Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Marrocos_Entre+Merzouga+e+Zagora.jpg

Marrocos. Entre Merzouga e Zagora

Dou a volta costumeira pelo Abrupto. E, de repente, na excelente série fotográfica «Espaços onde se pode respirar», esta foto, feita por MARTA PINHO. No blog de JPP, pode ampliá-la.

Marrocos é em grande parte - já o escrevi alhures - bem mais verde do que o nosso (o meu) Alentejo. E Alcácer-Quibir, amigos compatriotas, fica no meio duma planície verdejante, onde crescem frutos e legumes. Qual deserto, senhor cineasta Oliveira! Mas, é verdade: lá muito longe, para Sul, a coisa põe-se realmente assim.

Há-de haver, por ali, pegadas minhas. E eu partiria, esta tarde ainda, para lá. Mas - aí está - as prioridades…


  1. 1 susana

    que maravilha. a melhor recordação que tenho de viagem é um trecking em marrocos. por onde passei dei com paisagens muito diversas: “lunares”, verdes (até luxuriantes), como refere, áridas, agrestes. isso que aí mostra só vi lá de cima, mas essa experiência ainda me está reservada; uma razão forte para voltar. olhe, agora até me aqueceu.

  2. 2 sininho

    Abriste o Atlas na folha que tem o meu mapa predilecto – SAHARA!

    Não posso deixar de recordar que…eu também estive entre Merzouga e Zagora.
    Partimos às 7h da manhã de Merzouga.
    Lá estavam, o Hassan e o Assou, para o último abraço antes da partida.
    À la prochaine, In- Shallah!
    Sim, Oxalá – pensei.

    Entrámos pista fora. A pista é um trilho que se detecta pelas pequenas pedras que foram cuidadosamente colocadas como marcadores e também pela paisagem. Sabem que têm que passar por aqui e não por ali. É magia!
    Tínhamos tido uma tempestade de areia no dia anterior pelo que as marcas dos pneus, que também ajudam a certificar-nos da pista, eram inexistentes. Passadas umas três horas passámos em Taouz, pequena aldeia militar e nosso último posto de abastecimento alimentar até ao cair da noite.
    Parámos no único boteco que havia. Lembro-me, como se fosse hoje, do pacote de caramelos que comprei para dar a todas às crianças que cercaram o jipe. Por e simplesmente volatilizou-se naquelas pequenas mãos ávidas por um docinho.
    O Abdel estava um pouco mais preocupado do que nós. Os indicadores da pista não estavam no seu lugar habitual. Após uns 10 minutos de conversa, explicou-me que aquela palmeira lá ao fundo era o nosso ponto de viragem a Poente para apanharmos a pista, limpa e segura.
    A Micho ainda bebeu uma Coca-cola não fosse o calor apertar muito. Bora!
    Passámos a palmeira e virámos. Pista = zero!
    Duas horas de viagem e eu tinha a certeza que não era por ali, o nosso caminho.
    Parámos e, silenciosos, almoçamos, com os montes pretos, na linha de horizonte, que pareciam rostos sisudos a observarem-nos e a conversarem entre eles.

    Alors Abdel, qu’est-ce qu’on fait? T’as une idée?
    Plus une heure et on retourne.

    A hora passou e de repente, como por magia, no meio daqueles montes de lava preta e mate, abriu-se uma porta e vimos surgir, à nossa frente, a estrada mais incrível que jamais viramos. Pedras e pedras e mais pedras, pretas e luzidias, no perigoso calor do zénite.
    Foi quando aconteceu o mais inesperado. Puf! Furo no pneu!
    Toda aquela caminhada estava perdida. Era preciso mudar o pneu e voltar para trás.
    Trop risqué! Ninguém pára para nos ajudar. E a estrada daqui para a frente está cheia de serpentes, acrescentava o Abdel.
    Vamos dormir novamente a Merzouga e amanhã vamos por estrada para Zagora.

    Era a minha segunda investida em Marrocos sempre com aquele sagrado objectivo: fazer aquela pista e chegar ao mercado de Mhamid na segunda-feira!
    Refugiei-me no meu cheche e nos meus óculos escuros, com as lágrimas nos olhos: Fica para a próxima! Está prometido!

