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Hoje, na crónica que tem no «Expresso», escreve Inês Pedrosa sobre livros e editores, e diz algumas coisas duras e certeiras. À atenção de editores que, não a tendo lido, passem por aqui, destaque-se isto:

«Em Portugal ainda não houve coragem para a cultura democrática do meio termo: dos livros e autores criados nas estufas dos grémios e só para agremiados passou-se para a tabloidização descarada do livro-produto, com o corpo sorridente do autor recortado em cartão de tamanho natural rindo-se para nós e tapando o resto da «mercadoria» nas lojas de livros. É uma situação que convém sobretudo aos editores: aos ditos sérios, dá-lhes desculpa para reduzirem os sectores de filosofia e literatura, ou para manterem os escritores a pão e água de açúcar, recordando-lhes permanentemente a extrema generosidade que fazem em editá-los, neste mundo cruel de «best-sellers» de má vida, dominado pelo poder do capitalismo selvagem e dos hipermercados trituradores. Omitem pequenos pormenores, como esse, central, de que os custos de edição baixaram extraordinariamente com as novas tecnologias. É mais simples convencer os autores ditos difíceis de que a vida nunca lhes será fácil do que trabalhar para os tornar populares.»


  1. 1 e-konoklasta

    Bom, Venâncio, façamos as pazes,

    Agradeço-lhe que tenha destacado este artigo da Inês Pedrosa com o que concordo plenamente. Conheço suficientemente bem este meio da edição em que estive em situações muito pouco confortáveis, e, posso ainda acrescentar que os preços dos livros, desde que existem hipermercados, são inflácionados, para puderem manter margens “interessantes”, quando se vêem pressionados nas negociações de descontos com esses mesmos mastodontes que têm reduções que rondam até 60%, e não se cuibem de praticar “dumping” o que é punido por lei, quando para as livrarias andam entre 20 e 30%. Depois, o número de exemplares imprimidos, esse, é declarado abaixo da realidade, esta-se a ver porquê. São sobretudo as grandes editoras que recorrem a essas práticas. Os pequenos editores têm, em geral, um comportamento mais ético e mais dificuldades em subreviver num meio que é uma selva mas em que ningúem toca (é cultura).
    Assim, é enganado o Estado que, no fundo, somos nós todos, são engadados os leitores, os potenciais leitores que acham os livros muito caros, os autores e tradutores que andam a trabalhar para aquecer e os livreiros que se vêem na obrigação de fechar as portas. Que se saiba, o Carrilho tem culpas no cartório, ao lançar uma lei do preço único do livro que é completamente inoperante, foi como se não houvesse lei do preço único do livro, criada e defendida em França pelo mítico e falecido Mathieu Lindon, célebre editor das edições “de Minuit” que nos proporcionou, durante muitos anos, do que há de melhor em literatura, Beckett entre outros. Enquanto este homem viveu, houve um espírito de resistência às leis dos hiper e dos “nem best sellers” que se vendem às pazadas e que ocupam todos os destaques… escória.

  2. 2 LR

    e-k,
    Julgo que há ai algum exagero no que concerne os descontos para hipers (parece-me menor, em média) e para as livrarias (julgo que será quase sempre maior).

  3. 3 e-konoklasta

    LR,
    Garanto-lhe que não há exagero nenhum. Uma pequena livraria numca tem mais que uma margem de 30% e os hypers podem, pela quantidade, negociar até 60%. Mas é um detalhe, em relação ao texto que comentamos.

  4. 4 pepe

    Não venho defender ninguém, mas quando vejo que o esforço de marketing é essencial para a promoção do livro, como aliás de tudo o mais, merece reflexão atenta as opções dos editores e a dependência (fatal, claro) aos hipers: muitos leitores vão atrás do efeito de arrastão “já leste? já viste?”, compram e, depois, quantos chegarão ao fim do livro? Digo isto porque vê-se a lista dos best-sellers e qual o impacto que essas vendas têm nas conversas do nosso quotidiano?

    Quantos dos leitores do Código da Vinci se tentaram a ler alguma coisa sobre os evangelhos gnósticos? Até existe uma tradução dos mesmos em Portugal.

    O que me faz lembrar uma crónica que li no Público de hoje sobre um debate na Casa Pessoa a propósito dos Clássicos.

