Não vale tudo contra o vale tudo

Votei Alegre. Por duas razões: porque parecia o melhor dos piores; porque seria justo castigar Soares. Tenho a vantagem de não fazer a menor ideia do que levou Soares a querer concorrer para um terceiro mandato, para mais sendo octogenário, muito menos imagino o que levou o PS a aceitar essa infausta candidatura, mas é provável que Alegre não suscitasse confiança a quem o conhecia de ginjeira. Ou que tivesse sido estouvado, escutando apenas as Musas, acabando por queimar apoios. Enfim, talvez a explicação seja chã e cínica: Soares pode ter tido mais força no aparelho, ou nas cúpulas, e impôs-se ao partido. Não sendo militante do PS, nem simpatizante, olhava para as eleições presidenciais de 2006 com indiferença, sequer receando a vitória de Cavaco. E, até ao Verão de 2008, Cavaco imitou muito bem um estadista.

4 anos depois, as próximas presidenciais terão uma importância decisiva para a qualidade – e até segurança – da nossa democracia. Cavaco Silva provou que a Presidência pode perverter a lógica do semipresidencialismo, não cumprindo a Constituição: não há regular funcionamento das instituições quando, a 1 mês das eleições legislativas, surge uma notícia com declarações oficiosas de Belém a acusarem o Governo de crimes escabrosos contra o Presidente da República – as quais ficaram sem serem desmentidas, muito menos explicadas, até à publicação do email pelo DN, uma semana antes das eleições, e as quais foram aproveitadas pela oposição para atacar Sócrates, Governo e PS com pulhices nunca antes vistas no combate político em Portugal. Impedir que Cavaco seja reeleito, pois, deve ser o desígnio nacional de qualquer cidadão. Só que não vale tudo.

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O terramoto também atingiu o Twitter

Surgiram vários casos de boatos relacionados com o Haiti propagados pelo Twitter que levaram ao engano cidadãos e empresas nos EUA. De facto, há uma propensão para o retweet de qualquer informação que capte a simpatia, sem exigência de análise ou confirmação, mas o preço a pagar é a propagação viral de eventuais mentiras.

Sim, as tecnologias de comunicação podem ser cada vez mais potentes e sofisticadas, mas é preciso nunca esquecer que a natureza humana tem 150 a 200 mil anos de avanço.

Teorias da conspiração

Esta não procurei, mas deve estar algures: que os americanos provocaram o terramoto no Haiti para invadirem militarmente o país a coberto da ajuda humanitária, como se prova pelo facto do sismo não ter causado qualquer dano na República Dominicana.

Já esta sabe-se onde está, e o silêncio da direita a seu respeito é tumular: que o Zé Manel, afinal, é mais um na lista de pagamentos do Rato.

A química do amor

Esta notícia diz que os homens conseguem cheirar a ovulação das mulheres, o que os leva a produzir testosterona e a ficarem atraídos, pelo que as mulheres andam a enganar os homens com odores artificiais que acabam por diminuir, ou anular, o poder químico da ovulação.

Sim? Não?

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(atenção: profissionais da indústria dos perfumes é favor identificaram-se antes de emitirem opinião)

Só por doença mental

O texto A minha verdade, de Fernando Lima, publicado ontem no Expresso, diz o seguinte:

1)

Que a Presidência assume ter transmitido ao Público a informação publicada:

Um gesto de impaciência levou a que a resposta acabasse por ser dada sob a forma de uma pergunta: “Se não há registo de participação pública, como é que sabem o que faz cada um na vida privada? Andam a vigiar os assessores?”

2)

Que a Presidência declara ter sido vítima de uma armadilha do Público:

Tanto bastou para dar origem a uma capa inesperada do jornal “Público”, que transformou uma resposta irada, ditada pelo absurdo das questões, em “suspeitas gravíssimas” veiculadas por “fonte oficial”. […] Estava obtido o pretexto para fazer explodir a armadilha e ela funcionou.

3)

Que a Presidência considera Público e DN cúmplices de conspiração para atacar o Presidente da República:

Os interessados em trazer o Presidente da República para a liça política viam que o assunto perdia o brilho e a dinâmica política que proporcionava e lhe convinha, e decidiram que era preciso alimentá-lo, por quaisquer meios, sem olhar a princípios.

Foi então que surgiu num diário concorrente do “Público” a publicação de um estranho e-mail – resta saber por que caminho terá ele lá chegado… – tão estranho e despropositado que não deveria ter suscitado mais do que um impulso de rejeição enojada por parte de todos os profissionais de jornalismo e actores políticos.

4)

Que a Presidência considera o “caso das escutas” uma manobra do Governo ou do PS, ou de ambos:

A luta política eleitoral estava no seu auge e era preciso desviar as atenções do que podia esclarecer os portugueses ou informá-los sobre a real situação do país. Aquele e-email gerava a confusão que convinha, impedia que o assunto das escutas morresse e, maravilha das maravilhas, era “prova clara” de que a Casa Civil do Presidente da República estava na origem maléfica dos boatos que circulavam sobre as suspeitas de existência de escutas.

