Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Cara Marina,

Falando-lhe, outro dia, no nosso assalto aos fartos celeiros do vocabulário espanhol (bom, nosso assalto, não exactamente, mas o dos nossos antepassados dos séculos XV a XVII), eu prometi-lhe alguns exemplos. Aqui vão eles agora. Não darei muitos. É que, sabe, os portugueses são um tanto ou quanto nacionalistas. E algum deles que lesse isto poderia ficar chocado.

Sim, acredite: os portugueses sentem-se tremendamente sozinhos no mundo, o que equivale a crerem-se imensamente originais. Se um dia descobrissem que um terço do seu idioma lhes chegou da Meseta, e que muito dos outros dois terços veio inteirinho da velha Galécia, dava-lhes um xilique. E eu não quero carregar isso na consciência.

Mas deixe-me, primeiramente, explicar-lhe uma coisa. Ou duas. Primeiro, para lembrar-lhe que os castelhanismos de outrora são hoje nossos, tão nossos que já não deixaríamos que no-los tirassem. Eles tornaram-se, desculpe o palavrão, «patrimoniais». Sim, subiríamos às barricadas para conservarmos o fiambre, e a botija, e a mochila, e a colcha, e o salpicão. E também moreno, e castiço, e zonzo, e até gandulo, até chulo, até velhaco. E assim muitos centos de outros.

Segundo, para assegurar-lhe que não há motivos para sentir-nos, hoje, culpados do que os nossos antepassados andaram fizendo ao idioma. Claro, era mais bonito se tivessem sido mais criativos. Poderiam ter primeiro pensado se não tínhamos já um termo aproveitável. Indo, se necessário, procurar saber como diziam os galegos. Mas os tempos eram outros, as viagens longas, e um estado independente, está a ver, não ia rebaixar-se a… você já entendeu. Não, os nossos avós só tinham ouvidos para as sereias castelhanas.

*

Hoje, em termos práticos, poderíamos evitar um ou outro castelhanismo mais despudorado, género mirones, mentideros, mano a mano (que, ainda por cima, entendemos mal, julgando ter a ver com «irmãos»), ou mesmo coisas tipo rechaçar, olvidar, mesclar, impactar. Mas, pelo resto, não podemos andar sempre a pisar ovos, pois não? O que nem sequer seria fácil, já que o nosso conhecimento do espanhol nunca foi famoso. Sabe você que, com oito séculos a vivermos paredes-meias, não possuímos ainda um, um único, bom dicionário de Espanhol? Vai agora, dentro de muito pouco, sair um que tudo indica seja mesmo muito bom. Já não era sem tempo. Mas isso mostra que nunca nós tomámos o espanhol verdadeiramente a sério. Sentimo-lo sempre como coisa nossa, comum. Vai-se ali e saca-se. O nosso Nobel é disso flagrante exemplo.

E antes que me passe. Muitos dos nossos castelhanismos «cultos» parecem mesmo terem sido por nós tirados ao latim. Se for ver ao pormenor, perceberá que quem os tirou de lá foram os da Meseta. Não lho vou demonstrar aqui (outra oportunidade se oferecerá). Só lhe digo que são poucos, pouquíssimos, os nossos latinismos ainda hoje em uso e formados nessa época (1450-1700)  e que o castelhano não possua também, nem nos tenham chegado pelo francês ou pelo italiano, nem, claro, tenhamos trazido da nossa fase galega e só então hajam sido assinalados. Portanto, nossos, nossos a perder de vista. Pois bem, segure-se: entre 1500 e 1600, só contei 8 deles. Oito latinismos exclusivos nossos. Digamos que algum me tenha escapado, e que são 15. Pronto. Mesmo assim é uma vergonha.

Mas desculpe, divaguei. Os exemplos de castelhanismos, então. Vou limitar-me a três casos claríssimos, e que só são excepcionais porque a palavra central nunca foi portuguesa.

Você sabe que, no nosso comum idioma, aire se diz ‘ar’, lumbre se diz ‘lume’, sangre se diz ‘sangue’. Pode, então, supor de onde nos chegaram palavras como airoso, airosamente, desaire, desairoso. Ou como vislumbre, vislumbrar, deslumbre, deslumbrar, deslumbrante, deslumbramento. Ou como sangrar, sangria, sangrento. São, todos eles, termos fortes, expressivos, garbosos, de grande musicalidade. Todos copiadinhos de onde você bem sabe.

Isto faz-me lembrar, não sei porquê, o tema da nossa conversa: o galego. Talvez porque o castelhano torne – e torna - mais evidentes certas questões nossas. E uma delas é, mesmo, a mais central de todas: a intimíssima relação de português e galego. Tão íntima que os espanhóis, pelo menos os mais simpáticos (e inteligentes), não nos distinguem pelo idioma. Disto lhe falarei outro dia.

