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No meu post de há dias, A Pavorosa, aludi a um “boato”, já velho e enfeitador de dezenas de livros e milhares de sites na Internet, segundo o qual os americanos teriam oferecido aos russos, de bandeja, o segredito da nojentíssima invenção chamada bomba atómica. O Fernando estranhou, não sei se no gozo. Vou arrancar mais umas quantas pétalas a essa flor da intriga. Desculpem-me os que sofrem de alergias.

Do ponto de vista conspiracionista, que é o meu, e portanto sem peso político nenhum, a prova de que os segredos da bomba atómica foram passados aos russos por certos americanos nos poleiros e corredores do Poder dessa altura, possivelmente antes do clarão experimental, é até uma das que oferece menos problemas com a venda a retalho ao público curioso. Baseia-se nuns diários pessoais publicados por um oficial do exército americano, um tal major Gordon, encarregado de abrir e despachar caixotes, durante a guerra, via Alasca, para a União Soviética, no âmbito dum programa de ajuda então chamado Land Lease. Segundo o senhor, o segredo ter-se-ia feito acompanhar de todos os ingredientes necessários à produção do maravilhoso cogumelo de exterminação de inocentes. Aquilo, pràticamente, era só montar e carregar no gatilho. Nada de matemáticas nem dores de cabeça.

Há dois caminhos por onde se pode encaminhar a lógica disso ter acontecido. Por um lado, os USA e a URSS eram duas nações òbviamente interessadas, nessa altura, em derrotar a máquina de guerra da Alemanha, ela própria a trabalhar esforçadamente para conseguir a sua bomba, e do Japão. E por outro - dependendo daquilo que tenha sido acordado em Ialta pelas três cabeças grandes aliadas, e que não deve ter sido pouco em matéria da divisão do bolo que já estava no forno em Stalinegrado - uma planeada Guerra Fria depois da vitória, seria muito mais plausível e credível se ambas as partes possuissem as mesmas armas de dissuasão. Bem dito e bem feito. Em princípio.

Claro que durante muitos anos o major George Racey Gordon foi apodado de maluco e mentiroso tanto pelo “establishment” americano como pelos comunistas locais, uma dupla que também funcionou muito bem durante o chamado Mcarthyism, a tal caça às bruxas que em Portugal ensejou muitos discursos em cinematecas introdutórios de projecções de obras-primas da suposta sétima arte. Foi nessa altura que ficámos todos a saber que o Humphrey Boggart, Truman Capote e Richard Comte eram progressistas e John Wayne e Robert Taylor eram reaccionários.

Até aí tudo bem, normal e esperado nas reacções à indiscrição do nosso major - chama-se queima das papeladas e testemunhos de certos soldados curiosos que podem contrariar ou impedir o desdenrolar calmo da História de acordo com as agendas secretas. O pior é que, um belo dia, o próprio filho de Roosevelt, de seu nome James, resolveu sair-se com um “romance” que intitulou A Family Matter. Não obstante tratar-se de um trabalho “ficcional”, o enredo, contam-nos os que leram a obra, anda à volta da “decisão audaciosa do Presidente (Roosevelt) em partilhar com os russos os resultados das pesquisas do Projecto Manhattan”. E, claro, Bingo! Mas nunca ninguem explicou por que razão Holywood dos anos 80 não fez um filmeco sobre esse pedacito importante da história da guerra, de acordo com os relatos de Gordon e James. Que raio, a Joan Fontaine e o Gregory Peck ainda estavam em idades de aparecerem no papel do casal Rosenberg e o que não faltava era sub-estrelas gordas e matulonas, com ou sem bigode, para fazerem de Churchill e Staline. Talvez o Valupi, que é muito dado a andar pelas tecas do cinema, tenha uma explicação para isso.

O capítulo 29 do livro The Unseen Hand, de Ralph Epperson (corram que talvez ainda consigam apanhar um exemplar dele esquecido no armazém dalguma editora macaca de Lisboa ou na Feira da Ladra) descreve, baseado em numerosíssimas fontes e autores, esse passo da intriga atómica e muitos outros, mormente sobre as ajudas tecnológicas e económicas do Capitalismo, antes, durante e depois do New Deal e do Land Lease, ao Comunismo de Lenine e Staline e por ai fora, com a construção de refinarias e siderurgias, e duma famosa fábrica Gorki construida por Henry Ford nos anos trinta, etc., etc., tudo 100 por cento tecnologia americana, com os cumprimentos desse e também dos Rockfellers, da Standard Oil e da ubíqua Shell, a das libras e tulipas. Que não é vergonha nenhuma num mundo ideal e transparente, diga-se de passagem, pois somos todos do mesmo planeta e devemos entreajudar-nos. O que é vergonha, altamente suspeito e inegàvelmente conspirativo, é não se ter contado isso aos operários e intelectuais da esquerda crédula e babosa, pois teria-se-ia evitado muito trabalho e especulação por parte dos teóricos marxistas remendões que mais tarde vieram imputar ao “revisionismo” as culpas pela queda estrondosa do edifício soviético no fim da década de 80. O mal vinha de longe e nem era “mal”, afinal. Era agenda por encomenda. Agenda que continua, viçosa e criativa, a enganar outros com os truques embasbacantes dos novos ilusionistas. Que rico circo!

TT


  1. 1 sininho

    TT
    És o Woody Allen da política.

  2. 2 py

    … eu fiquei com os pés molhados hoje, constipadei-me e sobre o post fiquei a pensar… Amanhã digo.

  3. 3 Valupi

    Pois, compadre TT, eu não sei explicar tamanho e pérfido boicote a um enredo com supino apelo cinematográfico. Mas parece-me essa marosca ser a prova decisiva nisto tudo: se os judeus de Hollywood censuraram, é porque deve ser verdade!

  4. 4 py

    pois! O circo… tenho de voltar a ver os misfit outra vez. M & M.

  5. 5 Trilby

    E tudo porque deu um Flash ao Gordon e pôs-se a abrir caixotes e a escrever diários.

  6. 6 Pedro Oliveira

    És mesmo inteligente - como todos os malucos da conspiração…

  7. 7 Volguiner

    Caro Patrício,

    Tens o livro do The Unseen Hand, de Ralph Epperson , em Português???

    Estou interessado…
    abraços do Brasil…

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