Não é calúnia, é magia

A mecânica destes blogues está longe de ser a discussão política, mas uma regra típica dos aprendizes de feiticeiro: a destruição dos adversários a golpes de insultos e calúnias, já que não se pode prende-los, nem censurá-los.

Pacheco

*

Quem o diz já passou há muito o tirocínio para feiticeiro, é agora o mais poderoso mago da política-espectáculo, se contarmos o tempo de exposição e a amplitude dos meios de que dispõe. E fala do que sabe, a estratégia do PSD desde Setembro de 2008 não foi outra: destruição do adversário a golpes de insultos e calúnias.

Acontece que um insulto é bicharoco bem diferente de uma calúnia. O insulto expressa um valor subjectivo que radica no emissor. É relativo a um estado de alma, e, sem ajuda do destinatário, desaparece como uma bola de sabão. Já a calúnia propõe uma suspeita que radicará no alvo da mesma, atingindo a sua honra ou imagem pública. O efeito é tóxico, viral, venenoso, pois alicia a assistência, ou a comunidade, a perverter a relação com a vítima da calúnia. Daí a gravidade de todo e qualquer acto calunioso.

Ora, o Pacheco não apresenta um único exemplo de calúnias publicadas nos blogues que nomeou. E isso, se ficar sem materialização, constitui-se como um acto calunioso. Da minha parte, o interesse não pode ser maior em me retractar por qualquer calúnia que tenha verbalizado, pelo que agradeceria penhorado o exercício. Mas também teria muito a aprender caso o Pacheco apresentasse citações de calúnias que o Câmara Corporativa e o Jugular tenham produzido. Os exemplos devem ser abundantes, a fazer fé nas suas palavras, pelo que não deve ser difícil arrebanhar umas quantas para aferirmos dos critérios que estão a ser usados. Certamente que um intelectual da craveira do Pacheco, e farol da Política de Verdade, compreende quais são as vantagens de fazer avançar o debate nessa direcção, concretizando as acusações de modo a que possa haver resposta dos visados.

É que caso se consiga obter do Pacheco a definição do que é uma calúnia, de imediato ela poderá ser usada contra o que escreve e fala, e também contra todos os outros caluniadores que a direita ranhosa espalha às pazadas. Não admira, então, estarmos com dificuldades para identificar as tais calúnias que afiança existirem nos blogues dos empregados. O mago não quer revelar os seus segredos.

A escola dos murmúrios

Lídia Jorge, que não consta ter dificuldades de maior para lidar com a complexidade, deu a sua opinião acerca do acordo entre ME e sindicatos. O que escreveu é um condensado da secreta vivência da maior parte dos professores; e, especialmente, das professoras. Vejamos parágrafo a parágrafo:

Este acordo é histórico porque ele permite salvar da humilhação alguns milhares de professores e restabelecer um clima de paz num momento em que a escola pública portuguesa precisa de proceder a uma revolução nos métodos de trabalho. Ele permite salvar a escola dum inferno burocrático incompatível com uma boa convivência entre colegas e um ensino livre e feliz. Além disso, regressar a uma carreira única, mas em que se progrida por mérito, era indispensável e esse princípio manteve-se.

A celebérrima escritora informa a população de que os professores estavam a ser humilhados. Humilhados, repita-se para que a ninguém escape a dimensão do ataque. Quem os estava a humilhar? Ela não identifica o verdugo, mas só poderia ser uma entidade tenebrosa, um ente já supra-político, ontologicamente maligno – por exemplo, a Ministra Sinistra. Com esse ser não há diálogo possível, só visceral ódio despejado em cima de todos os mentores e cúmplices da grande humilhação.

Nesta lógica, lógico era que o Governo anterior quisesse enfiar os professores num inferno burocrático. É só nisso que os demónios pensam, tratar de encher os infernos com as almas dos puros. Daí a pergunta: pode alguém ser livre e feliz no inferno? Claro que não, Lídia, importa é manter intacto o princípio da progressão por mérito, esse céu na terra onde se avança na carreira ao ritmo natural e naturante das circunvoluções solares.