  5. 5 Sérgio

    LR, a margem para as livrarias mais pequenas raramente passa dos 30%, e nos hipers chega aos 60% quase sempre. Por isso eles podem fazer descontos que chegam aos 50%, e muitas vezes contornam a lei do preço fixo (que obriga a uma desconto máximo de 10% durante um período de 1 ano e meio) com a ajuda de brechas na dita lei Carrilho, que permite que isto aconteça em feiras fajutas que acontecem várias vezes ao ano. Mas o problema nem é esse. O problema é mesmo a super-inflação do preço dos livros com os custos muito mais baixos, como é referido pela Inês Pedrosa. Compare-se o preço dos livros cá com a vizinha Espanha, Inglaterra ou mesmo a mais cara França. E a qualidade do produto final. E as falhas editoriais gritantes, que incluem a edição de livros cujos direitos pertencem ao domínio público a serem vendidos com prefácios de famosos a quase vinte euros. Será que alguém se atreve a mudar este estado de coisas?

  6. 6 Fernando Venâncio

    e-konoklasta,

    Numa coisa tenho de dar-lhe razão: uma parte dos editores vive numa razoável impunidade
    (número real de exemplares produzidos, pagamento de royalties aos autores), mas sobretudo não atenta no desvalor, nem no valor, daquilo que edita.

    Mas a culpa também é nossa, de autores, tradutores e assim, pelo pouco que exigimos, pelo desprezo económico que já interiorizámos relativamente ao trabalho intelectual. Um fotógrafo, qualquer fotógrafo, é dez vezes mais respeitador do seu trabalho do que nós do nosso.

  7. 7 LR

    Falando como pequeno (minúsculo) editor, que até já teve obras em hipers, garanto que o desconto dado nunca se aproximou desse valor.

  8. 8 e-konoklasta

    LR,

    Precisamente, porque é um minúsculo editor que, provavelmente, nem pode vender em grandes quantidades, escapou ao massacre. As grandes editoras que têm muita “escória” e há escórias a vários níveis e de diferentes pontos de vista, desde más impressões a títulos de autores mais difíceis e mal promovidos pois os vendedores e destribuidores são, irremediavelmente, incultos, como a maioria do público potencial, vendem livros como poderiam vender aspiradores ou isqueiros.
    Isto resulta das minhas observações, pelo interior do meio, que datam de uma meia dúzia de anos. Não penso que tenha mudado muito.
    Claro, que nisto tudo, quem paga as favas são os autores (não estou a falar da margarida RP ou das Ritas a Ferros) os tradutores, os pequenos editores sérios, os pequenos e médios livreiros, e, sobretudo os leitores que não percebem o que se passa e que acha os livros um artigo de luxo e lá vão eles para as feiras que não são senão a ocasião para os grandes editores de vender à farta, pondo certos livros com 40% de desconto e fazendo uma concorrência desleal às tais pequenas e médias livrarias, mas o preço continua inflacionado que chegue…

  9. 9 e-konoklasta

    Caro Venâncio,
    É bem assim, os autores e sobretudo os tradutores só pedem para poder trabalhar e sabem que o mercado por aqui é difícil, e os editores não deixam de fazer o seu choradinho, mas toda esta situação é um todo, um sistema económico ou ecológico, se não se alterar por algum lado nunca mudará, está mais do que viciado o círculo.

    LR,
    Como pequeno editor, já alguma vez teve a oportunidade de ter um stand na feira do livro ?

    Para cúmulo a Associação de Editores e Livreiros, criada ainda no tempo em que os livreiros eram editores (hoje são os editores que são livreiros, veja-se a Bertrand e as E.E. América) é uma inutilidade pública e a dos Editores só defende os seus interesses. Mas o que fazer ? Como é que se vai dar a volta a esta questão ?

  10. 10 e-konoklasta

    Não chega fazer artigos de opinião bem escritos ou comentar na blogosfera.

    Decedidamente, dou bastante no imaginativo, mas nestas questões sou dum pragmatismo cirúrgico.

  11. 11 António Luís Catarino

    Cheguei tarde a este debate, mas no essencial estou de acordo com o e-konoklasta. Sou um pequeno editor (também) e estou associado. Nunca vi preocupação em unir interesses para ultrapassar os problemas da edição que são cada vez mais e maiores.. A desunião aproveita às grandes editoras, como é óbvio. Livreiros e editores hoje são a mesma coisa, sendo que a própria feira do livro serve mais para «despachar» o stock dos armazéns cheios do que outra coisa. Nunca uma pequena editora se salvará com o modelo actual da feira. No fundo, para eles, está bem assim. Em relação às tiragens, temos vindo a diminui-las. Essa é a verdade incontornável. Quando reemprimimos avisamos sempre o autor. A Inês Pedrosa fala dos custos de impressão que baixaram o que é, em parte verdade, mas isso tem uma relação directa com ao aumento da percentagem que a distribuidora e livrarias nos exigem. É quase impossível baixar os preços com as margens que nos são impostas e que tendem a aumentar mais num verdadeiro processo de chantagem. «Não aceita, então nada feito, não é?». Por último não estou a ver uma pequena editora, geralmente criteriosa na escolha do grafismo e da ilustração, a colocar a cara do autor na capa de um livro, ainda para mais sorridente. Ou, pior, um poster de tamanho natural Não temos nada a ver com isso. Na… não era para nós.

