Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Com este trabalho, encerra Jorge Carvalheira o que chama «contributo para a história da nossa civilização».

*

Era assim. Mas já dois séculos antes, mal tinha o Gama achado o caminho das Índias, houve entre nós outro monarca excelente e piedoso, que lá fora estipendiou os melhores mestres do moderno pensamento, para ilustração das escolas do reino, um deles, escocês, o viria a crismar de rei dos muitos nomes. Quem não tem ciência paga por ela, já uma vez ficou dito por ser verdade, como se vê tão antiga como a própria ignorância. A Salamanca foi ele requestar Clenardo de Lovaina, um homem de saber e modestos costumes, para educar os príncipes seus filhos. Ora já seu pai, para calamento e satisfação do fanatismo, ao mesmo tempo em que abria as portas do império, logo lhe amputava as pernas, ao expulsar do país os hebreus, donos dos cabedais e do saber que a empresa sumamente exigia. De modo igual, o piedoso rei dos muitos nomes, enquanto chamava os homens que às escolas trariam saber e civilização, logo mandou vir de Roma o jesuíta, que sem demora faria do reino coisa sua. Ademais, por lhe parecer isso tão pouco, logo aos mesmos renomados mestres cortava as pernas e o pescoço, requisitando ao papa a Santa Inquisição, que sem demora os meteria a tratos, por hereges. Entenda quem puder, e antes que tarde seja ouçamos a Clenardo, ele nos contará o que viu e deixou dito.

Chega do mar escravaria e ouro, e pimenta às quintaladas, por isso vive Portugal à grande e à francesa, qualquer trabalho útil se tem como vergonha. Jazem os campos de pousio a monte, que todos se vão ao cheiro da canela, às margens do rio de Meca, e muito melhor não estariam as artes mecânicas, se os ruivos europeus não viessem cá dentro exercitá-las. Os naturais desdenham servir-se das mãos, e tudo é feito por escravos e mouros cativos, esses que o próprio Deus despreza, ele é a preta da Mina que vai ao mercado, é a preta da Mina que lava a roupa, é a preta da Mina que varre a casa, é a preta da Mina que vai pela infusa de água, é a preta da Mina que faz os despejos à hora conveniente, e é ainda a preta da Mina a parir os filhos escravos com que havemos de lucrar no mercado, como se fizéssemos criação de pombos. Todos somos fidalgos, ou para lá caminhamos, por isso nos acompanha sempre, rua abaixo ou rua acima, a mesma comitiva, adiante os dois criados batedores, e um terceiro que nos leva o chapéu, e um quarto o capote, não vá ele chover, um quinto segura as rédeas da cavalgadura, um sexto vai ao estribo, a cuidar-nos da seda dos sapatos, um sétimo traz a escova, com que nos limpa do fato as poeiradas da rua imunda, um oitavo nos estenderá o pente em sendo necessário, e ao nono caberá enxugar com uma fralda o suor da cavalgadura, vindo ela a ser desmontada. Com tudo isto sofre a mantença da casa, onde a custo se acha que comer, mormente quando chega o domingo, dia em que ninguém apanha rabanetes na praça.

Aqui chegado, deu Gabriel com a ouvinte rendida ao fio cristalino da sua erudição. Não venho com estas coisas a dar-lhe lições de história, apressou-se a dizer, por certo dispensará as minhas, se as teve melhores. Porém, vastos demais são os tempos e muito longa a forma de os decifrar e dizer, para vidas tão curtas como as nossas, cada um há-de saber da sua.

Geneviève agitou-se no banco, no íntimo a sentir-se culpada, da ligeireza com que falara da revolução das flores. Quis saber por que dava Gabriel ouvidos a palavras de estrangeiros, em vez de usar vozes de portugueses, se da portuguesa história se tratava. Gabriel deixou o reparo no ar, urgia concluir.

O que pretendo mostrar-lhe, por isso de tão longe parto, de onde tudo começou, é que a aventura da Índia foi para os portugueses uma tormenta muito maior que a nau, como se ouve dizer, foi maldição que o país ficou, desde então, condenado a remir. Como se, ao vencerem o mar, tivessem os marinheiros desafiado uma lei qualquer do universo, ou um regulamento caprichoso da vida. Alguns no reino o perceberam, alguns em vão se lhe opuseram, com tão poucos homens e mais diminutos recursos, muitos ainda hoje não entendem como tudo foi possível. E o espanto maior, para quem nos conheça bem, é que toda a empresa se iniciou no mais perfeito conhecimento e no maior rigor da técnica. Os portugueses construíram as naus mais avançadas desse tempo, conheceram os ventos e correntes do mar como ninguém, elaboraram cartas, artes de marear e roteiros de viagem que eram a cobiça dos mestres europeus. Venceram as lendas antigas do mar tenebroso e alcançaram a Índia, e submeteram as deslumbrantes terras orientais à força de canhões, e feriram de morte culturas requintadas, e apoderaram-se das rotas do comércio com uma ferocidade selvagem, e trouxeram à Europa os ouros da Mina e do Monomotapa, e os escravos de Ajudá, e as canelas do Ceilão, e as pimentas do Malabar, e as porcelanas da China, e as sedas do Japão, e os cavalos da Pérsia, e os algodões de Cambaia, e a noz-moscada das Molucas, e os rubis, as pérolas, as lacas, e até um rinoceronte que emboscaram no sertão de Bengala e vão oferecer ao papa. Já se arredondam em Roma bocas de estupefacção, sabes tu lá, minha filha, diz-se que vai chegar aí o supino fulgor do exotismo. Porém o mor espanto não vamos nós poder vê-lo, e é o que haveria de mostrar-se nos grandes olhos da béstia couraçada, por se ver assim à frente dum leão, ainda por cima papa. É que já se vai afundando, à vista de Génova, a caravela que o transporta, tarde se arrependem os náufragos de tanta gala perdida, e mais que todos repesa está a fera, para tão pouco não merecia a pena ter dado a volta a metade do mundo, de estômago revoltado. Um dia há-de ela entrar no palácio de S. Pedro, mas pela simples porta do cavalo, já inofensiva e amparada em cabrestantes, a barriga inchada de palhas amassadas e os velados olhos mordidos dos caranguejos.

Parecia a vida uma festa.


  1. 1 susana

    Por qué no te callas?

    [nota da admin.: só para assinalar que esta susana não é a susana que faz parte do aspirina b…]

  2. 2 fmv

    Ó Susana Papagaio,

    Tens 20 a Espanhol, prontos, pá.

    E, agora, calas-te realmente?

  3. 3 Rui Matias

    Caro Jorge,

    Não há comentário que se possa fazer!
    Na realidade o que de melhor temos a fazer é ler; reler; aprender e deliciarmo-nos com a leitura!

    Parabéns! Precisamos de muita mais gente assim, que nos tempos que correm… “Quê deles?”

  4. 4 Tininha

    Ai Fernando com esse nome de certeza que é do Seixal. Faça uma operação para passar a chamar-se Nandinho, que é muito menos Cova da Moura. E “Venâncio”, ai querido, que raio de nome de família. De certeza que é da banca das couves. Mas, paciência, cada um nasce no seu meio!

  5. 5 Sophia

    La tibia ochim liubliu

  6. 6 z

    já agora, uma boa notícia:

    http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=58&id_news=306241

    Comecei hoje a ler: Contantino de Bragança, VII Vizo-Rei da Índia, Aquilino Ribeiro, Portugália Ed., 1947

  7. 7 Valupi

    É de ler e navegar por mais. Por muito mais.

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