Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



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UM MOURO NO NORTE

Há gente que não assenta. Anda de terra em terra, aproveita o melhor de cada uma, e parte, parte de novo, que o vasto mundo chama. Uma pessoa assim sou eu. Nada de especial, adianto já. Mas sou irremediavelmente ‘especial’ para mim mesmo, e vivo na firme, ainda que improvável, convicção de sê-lo também para os outros. Ora, até nisso, não sou especial. É que todos, todos, assim nos sentimos. Vivemos confinados nessa desesperada, e também sólida, impressão de sermos o centro do mundo. Infelizmente, somo-lo. E, porque mais ninguém se dá conta disso, vivemos nesta desdita, e nesta solidão, que a gente sabe.

Não eram, estes, pensamentos que me atormentassem aquele domingo de Março de 1955 em que avistei Guimarães pela primeira vez. Nem é certo, sequer, ter percebido que era Guimarães aquilo que avistava ao longe. Vou explicar. Nesse longínquo dia, jogava o Benfica em Braga. Isso era uma boa razão para eu me meter à viagem, de Lisboa. A outra razão é que queria ser padre, e Braga era um sítio, digamos, muito adequado. Mas, e agora vem, não era bem Braga aonde me dirigia, e onde iria passar os oito intermináveis anos da minha adolescência. Era um alto cerro a leste da cidade, de onde se avistava o mundo inteiro, e Guimarães para começar.

Desde então, passei a acordar vendo a cidade três ou quatro léguas lá adiante, e garanto que há no mundo poucos espectáculos para um despertar assim. Quantas vezes a Penha não se recortou, nítida, sobranceira a um vale, o das Taipas, acamado num lago de nevoeiro, liso e brilhante. Tantos anos depois, isto ainda põe lírica uma pessoa. Depois, e o lirismo ainda não acabou, quantos pores-do-sol não viram estes olhos, em que Guimarães encerrava o dia num rosa-laranja glorioso, agora já não nítido senão irisado, como diriam os poetas. Já se percebeu: tenho da primeira capital portuguesa uma impressão muito devedora à natureza. Impressão limitada, decerto, mas intimamente enriquecedora. Também a natureza nos forma. De resto, mais tarde soube que jóia urbana Guimarães era, com um dos três ou quatro mais belos centros históricos do País. Na altura, este miúdo calhava caminhar pela cidade, achava bonito, mas não sabia quanto.

Chegara eu de Lisboa? Sim, e de mais longe ainda. Do recanto mais fundo do fundo Alentejo.

[prossegue e termina mais logo]

Este artigo apareceu, por convite de Pedro Chagas Freitas (ver blogue aqui ao lado), no jornal «Global Minho e Porto», editado em Guimarães. A fotografia é autêntica. Foi feita num fotógrafo da Rua dos Poiais de São Bento, em Lisboa, na noite anterior à partida para o Norte. Meios sofisticados permitirão identificar o emblema como de um clube importante da capital.


  1. 1 Anónimo

    Há meninos com uma sorte do caraças, mesmo do lírico Alentejo. Eu quando conheci Guimarães pela primeira vez, muitos anos depois disso, tinha montes de polícia a seguir-me o encalço. Mesmo assim, achei bonito, à noite, olhando por cima do ombro.

    E comparando essa com outras fotos de mais velho que já vimos de ti, quem é que pode duvidar de que não é só em política que as coisas estão a ficar cada vez mais feias, senhor burguês bem educado?

    TT

  2. 2 fv

    TT,

    Então, ainda admiraste Guimarães, mesmo com essa escolta? Sortudo.

    E, sim, eu era um puto giro. Mas não te enganes. Aquilo eram olhos penetrantes, varando o futuro. Eu via-me ancião, trocando patetices num blogue, com um fulano do outro lado do Mar do Norte.

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