Mas é preciso ter em conta – e nem sempre a população está bem informada – que os professores e os médicos são as classes mais directamente escrutinadas da sociedade. Cada dia, em cada hora, o professor passa pelo escrutínio cerrado de dezenas de crianças e adolescentes. Basta imaginar uma sala de aula. Não é pouca coisa.

De facto, a população não está nada bem informada a respeito do que se passa numa sala de aula. Nem a população, nem a sociedade, nem o Estado. Nisso, Lídia, não podias ter sido mais certeira. E fica também patente qual o tipo de mérito necessário para a tal progressão feliz na carreira: apenas a mera acção de aparecer para trabalhar na escola que nos paga o salário – ou seja, esse heroísmo que consiste em estar numa sala de aula enfrentando adolescentes, e crianças, às dezenas, ali sentados a olhar para professores assustados e confusos com tão intenso escrutínio.

É por isso que este acordo histórico ainda não terminou. Ele só ficará selado quando Isabel Alçada verificar a que professores, durante estes dois anos, foram atribuídas as notas de excelente, e tirar daí as suas conclusões. Talvez resolva anular os seus efeitos. É que os professores duma escola constituem uma família. Experimentem criar um escalão de avaliação entre os membros duma mesma família que se autovigia. Sobre os métodos de avaliação desejo a Isabel Alçada e aos sindicatos muitas noites de boa maratona.

Cá está: os professores duma escola constituem uma família. A quem favorece a desestabilização desta família? Quem anda a espalhar a discórdia dentro de uma família que se ama e só quer que a deixem viver feliz? Isabel Alçada, com a ajuda dos sindicatos, que trate de acabar com esses professores ditos excelentes que só servem para causar chatices na família. Numa família não há excelentes porque os membros das famílias não se autovigiam, o que leva a que não seja possível fazer comparações. E é assim o amor familiar, explica a Lídia.

Isto é tão simples de perceber, os murmúrios das donas de escola.

Dança comigo

(sobre um óleo de António Carmo)

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiro, soltos e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

Quanto é que sacas por mês, ó Pacheco?

Esses blogues, como o Câmara Corporativa, o Aspirina B, o Jugular, escritos muitas vezes sob o anonimato e onde pululam empregados do governo, e às vezes mais acima – o anonimato serve para ocultar os autores, mas o estilo denuncia-os –, representam um mundo aparte na blogosfera que revela as fontes do radicalismo que emana nos dias de hoje do centro do poder socialista à volta de Sócrates.

Pacheco

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Pacheco Pereira, o mais ubíquo dos publicistas, tradutor da Manela, telepata de Cavaco, a sumidade intelectual que criou e levou até nós a Política de Verdade, e agora de regresso aos espectáculos em S. Bento, diz que o Aspirina B é um dos três principais blogues onde pululam empregados do governo. O que leva uma pessoa com o seu prestígio e responsabilidades a escrever tal coisa ultrapassa a minha limitada capacidade de entendimento. Também não posso falar em nome dos meus parceiros de denúncia, pois não conheço pessoalmente ninguém que lá escreva. Resta-me abrir um inquérito interno, posto que o Pacheco não pode estar a mentir nem a caluniar. Isso é impossível, como sabemos, visto os apoiantes de Ferreira Leite não mentirem nem caluniarem. Eles nem sequer passam vermelhos ou arrotam.

Muito bem. Será o Confúcio Costa um desses empregados? Se o é – vejam-se estas provas: I, II, III – talvez a ironia socrática tenha sido levada um pouco longe demais. E quanto ao José do Carmo Francisco, será ele um desses empregados? Nesse caso, anda o Governo preocupado com os títulos do Benfica e apostado no derrube de António Costa? Serão as suas notas de leitura mensagens cifradas para os agentes secretos a operar no Funchal e nos jardins do Palácio de Belém? Enfim, com essa malta do Sócrates tudo é possível.

