Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



UM MOURO NO NORTE (cont.)

Chegara eu de Lisboa? Sim, e de mais longe ainda. Do recanto mais fundo do fundo Alentejo. Vinha duma terra, Mértola, outrora cidade altiva, rica, porto mercantil que abastecia Lisbuna. Um pacífico povo mouro aí vivia, laborioso, feliz. Até ao dia, infausto entre todos, em que hordas cristãs de nortenhos, falando uma língua inaudita, vieram destruir-nos casas e oficinas, impor-nos uma religião, fazer-nos esquecer a amada língua berbere. Ainda hoje a minha cidade, que acabou vila, é uma das três ou quatro jóias urbanas do País. Pois sim. Mas seria exagerado agradecermos aos cristãos do Norte terem tido a gentileza de não nos riscarem do mapa. Por nós, nunca recuperámos da invasão. Hoje batemos palmas à selecção portuguesa? Acreditem que também teríamos feito uma boa equipa.

Não me tornei padre. Essa batalha, o norte cristão perdeu-a. Ficou o mundo, também, com um problema a menos. Hoje, do púlpito, eu encheria atentas naves com verdades em que eu mesmo não acreditaria. Uma vida exemplar não era, igualmente, de mim esperável. Ainda assim, garanto que tinha perfil para voos eclesiásticos. Neste momento, poderia estar já a cónego, quem sabe se a mais. Seria feliz? Algo me faz supor que não. Mas nunca mo poderei provar. Também a vida nos vai formando, e acaba por fazer de nós seres inverosímeis, a perguntarem-se ‘como é que cheguei aqui’, olhando à volta, procurando um código, talvez escrito no desenho dos ramos ou no voo das aves, que nos informe, finalmente, do que viemos aqui fazer.

Concedo: também não eram, estas, considerações que me visitassem o ânimo, naquela tarde, há cinquenta anos, em que de longe avistei Guimarães por primeira vez. Não eram estas reflexões, nem nenhumas outras. E por isso eu era feliz.


  1. 1 fv

    Do meu amigo, da adolescência bracarense, M., recebi este mail:

    Como tenho feito habitualmente, li o teu último texto postado no Aspirina. Está lindo, como a foto da criança que eras há 50 anos. Mas não gostei nem um pouco que me chamasses bandido cristão que te roubou a língua, a religião e a fazenda.

    A não ser que já te tenhas submetido a um teste de ADN para descobrir as tuas origens, tu ias a meu lado, brandindo a espada numa mão e levantando a cruz na outra, nessa fatídica data em que destruímos Mértola e a fizemos cristã. Não te lembras? Nem eu. Mas podia ter sido assim. Ou quem sabe se não sou eu o mouro e tu o cristão…

    Como vês, por aqui não se vai a lado nenhum. Se queremos as coisas tiradas a limpo, vamos para o ADN (parece que o D. Duarte Pio não precisa, mas ele é um caso à parte). É por estas e por outras que os sionistas querem reescrever a história. Imagina, meu caro, se agora déssemos em reclamar a terra onde viveu o pai do avô do bisavô da nossa avó?!

    Mas o texto é lindo e tu és um grande amigo. Os cristãos e os mouros que se avenham!

Leave a Reply





Aspirina box

Arquivos mensais

Pharmácias

As Ruínas Circulares
afixe (RIP)
BdE I (RIP)
BdE II (RIP)
de vagares...(RIP)
A invenção de Morel
Sociedade Anónima (RIP)

 

Farmácias de Serviço

 

100 nada
31 da Armada
A aba de Heisenberg
Abrupto
O Acidental (RIP)
Adufe.pt
A Gaveta do Paulo
Agridoce
Alexandre Soares Silva
Almocreve das Petas
Amor e Ócio
António Sousa Homem
Arrastão
As Ruínas Circulares
Atlântico
Avatares de um desejo
O Avesso do Avesso
Babilônia
Babugem
Bada Bing!
Bandeira ao Vento
Barnabé (RIP)
a barriga de um arquitecto
Beco das Imagens
Blasfémias
Bomba Inteligente
Bombyx mori
Bonfim
Blogue dos Marretas
Blogo Social Português
Cabra de Serviço
Caderno de Verão
Caixa de Costura
Canhões de Navarone
Cão de Guarda
Casa de Cacela
Casmurro (RIP)
A causa foi modificada
Causa Nossa
O céu sobre Lisboa
Charquinho
Cibertulia
cinco dias
Cocanha
A Coluna Infame (RIP)
Complexidade e Contradição
Confissão do Silêncio
Conta Natura
Contra a Corrente
Coroas de Pinho
Crítico Musical
Crónicas Matinais
Cruzes Canhoto (RIP)
Daedalus
Daily Make-up
Da literatura
Desesperada Esperança
A Destreza das Dúvidas
Diário Ateísta
É a Cultura, Estúpido!
Em Busca da Límpida Medida
Enresinados
Epicentro
A Ervilha Cor de Rosa
Esplanar
Esquerda Republicana
Estado Civil
a.estrada:
Estrangeiros no Momento
Eternuridade
Floresta do Sul
Fora do Mundo (RIP)
FotoBen
Frangos para fora
french kissin'
Fuga para a Vitória
Fumaças
O funcionamento de certas coisas
garedelest
Gato Fedorento
Geração Rasca
Glória Fácil
Grande Loja do Queijo Limiano
Grupo do Pato
Hipatia
Homem a Dias
:Ilhas
O Insurgente
Intermitências da Corte
A Invenção de Morel
Janela Indiscreta (RIP)
Janela Para o Rio
João Pereira Coutinho
Klepsy´dra
A Lâmpada Mágica
Laranja Amarga
Last Tapes
letra minúscula
Letratura
Malfadado
Mar Salgado
Margens de Erro
Mas certamente que sim!
Meditação na Pastelaria
melancómico
A Memória Inventada
Memória Virtual
A Metamorfose
Miniscente
Modus Vivendi
Muro Sem Vergonha (RIP)
A montanha mágica
Nada Niente
A Natureza do Mal
O Observador
Ó Faxavor...
A Origem do Amor
A Origem das Espécies
Palombella rossa
O Pastelinho
Pastoral Portuguesa
Pedro Chagas Freitas
pequeno blogue do Grande Terramoto
Periférica
pesadelo sem ar condicionado
Pólis & Etc.
Ponto e Vírgula (RIP)
Ponto Media
Pópulo
Portal Galego da Língua
A Praia
Quartzo, Feldspato & Mica (RIP)
Quase Famosos
read me very carefully
Renas e Veados
Rimbaud Warrior
Rititi
Rua da Judiaria
Ruialme
seta despedida
Silêncio
Solvstäg
Sound + Vision
Tempo Contado
Os Tempos que Correm
Tomara-que-caia
Três Pastelinhos
True Lies
Um blog sobre Kleist
O verso dos versos
Vício de Forma
Vidro Duplo
Vistalegre
Voz do Deserto
what do you represent
The world as we know it


© 2006/07 Aspirina B | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Wordpress | afinado por Paulo Querido | Topo