Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



À memória, escusado lembrar, de Mestre Leiria

Martim amava Sílvia. Amava-a muito. Por assim dizer, todas as noites. Para o irmão Paulo, na cama ao lado, era um tormento que ninguém merecia.

Chegou a Martim o primeiro ataque cardíaco. Iria ser também o último. Numa tarde, saíra Sílvia a fazer compras, disse ele a Paulo:

– Chavalo, eu sei como vai ser, quando eu lerpar.

Paulo fez-se desentendido, e até podia está-lo. Martim, mano como poucos, explanou.

– Quando eu for desta, tu hás-de, malandro… Se até se lê nos olhos!

Paulo, olhando agora o chão, rendia-se. Martim prosseguiu:

– E já que é isso, mais vale ires aprendendo. Eu nunca a tratei mal.

A partir dessa noite, dormiram todos três na cama grande. Anos, anos largos.

Morreram sem dar por isso, uma noite de Inverno em que o calorífero lhes queimou o ar.

fv
Amsterdão, 27-V-2007


  1. 1 Anónimo

    Mais que a história, o modo como é contada, é um fascínio!

  2. 2 Anónimo

    Quem escreveu esta maravilha?

  3. 3 fv

    Anonymous 1,

    Leitores assim dispensam prémios.

    Anomymous 2,

    A letra é pequenina, tem razão.

  4. 4 Zé Ninguém

    Mas… Já leu o livro de Junho? Não leu? Vai comentar? Quer Chá com Scones?
    Só postar! Só postar!Ai!

    http://absolutamenteninguem.blogspot.com/

  5. 5 susana

    belo texto, fernando.

  6. 6 mark

    Uma cama sem fronteiras…

  7. 7 Valupi

    E que bem que ela está feita, a homenagem a Mestre Leiria. Parabéns!

  8. 8 Anónimo

    Não há, na sonatina, uma sílaba a mais. É espantoso haver tipos assim! Ou só momentos deles!

  9. 9 João Pedro da Costa

    Belíssimo, de facto. Trouxe-me à memória o conto «A Intrusa» do Borges. Mais palavroso, mas também de Mestre.

  10. 10 Anónimo

    quem é o mestre? fiquei sem perceber

  11. 11 fv

    O Mestre é Mário-Henrique Leiria (1923-1980), que escreveu os magníficos Contos do Gin-Tonic (1973) e Novos Contos do Gin (1978).

    O conto acima ‘respira’ o ar de Mário-Henrique, e poderia - para alguém desatento, mbora informado - passar por um dele. Qualquer conto assim é uma homenagem ao grande exemplo.

    Mas Leiria não estava só. Também ele aprendera de mestres brasileiros, com Drummond à frente.

  12. 12 Anónimo

    ao Leiria conheço, ao Borges também, não percebi era quem era o mestre do João Pedro da Costa. Porque comparar o texto deste post com “A Intrusa” isso, sim, parece-me de mestre… Está tudo maluco!!!

  13. 13 João Pedro da Costa

    LOL

  14. 14 sininho

    Bravo, Fernando.
    Eu, trocava o título deste post para: FAZER-LHE A CAMA.
    (perdoa-me a sugestão…)

  15. 15 Fernando Venâncio

    Sininho,

    Eu nunca supus os alcapões de malícia, os negrumes de humor, que há em ti.

    Mas repara. Quem deu anos de gozo a tanta gente não andou fazendo camas.

  16. 16 sininho

    Invariavelmente, tens razão. Parece-me que fiquei em maus lençóis… o que me faz rir, com gosto.
    (…pior, seria ficar acamada, o que não aconteceu :))

  17. 17 sininho

    Fernando

    Repara, tu também. Ao reler a última frase do teu post, a dimensão da “tua grande cama” estava um tudo ou nada fria ;-)

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