Conclusão

Fernando Lima obteve autorização de Cavaco Silva para publicar este texto. Um texto confrangedor de tão absurdo e friável, vexante para Portugal. Tê-lo-á lido e relido ao Presidente da República, o qual o validou, quiçá louvou.

Q.E.D.

Que andaram a fazer?

Portugal está cheio de economistas que têm as soluções todas para acabar com o desemprego, reduzir o défice, criar riqueza, transformar o País numa potência económica capaz de ultrapassar a China. E dá-se este característico fenómeno: quão mais velhos, mais radicais e furibundos aparecem a proclamar o seu saber. Da SEDES ao Medina Carreira, passando pelo João Salgueiro e Ferreira Leite, não falta gente capaz de saltar para dentro dos Ministérios e resolver o assunto. São de uma autoconfiança admirável. Mas só até àquele instante em que nos lembramos que estes cérebros andam nos círculos do poder político, empresarial e financeiro há 30, 40 e 50 anos. Ou seja, que têm sido eles os gestores do tal Portugal adiado e pobre que dizem agora conseguir salvar em 4 anos ou menos.

A irresponsabilidade é descarada. Por onde andaram, em que parte do caminho se perderam, que já nos podiam ter libertado do atraso económico há tanto tempo?

Tristeza

Alegre confirmou o que já era certo. Agora, se se mantiver no centro da esquerda (sim, também existem centros adentro das polaridades), e num registo de futilidades egomaníacas que não tire o sorriso a Louçã, irá chegar às eleições com o apoio de quase toda a esquerda. Serão poucos os que no PS resistirão à facilidade que está a ser oferecida: um candidato que parte com os votos do BE, a marca do PS e a anuência do PCP. É a cantoria das sereias.

Se Alegre for escolhido como candidato dos socialistas, o PS estará a dar o apoio ao candidato de outro partido. Um candidato que prejudicou gravemente o PS por actos e omissões. Um candidato que se comportou de forma desleal.

Vir a ter um Presidente da República que mostrou dar mais importância a si próprio do que aos portugueses, um Presidente da República que se imagina o proprietário da portugalidade, será triste.

Farto da chuvinha e do friozinho?

Chama-se Inverno. Por mim, durava até aos idos de Março. Chuva e frio e vento e frio e chuva e vento. Só depois, com a impiedade de um cronómetro, as flores e as borboletas.

Os centenas de milhares de milhões de galáxias, cada uma com centenas de milhares de milhões de estrelas, terão biliões de planetas. Num deles, pelo menos num, existirá esta fantasia climática: as estações a começarem à hora marcada, durando intactas por 3 meses.

E num outro, estoutra fantasia, ainda mais climaticamente sofisticada: o planeta onde as 4 estações coexistem em simultâneo, separadas espacial e não temporalmente. Mudava-se de estação a passeio, no fim-de-semana, porque sim. Tenho até um nome para ele: Terra.

Um livro por semana diferente

As palavras em jogo - 30 entrevistas e uma memória - josé do carmo francisco

«As palavras em jogo» de José do Carmo Francisco

Está quase a chegar às livrarias este livro de 220 páginas que recupera do pó do relativo esquecimento 30 entrevistas e 1 memória, lembrando deste modo 30 anos de jornalismo. No universo multifacetado dos entrevistados há um abrangente olhar sobre o Desporto e a Sociedade: Álvaro Cunhal, Américo Guerreiro de Sousa, António Alçada Baptista, António Roquete, Carlos Mendes, Clara Pinto Correia, Daniel Sampaio, David Mourão-Ferreira, Dinis Machado, E.M. Melo e Castro, Eduardo Guerra Carneiro, Eduardo Nery, Fausto, Francisco dos Santos, Francisco José Viegas, Helena Marques, Joaquim Pessoa, José Duarte, José Fernandes Fafe, José Manuel Mendes, José Nuno Martins, José Quitério, Lídia Jorge, Luís Filipe Maçarico, Mário Jorge, Matos Maia, Mia Couto, Nicolau Saião, Rita Ferro, Romeu Correia e Urbano Tavares Rodrigues.

As entrevistas e a memória de Francisco dos Santos (1878-1930), o primeiro português a jogar em Itália, foram publicadas entre 1992 e 1996 na Revista BOLA MAGAZINE que entretanto cessou publicação. Algumas delas foram mais sintéticas devido à falta de espaço mas todas apresentam o interesse do depoimento das diversas figuras públicas sobre a sua relação com o Desporto. Apenas dois aspectos: primeiro – algumas delas trazem anexos em verso e em prosa do entrevistado que muito enriquecem o conteúdo final; segundo – a partir destes textos é possível organizar um perfil do futebol em Portugal no século XX desde a memória de Francisco dos Santos em Roma na primeira década ao Eusébio da década de setenta aqui recordado por José Duarte passando pelo Mário Jorge dos anos oitenta e sem esquecer António Roquete que jogou nas década de vinte e de trinta além de Francisco José Viegas que recorda Madjer e Dinis Machado que lembra nomes dos anos 40, 50 e 60 como Araújo, Passos, Jesus Correia, Arsénio, Vasques, Travassos, Germano, Matateu, Jaime Graça, Hernâni, Águas, Humberto Coelho, Ian Rush, Yazalde, Carlos Gomes, Azevedo, Bento, Banks, Yashine, um nunca acabar de homens, de memórias e de mitos. Sem esquecer as motos de Eduardo Guerra Carneiro e as bicicletas de Lídia Jorge.