Só um apontamento de ordem mais política. Falar, em Portugal, da nossa relação privilegiada com a Galiza exige certos cuidados. A malta desconfia destas coisas como o caraças. Passa um fulano por suspeito, por andar a sugerir que se redesenhe o mapa da Península.

Para complicar as coisas, há uns tipos desvairados, tanto em Portugal como na Galiza, que sonham com uma união política de cima a baixo, uma tira de terra a que, com imensa inventividade, chamam já Portugaliza. Outros, mais discretos, propõem uma união da Galiza com o Norte de Portugal (para eles, «Galiza Sul»), o que daria moderníssima feição à Galécia. Vantagens? Seria sempre uma grande chapada no rosto de Madrid, dando a segunda fórmula também uma senhora bofetada a Lisboa. Está você a ver o tipo de amigos que um gajo arranja.

Quanto do futuro se enxerga, Marina, nem um nem outro desenho tem a mínima chance. Não se percebe porque é que os galegos, tendo um dia uma absoluta escolha do seu futuro, não optariam  pelo melhor de tudo: a independência pura e simples. Como não se percebe porque haveria Portugal de largar mão da sua própria independência, que tem no bolso há 850 longos anos e que, mal ou bem, deu uns tantos heróis e mártires.

Um destes dias, prosseguiremos.


  1. 1 A. Castanho

    «Como não se percebe porque haveria Portugal de largar mão da sua própria independência, que tem no bolso há 850 longos anos e que, mal ou bem, deu uns tantos heróis e mártires.»

    Caro Venâncio. Ora essa!

    A nossa independência não tem oitocentos e cinquenta longos anos. Tem apenas trezentos e sessenta e sete (mais dois meses e meio).

    A nossa independência pode estar no “bolso” de Portugal, como diz, mas se está, olhe que está muito sòzinha (ou, pelo menos, bastante mal acompanhada…).

    A nossa independência pode ter dado muitos heróis e mártires, como aliás as dos outros Países. Mas também deu muitos cobardes e carrascos. Tem a contabilidade em dia? E que conclusão em especial consegue daí extraír?

    Como vê, argumentar com caricaturas e simplismos tem os seus limites. Assim como o bom senso, que faz sempre muita falta, sobretudo a quem tem pouca sabedoria.

    Apetece-me perguntar-lhe, sem compromisso, assim só para abordar acadèmicamente esta questão: por que carga de água terá um País poderoso, rico e sólido como a Prússia prescindido voluntariamente da sua independência? E o Piemonte? E a Baviera? E o Hesse? E o Eslévico-Holsácia? E a Borgonha? E Castela? E Aragão? Pense nisso.

    Ou, noutra perspectiva, por que razão um dos Estados mais ricos do Mundo actual, a Califórnia, se está positivamente borrifando para ter a “sua” independência?

    Como vê, a independência em si pode não justificar, em princípio, o sacrifício de outros (bem mais altos) valores nacionais.

    Nem vale a pena entrarmos, por ora, no caso concreto de Portugal. Apenas lhe pretendo demonstrar que a maneira como coloca a questão da “independência nacional” é demasiado rígida e esquemática.

    Cumprimentos.

  2. 2 fmv

    Caro Castanho,

    Fui rígido? Fui esquemático? Talvez.

    Fui sobretudo displicente. Quis vincar que pôr em questão a nossa independência nacional é um gesto tão gratuito (e porque haveria a existência da Galiza de sublimar tal gesto?) que colocá-la, só se por academismo, ou jogo mental, ou masoquismo.

    Mas há outra coisa: mesmo sabendo que a noção de «Nação» e sobretudo a de «Estado» não remontam a longe, conceber a independência de Portugal como datando de 1640 é uma leitura da história um tanto… castelhana, não acha? E porque seria ela particularmente válida?

  3. 3 Daniel de Sá

    Fernando
    Deliciei-me com o texto. Ainda que, por razões que se compreendem, não haja lá muitas novidades para mim, a maneira como contas é sedutora. Lê-se, já o disse, como um romance.

