obrigado a fazer no banco de trás de modestos automóveis, década de 70 e princípios de 80, não constava qualquer vestígio da cantora Joyce. Foram milhares de quilómetros desperdiçados, anos de ignorância que muito prejudicaram, até atrasaram, a minha vivência da puberdade. Que falta me fez essa mulher.

Palavras em jogo 03

Charneca, Lezíria e Bairro

Vivi em Vila Franca de Xira de 1961 a 1966 e fui colega de turma do Álvaro Pato mas só há muito pouco tempo soube da existência do livro de contos do seu tio Carlos Pato que a PIDE matou com 29 anos de idade em 26 de Junho de 1950.

O livro «Alguns contos» foi editado por Alves Redol em 1951 e contém apenas três contos. O primeiro («Ao receber a jorna») tem como heroína Maria Alexandrina, trabalhadora rural que leva duas filhas para o campo porque não há creches nem infantários. Depois da semana de trabalho chega o dia de receber a jorna: «Uma cantou para que o tempo passasse; as outras ouviram caladas».

O segundo conto («Valados») mostra que o campo não é só paisagem («Tejo bom quando dá pão, mau quando o leva e não o dá») mas também lugar de luta. A falta de assistência médica é o drama em gente desta história.

O terceiro conto («Graxas») fala de um grupo de miúdos que brinca no Tejo. Nesse grupo de engraxadores nem todos sonham com o campo. Divididos entre trabalho e desporto, entre a Estação da CP e a aberta do Tejo onde nadam, eles são um elo na corrida de estafetas por um mundo melhor. Também perguntam entre si «Quando virá o dia que a gente muda de vida?» para logo um deles responder: «Não vem longe, Chico!».

Carlos Pato poderia ter sido um grande escritor. Há na tessitura dos seus contos a ampla respiração de um talento criador e um domínio perfeito da nossa língua. Mas a PIDE não deixou. Tal como não o deixou conhecer os filhos: a Clara tinha 8 meses quando o pai foi preso, o João Carlos nasceu em 2-12-1949 ou seja 5 meses depois da prisão do pai.

Solar

“Mais pessoas livres, menos abrantes” – Eu se fosse de abrantes inventava umas réplicas, mesmo desajeitadas. Assim de “repentemente”:

Mais pessoas livres, menos Viseu – diz quem não gosta de encontrar o seu amor, ai Jesus!
Mais pessoas livres, menos Viana do Castelo – diz quem não é defensor de Moura
Mais pessoas livres, menos Bragança – diz uma mãe preocupada
Mais pessoas livres, menos Aljubarrota – diz quem não gosta de carecas
Mais pessoas livres, menos Alcoentre – diz quem não gosta de supositórios
Mais pessoas livres, menos Rio Maior – diz quem não gosta de mocas
Mais pessoas livres, menos Barcelos – diz quem não gosta de ter galo

Sei lá…

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Oferta da nossa amiga mdsol

Vinte Linhas 514

CML – O vandalismo oficial ou os assassinos dos girassóis

Depois de ter destruído o Jardim de S. Pedro de Alcântara (é hoje um miradouro) e de ter assassinado maia de 60 árvores no Príncipe Real (deixando nuvens de pó a sujarem gargantas, roupas, comidas, bebidas, jornais e automóveis) a CML, actuando como uma quadrilha selvagem, veio de madrugada destruir os girassóis da Rua Augusto Rosa frente à Livraria Fábula Urbis e junto à loja de artesanato «A arte da terra». Foi no passado sábado dia 17-7-2010 que uma equipa camarária veio, furtivamente, destruir a beleza dos girassóis deixando apenas as couves e a alfazema. Houve uma senhora que os viu e os identificou pela farda e pela viatura da CML. Caso contrário pensaria tratar-se de vandalismo fortuito. Mas não é. Tudo isto é concertado e sistemático. Haver arquitectos paisagistas que odeiam árvores, arbustos e flores é o mesmo que haver editores que querem queimar livros. Fico a pensar que a Livraria Municipal pode começar (se não começou já) a destruir os livros editados pela CML sobre Lisboa – como, por exemplo, o meu «Transporte Sentimental».

Vivo em Lisboa desde Setembro de 1966, pago os meus impostos, derramas e contribuições autárquicas, arrisquei a pele no «25 de Abril» por um Mundo melhor, tenho um louvor na caderneta militar por isso mas vivo numa cidade cada vez mais suja, feia e desertificada. Gostava que quando começarem a queimar os livros me avisem por causa do meu neto. Ele é pequenino, faz hoje 4 anos mas há-de gostar de saber que o avô escreveu o «Transporte Sentimental», um livro que a CML editou sobre Lisboa – nele ela era uma cidade mais limpa e mais bonita porque povoada de beleza e de paz.

