Sócrates, o Responsável

Apesar da maioria parlamentar, o PS não viabilizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo na anterior legislatura. Porque tal não constava do seu programa.

Agora, o PS não quer viabilizar a adopção para casais de pessoas do mesmo sexo. Porque tal não consta do seu programa.

Caso Sócrates desse liberdade de voto, e a adopção acabasse por ser aprovada, a direita diria que Sócrates era o anticristo. Como impera uma lógica de responsabilidade, a direita diz que Sócrates é o diabo.

Entretanto, e pese embora a força dos corolários abstractos que decorrem da legitimidade para casar, a problemática da adopção por casais homossexuais pede mais tempo de investigação, mais reflexão, mais debate. Não há ainda informação suficiente na sociedade, nem na comunidade científica, para que esse passo seja dado com maturidade cívica. E há menores, à nossa guarda, que têm direitos.

A crise chegou ao Ponto G

O Ponto G desapareceu, foi o que uma investigação britânica descobriu fazendo perguntas a gémeas, pelo que se levanta um problema político: aceitarão as mulheres ficar espoliadas do misterioso e andarilho ponto?

Dr Petra Boynton, num inglês que qualquer português entende desde que saiba inglês, explica que a ela não lhe vão tirar o Ponto G. Porquê? Porque a sexualidade feminina continua a ser essa ilha dos amores, onde

Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

(não, não consta que a senhora tenha alguma vez lido Camões)

Vinte Linhas 440

Estremadura

Santiago do Cacém em 1911 não era Alentejo

Acabei de ler com prazer e proveito um livro de Violante Florêncio sobre as narrativas para a infância dos escritores neo-realistas. Nada a dizer no plano geral da concepção do ensaio e da informação nele contida. Mas um pormenor na biografia de Manuel da Fonseca acendeu-me uma luz vermelha. Eu sabia que em 1911 Santiago do Cacém pertencia à Estremadura e não era, portanto, Alentejo (como vem no livro) mas faltava-me a prova. Telefonei a diversos amigos licenciados em Geográficas mas ninguém tinha a resposta pronta. Todos tinham uma ideia mas nenhum a concretização dessa ideia. Ontem, numa visita a um velho alfarrabista (A Barateira) apresentei o assunto e minutos depois tinha na mão a resposta: o livro «Lições de Geografia» para o Ensino Primário Geral (4ª e 5ª classes) dos professores Faria Artur e Dias Louro, uma edição sem data das Livrarias Aillaud e Bertrand feita de acordo com o decreto de 15-2-1921.

Entre as páginas 38 e 39 lá vem um belo mapa a cores de Portugal com as suas províncias tal com eram em 1921. A Estremadura começa em Vila Nova de Ourém e acaba em Sines. Isto (acaba em Sines) porque o distrito de Lisboa tinha como limites a norte Cadaval e Lourinhã e a sul Sines e S. Thiago do Cacém – era esta a grafia. Grândola e Alcácer do Sal também eram da Estremadura e Setúbal, embora fosse já uma cidade importante, não deixava de pertencer ao distrito de Lisboa.

Só nos anos 30, com a reformulação das províncias portuguesas levada a cabo pelo Estado Novo (que era chefiado por um velho que nunca foi jovem mesmo quando era novo) é que Santiago do Cacém passou para o Alentejo. Está tudo no livrinho.

Humano est

O ataque no Afeganistão que matou oito agentes da CIA, a segurança nos aeroportos que continua sempre a precisar de melhoramentos apesar do 11 de Setembro e o facto de os serviços secretos de meio Mundo não serem capazes de apanhar Bin Laden, eis a prova de que a imperfeição e o erro não desaparecem com a abundância de recursos humanos e materiais.

Um livro por semana 161

ruben a. antologia

«Ruben A. – Antologia»

Ruben A. (1920-1975) é um escritor cuja obra se multiplica em várias direcções: ficcionista, dramaturgo, ensaísta, conferencista, crítico literário e divulgador cultural. Foi um viajante infatigável, viveu em vários países europeus e faleceu em Londres mas nunca deixou de olhar a sério a nossa língua («A língua que uso é a minha primeira realidade palpável») e sempre viveu as nossas romarias: «Há missa, procissão, joelhão, foguetório, festeiros, mordomos, cidra, barracas de comes, comunhão, vinho a rodos, sermão em grande estilo».

A sua obra-prima é «A Torre da Barbela», livro recusado por 14 editoras (!) antes de vencer o Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências. Neste volume (que conta com um notável prefácio de José Palla e Carmo) são revisitados oito séculos de história portuguesa através das histórias de família Barbela e da sua Torre.