    Ah, Castanho, esse conceito de independência está um pouco desfocado. Portugal nunca foi uma colónia de Espanha, embora eles fossem tendendo cada vez mais para nos tratar como tal. Simplesmente Felipe II recebera a coroa portuguesa por direito sucessório, ficando a ser o nosso primeiro de tal nome. Nunca ouviu falar num tal Carlos V, imperador da Alemanha, que foi Carlos I de Espanha e IV da Sicília? E nem por isso a Espanha ficou a ser uma colónia alemã. Pois ao filho aconteceu algo parecido a respeito de Portugal. É certo que Carlos V já tentara a união peninsular por meio de casamentos, coisa que decerto aprendera com o avô Maximiliano, imperador da Alemanha, tão pobre que terá sido o único da sua condição a caçar para matar a fome e que fazia visitas prolongadas aos nobres para comer bem durante uns dias. Como não tinha dinheiro para fazer a guerra, foi-se valendo da beleza dos descendentes (que não parece ter sido o caso de Carlos V) para ir reunindo reinos e impérios. O resultado foi esse: Carlos V e Felipe II.

  4. 4 A. Castanho

    Daniel, estou ciente disso tudo de que fala. E já há tanto, tanto tempo, que fez muito bem em mo recordar.

    Não estando em causa o estatuto de “colónia”, que de facto Portugal nunca foi, nem por isso deixa de ser menos verdadeiro que o Reino de Portugal, tutelado por um monarca espanhol, não passou, durante sessenta anos, de um preciosismo formal sem substância material, uma vez que o Poder sobre os súbditos e sobre o território portugueses emanava, de facto, da Corte de Madrid. O mesmo acontecendo, por exemplo, com as Províncias Unidas (ou Países-Baixos). Continua comigo?

    Por isso mesmo, Portugal só é independente desde 1640, tendo-o igualmente sido, é óbvio, desde 1147 (algures por aí) até 1580. Mas juntar tudo isso no mesmo conceito de País é assim como juntar o Império Romano à Itália e dizer que esta é um País independente há dois mil e duzentos anos. Ou que a Polónia existe há sete séculos. São conceitos discutíveis, você que percebe de lentes dirá qual a focagem que prefere. Se lhe apetece dizer que o meu conceito é desfocado, só por não fazer de conta que os tais sessenta anos de História é como se não existissem (mas lá que existiram…), eu prefiro chumbar na sua aritmética.

    Para mim uma coisa é clara: o Portugal cruzado, imperialista, navegador e conquistador dos Séculos XII a XVI morreu para sempre em Alcácer-Quibir. A entidade ressucitada num 1º de Dezembro (que, seguramente, registou forte nevoeiro matinal) e que emite sinais vitais desde o Séc. XVII é apenas uma pálida imagem desse País de outrora, que lá por ser o seu legítimo herdeiro (sem dúvida) nem por isso se deve confundir com o seu progenitor. Mas isto é só a minha pessoalíssima opinião.

    Fernando, estamos na pura especulação intelectual, como lhe disse. Longe de mim querer beliscar, ainda que ao de leve, a independência nacional portuguesa. Apenas discuti-la e expurgá-la de alguns mitos e tabus salazarentos, completamente serôdios e, ver-se-á com o tempo, infantilmente quixotescos…

  5. 5 Daniel de Sá

    Meu Caro A. Castanho
    Tem e não tem razão. Quem mandava era de facto a corte espanhola, que Felipe II mudara de Toledo para Madrid. Em Lisboa começou por haver um vice-rei, um rapazola seu sobrinho, o cardeal Alberto, que não tinha ordens sacras e acabou por renunciar ao título (o tio queria-o para cardeal de Toledo) para ficar como governador dos Países Baixos. Lembro isto para lhe dar em parte razão… ou talvez não: podendo a mesma pessoa estar ora aqui ora ali com funções semelhantes, não era ela, portanto, quem detinha o poder.. E isto pode ser interpretado em favor da sua tese ou da minha, conforme o ponto de vista. Aliás eu creio que o meu Caro amigo está a pensar um pouco à base das ideias modernas de nação, estado e país. Como bem sabe, naquele tempo um reino ainda era como que propriedade pessoal do rei. De modo que, esticando o conceito, o Portugal de oito séculos e meio não passa do herdeiro histórico de um condado que pertenceu a um conde franco…

  6. 6 marina

    Obrigado pela sua resposta. Não estava à espera de uma tão completa e até bela explicação. Achei piada a uma referência que faz, ao facto de português e castelhano escritos serem quase iguais. Porque é verdade.
    Sabe que apesar de dominar uma e outra língua, o galego para mim ainda é um mistério e por isso gosto tanto dele. E por ser uma língua labrega, ligada à terra e a pessoas simples. E queria que permanecesse misterioso, ainda que perceba os argumentos dos que querem a grafia portuguesa como forma de o manter vivo. Mas já não seria igual.
    De todas formas, às vezes a separação entre o Norte de Portugal e a Galiza parece um pouco artificial, sobretudo em lugares lá mais para o interior, como Montalegre.
    Ainda não tinha percebido era que os portugueses se sentem sozinhos, nem sei se acredito. Mas pronto, esse será também um assunto do qual percebe muito mais do que eu. Como este do galego, em que a única coisa que tinha clara era que galego e português derivam de uma mesma língua, mas que evoluiram de forma diferente, dando lugar a duas línguas distintas.