  12. 12 LR

    E-K,

    Por acaso, este ano tenho um terço de stand (por cortesia e simpatia da Fenda). Mas um amigo meu que lançou há bem pouco uma editora (a Saída de Emergência) até lá está com uma “barraquinha” só para ele…

  13. 13 LR

    António Luís,

    Acho que ninguém acreditaria em nós se aqui deixássemos escrito qual a percentagem do preço de um livro que acaba por ficar para a editora. Então se se tratar de uma tradução…

  14. 14 António Luís Catarino

    Pois bem LR, não tenho nada a esconder. Estou na feira de Lisboa e Porto no stand da minha distribuidora a Centralivros, porque nem ponho a hipótese de ter uma só para a minha editora. Quanto às percentagens de cada livro - 58% para a distribuidora, 8 a 10% para o autor /ilustrador, +- 10% de custos tipográficos, 10% de trabalho gráfico, mais revisão e/ou tradução, dá-nos uma margem de 10% para a editora. Às vezes menos. Caso para dizer que o último elo da cadeia é o autor e o editor. Não conheço mais ninguém. Os nossos autores sabem isso.

  15. 15 António Luís Catarino

    Pois bem LR, não tenho nada a esconder. Estou na feira de Lisboa e Porto no stand da minha distribuidora a Centralivros, porque nem ponho a hipótese de ter uma só para a minha editora. Quanto às percentagens de cada livro - 58% para a distribuidora, 8 a 10% para o autor /ilustrador, +- 10% de custos tipográficos, 10% de trabalho gráfico, mais revisão e/ou tradução, dá-nos uma margem de 10% para a editora. Às vezes menos. Caso para dizer que o último elo da cadeia é o autor e o editor. Não conheço mais ninguém. Os nossos autores sabem isso.

  16. 16 e-konoklasta

    Parece que houve problema com a caixa de comentários e tive que pôr o meu, no meu blog, com uma apreciação negativa em relação ao aspirinab, pensando que se tratava de censura.
    Sem qualquer rancor pois foi um mal entendido deixo o meu comentário no meu blog e faço um outro post para esclarecer o que se passou.
    Não me quero zangar com ninguém, já sei por vezes sou demasiado insistente… mas só ando nisto da blogosfera há 3 meses, cheios de surpresas, mas é a vida da “fauna das caixas de comentários”…

  17. 17 Fernando Venâncio

    e-konoklasta,

    Agradeço realmente que rectifique o seu post. Houve um problema técnico, cuja exacta natureza ignoro. Eu próprio, durante um dia inteiro, também não fui «allowd» neste mesmo espaço, quero dizer, neste espaço de comentários a este mesmo post.

  18. 18 António Luís Catarino

    Acho que não fui eu. Mas quando tentei comentar, clquei uma vez e apareceu-me três comentários repetidos. De qualquer maneira os dados que apresento são os correctos.

  19. 19 e-konoklasta

    O que prometi, já está feito: fiz um novo post a explicar o que se passou. O outro ficou lá por causa dos comentários.

  20. 20 LR

    Fernando et al,

    Acontece, mui singelamente, que demos liberdade ao sistema anti-spam para banir alguns IPs especialmente pertinazes na poluição. Acontece que de quando em vez um desses IPs está a ser usado em larga escala pela PT. E lá fica meio mundo sem poder comentar…

  21. 21 sombra

    com os hipermercados perdeu-se muito do imaginário de uma livraria.aquele quieto vaguear durante horas a fio por entre livros antigos cheios de poeira. perdeu-se isso,mas creio que cresceram as vendas e os leitores, embora quase sempre de coisas muito, muito más.no entanto a má literatura também tem o seu lugar porque, às vezes, é começando por ela que, mais tarde se descobrem outras àguas.
    quanto aos editores de livros de super-mercado, exactamente porque as suas vendas subiram têm, hoje, mais do que nunca, a obrigação de publicar os verdadeiros criadores. é que a literatura de qualidade, pela sua simples existência, é que cria as condições para que a outra exista. por arrasto e sem que o deseje, ou disso tenha culpa.deixe-se morrer a primeira e lá se vai, mais tarde ou mais cedo, a segunda. lá se vão os lucros.

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