Já em «O Mundo à minha procura» Ruben A. faz a sua autobiografia: «Sou contrário a que uma autobiografia se escreva no momento da reforma, quando se deixou de ser chefe de Estado, se abandonou a vida pública ou quando da caneta já nada mais pinga».

No seu livro «Kaos» surge uma das mais certeiras definições do que é ser português: «O português não sabe guardar segredos, depois, ou diz a verdade em que ninguém acredita ou os que não acreditam inventam um boato com base na verdade».

(Editora: Roma Editora, Organização: Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz, Apoios: Instituto Camões, Centro de Culturas Lusófonas, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Academia Brasileira de Filologia e Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa das Universidades de Lisboa)

Os defensores da raça

No Luxemburgo, os portugueses mostram a sua raça. Uma raça de empregados de mesa, motoristas, porteiras, mulheres da limpeza, camareiros, pedreiros, empregados fabris, desempregados. Uma raça de manipulados pelos doutores que são patrões, directores, chefes, capatazes. Uma raça que cultiva a tragédia de não votar, ou de votar nos que desprezam o aumento da escolaridade obrigatória, nos que boicotam a avaliação dos professores, nos que odeiam o projecto Magalhães e nos que gozam alarvemente com o programa das Novas Oportunidades. Uma raça a carregar, desde que há memória, a pior das misérias: a desistência de si própria.

Muito gosta desta raça quem entende o exercício de oposição como uma luta sem quartel pela conquista do Poder.

Vinte Linhas 439

A oficina da beleza ou o louvor do bar das sobrancelhas

Elas chegam aqui ansiosas pelo retoque, pelo diagnóstico certeiro, pela terapêutica eficaz. No Hospital da Beleza, o bar das sobrancelhas é o banco de urgência. A empregada (a enfermeira) transporta um cinto múltiplo onde cabem os diversos instrumentos da oficina da beleza: pincel de pestanas, pincel de sobrancelhas, líquidos de limpeza, diversos tipos de tesoura, pincéis para pó facial. Um nunca acabar.

Mães e filhas, umas trazem as outras, sucedem-se no balcão das urgências. Umas procuram a manutenção do esplendor juvenil, outras anseiam o recuperar da beleza e do tempo perdido em amarguras silenciosas, em manchas de solidão que formam pequenas ilhas negras no mapa da pele. Em gestos que misturam, de modo feliz, a técnica e a simpatia, as empregadas aplicam a terapêutica indicada e vão, aos poucos, dando alta hospitalar às meninas mesmo meninas e às mulheres que são de novo meninas na porta do estabelecimento de perfumaria nos Armazéns do Chiado. Lá fora, o vento e a chuva agridem quem atravessa a rua mas o sorriso e a confiança de novo readquirida ajudam a enfrentar todas as hostilidades. No sorriso da empregada que recolhe o cinto das ferramentas está o prémio invisível desta subtil acção de medicina, desta beleza de novo recuperada. Entrei no estabelecimento para comprar um perfume cujo nome (talvez não por acaso) é «Poême» para uma amiga aniversariante e fico imóvel perante a azáfama do balcão das sobrancelhas. A empregada (a enfermeira) a todas recebe com um sorriso. Não se trata apenas de um ofício; há também uma força de paixão e de ternura entre as mães ágeis, o cinto dos instrumentos, o trabalho desenvolvido e o resultado final.

Vinte Linhas 438

«Nós por cá» todos mal na SIC e no Príncipe Real

Um dos 57 comentários no Blog «aspirinab.com» ao meu texto de revolta intitulado «O arboricídio camarário floresce no Príncipe Real» remete para um vídeo da SIC no seu programa «Nós por cá». Na altura de maior calor à volta do assunto (agora a destruição já está consumada) vi o referido vídeo mas não me apercebi da gravidade de uma pergunta feita pelo repórter ao vereador. É uma pergunta capciosa, falsa, fora da realidade: «Alguma destas árvores abatidas estava classificada?» Todo feliz, o vereador respondeu, como quem fecha uma porta: «Nenhuma estava classificada!».