Pacheco diz também que o estilo denuncia certos autores que estão acima do mero estatuto de empregado, pelo que o anonimato é inútil perante o poder aquilino do seu intelecto. Eis o problema: em nenhum desses blogues escrevem anónimos, todos os textos aparecem assinados. Onde se podem ler anónimos é, por vezes, nas caixas de comentários. Será aí que o Pacheco apanha os tais mariolas a teclar? Ou estará ele a referir-se ao uso de pseudónimo, considerando-o equivalente ao anonimato? Por exemplo, será que ele considera Isabel Alçada uma Ministra anónima? Afinal, de quem e do quê está o marmeleiro a falar? Como sempre, quase nada se sabe, reina a inconsequência e a suspeição mais calhorda.

Gostava de saber o que leva alguém com tanto poder político, mediático e social a reduzir a sua intervenção cívica à triste paranóia de um palonço armado aos cágados. Gostava de saber como é que um homem que se arroga uma superioridade moral acaba a fazer da difamação um negócio. Gostava de saber o que o impede de entrar em contacto comigo para me pedir outros nomes, a morada, o local de trabalho, 4 fotografias tipo passe e um par de meias para guardar num frasco. Gostava de saber quanto é que sacas por mês, ó Pacheco, porque a trabalhar para o Governo eu não me governo.

A textura das limonadas nepalesas

O nosso amigo Filipe Nunes Vicente, escapulindo-se ao feroz controleiro João Gonçalves, é relapso na leitura do Aspirina B, chegando ao ponto de comentar. E eu aproveito a ocasião para relembrar ao nosso amigo Manuel Pacheco que ele já merecia ter um blogue ainda antes da fina-flor blogosférica se meter com ele, quanto mais agora que faz oficialmente parte dos remoques de um vulto que é uma das raríssimas predilecções de um outro Pacheco.

Vinte Linhas 443

Luís Freitas Lobo – uma monstruosa mistificação

Autor de «Os magos do Futebol» (Bertrand Editora) Luís Freitas Lobo escreve a páginas 214 deste livro: «Peyroteo foi o grande goleador da década de 40. Nascido em Humpata, em Angola, no ano de 1918, chegou ao Sporting em 1937, com 19 anos, ainda no tempo do Campeonato da Liga, o último.»

A mistificação monstruosa está nisto: nunca houve Campeonato da Liga. As Ligas foram torneios privados, experimentais e particulares disputados entre 1934 e 1938 nos domingos deixados livres pela disputa do Campeonato de Portugal. Esse sim, esse é que atribuía o título de Campeão de Portugal. Explicando melhor: privados porque se entrava por convite. A Académica ficou duas vezes em último (1934/35 e 1935/36) mas foi convidada para os torneios seguintes. Depois experimentais porque se tratou de uma experiência nova em Portugal: um torneio em que eram atribuídos pontos por vitória ou empate. A tradição desde 1921 era os jogos serem a eliminar começando em 32 avos de final até à final. Tal aconteceu desde 1921 até 1938. Por fim particulares porque nada tinham de oficiais: as equipas entravam por convite da organização e as datas eram designadas nos domingos deixados livres pelo Campeonato de Portugal.

Acontece que os jornalistas do Benfica aproveitaram o facto de o Benfica ter vencido 3 desses 4 torneios para fingirem que não houve Campeonato de Portugal nesses anos e adicionarem assim mais três campeonatos à lista. Freitas Lobo, com aquele ar doutoral e enciclopédico não podia entrar nisto. Nesta monstruosa mistificação. Mas entrou. Tentei contactá-lo através do jornal A BOLA desde 3-11-2009 mas nada respondeu.

Não é lenda

Durante longas décadas espalhou-se por Lisboa o boato acerca da existência de um fogareiro que fazia a corrida sem falar no Benfica, culpar Sócrates pela Guerra Colonial ou louvar a seriedade de Manuela Ferreira Leite. E, para alcandorar o boato à dimensão das grandes lendas urbanas, acrescentava-se que ele tinha o rádio sintonizado na Antena 2.

Pois bem, é verdade, o lendário chauffeur existe e cobra o mesmo que os outros. Pasmai, ó gentes!

Não se deve contrariar os malucos

O conflito entre o Ministério da Educação e os sindicatos dos professores tinha um único ponto de força para o Governo: a legalidade. Tirando esse último reduto, os sindicatos poderiam impor o que quisessem, pois tinham obtido a vitória completa no dia 27 de Setembro. Mário Nogueira disse-o à boca cheia desde 2008, assumindo que a luta dos professores seria instrumental para retirar autoridade parlamentar à reforma em curso. Sem maioria para o partido reformista, Nogueira ficava senhor da nova maioria irreformável, esse pardieiro de reaccionários que une o PCP ao CDS, o PSD ao BE.