Parabéns, Miguel Abrantes

Mais pessoas livres, menos abrantes.

JoaoMiranda

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O João Miranda diz que o opting out nos vai livrar, simultaneamente, do socialismo, da política, dos impostos e da verticalidade. Basta alterar umas linhas à Constituição e o sistema público desfar-se-á acto contínuo. Reinará a horizontalidade, o fluxo de ideias e a liberdade. São boas notícias. Temos razões para esperar dias melhores, assim os portugueses sigam estes sábios conselhos.

Entretanto, o texto apresenta uma rocambolesca fórmula difamatória, supra, a qual até mereceu do autor o cuidado de a destacar a negrito, não fosse escapar à tropa-fandanga. E esta é a ocasião de perguntar: não há algo de assustador nisto de vermos os principais blogues da direita rendidos à importância de um único blogger de esquerda? Não é que ache injustificada a fama do Câmara Corporativa, excelente produtor e agregador de conteúdos políticos, acho é confrangedora a pobreza intelectual daqueles que o perseguem de tochas na mão. O preço do sucesso, enfim.

Vinte Linhas 513

Carta aberta a João Adelino Faria – que talvez não a leia…

Acabo de ouvir no telejornal da RTP 1 das 20 horas de hoje 21-7-2010 o «pivot» João Adelino Faria a confundir «maturity» com «maturidade» que são duas coisas completamente diferentes. Tratava-se de empréstimos bancários de um país e obviamente, neste contexto, «maturity date» quer dizer «vencimento» e nada mais. Naquele que é para mim (opinião discutível) o melhor dicionário de inglês do Mundo – o Webster´s Seventh New Collegiate Dictionary – da empresa G & C Merriam Company Publishers de Springfields, Massachusetts, USA – lá está bem explicado na página 522 palavra «mature». No nº 4 dos sinónimos surge: «mature» – «due for payment» e, entre parêntesis, a palavra-chave para perceber tudo – «loan».

De facto tratando-se de um empréstimo («loan») a palavra «maturity» significa vencimento ou, por outras palavras, dia de pagamento.

Lidei entre Setembro de 1966 e Novembro de 1996 no Departamento de Estrangeiro do BPA com outros e com estes assuntos mas, mais do que uma questão técnica, trata-se de uma matéria de cultura geral.

Nós, os jornalistas, temos especiais obrigações neste campo. O campo das palavras. Reparei por exemplo que o João Adelino Faria confundiu o Largo do Rato com o Largo do Caldas ou seja, trocou o PS pelo CDS e nem sequer brincou com o facto de haver no Largo do Caldas um rato da política ou, para muitos, um ratão. Mas isso é outra conversa. Não foi ironia, foi apenas uma confusão. Obviamente percebe-se que o erro não pode ser atribuído ao «pivot» mas foi o «pivot» que deu a cara…

Tricô

A haver revisão da Constituição neste momento, a meu ver inoportuna dada a crise financeira, ela devia centrar-se quase exclusivamente no seguinte ponto: como assegurar um governo estável, quando o partido mais votado não tem a maioria. A proposta de “ora saltem lá daí, que agora quero ir eu mais aquele”, a que se chama agora moção construtiva, é absurda porque desrespeita os votos dos eleitores. Está à vista que quem a defende tem medo de ir a eleições. Caso contrário, apresentaria uma moção de censura clássica.

A solução não precisa de ser inventada, já existe em muitos países europeus: nenhum governo pode tomar posse sem estar assegurada uma maioria no Parlamento. Os partidos sabê-lo-iam de antemão e os eleitores também, evitando-se assim a história de que se trai o eleitorado ao formar uma coligação com um «inimigo». Implica negociar. Seria obrigatório negociar. É verdade que demora um certo tempo (mas os ingleses, por exemplo, não demoraram quase nenhum) e que assim os partidos se podem fracturar, para mais pessoas poderem aceder ao poder, mas não é bem isso que acontece na Alemanha, por exemplo.

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Oferta da nossa amiga Penélope

Filigrana

Na filigrana do momento inicial
Do rosto juvenil fixei as linhas
Tinhas acabado o tempo liceal
Sem horas vazias nem sozinhas

Trinta e sete anos depois da visão
Entre casa e jardim numa colina
O teu rosto organiza uma paixão
Continuas hoje a ser essa menina

No momento de chegar a Lisboa
Voltando as suas costas ao passado
Para construir o perfil duma pessoa
E deixar saudades em todo o lado

Seja em lojas, bancos ou hospitais
Caminhos dum percurso cada dia
A tua voz sem limites nem sinais
Desenha em filigrana uma alegria

Teste de lógica

“E é isso que nós gostaríamos de evitar, que ficássemos presos a fórmulas do passado”, rematou Passos Coelho, referindo que “razão atendível” é uma expressão “do calão jurídico nesta área que, de resto, já foi utilizada até por governos orientados por várias personalidades de extrema esquerda”, logo, “não deve ser, com certeza, uma visão tão perigosa como isso para a nossa democracia”.