O problema é esse. Não só não perguntou qual a razão que levou a «quadrilha selvagem» da CML a abater todas as árvores de um mesmo enfiamento (não estavam nem podiam estar todas doentes) mas também não perguntou porquê a ausência de parecer do IGESPAR e da AFN (Autoridade Florestal) em relação aos abates de árvores a menos de 50 metros de uma árvore classificada. Quem tenha visto o referido programa fica com a ideia (erradíssima) de que está tudo legal quando, na verdade, a destruição das árvores teve início no dia 23-11-2009 e só no dia 30-11-2009 muito à pressa e de modo atabalhoado, o IGESPAR ratificou de facto uma carnificina florestal já iniciada e concluída. Quanto à AFN ainda nada – nem novas nem mandados. Mas também agora já nada adianta. O trabalhinho está feito. Fora do assunto das árvores (o principal) é espantoso como o repórter não se lembrou de perguntar porquê a insistência num saibro que já provou não prestar noutros jardins (agora simples miradouros) com o vento a fazer do saibro açúcar maldito nas chávenas de café dos incautos turistas.

Rastilhos

A Mensagem de Ano Novo do Presidente da República condensa os lugares-comuns da retórica da impotência, característica dos discursos da direita em geral, e do PSD em especial. Que sentido tem repetir maniacamente que há desemprego e défice demasiado altos? Acaso só a direita é que está preocupada? Será que o Governo ignora os números, esse mesmo Governo que reduziu o défice quando pôde e apoiou as vítimas da crise internacional quando foi necessário? Este alarmismo estéril e tóxico, nunca se comprometendo com alguma solução, manifesta a paupérrima qualidade intelectual e cívica que constitui a actual direita.

Mas o melhor do discurso de Ano Novo vem do reino da metáfora: situação explosiva. Coincidindo com o descalabro no BCP e BPN, finais de 2007, os círculos cavaquistas passaram a falar da ameaça de explosões sociais. A SEDES, no princípio de 2008, foi para a janela gritar que havia na sociedade um difuso mal-estar – isto é, que o relógio já estava em contagem decrescente para o grande peido. E em Junho desse ano sentiu-se o cheiro da pólvora, com o bloqueio das transportadoras, animado por um gabiru ligado ao PSD. Este quadro de ameaças vagas e crescente retórica catastrofista, misturado com apelos à intervenção presidencial, recolheu imediata adesão dos sectores da sociedade mais fragilizados cultural e cognitivamente, tendo sido transformado em estratégia política com os tópicos da política de verdade, asfixia democrática e medo.

Acontece que em Portugal as explosões sociais são um negócio do PCP. Eles é que têm as carrinhas, camionetas e camiões autárquicos, assim como uma base de dados nacional com os nomes dos revolucionários sempre prontos a largar o bulimento, ou a bisca deslambida, e vir até à Capital abrir o apetite com umas caminhadas avenida a baixo. Depois, chegam os manfios do BE, colocam-se no passeio sorridentes e fazem os directos para a TV. Uma explosão social bem organizada funciona assim – escusado será lembrar que as explosões socias desorganizadas não funcionam, isto é de lenina caprina.

Moral da história: os que à direita falam em explosões sociais mal conseguem conter o seu desejo que aconteçam, deixando-se apanhar a acender o rastilho. Ver o Presidente da República alinhado com esses irresponsáveis, só confirma que os mínimos para estar à altura da função há muito explodiram em Belém.

Aveiro Disconnection

Em qualquer democracia, a imputação de factos criminosos praticados pelo PM no exercício das suas funções é matéria de interesse público.

Paulo Pinto de Albuquerque

*

Devemos fazer coro com os pulhas: o procurador e o juiz em Aveiro não são loucos, pelo que é inquestionável terem encontrado algo nas escutas a Sócrates que é do foro criminal, daí as certidões – logo, nós precisamos de saber o que se passou. Embora seja um infame sofisma, o argumento é inatacável. De facto, não é crível que os magistrados em Aveiro tenham enlouquecido aos pares, pelo que tem de existir uma racionalidade que justifique a tão grave decisão de imputar a um Primeiro-Ministro indícios de crime contra o Estado de direito. É neste ponto que os pulhas pretendem interromper o pensamento, apelando a que se faça o julgamento sumário do suspeito, com a consequente execução na praça pública.

Continuar a lerAveiro Disconnection

Abraços

Para o Carlos Santos, que devia ganhar o Prémio Revelação – Blogosfera 2009. As suas competências analíticas e expositivas, tanto no campo da economia como da política, aliadas à extraordinária capacidade produtiva, fizeram dele um sucesso instantâneo na primeira metade do ano. Depois, foi a consagração, tornando-se uma nemesis para a direita que aceitou debater com ele. Acresce ainda ser uma das mais simpáticas figuras no meio, sempre à procura de pontes de diálogo e cooperação entre adversários, e distribuindo esmerada educação e classe por onde passa.