Como decorre do acordo de princípios assinado, fica consagrado que, por princípio, a quase totalidade – ou mesmo a totalidade – dos professores vai ascender ao topo da carreira. Isso significa que a figura das quotas para as classificações de Bom é apenas um recurso destinado a tornear as normas da Função Pública. Como é óbvio, caso um professor fique mais de 3 ou 4 anos à espera, depois de obtida a classificação, virá logo para uma televisão denunciar a injustiça que se abate sobre o seu legítimo direito a progredir na carreira, ele que é um excelente professor Bom. Agora, multiplique-se por não sei quantos mil a situação, e volte-se a este acordo de princípios para antecipar o inevitável: toda a minha gente avança a alta velocidade para a remuneração máxima.

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Um livro por semana 162

Cartas a Deus Phillipe Capelle

«Cartas a Deus» de Philippe Capelle

Com o subtítulo de «As mais belas orações cristãs» o volume reúne 207 orações com autores diversos desde São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, Teilhard de Chardin, Lutero ou Calvino aos inesperados Shakespeare, Senghor, Beaudelaire, Dante, Verlaine, Rilke, Saint-Exupery, Kierkegaard, Miguel Ângelo ou Dostoiweski.

A oração é tão antiga como a relação do Homem com Deus; já o Evangelho de S. Marcos refere: «Tudo quanto pedirdes, orando, crede que o recebereis». O poeta Mário Cesariny considerava este um dos maiores poemas da Humanidade: «Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia, / Vida, doçura, esperança nossa, salve! / A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. / Eis, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei. / E, depois deste desterro, nos mostrai Jesus, bendito fruto do vosso ventre. / Ó clemente! Ó piedosa! Ó doce Virgem Maria!».

A mais bela, mais que oração programa de vida, será esta: «Senhor, faz de mim um instrumento da tua paz. / Onde houver ódio que eu leve o amor. / Onde houver ofensa que eu leve o perdão. / Onde houver discórdia que eu leve a união. / Onde houver erro quer eu leve a verdade. / Onde houver a dúvida que eu leve a fé. / Onde houver desespero que eu leve a esperança. / Onde houver trevas que eu leve a luz. / Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. / Senhor, que eu não procure tanto consolar quanto ser consolado / ser compreendido quanto ser amado. / Pois é dando que se recebe, / esquecendo-se que se encontra, / perdoando que se é perdoado, / morrendo que se vive para a vida eterna.»

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: Rochinha Digo, Tradução: António Maia da Rocha)

Bolero da web 2.0

Está, neste preciso momento, a nevar no Porto e, em Agosto do ano passado, quando resolvi concorrer a um curso de doutoramento leccionado pela Universidade do Porto e pela Universidade de Aveiro sobre Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, estava longe de pensar que o referido curso ia constituir para mim uma genuína epifania. Concorri um bocado às cegas: li o programa, pareceu-me interessante e condizente com esta minha paixão pelo HTML com pulso, mas nem isso me preparou para o rigor, o entusiasmo e a dedicação do corpo docente, nem para o elevadíssimo nível de qualidade humana e intelectual dos meus colegas, que têm mostrado uma capacidade invulgar para me aturar. Está, neste preciso momento, a nevar no Porto e fica desta forma recomendado aos interessados e mais destemidos um programa doutoral exigente mas profundamente enriquecedor.

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Sinais interiores de riqueza

O interior do País está um luxo. Estradas impecáveis, casario renovado, parque automóvel de qualidade, comodidades e serviços urbanos, limpeza, tranquilidade. E fora o resto que só se vê na rede familiar ou de amigos: o recheio das casas, o estilo de vida, a educação, a segurança.

Sim, há pobreza em Portugal. Como nos Estados Unidos, em Inglaterra, em França, na Alemanha. Como em todos os países do Mundo. O que nem todos os países têm é a riqueza do nosso Interior.

