Desde que existe o giz que este se utiliza para desenhar no exterior. O material que usámos na escrita em quadros de ardósia foi substituído por um mineral comprimido, o gipso, mas manteve o seu nome artístico. Sobretudo entre as crianças pobres em meio urbano, as que brincavam na rua, o giz, disponível em várias cores, foi desenhando no espaço público. Em jogos tradicionais, como a macaca ou o caracol, assinalando uma componente lúdica que já remete para a virtualidade de um espaço dentro do espaço, em desenhos livres e sobrepostos ou mensagens precursoras de graffiti e tagging, a marca a giz constrói presenças efémeras, lavadas pela primeira chuva. Mas a tecnologia possibilita o seu registo, a internet a sua difusão. O que explica os primórdios dos retratos e caricaturas produzidos para turistas em intervalo de descanso a troco de algumas moedas, sobre o asfalto e passeios de lugares turísticos em época alta, e a emergência de artistas de rua que fixam a efemeridade das suas obras nas nossas caixas de correio electrónico.
Agora damos um salto temático. Os frescos anamórficos permitiam a ilusão de altura e a manutenção do princípio da verosimilhança na pintura sobre calotes esféricas (cúpulas). Anamorfoses são representações cujo objecto se apresenta deformado no registo bi-dimensional, quando observado de frente, assumindo uma vocação realista a partir de um ângulo determinado. Originalmente concebida como uma estratégia de dissimulação para representações proibidas, ou codificadas, mensagens políticas ou eróticas, e passível de ser percebida através do uso de espelhos específicos, a anamorfose serviu também propósitos simbólicos ou jogos de sociedade.
Numa operação cinemática que liga a arquitectura à mobilidade do espectador, alguns artistas de rua exploram o potencial da efemeridade do giz, em construções que investem na cultura pop, abrangendo os seus ícones ou temas contemporâneos, incluindo a sátira política. Têm um sentido lúdico, como é tradição da anamorfose satírica, pois ao preverem a deslocação do espectador, transeunte, usam a deformação como esconderijo do objecto representado e o factor surpresa trazido pelo ponto de observação correcto, o gozo da revelação. Julian Beever é um destes artistas. Usando os princípios da anamorfose, cria pinturas em trompe l’oeil no espaço público. Chegados aqui, ao ponto da descoberta, obtemos uma ilusão de estarmos perante uma abertura verdadeira do espaço real, onde novos e virtuais espaços, criaturas e objectos rasgam o dia com o insólito.
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muito giro, técnica fabulosa.
O que eu queria mesmo era pegar no giz cá de casa e ir pela cidade fora com o meu filho e brincar ao giz desta maneira. … mas como parece muito dificil vou guardar o giz cá de casa e brincar na parede do quintal.
Mas fica a imagem cá dentro do que seria possivel se Julian Beever.
Já recebera uma vez por mail várias fotos deste tipo de arte e o que mais me custava era pensar desapareceriam para sempre a não ser das fotografias tiradas…
Confesso-me admirador do anamorfismo, sem qualquer dissimulação.
Já conhecia o trabalho dele…. mas não lhe conhecia o nome…um verdadeiro criador de efeitos especiais..”a la pata”
Muito bem, mesmo bem, bem era estas coisas escritas noutro lugar. Tu bem sabes…
olha, não respondi aqui! que lapso, tss tss.
sem-se-ver, a anamorfose é uma técnica com regras de perspectiva que, se não me engano, foram desenvolvidas por leonardo da vinci e descritas por piero della francesca quando começou a ficar cego e se dedicou à matemática e geometria.
dina, que bom, tens uma parede no quintal para desenhar.
raquel, quase tudo desaparece, tarde ou cedo; isso não me faz confusão, desde que fique um registo. mais escondidos estão os desenhos do passado, que raramente vão a exposição pela sua fragilidade, estando disponíveis apenas nos arquivos e para estudiosos autorizados.
valupi, fazes muito bem, tu não és uma anamorfose para te pores para aí com dissimulações.
joni, pois, ele tem andado aí pela net. é engraçado que estes trabalhos acabam por ser mais divulgados que as obras-primas dos museus.
smo, sei, sei, sei. faz de conta que são só exercícios de manutenção. e no fundo são.