Para o Eduardo Pitta, que celebra os 5 anos Da Literatura e faz uma declaração de independência que é um manifesto de cidadania. O Eduardo é também um dos mais prestigiantes fazedores de comunidade na blogosfera, citando frequentemente os textos e ideias que lhe merecem favor. Trata-se de um autêntico trabalho comunitário, e gratuito. Eis aqui o segredo para o tão adiado triunfo do comunismo: ter de ser espontâneo e nascer da imperativa liberdade de cada um.

Para o António Parente, que se lançou na criação e promoção da opinião social e política de inspiração cristã e católica. Se pensarmos que nem nos partidos da direita encontramos quem represente essa tradição milenar, mais importante fica o intento de contribuir com uma fonte de inteligência que é desconhecida da enorme maioria da população, mesmo daquela que vai à missa. Sim, a Igreja não se esgota no Papa, no Vaticano, no clero ou nos Textos Sagrados. Reduzi-la a essas entidades será pecar contra o Espírito Santo. E, aqui entre nós que ninguém nos lê, se há coisa que temos toda a vantagem em evitar é pecar contra o Espírito Santo. Quem tiver ouvidos que oiça.

Melhor de 2009

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Ganhou as eleições contra tudo e contra todos. Não há político tão investigado e devassado como ele, nem nada que se pareça com as campanhas de assassinato de carácter que lhe têm feito desde 2004. Foi vítima de uma armadilha como nunca se tinha visto por estas bandas, envolvendo juíz e Ministério Público de Aveiro. E aceita a responsabilidade de governar nas piores condições económicas em 80 anos.

Sócrates não é apenas uma força sem émulo na política actual, é também uma novidade amoral na cultura portuguesa. E, mesmo depois de cumprir o seu ciclo governativo, continuará a influenciar aqueles dispostos a romper com o marasmo e as pulhices que nos atrofiam.

Pior de 2009

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E, pessoalmente, confesso que não consigo ver bem onde está o crime de um cidadão, mesmo que seja membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas.

*

Quando Cavaco convocou a comunicação social para, supostamente, explicar o que andou a fazer durante a campanha para as Legislativas, ninguém esperava ouvir o chorrilho de tonteiras que saiu da boca do que já era o pior Presidente da República no pós-25 de Abril. O que disse então não tem ponta por onde se pegue, e a sua recusa em se deixar interrogar pelos jornalistas é a marca de uma consciência culpada e irresponsável. O que fez e deixou fazer, alinhando numa golpada mediática, é imperdoável.

Cavaco não é o Presidente de todos os portugueses. Nem de metade dos portugueses. Em boa verdade, ele já só representa o grupo dos reaccionários.

Não dá para antecipar as Presidenciais?

Um livro por semana 160

«A Bíblia para Todos» – edição literária

Numa edição feita a partir dos textos originais em hebraico, aramaico e grego, este livro surge na sequência do trabalho de uma vasta equipa: Manuel Alexandre, Carlo Buzzetti, Soares Carvalho, Roy Ciampa, Rui Duarte, Teófilo Ferreira, Carreira das Neves, João Pinheiro, José Ramos, Pinto Ribeiro, António Tavares e Theron Young. As suas 2415 páginas estão organizadas num texto «corrido», sem mapas, desenhos, glossários ou tabelas cronológicas mas existe um site na Net (www.abibliaparatodos.pt) no qual é possível entender melhor o significado de certos textos. Outros, como as palavras do sábio Qohelet no Eclesiastes, são acessíveis ao leitor mais desprevenido:

«Neste mundo, tudo tem a sua hora; cada coisa tem o seu tempo próprio. Há o tempo de nascer e o tempo de morrer; o tempo de plantar e o tempo de arrancar; o tempo de matar e o tempo de curar; o tempo de destruir e o tempo de construir; o tempo de chorar e o tempo de rir; o tempo de estar de luto e o tempo de dançar; o tempo de atirar pedras e o tempo de as juntar; o tempo de se abraçar e o tempo de se afastar; o tempo de procurar e o tempo de perder; o tempo de guardar e o tempo de deitar fora; o tempo de rasgar e o tempo de coser; o tempo de calar e o tempo de falar; o tempo de amar e o tempo de odiar; o tempo de guerra e o tempo de paz.» E conclui: «O melhor que uma pessoa tem é comer e beber e saborear os frutos do seu trabalho».

(Edição: Círculo de Leitores/Temas e Debates, copyright: Sociedade Bíblica de Portugal)