Malefícios da fé

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Foi decifrado o texto em hebraico mais antigo que já se descobriu, datado do século X a.C.; portanto, escrito há 3.000 anos. Diz isto:

1′ you shall not do [it], but worship the [Lord].
2′ Judge the sla[ve] and the wid[ow] / Judge the orph[an]
3′ [and] the stranger. [Pl]ead for the infant / plead for the po[or and]
4′ the widow. Rehabilitate [the poor] at the hands of the king.
5′ Protect the po[or and] the slave / [supp]ort the stranger

Em português do século XXI, pode ser traduzido como:

Vamos cuidar dos miseráveis, mesmo que sejam estrangeiros.

É uma ideia inaceitável, não é?

Gente como Vara e Morais

O interesse que Helena Matos me desperta está directamente relacionado com a pulsão caluniadora a que dá largas. Trata-se do seu passatempo favorito, não perde uma oportunidade. Ora, caluniadores há muitos, mas nem todos são jornalistas e colunistas. Estes têm superior encanto, porque reclamam ter um pouco mais de credibilidade do que o fogareiro comum.

Veja-se este exemplo, onde Vara e Morais são apresentados como moralmente repelentes ou inequivocamente criminosos. Provas? Nenhuma. Factos? Nenhum. Indícios? Nenhum. Só a soberba calúnia. Porquê? Porque pode, porque eles não lhe merecem qualquer respeito, porque ela está do lado das forças do Bem e eles no lado do Mal.

Helena Matos oferece um perfeito retrato do que é a actual direita: um conúbio de calhordas.

Crise neuronal

Das inanidades que a inane direita reuniu para lidar com mais um daqueles momentos em que fica a ver passar a História, nada foi mais bronco do que se terem lembrado de protestar contra a conquista de um direito, que dignifica Portugal, alegando que essa aprovação iria desviar recursos do combate ao desemprego.

Desta crise neuronal, esta direita nunca irá recuperar.

Vinte Linhas 442

Um homem veio de bicicleta chamar o meu pai

A chamada «fuga de Peniche», aventura extraordinária na qual um conjunto de militantes do PCP se evadiu do Forte de Peniche, aconteceu em 3-1-1960. Lembro-me bem: tinha oito anos e vivíamos no Montijo desde 1957. Na manhã do dia seguinte à fuga, um homem veio de bicicleta chamar o meu pai. Como motorista da Brigada dos Serviços Prisionais destacada para a construção do Palácio da Justiça no Montijo, competia-lhe levar um grupo de guardas prisionais na camioneta Merceds Benz para se juntarem a outros na perseguição dos evadidos, dos «malandros» como eram designados pela estrutura superior do EPL no Linhó. Os nomes desses militantes do PCP protagonistas da «fuga de Peniche» são os seguintes: Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Guilherme Carvalho, José Carlos e Francisco Martins Rodrigues.

As pessoas da minha rua (Sacadura Cabral) lançaram o boato de que o meu pai tinha ido levar os guardas prisionais para o cruzamento de Pegões mas não era verdade; ele foi levá-los ao Linhó onde foram integrados por elementos da PIDE com vista à perseguição dos evadidos. Ir para Pegões à procura de alguém que tinha fugido de Peniche só mesmo para alguém que conhecesse muito mal a nossa geografia.

Nesse dia 4-1-1960 a deslocação da «brigada» foi mesmo feita a pé desde o Samouco até ao local da obra no Montijo. Razões mais importantes a isso obrigaram; coisa que nem os presos nem os guardas apreciavam muito. O jornal «Público» nada disse sobre a data tão redonda mas as acções ficam com quem a pratica. Coitados…

Os professores é que a sabem toda

manifestação professores

Os professores são os maiores e contaram com o apoio do PCP, BE, PSD e CDS. Ganharam, claro. Agora já podem voltar para a depressão que arrastam há décadas.

Acabaram as excursões à Capital nos próximos tempos, acabaram os piqueniques e as algazarras, a juvenil folia de quem se acha no centro do mundo. Aguentem-se o melhor que puderem, e rezem para que a sociedade continue sem querer avaliar o que se passa nas salas de aula.