Fonte

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Quantas contradições se consegue detectar nestas declarações?

Tania Maria

Ao contrário do que nos tentam impingir, os portugueses não estão preocupados com o desemprego nem aborrecidos com a permanência do Veloso no Sporting. Isso são males que apenas se devem à conjuntura internacional; e o que não tem remédio, remediado está. A grande questão a ocupar o córtex nacional diz antes respeito a esta subida pergunta: quem é a melhor cantora brasileira? É disto que se fala à boca cheia nas esplanadas e praias, e à boca pequena nas sedes partidárias.

Para complicar, todos conhecem a resposta: Elis. Então, a tentativa de encontrar a solução para um problema já resolvido põe à prova o talento e resistência do mais motivado dos melómanos. O qual se dedicará à secreta e antiquíssima arte da errância se quiser estar à altura do páreo reginiano. Como se transmite nesta arcana sabedoria: quem erra, mesmo que não procure, sempre encontra.

Efeméride

Celebra-se hoje, por todo o País, a 1ª semana desde que Mota Amaral desafiou os deputados-espiões, os jurisconsultos-Torquemada, os magistrados-gestálticos e os jornalistas-snipers a consumarem as suas intenções de judicializarem por completo a política, já que se mostraram perfeitamente capazes de politizarem a Justiça.

O silêncio que se abateu sobre tão gradas figuras convoca um adjectivo de eleição, e de eleições: avassalador.

Gargalhada do mês

Se o Sol não conseguir pagar a dívida, estou disponível para me entender com os accionistas do semanário e ficar dono do jornal.

Rui Pedro Soares

*

Talvez o Rui seja o responsável pela Peste Bubónica e pela Guerra dos 100 Anos. Talvez, ainda não sei. Precisava de ouvir as escutas na íntegra para ter a certeza. Mas do que ninguém duvida, a começar pelos proprietários e jornalistas do Sol, é da intenção de o destruir como profissional e cidadão. Para tal, pegou-se em excertos transcritos de escutas – os quais não podem ser compreendidos fora do âmbito policial e judicial, posto que são pedaços avulsos da privacidade de terceiros – e fez-se uma acusação na praça pública. O resultado já vai na sua demissão, para além dos eventuais danos à sua reputação, futuro laboral e futuro político. O Rui é culpado de ser militante do PS, ter diversas responsabilidades directivas na PT e falar ao telefone, reza o libelo que jornalistas e políticos, sem qualquer escrúpulo, repetiram aos berros.

Vamos, então, esperar que o Rui tome posse do pasquim – só para vermos os mesmos que agora o tratam como boy a esfalfarem-se para ganhar os favores do man.

Vinte Linhas 512

Na leitura de «A queda dum anjo» de Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco (1825-1890) fez versos, tradução, teatro, crónica, biografia, pesquisa erudita, história e crítica literária além de jornalismo mas onde a sua personalidade se afirmou de modo incomparável foi na novelística e na polémica. Reli há dias «A queda dum anjo» e foi, de novo, uma festa.

Calisto Elói, deputado por Caçarelhos, anjo na sua terra, acaba em demónio na vida parlamentar de Lisboa que o promove a barão: «Eu tenho o desgosto de ter nascido num país em que o mestre-escola ganha cento e noventa réis por dia e as cantarinas, segundo me dizem, ganham quarenta moedas por noite». Calisto Elói descobre um Parlamento onde tudo é especial, insólito e diferente: «os representantes da Nação, conquanto jurassem fidelidade à religião, eram aliás ateus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-no nas gazetas; jurando fidelidade à Nação, avexavam-na de tributos e alguns a queriam fundir na Espanha».

Casado embora, Calisto descobre em Lisboa o amor: «Somos todos de quebradiço barro; somos uns pucarinhos de Estremoz nas mãos infantis das mulheres. O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte anos, há-de pagá-lo aos quarenta e mais tarde, quando Deus quer… Deus ou o Demónio que eu não sei ao justo quem fiscaliza estes mal-aventurados sucessos de amor, que a história conta e a humanidade experimenta cada dia». No fim da história Calisto e a amada Ifigénia salvam-se com dois bebés (Mem e Egas) enquanto sua mulher Teodora e o primo Lopo se salvam com a sua criança Barnabé: «O amor é tão engenhoso como a natureza».