Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Li isto há minutos num romance espantoso: “nunca possuí qualquer relógio, de parede ou despertador e muito menos de pulso. Os relógios sempre me deram vontade de rir, coisa basicamente mentirosa, talvez porque sempre resisti ao poder do tempo graças a um impulso interior que não entendo muito bem, sempre me fechei à chamada actualidade, na esperança, penso eu hoje, disse Austerlitz, de que o tempo não passe, não seja passado, de poder ir atrás dele, de encontra tudo à chegada como dantes, ou, melhor dizendo, de descobrir que todos os momentos do tempo existiram simultaneamente”.
Recordo-me agora que nos meus dias de juventude também abominava os relógios. Melhor, ignorava-os, com uma distância que anulava até a possibilidade de um desprezo casual. Tinha na mesinha de cabeceira uma gaveta cheia de destroços sem pilha, sem corda, sem caminho de regresso à rotina do tiquetaque. Lá ia perdendo comboios, aviões até, com a alegria pateta de quem julga que todos os tributos são devidos aos deuses da juventude. Não resistia ao “poder do tempo”; fazia de conta que ele não me dizia respeito, que navegava bem acima das suas correntes escuras. A tal “actualidade” era apenas um prólogo entediante para as maravilhas que o futuro por certo me reservava. Não me afligia a passagem do tempo, apenas deplorava a sua morosidade.
Às tantas, sem transição clara que me tenha ficado na memória, dei por mim a gostar de relógios. A gostar, não; a adorá-los. Lia intermináveis artigos de relojoaria, gastava dias face a complicados esquemas de balanços, turbilhões, escapes. Depois, comecei a comprar anacrónicas e caríssimas máquinas suíças de funcionamento temperamental e nomes estranhos. Claro que só sentia cada um destes relógios como pertencendo ao meu pulso depois de conhecer intimamente o papel de cada engrenagem no seu movimento; a beleza escondida de cada roda dentada, a ponderosa lentidão do rotor em platina, a necessidade absoluta do mais ínfimo rubi. Não sei se uma mania assim já mereceu honras de nome próprio, de um pedestal na taxinomia labiríntica das perturbações mentais, mas está mais que na hora: andam por aí muitos como eu.
Posso não me lembrar da queda nesta peculiar doença. Mas sei bem que mudanças na minha vida a acompanharam. E consigo ler nas letras garrafais o óbvio: a minha obsessão com relógios mecânicos revela um desejo claro de dominar o tempo. Uma ânsia de ter coisas a dizer, opções a fazer sobre ele. Não escolhi um tempo sobre-humano e infalível, daqueles que continuarão por certo a marchar indiferentes bem depois da minha última badalada; esse é o domínio dos relógios digitais, dos monstros a césio, dos leviatãs que regem observações astronómicas ou as engrenagens celestes do sistema GPS. Escolhi um tempo artesanal, entendível, imperfeito, a requerer que eu não me esqueça de lhe dar corda, sob pena de ver todo o universo estacar, entre chiadeiras mil e reclamações das pessoas sérias, que têm onde ir. Um tempo que pode ser preciso em si mas nem se sabe manter síncrono com o resto do universo: é raro acertar com precisão um dos meus brinquedos suíços.
Olho através do fundo de safira do meu cronómetro e vejo mais do que rodas gravadas, em trânsitos tão bem coreografados. Surpreendo ali, afinal, a prova do evidente embuste que é o tempo: como é que algo obviamente humano, embora admirável, pode alguma vez vir a sobrepor-se aos meus desejos ou à vontade de sobrevivência da minha carne? Claro que o tempo não existe, “embora, naturalmente, a perspectiva pouco animadora de eterna infelicidade e interminável dor fique assim em aberto”, para voltar ao bravo Jacques Austerlitz.

Comecei a escrever isto acreditando que iria dar a um ponto onde faria sentido falar do fim do ano e desejar-vos um feliz 2006. Perdi-me algures. Desculpem lá.


  1. 1 susana

    acho que é mais: uma mania assim já mereceu horas de nome próprio.
    dantes não usava relógio. se havia um dia em que sabia que iria precisar de saber as horas, lá fazia a triste figura de andar com o meu despertador, um cilindro ruidoso, no bolso. agora uso mas, quando acaba a pilha, fica o relógio (de ponteiros, sempre de ponteiros) na mesa de cabeceira meses a fio.

  2. 2 João Pedro da Costa

    Tu assustas-me. Que maravilha de texto.

  3. 3 Violetas Tardias

    Luís,
    Obrigada por partilhares este texto magnífico sobre o tempo. Todos os relógios que tenho em casa não funcionam, cansados de tanto tempo a trabalhar e resta-me o relógio do telemóvel. Mas não é por isso que o tempo deixa de funcionar.
    Lembrei-me agora duma frase que li algures e era mais ou menos assim: o amor é o tempo ao contrário.

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