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Do Expresso de 24-II-2007

Introdução à História do Português
Ivo Castro
Colibri, 2006, 242 págs., €14,70

Durante vinte anos, a história do nosso idioma teve em Paul Teyssier, merecidamente, o autor de referência. Mas, em 2006, Ivo Castro publicou uma «muito ampliada» edição da sua Introdução à História do Português, e não custa prever para este livro um lugar cimeiro.

Os tempos estavam maduros para uma nova história da língua. Os trabalhos levados a cabo pelas investigadoras Clarinda de Azevedo Maia, Rita Marquilhas, Ana Maria Martins, Esperança Cardeira e pelo próprio Ivo Castro pediam, pela sua qualidade, uma obra de síntese. Ela aqui está. Uma das suas virtudes é a de, por sua vez, pedir por mais.

Seguimos os passos do idioma desde a sua longínqua e fascinante confecção no Noroeste peninsular até meados do século XVI. É este um momento fulcral, que encerra o período decisivo, e movimentado, do Português Médio, já descrito com garbo por Esperança Cardeira, num livro (Entre o Português Antigo e o Português Clássico, 2005) que desenvolve teses avançadas por Castro: as da transição dum português de criação e moldes galaicos para uma norma nova, elaborada e difundida por Coimbra e Lisboa (aonde o idioma chegara como língua estrangeira), e isso com o estímulo dos cultos Infantes de Avis. Esta ancoragem de fenómenos linguísticos na geografia e na história social produz efeitos, entre nós, inauditos.

Vantajosa é, também ela, a ponte lançada à história literária, que acompanhamos com detenção até à «língua» de Gil Vicente, aqui com recurso às pesquisas de Teyssier. Surpreendente, e quase enternecedora, é a resistência do Infante D. Pedro, na década de 1430, a uma renovação cultista do léxico, que acabaria por dar-se. São estes nichos de tensão que tornam emocionante o que poderia ser simples relação de factos.

Ainda assim, a modéstia do título (uma «Introdução») justifica-se. A segura e detalhada marcha estaca por 1600. Os últimos quatrocentos anos da história do idioma ocuparão escassas páginas. É como se a dinâmica da língua tivesse, então, travado a fundo, e Garrett ou Vieira ou Fernão Mendes Pinto fossem, numa ditosa acronia, nossos contemporâneos. Mas há outros problemas. Visto que o livro vive (e vive bem) dos «processos» que o idioma atravessa, falecem-lhe as visões de conjunto, os patamares, os «estados de língua» atingidos. Depois, tão pormenorizado é o tratamento da variação fonológica quanto é sumário o do léxico. Isso sucede em histórias de outras línguas. Mas um exame aturado e objectivo do português médio mostraria (é um exemplo de surpresas) quanto suposto latinismo foi mera absorção de elaborações castelhanas. Da língua da Meseta importámos, ainda, e em boa consciência, largas dezenas de locuções e uma inumerável fraseologia. Para o panorama lexical de épocas mais chegadas, dispomos (e uma grande história da língua será sempre empreendimento colectivo) dos elucidativos estudos de Mário Vilela e de Telmo Verdelho. Como dispomos, para fenómenos sintácticos recentíssimos, das investigações de João Andrade Peres.

A maior perplexidade surge, todavia, da persistência de um tabu: o que envolve a ruptura, entre todas decisiva, que teria fundado o português como língua diferente do galego. A questão é séria. Enquanto essa ruptura não for identificada e descrita (e ninguém até hoje o ousou), galego e português continuarão a ser, para efeitos científicos, a mesma língua. E a própria existência do português como língua independente será da ordem do apriorismo político, dos aconchegos pátrios - mas decerto não da ciência.

Simplesmente, e tanto é certo, esta história do nosso idioma sob o olhar de Ivo Castro (no Expresso de 7/1/2006, comentando versão anterior, Joaquim Manuel Magalhães falava em «afectuosidade e encantamento») é um reinício auspicioso. Aguardamos uma prossecução, curiosos por descobrir aí, um dia, o espelho do nosso tempo.

Fernando Venâncio


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