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Caro Henrique Raposo,
Compreendo o seu dilema: você nunca perdeu tempo com autores marxistas (havia sempre tantos livrinhos com capinhas coloridas para ler). Acontece-lhe o que me aconteceria a mim, se me pusesse a criticar um qualquer liberal, citando outros liberais: não dominaria suficientemente a matéria. Mas isso não o deve impedir de se precaver e de evitar fazer figuras tristes nas páginas dos jornais. A sua crítica sobre o último livro de Negri na revista do Diário de Notícias é um desastre. Para começo de conversa, deixo-lhe algumas precisões e uma lista de compras:


1. Ao contrário do que sucede nos conservadores, não existem “neo-marxistas”, muito menos tipos representativos dessa suposta corrente, que você com tanta graça identificou como sendo o Samir Amin e o Immanuel Wallerstein . Mesmo no “Ocidente”, os marxistas são muito variados. Recomendo-lhe que leia urgentemente um livrinho pequenino e velho, existe em inglês e em português, de Perry Anderson, “Considerations on Western Marxism”.
2. Dizer que para Negri o mundo está reduzido ao Império e à Multidão e que nos processos entre eles e na história não existem homens e ideias é confundir Negri com uma vulgata de Althusser. A corrente em que Negri se insere, o “operarismo”, pode ser criticada pelo inverso, por um certo subjectivismo. Veja: no marxismo clássico, os Modos de Produção (Feudalismo, Capitalismo, etc..) só são substituídos quando as Forças Produtivas entram em conflito com as Relações de Produção. Esse conflito, em grande parte das correntes marxistas, tem uma origem quase tecnológica: os capitalistas que concorrem entre si para obter a sua fatia de mais valia, vão modernizando progressivamente as empresas, num processo de desenvolvimento tecnológico que correlativamente provoca uma maior concentração e centralização do capital. A produção torna-se cada vez mais social, enquanto a posse dos meios de produção é cada vez mais individual. Essa situação, no capitalismo, tende a despertar a consciência de classe do proletariado que passa duma consciência individual para uma consciência de classe, com implicações na acção política. É essa mesma classe que encabeça a contestação ao capitalismo. Desculpe a vulgata, mas você precisa de um curso básico para poder não escrever disparates.
No “operarismo” o processo tem outra interpretação:
Escreve Tronti, um dos fundadores do “operarismo” com Negri: “ Nós consideramos, também nós, primeiro o desenvolvimento capitalista e só depois as lutas operárias. É um erro. É preciso inverter o problema, mudar o conceito, e voltar a analisar: e o começo é a luta da classe operária”. Para o “operarismo”, a luta de classes é que explica a evolução tecnológica do capitalismo e a passagem do Fordismo e do Taylorimo para o pós-fordismo e pós-taylorismo só pode ser esclarecida à luz da luta conduzidos por segmentos da classe operária. Para esta corrente, a classe operária não é una, está em permanente recomposição, e não se opõe da mesma maneira ao capitalismo.
3. Aqui entra o problema da “alienação” já presentes nos escritos de Marx, mas que retomada pela “Escola de Frankfurt” (não, não são neo-marxistas) do qual Marcuse faz parte. Para Marcuse, como para outros teóricos há uma quase impossibilidade da revolução porque a classe operária se encontra inserida no sistema, presa às suas prestações do carro e da casa e já tem algo a perder. Neste contexto há camadas mais capazes de contestar o sistema, dada a sua situação de precariedade. Embora extremado em Marcuse, esta preocupação já existia em muitos pensadores anteriores e até em parte das obras de Marx, nomeadamente nos Manuscritos de 1844, em que Marx explica os mecanismos pelos quais o trabalho se torna estranho e alienado do trabalhador. Mesmo no Capital, o problema da alienação está sempre presente: “na realidade a relação capitalista dissimula a sua estrutura interna na indiferença total, exteriorização e alienação, nas quais coloca o operário em relação às condições de realização do seu próprio trabalho (…) o operário comporta-se perante o carácter social o seu trabalho (…) como se tratasse de uma potência estrangeira.”.

Como vê, a coisa é bastante mais complexa do que o seu artigo deixa antever. O resto da sua crítica sobre Negri, fica para uma outra altura, quando eu me apetecer toturar os leitores deste blogue. Claro que ficam por discutir as incursões e Spinoza, a perda de soberania dos Estados Nação, a ideia de multidão. Sobre o facto de Negri perder tempo a discutir o amor, sempre lhe digo que há coisas piores, e o homem é um filósofo, há uma longa tradição de discussão filosófica sobre essa matéria, e se até o Jon Elster que é considerado de uma corrente de marxismo analítico tem um livro sobre paixões, porque não o pobre Negri…
Sugiro-lhe para final de conversa que adquira dois livros com urgência: o “Dictionnaire Critique du Marxisme” organizados por Georges Labica e Gérard Bensussam, editados pela Presses Universitaires de France e o mais acessível (há em inglês e português) “Dicionário do Pensamento Marxista” editado por Tom Bottomore, existe uma edição da Jorge Zahar Editor. Estes livrinhos não substituem a leitura dos originais, mas evitam que se escrevam disparates.
Caro Henrique Raposo, boas leituras e mande-me com urgência uma listinha de livros neo-cons, talvez eu veja a luz. Tenho lido o João Carlos Espada com afinco, mas ainda não consegui.


  1. 1 Luís Lavoura

    “quando eu me apetecer torturar os leitores deste blogue”

    Não precisa, já torturou o bastante.

    Você também lê Boaventura Sousa Santos, ou só Negri?

  2. 2 Nuno Ramos de Almeida

    Luís Lavoura,
    Até o leio a si, com prazer. Lamento desiludi-lo, mas as teses do Boaventura não têm nada que ver com as do Negri, salvo, talvez, o facto de ambas serem impressas em papel.

  3. 3 RAF

    Caro Nuno,
    Li com interesse o que escreveste, sem me sentir torturado.
    Tenho seguido Negri com atenção, e escrevi sobre o assunto, logo nos posts de abertura do Blue Lounge.
    Espero comentar este teu post e, caso se justifique, o artigo do Henrique Raposo, que não encontrei. Não sei bem quando, porque estou num período algo crítico. Ainda assim, não quero perder o timing.
    E não percas a cabeça, que não vale a pena.
    Um abraço,
    Rodrigo Adão da Fonseca

  4. 4 RAF

    Acabei de obter o artigo do DN. De facto, não há nada que o Centro de Documentação da instituição capitalista para que trabalho não tenha. É no regresso ainda trouxe algumas coisas que nem ia à procura:)

  5. 5 Nuno Ramos de Almeida

    Caro Rodrigo Adão da Fonseca,
    Obrigado pelo seu amável comentário. Aguardo a sua opinião.

    Cumprimentos,
    NRA

  6. 6 CausasPerdidas

    De acordo com o comentário.

    Sobre o “Multitudes”, chamo-te a atenção para um interessante artigo de Daniel Bensaid que foi traduzido para português pela revista “Combate” (n.283, Junho/Agosto 2005).

    Fico a aguardar pelo teu próximo post sobre o assunto.

    Quando se sai um pouco dos “fait-divers” não é torturar.

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