La mancha

Os seus executores são gente mais à esquerda do que o PS, com pretensões intelectuais, mas com a pior das tentações intelectuais, a que vem da desenvoltura e do sentido de impunidade de quem acha que está no poder e tudo lhe é permitido.

Pacheco

*

Salvo melhor informação, a Sábado é uma publicação paga e que paga aos seus colaboradores. Isso quer dizer que o Pacheco é pago para escrever na Sábado. Logo, se o Pacheco mente ao escrever na Sábado, duas conclusões podemos tirar em concomitância: (i) Pacheco recebe dinheiro para/por mentir e (ii) a Sábado paga a um mentiroso.

Uma das características que mais prejudicam o Pacheco é o seu elitismo estéril e solipsista. Repare-se: alguém no Aspirina B lhe comunica que ele errou e pede-lhe explicações, só para ter como resposta um soberbo silêncio. Ou seja, o Aspirina B, que não passa de um blogue onde se comunica livremente por iniciativa pessoal, é explorado por um profissional da opinião política para vender um artigo num órgão da imprensa profissional. É isto, não é, Pacheco? Já agora, quanto cobras por artigo? Ou recebes ao mês? Conta aí, já que somos sócios e eu não tinha sido avisado.

Haveria muito, muito, muito a dizer do Pacheco, do PSD e desta direita decadente, refugo do cavaquismo a viver o seu estertor, tendo apenas como objecto de análise o texto A Frente da Calúnia – um exemplo supremo da velhacaria a que se chega quando a ética é tão-só uma pedra na mão. Mas fico-me pelo aspecto mais assustador, isto de um dos maiores passarões da política nacional se ter deixado apanhar por um anónimo. Neste momento, eu sei algo a seu respeito que resulta dele ter presumido algo a meu respeito. Será um padrão? Será com estes critérios, ou falta deles, que despeja as suas teorias da conspiração e demais considerandos políticos? Tem pinta disso, pela arrogância do animal. Não se trata apenas da falta de discernimento, é mais grave: quem acusa à maluca, inventando a respeito de terceiros sem um pingo de vergonha ou mísero bom senso, exibe uma desvairada convicção na sua impunidade. E, ironia das ironias, é esta mesma praxis que projecta nas telas brancas que rodopiam à sua frente. Quixotismo de grande pança.

Um livro por semana 163

Outono Antonio Salvado Kousei Takenaka

«Outono» de António Salvado

António Salvado (n. 1936, Castelo Branco) é autor de 40 títulos de poesia e membro honorário da Associação Cultural Takenaka-Basho de Pintores, Poetas e Amigos do Japão.

O seu mais recente livro de 103 páginas integra poemas seus traduzidos por A. P. Alencart (castelhano) e An Oshiro (japonês) sendo cada poema acompanhado em página par por desenhos de Kousei Takenaka (n. 1950, Ishikawa).

O ponto de partida é o Outono («Outono. Como restam / ainda nesta árvore / as verdes ilusões?») e o ponto de chegada é a Morte: «A única ambição / consistiu em doar-se / (lê-se no epitáfio)».

No intervalo entre Outono e Morte fica um princípio para a Vida: «Entrego-te o segredo: / nunca o teu coração / trema perante a dor.»

Todo o percurso dessa Vida se revela oscilando entre Natureza («Há papoilas e espigas nos teus olhos: / o reflexo da breve pequenez / do silêncio da terra quando gera») e a Cultura que tanto pode ser a Escrita («São páginas e páginas / que tu foste escrevendo. / Porém pouco disseste») como pode ser a Música: «Cavos sons: os adufes / repercutem angústias? / meigos aprazimentos?»

(Editorial Verbum e Trilce Ediciones, Fotos: Jesus Formigo e Jacqueline Alencar)

Teste de sobriedade

Quando tiveres dúvidas acerca do grau de alcoolemia do indivíduo ao volante, basta fazer esta pergunta:

Se trocássemos Teixeira dos Santos por um comité de sábios constituído pelo Medina Carreira, Vítor Bento, Eduardo Catroga, João Salgueiro, César das Neves, Ferreira Leite e Cavaco Silva, em que percentagem se reduziria a inteligência no Ministério das Finanças?

O grau de alcoolemia será inversamente proporcional à percentagem indicada.

Olhar o monte

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas.

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.
Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

Vejo o monte quando olho para ti.