  7. 7 marina

    E gostava de lhe dizer que é um prazer ler a sua prosa. Uma prosa musical, a sua.

  8. 8 A. Castanho

    Caro Daniel de Sá,

    faz bem em realçar que se pode ter razão e não ter. Depende da complexidade do assunto e da sua decomponibilidade em problemáticas derivadas.

    Não sendo historiador, “apenas” apaixonado da História, concordo que as noções de Estado e de Nação variam ao longo do tempo. Mas também concordará comigo que estes conceitos em 1640 estavam já mais próximos daquilo que são hoje, do que terão sido no Séc. XII.

    Sem elementos para aferir onde terá residido, de facto, o poder sobre os assuntos do “Reyno” durante a “Dinastia Filipina”, apenas lhe quero relembrar que a presunção de “gestão danosa”, para Portugal, que sempre incumbiu sobre os reis espanhóis (não castelhanos, caro Venâncio) na historiografia nacionalista do Estado “Novo”, não é partilhada pela generalidade dos historiadores, que apontam várias melhorias sensíveis (e, felizmente, irreversíveis) sobretudo na Administração Pública associadas à soberania espanhola sobre Portugal.

    É o caso, apenas um mero exemplo, da maior visão global e regional sobre o território nacional, que levou entre outras consequências à criação do Tribunal da Relação do Porto, que até 1580 ainda não existia. E olhe que eu até sou um insuspeito lisboeta…

    Em todo o caso, o importante para mim não é tanto o saber até que ponto o Portugal/versão II é ou não coincidente e identificável com o Portugal/versão inicial, mas constatar a excessiva dependência da nossa História “gloriosa”, ou seja, dos nossos dois melhores séculos, fazemos depender sempre a nossa identificação nacional. Como se o Futuro não importasse (e com os belos resultados que vamos tendo no Presente)!

    Recordo-lhe casos em que podia ser assim, mas não é, como a Suécia, cuja caracterização e identificação actual passa muito mais pelas suas conquistas PRESENTES, como País-modelo de Democracia Social (entre outros, claro), do que pelo seu Passado grandioso de País guerreiro e conquistador, em Terra e nos Mares (pelo menos do Norte), que também o foi até à Guerra dos Trinta Anos - que fez findar a sua época de grande potência militar europeia! Mas que nunca ouvimos a um sueco reclamar como se disso precisasse, como de pão para a boca, para justificar a Suécia actual. Ter-me-ei exprimido bem?

  9. 9 Daniel de Sá

    Caro A. Castanho
    Exprimiu-se bem e tem razão quanto à administração filipina, embora nesta haja que considerar dois ou mesmo três períodos diferentes, neste caso um por cada monarca. D. Filipe I foi de facto o reformador que Portugal não tivera, gasto pela Índia e comido por uma corte insaciável. D. Filipe II (o III deles), doente e, por isso, pouco capaz, não conseguiu prosseguir a obra do pai, mas o seu foi ainda um razoável reinado. Já o último da lista era meio tolo. Uma espécie do nosso D. José, até pela figura do seu plenipotenciário conde-duque de Olivares. E caiu no erro de fazer os nobres portugueses pagarem para a fazenda pública até metade dos seus rendimentos. Ora aquela gente, não acostumada a pagar impostos, revoltou-se. A revolução de 1640 foi, portanto, uma questão de economia de classe. Ao contrário de 1383/85, o povo estava-se nas tintas para tudo isso. Não houve um pingo de entusiasmo popular. Tanto se lhe fazia ser mandado por um rei em Madrid, em Valladolid ou em Lisboa.

  10. 10 A. Castanho

    Voilà!

    Como acaba de demonstrar, a Restauração não passa de um assunto interno da Aristocracia, só depois sendo “impingida” às outras classes sociais.

    Já não estou tão certo quanto à indiferença destas face à questão. Segundo a historiografia oficial luso-nacionalista, que ainda faz “escola” em mais de 75% dos portugas, o (mítico) “Povo” apoiava cegamente a Aristocracia restauracionista (visão obviamente romântica e propagandística). Se pudesse ter sido consultado, inclino-me mais para uma provável heterogeneidade territorial, mais pró-ibérica a Norte, talvez menos a Sul. Nunca o saberemos bem.

