Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Tenho na mão um livro brasileiro dum português. Não acontece muitas vezes. Este chama-se Mansões abandonadas e é uma antologia da poesia do José do Carmo Francisco. Tem organização de Floriano Martins, ilustrações de Sérgio Lucena e introdução de Nicolau Saião. Edita-o a Escrituras, de São Paulo.

A recolha inclui algumas das melhores produções do poeta. Mas não esta, de Jogos Olímpicos, livrinho de 1988. Que aqui transcrevo. Por gosto estritamente pessoal.

*

Futebol de quarta-feira

Para quem janta a correr e sai de casa mais cedo
para perder tempo na bicha do «36» no Rossio
não custa suportar nem o vento nem o frio
nem a dúvida do resultado que se transforma em medo.

O autocarro saiu completo e já vai na Avenida.
Daqui de cima vejo melhor a cara de quem espera.
E vejo melhor o condutor quando ele acelera
como se também fosse sua esta nossa corrida.

O resultado que vai sair em todos os jornais
nunca pode testemunhar o jogo, a sua história.
Daqui por alguns anos ficarão apenas na memória
os números, sem golos a menos nem golos a mais.

Agora sonho com os comentários de amanhã.
E sei que me vai custar mais a levantar.
Dói-me a garganta depois de tanto gritar
e para a próxima compro um cachecol de lã.


  1. 1 Valupi

    Muito bom. Também me junto ao gosto.

  2. 2 Zeca Diabo

    E rima e tudo.

  3. 3 jcfrancisco

    Hoje foi um Sporting-Penafiel para a Taça da Liga. Obrigado pela lembrança Fernando Venâncio. São estes momentos que resgatam o vazio do resto do quotidiano cinzento. Tenho é cada vez menos paciência para os maloios que aparecem de apito na boca. A Susana que gosta de palavras não precisa de ir ao dicionário da Sociedade da Língua Portuguesa. Maloio é mais que saloio, mais que rústico, mais que matarroano, é uma palavra deliciosa. Uma vez um amigo do Raúl Brandão ganhou sem querer um concurso de máscaras porque apareceu num teatro de Lisboa vestido de maloio tal como tinha chegado de Santarém.

  4. 4 Daniel de Sá

    O JCF tem nos temas desportivos alguma da sua melhor poesia, sem dúvida. Aliás da melhor que se faz em Portugal, porque ainda há quem pense que o desporto é uma coisa menor na nossa vida. É uma questão de alma.

  5. 5 luis eme

    “O Futebol de Quarta”, é a prova de que os bons poemas do José do Carmo Francisco, não se esgotam apenas numa antologia…

  6. 6 luis eme

    é “Futebol de Quarta-Feira” e não “O Futebol de Quarta” (as pressas são tramadas)…

  7. 7 susana

    pois, luis eme, até porque se acabava de dizer que no futebol era de primeira… ;)

  8. 8 jcfrancisco

    E a Susana nada diz sobre a palavra «maloio» que eu referi acima. O hóquei é muito bonito mas o futebol tem mais espectadores e pode permitir que um qualquer maloio se possa gabar lá no café da aldeia: «Viste aquele amarelo ao Liedson? Viste o golo anulado ao Romagnoli? Assim é que se enxofra!»

  9. 9 José Ferreira Marques

    Ó Zé Francisco!

    Maloio deve ser um saloio malvado, como os que apitam os jogos do Sporting…
    Força amigo.

  10. 10 jcfrancisco

    Esses nem sabem onde fica a Rua do Arsenal. ESte que não validou o penalty sobre Celsinho é o mesmo que validou o golo ilegal do Paços de Ferreira, marcado com a mão. Isto anda tudo ligado - já dizia o poeta Eduardo Guerra Carneiro.

  11. 11 susana

    jcf, creio que fiquei com uma noção perfeita do que seja um maloio. muito obrigada pela espécie de dedicatória que fez com essa palavra (para mim) nova.

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