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O-Neill.jpg

Lida a extraordinária Biografia Literária que Maria Antónia Pereira escreveu de Alexandre O’Neill, fica-me uma pergunta, que cada vez mais se avoluma: como é que, entre as dezenas de indivíduos com que o poeta contactou na Lisboa dos anos 40 a 80, entre o Chiado e o Príncipe Real, não aparece Luiz Pacheco?

No livro, o nome de Pacheco figura uma vez, e, convenhamos, nada tem aí a ver com O’Neill. Lê-se que Pacheco teria descoberto que, em certa capa de revista que O’Neill editara, aparecia não uma mulher mas um travesti. Isto constitui, em termos de relações pessoais, zero vírgula zero.

Ora, como compreender que, durante decénios de vida, num circuito cultural fechado, numa época e zona de Lisboa que, na nossa memória cultural, os evocam a ambos, com amigos íntimos comuns (como Cesariny), com círculos literários comuns (como o surrealismo), sendo os dois notórios espalha-brasas e enfants terribles, nunca O’Neill e Pacheco tivessem criado um mínimo de relacionamento, suficiente para, numa biografia de mais de 300 páginas, os encontrarmos algures juntos - nuns copos, num café, numa tasca?

Revezavam-se eles, porventura, em perfeita coreografia, no espalhar das brasas, sem nunca se encontrarem, mas divertindo o mesmo público? Terão eles alguma vez escrito um sobre o outro - ou também no próprio papel se ignoraram, se evitaram? Se existem universos paralelos, e nós neles, será este um exemplo, e logo espectacular?

Quem souber diga. Ardo de curiosidade. Talvez assim este Mundo se entenda um tudo-nada melhor.


  1. 1 Valupi

    Realmente, e tendo em conta a Lisboa, o Portugal, desse tempo de espaços tão os mesmos para todos, parece impossível não se terem cruzado em tertúlias comensais (pelo menos!). Outra figura aglutinadora de grupos, e comum aos dois, foi Cardoso Pires.

    * * *

    Valupi,
    Tento, há bem doze horas, colocar o comentário abaixo. O sistema chama-lhe ’spam’ e deixa-me lixado… Desculpa fazê-lo, pois, por este deselegante meio
    .

    Cardoso Pires é de facto - e cada vez mais nitidamente o vejo - a grande figura dinamizadora da sua geração. Ele inspirava, ele convencia, ele arrastava.

    Com O’Neill, acabou por ter uma longa, e dolorosa, zanga. A biógrafa refere - com a informação de Almeida Faria - uma viagem ao Brasil, onde Pires e O’Neill, sem se falarem, foram juntos a encontros, conferências e assim. Dois fulanos magníficos - e que o sabiam serem, um do outro.

    Teria havido algo do género, e ainda bem cedo, entre O’Neill e Pacheco?

    Saberá João Pedro George (olá, Esplanar!) alguma coisa esclarecedora?

    Fernando

  2. 2 jcfrancisco

    A mim também me parece muito estranho. Lembro-me bem de ter começado a escrever em jornais no ano de 1978 e nessa altura o Suplemnento Cultural do Dário Popular era frequentado pelos dois mas através de Jacinto Baptista, um homem bom e competente como jornalista «cultural». Não esquecer que com José Gomes Ferreira Pacheco também teve as suas «coisas».

  3. 3 Mariantónia Oliveira

    Caro Fernando Venâncio:
    O Luís Pacheco foi, de facto, uma pista que eu farejei. Havia uma única referência numa carta do O’Neill a Cesariny, de 1947, referindo que Luís Pacheco se tinha cruzado com ele no Rossio sem lhe falar. Portanto, por alturas do Surrealismo, não se davam. Mas as coisas poderiam ter mudado mais tarde. Certo é que, interrogados vários amigos íntimos do O’Neill, o Luís Pacheco não figurava nas relações dele.
    Em 1982, entrevistado por Baptista-Bastos ( Jornal ponto), à pergunta “Que lhe diz o nome de Luís Pacheco?” respondeu O’Neill: “Não conheço”. Zangas? Imbirrações de parte a parte? Sem mais informação, e tendo a certeza que nunca foram amigos, não procedi a mais investigações.
    Maria Antónia Oliveira

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