    Por outro lado, como defende J. Attali, foi por obrigar também a Nobreza a pagar impostos, entre outras coisas diferenciadoras, que a Monarquia inglesa não só sobreviveu, como deu origem à prosperidade liberal e ao triunfo da Democracia e do Capitalismo, ao passo que as Monarquias clericais do Sul da Europa, que no Séc. XVII ainda tinham o Poder mundial nas suas mãos, foi o que se viu…

    Para finalizar, mais uma vez de acordo consigo: parvo por parvo, tanto fazia um Filipe como um José, ou um Miguel, ou um Afonso tonto e corninho…

    Cada vez mais me convenço que a Restauração e a ideia de portugalidade associada à Dinastia de Bragança foi o pior que nos poderia ter acontecido e anseio pelo dia em que esta verdade possa ser, finalmente, não apenas demonstrada, como corrijida!

  11. 11 A. Castanho

    E, já agora, aproveito para me corriGir a mim próprio:

    «Cada vez mais me convenço de que a Restauração e a ideia de portugalidade associada à Dinastia de Bragança foram o pior que nos poderia ter acontecido e anseio pelo dia em que esta verdade possa ser, finalmente, não apenas demonstrada, como corrigida!»

    Bom fim-de-semana…

  12. 12 Daniel de Sá

    Meu caro A. Castanho
    Factos podem ser discutidos, opiniõess, não. E esse seu último parágrafo é uma opinião apenas. A que tem todo o direito.
    Mas, quanto ao desinteresse do povo, o Dr. José Hermano Saraiva contou uma vez uma história a que achei imensa graça. Duplamemnte. Explico.
    No texto patriótico do livro da 4ª classe, sobre a Restauração, havia uma referência a “vultos rebuçados” que foram surgindo de um e outro lado para se juntarem no conclave da conjura. Na interpretação desse texto, a mesma minha colega que disse que, do fígado do atum, se fazia óleo de fígado de bacalhau interpretou aquela expressão como o relato de terem sido dados rebuçados às crianças. Pois contou o Dr. Hermano Saraiva que, na tentativa de atrair o povo para o cadáver do Miguel de Vasconcelos, que fora defenestrado, os conjurados chegaram a atirar doces a quem ia aparecendo a ver a cena. Ri-me para minha mulher, que sabia a história da minha colega, e disse: “Afinal F. tinha razão…”

  13. 13 A. Castanho

    Caro Daniel de Sá, essa teve a sua graça. “Santa ignorância”, como dizia o outro…

    Quanto ao seu primeiro parágrafo, do comentário anterior, a minha opinião é rigorosamente simétrica da sua: se há algum provérbio popular certíssimo é mesmo aquele que afirma: “Contra factos não há argumentos!”.

    Donde se conclui que são os factos que não se discutem. Agora as opiniões, eu acho que sim, aliás apenas servem para isso mesmo (sem prejuízo do direito de cada um de possuir a sua)…

  14. 14 Daniel de Sá

    É uma opinião…
    Eu referia-me à interpretação dos factos. Reconheço que me expressei mal.
    Uma curiosidade a respeito da moça. Aquilo foi pelo meu 4º ano, e ela já tinha dezanove. Pelo menos era persistente.

  15. 15 Estevo

    Nom sei que alternativa tenhem em Portugal para “mano a mano”, mas umha expressom viva na fala galega (mas que nom atopo em dicionário ningúm) é “apré” (ou “a pré”?): “Estraguei-che o CD, e ti devias-me 20 euros, assi que ficamos apré.”

    Enquanto `as questons políticas, eu concordo em que a independência será o melhor e o mais realista (dentro do ousado que semelha agora falar de qualquer destas hipóteses), mas nem acho tam absurdo um estado até o Douro se houver vontade nas duas beiras do Minho.

    As razons económicas som as mesmas polas que se criou a euroregiom, mas neste aspecto acharia satisfactório que Galiza fosse independente e a Região Norte tivesse a autonomia que tém hoje Galiza.

    As razons culturais som semelhantes `aquelas polas que se está a presentar a candidatura do património imaterial galego-português á Unesco. A isto acrescentaria que a Região Norte preservaria melhor a sua personalidade coa independência, ou dentro dum estado pangalaico, com simetrias socioeconómicas e históricas. O assunto nom é dar bofetadas a Madrid ou Lisboa polas ultrajes passadas, mas evitar as futuras, e com isto o diluimento da galeguidade em apenas matices simpáticos da “espanholidade” ou “lusidade”, o que quer que essas forem.

    Políticamente, com lisboetas quero pouco mais que com madrilenhos.

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