    Voltámos. Mas a pista que não tinha aparecido à ida também não se quis revelar desta vez. Após uns intermináveis quilómetros em zig-zag aconteceu… o segundo furo!
    Á nossa volta areia, vegetação rasteira e, sempre no horizonte, os montes secos e escuros.
    Et maintenant? On marche!
    Sim andamos, mas em que direcção?
    É um momento de lucidez absoluto – nada importa senão viver!
    Levámos os passaportes, os bilhetes de avião, uma boa camisola e água. Quantas horas de caminhada?
    Usando, como referência, as montanhas que fazem fronteira com a Argélia iniciámos a marcha.
    Não sei quantas horas de filme da minha vida caminhei, em silêncio, a marcar o trilho com pedaços de cheche (sendo o objectivo do Abdel recuperar o jipe e as nossas coisas).
    Sim o cheche não protege só a cabeça do calor, também marca trilhos!
    Chegámos ao entardecer a Taouz onde fomos recebidos como fazendo parte da grande família de Allah. E fazíamos mesmo!
    Enquanto uma equipa foi buscar o jipe e trocar pneus, nós refastelámo-nos no chão de terra e areia, brindados com a melhor das refeições: uma omellete à la marroquaine com pão de farinha de sarraceno e chá verde!
    Assisti, extasiada, ao mais original jogo de Damas: Desenhado na areia, o tabuleiro. Dum lado, pauzinhos e do outro, caca de camelo.

    Cerca das dez da noite estávamos prontos para regressar a Merzouga. Connosco, mais um passageiro, um guia. Um rapaz vestido com uma djellaba branca e um cheche branco ao pescoço.
    É que ele conhecia o caminho à noite, tarefa SÓ para iluminados!
    Nesta aventura de viação, que durou um pequeno dia, cruzámos apenas um carro.

    E lá estavam o Hassan e o Assou, sempre sorridentes, à nossa espera.
    E Mhamid? Está prometido!

    Obrigada, Fernando, por me teres proporcionado esta viagem.

  3. 3 py

    Bom dia tuaregs. Sou gamado em Marrocos! Fernando, mandei-vos um email sobre a bartalha dos três reis…

  4. 4 sininho

    Pyyyyyyyyy!
    Respondi-te à OTA.

  5. 5 py

    Pronto Sininho, já lá fui! Andei para aí a esvoaçar e agora vou sestar ,)

  6. 6 fv

    Py,

    Encontrei o teu mail. Penso colocar aqui, um destes dias, mais fotos (essas, minhas) de Marrocos. Porei também uma das tuas. Entretanto, tentarei desvendar o mistério das três coroas.

  7. 7 py

    Bem Fernando, vcs é que são os donos do blog portanto vcs é que decidem. Quando eu mandei as fotos, só interessa realmente a da placa, as outras são para contextualizar, mas a idéia era porem-na aqui e o pessoal vai à caça juntos…

    Creio que por debaixo da coroa central só pode estar escrito Allah, mas não tenho a certeza.

  8. 8 sininho

    Py
    Se for para uma tradução do árabe mandem, que eu conheço um trilho para essa caçada!

  9. 9 py

    Se queres por aí um email, ou então contacta este pygarco@gmail.com, também mando para ti. Para eles já mandei. (bazar)

  10. 10 fv

    Eu também já pus amigos meus em campo. Inclusivamente para lerem uma inscrição que a densidade da máquina do py (sans blague) permite ampliar, não sei se até à decifração. Amanhã espero saber mais.

  11. 11 py

    Essa kpk é minha, pá!

  12. 12 susana

    LOL há-de ser, py, quando apagarem os usurpadores!

  13. 13 py

    já tá! Ainda não percebi se é uma kpk a posteriori ou ao ralenti…

  14. 14 py

    acho que é a posteriori. Passa pela mão do Fernando.

  15. 15 fernanda

    Dizia o poeta Adalberto Alves que esta irresistível e desatinada atracção que sentimos por Marrocos se deve ao sangue mouro que corre nas nossas veias:
    “Ao iniciarmos as descobertas traziamos no sangue e na alma mais de oito séculos de arabidade e, com ela, milhares de livros de poesia e de canções mouriscas.
    “Com a projecção africana no Algarve de além-mar, Portugal persegue-se a si próprio ou melhor, busca o outro que desde há séculos tinha dentro de si, antes de emergir da História.”
    É por estas e por outras que muitos de nós se sentem exilados nesta Europa normalizada e acinzentada…
    É talvez por isso que a visão dos palmares a perder de vista, as aldeias escondidas nos wadis floridos e o encontro das imensas ondas de areia do Sahara om as vagas do Oceano tem o sabor dum regresso a casa…
    Ah… quando voltarem, avisem-me…