Voto inútil

O interesse em afastar Cavaco Silva de Belém não pode ser maior. A Presidência está conspurcada, falhou escandalosa e gravemente, tendo deixado de merecer a confiança do cidadão. A promessa eleitoral de contribuir para o bom governo da Nação com judiciosos, discretos e humildes conselhos vindos de uma mente brilhante em finanças e economia, que até suscitou críticas negativas da direita por receio de um apoio à perpetuação de Sócrates no poder, acabou em espionagem à moda da Madeira e spam conspirativo. Resultado: Cavaco não é parte da solução, é parte do problema.

Mas Alegre também é parte do problema, não da solução. A escolha do candidato presidencial do PS é um dos mais fascinantes problemas de estratégia política da década que acaba neste ano. Precisamente porque Alegre vai ganhando peso dentro do PS, captando a adesão daqueles que apostam na unidade da esquerda. Ora, tal intento é meritório, mas não é o único possível.

Alegre, face a tudo o que fez e deixou que se fizesse consigo até agora, não é o candidato do PS coisa nenhuma – é o candidato do Louçã. O BE vai apoiar Alegre porque é a forma de atingir o PS e sacar protagonismo, ao mesmo tempo que sobrevive numas eleições onde se arriscaria a desaparecer eleitoralmente. Daqui decorre uma outra consequência que desmente a promessa da unidade à esquerda: Alegre nunca será apoiado pelo PCP surgindo como candidato do BE. Donde, na 1ª Volta aparecerá um Jerónimo, ou um Carvalhas, a segurar o eleitorado comunista e a boicotar as candidaturas da esquerda. Só numa 2ª Volta o PCP apoiaria Alegre. Para o PS, estes prognósticos levam a constatar que o principal objectivo será o de levar o seu candidato à 2ª Volta. Este cenário ganha favor caso Cavaco se recandidate, pois não é crível que repita os números da sua eleição.

Há vários nomes que representam o melhor do PS, e em que votaria sem problemas de consciência: Jaime Gama, Alfredo Barroso, Maria de Belém; por exemplo, mas há outros. No Alegre não votarei, nem que isso implique mais desgraça cavaquista. Porque Alegre não foi leal para com o seu partido, e para com o Governo, nos momentos mais difíceis da difícil legislatura anterior – logo, não foi patriota. Ainda por cima, nada de nada de nadinha de nada do que Alegre diz, desde que ficou à frente de Soares, tem importância política. O homem está tão cheio de si que já nem o meu voto lá cabe.

Vinte Linhas 441

As letras são eternas nas paredes da memória

Pertencemos à civilização do livro. Para muitos de nós a frase de Guilbert de Pixérecourt é indiscutível: «O livro é um amigo que não engana nunca». Tal como a belíssima ideia de Cervantes: «Não há livro tão mau que não tenha algo bom». Ou a definitiva opinião de Óscar Wilde: «Não há livros morais ou imorais. Os livros são bem escritos ou mal escritos».

Há uma empresa na Net (www.letraseternas.org) que pode ter nascido daquela frase de Cícero («Uma casa sem livros é um corpo sem alma») e que se dedica a eternizar frases, textos em prosa, poemas. Basta um contacto enviando uma mensagem para o mail da empresa (geral arroba letraseternas.org) e a equipa estuda o enquadramento do livro escolhido no espaço envolvente.

Pode ser um poema de Eugénio de Andrade ou um parágrafo de Jorge Amado. Pode ser na sala de visitas da casa ou no espaço do escritório onde se recebem os clientes. Pode ser no quarto do bebé que está para nascer. Pode ser durante as festas de aniversário das crianças da casa ou dos seus amigos e vizinhos.

A base do trabalho de empresa «letras eternas» é o carvão e a cera. O seu lema de acção é «Escreva a sua vida. Escreva-se».

Trata-se de um projecto original e inovador. Logo é pioneiro e daí não ser ainda muito conhecido. Mas depende também um pouco de todos nós conhecer e dar a conhecer uma ideia nova. Este texto pode ser um bom espaço para divulgação inicial entre os nossos amigos e os amigos dos amigos. Acreditamos que as letras são mesmo eternas.