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Ao voltares as páginas do livro, ainda escutas o gemido da folhagem
quando o vento lambia o seu esplendor.

João Pedro Mésseder, Abrasivas, Porto, Deriva, 2005

O livro de Mésseder está editado, além de no original português, em galego normativo. O texto acima sai ortografado assim:

Ao voltares as páxinas do libro, ainda escoitas o xemido da follaxe
cando o vento lambía o seu esplendor.

Dá-se um bombom (que digo eu, uma tarte de Santiago inteira) a quem nos explicar como esta frase, com a sua sintaxe, a sua morfologia e o seu léxico, pertence a duas línguas diferentes. E esqueça a ortografia, sim, bom amigo. As ortografias nunca criaram línguas.

Claro: a frase é escolhida. Mas poderiam dar-se dezenas. Como poderiam dar-se vários contra-exemplos. Óptimo. O convite mantém-se. Expliquem-me, pois, a frase acima.

Para lá desta questão menor (e, concedo, bizantina): o livro de João Pedro Mésseder é belíssimo.


  1. 1 py

    Que engraçado! Para os nossos bros galegos os g são x. Não sei como é que a minha língua se dá com o assunto, vou experimentar.

  2. 2 py

    Fico com um bocado de cuspo a mais… acho que não sei fazer isto.

  3. 3 py

    mas portanto são sotaques diferentes, eu gosto muito de sotaques,

  4. 4 fv

    Py,

    Enquanto vais treinando, alguma informação mais.

    Nós distinguimos as consoantes sonoras [j], [v] e [z] das suas correspondentes surdas [x], [f] e [s]. (Este cantinho não aceita os símbolos internacionais, serve-te destes).

    O galego actual não conhece as três sonoras. Perdeu-as no decurso dos séculos, talvez por contactos (muito extra-conjugais) com o castelhano.

    E, por exemplo, pronuncia como o [x] do nosso ‘xarope’ a primeira consoante dos nossos ‘gente’ ou ‘janela’. E escreve-os, muito coerentemente, ‘xente’ e ‘xanela’. E, assim, dizendo ‘páxina’, escreve… ‘páxina’.

    Isto não precisa de ser assim para toda a eternidade, e há galegos - mesmo nacionalistas - que seriam felizes com uma escrita ‘etimológica’, globalmente a nossa. Mas, para já, escrevem assim.

    Enfim, a Galiza vale sempre o desvio.

  5. 5 py

    Perderam as sonoras? Se calhar andam tristes e ninguém deu por nada. Eu acho engraçado essa coisa do x, mas a minha língua já ficou amuada por hoje, se calhar é ciúmes de Primavera, melhor dormir.

  6. 6 João Pedro da Costa

    As ortografias nunca criaram línguas… naturais.

  7. 7 Confúcio Costa

    Curioso. Manos de sangue. Com nomes diferentes. Nada mais natural.

  8. 8 py

    acho que devia pôr o ’sotaques’ entre aspas, porque pressupõe uma grafia comum. Então são dois dialectos da mesma língua?

  9. 9 fv

    Py,

    Já se chamou de tudo ao galego e ao português: co-dialectos [isto é, dialectos um do outro], diassistema, línguas irmãs, línguas siamesas [separadas já crescidinhas] e, claro, duas línguas, depois de terem sido uma única.

    A minha percepção é de estruturalmente uma só língua com duas normas bastante diversas, sobretudo na pronúncia e na ortografia, razoavelmente no léxico e nalguma morfologia, quase nada na sintaxe.

    Feitas as contas todas, o galego não nos está muito mais longe do que o brasileiro. Sim, a ortografia camufla muita coisa…

    Ora, habitámo-nos a associar ‘brasileiro’ com chique, enquanto o ‘galego’ nos soa nortenho, e - é sabido - a norma de Lisboa formou-se, a partir de 1350, cortando com a do Norte e da Galiza.

    No dia em que o galego se tornar chique, lá vai Lisboa.

  10. 10 py

    Agora o que é bom, é que nós gostamos de todos, ou quase todos, os sotaques. Há lá uns brasileiros enrolados que eu não gosto. Mas o multiculturalismo é muito divertido. Eu não me dou muito bem a falar aqueles x, mas são bem-vindos os bros lá de xima.

  11. 11 py

    (eu tentei resistir umas horas!)

    só para dizer que a árvore da foto é um bordo (Acer sp.)

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