  16. 16 sininho

    Pois é Fernanda, quando o Adalberto fala, nós, vibramos. Como ele, eu também acho que “O meu coração é árabe”.
    Num excerto desse seu livro (que, por sua vez, é um excerto de Zlimane Zeghidur, A poesia Árabe Moderna e o Brasil, pag.13) ele escreve:
    Compreende-se que, no cenário das areias, «a única arte que os nómadas podem desenvolver é de facto a língua – que se torna assim o que Heidegger disse: a morada do ser. A frase do filósofo é tão verdadeira que o verso poético árabe chama-se bayt (literalmente casa) e palavra diz-se mufrad (de fard, ou seja, indivíduo)»

  17. 17 py

    Essa coisa que puseste aí é bela Sininho. A morada do ser, o desvelamento do ser…

Leave a Reply





Aspirina box

Arquivos mensais

Pharmácias

As Ruínas Circulares
afixe (RIP)
BdE I (RIP)
BdE II (RIP)
de vagares...(RIP)
A invenção de Morel
Sociedade Anónima (RIP)

 

Farmácias de Serviço

 

100 nada
31 da Armada
A aba de Heisenberg
Abrupto
O Acidental (RIP)
Adufe.pt
A Gaveta do Paulo
Agridoce
Alexandre Soares Silva
Almocreve das Petas
Amor e Ócio
António Sousa Homem
Arrastão
As Ruínas Circulares
Atlântico
Avatares de um desejo
O Avesso do Avesso
Babilônia
Babugem
Bada Bing!
Bandeira ao Vento
Barnabé (RIP)
a barriga de um arquitecto
Beco das Imagens
Blasfémias
Bomba Inteligente
Bombyx mori
Bonfim
Blogue dos Marretas
Blogo Social Português
Cabra de Serviço
Caderno de Verão
Caixa de Costura
Canhões de Navarone
Cão de Guarda
Casa de Cacela
Casmurro (RIP)
A causa foi modificada
Causa Nossa
O céu sobre Lisboa
Charquinho
Cibertulia
cinco dias
Cocanha
A Coluna Infame (RIP)
Complexidade e Contradição
Confissão do Silêncio
Conta Natura
Contra a Corrente
Coroas de Pinho
Crítico Musical
Crónicas Matinais
Cruzes Canhoto (RIP)
Daedalus
Daily Make-up
Da literatura
Desesperada Esperança
A Destreza das Dúvidas
Diário Ateísta
É a Cultura, Estúpido!
Em Busca da Límpida Medida
Enresinados
Epicentro
A Ervilha Cor de Rosa
Esplanar
Esquerda Republicana
Estado Civil
a.estrada:
Estrangeiros no Momento
Eternuridade
Floresta do Sul
Fora do Mundo (RIP)
FotoBen
Frangos para fora
french kissin'
Fuga para a Vitória
Fumaças
O funcionamento de certas coisas
garedelest
Gato Fedorento
Geração Rasca
Glória Fácil
Grande Loja do Queijo Limiano
Grupo do Pato
Hipatia
Homem a Dias
:Ilhas
O Insurgente
Intermitências da Corte
A Invenção de Morel
Janela Indiscreta (RIP)
Janela Para o Rio
João Pereira Coutinho
Klepsy´dra
A Lâmpada Mágica
Laranja Amarga
Last Tapes
letra minúscula
Letratura
Malfadado
Mar Salgado
Margens de Erro
Mas certamente que sim!
Meditação na Pastelaria
melancómico
A Memória Inventada
Memória Virtual
A Metamorfose
Miniscente
Modus Vivendi
Muro Sem Vergonha (RIP)
A montanha mágica
Nada Niente
A Natureza do Mal
O Observador
Ó Faxavor...
A Origem do Amor
A Origem das Espécies
Palombella rossa
O Pastelinho
Pastoral Portuguesa
Pedro Chagas Freitas
pequeno blogue do Grande Terramoto
Periférica
pesadelo sem ar condicionado
Pólis & Etc.
Ponto e Vírgula (RIP)
Ponto Media
Pópulo
Portal Galego da Língua
A Praia
Quartzo, Feldspato & Mica (RIP)
Quase Famosos
read me very carefully
Renas e Veados
Rimbaud Warrior
Rititi
Rua da Judiaria
Ruialme
seta despedida
Silêncio
Solvstäg
Sound + Vision
Tempo Contado
Os Tempos que Correm
Tomara-que-caia
Três Pastelinhos
True Lies
Um blog sobre Kleist
O verso dos versos
Vício de Forma
Vidro Duplo
Vistalegre
Voz do Deserto
what do you represent
The world as we know it


© 2006/07 Aspirina B | Powered by TubarãoEsquilo | Editado com Wordpress | afinado por Paulo Querido | Topo