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Não sei se repararam em Paulo Moura, se repararam já. É um jornalista do Público, e de há uns meses que não o dispenso. Já lia reportagens suas na «Pública», mas convenceu-me definitivamente o seu contributo na Antologia Grande Reportagem (Oficina do Livro), organizada por José Manuel Barata-Feyo.

Paulo Moura, se é um repórter vigoroso, não é menos um interessantíssimo cronista. Aqui abaixo, a sua crónica no Público de hoje (vai assim mesmo, não permite link).

Além disso, publicou há pouco um romance, 1147, O Tesouro de Lisboa (A Esfera dos Livros), que ando a ler, que não é de deitar fora (há muito e muito pior), mas ainda não me entusiasmou. Possivelmente, a narrativa longa e ficcionada não é a exacta ‘medida’ deste, de resto, grande escritor.

Divirtam-se, e reflictam, com

O LOUCO GLOBAL

O homem entrou no metro mas não começou logo. Esperou que pensassem que era um utente normal. Então lançou, aos gritos: “Mais 20 mil soldados para o Iraque? Vão regressar todos em sacos de plástico. Todos!” Estava a falar com alguém? Não. Gritava para quem quisesse ouvir. “Acabaremos também por ir lá parar!” E continuou, sem baixar o volume, num discurso ininterrupto, como se se dirigisse a uma plateia interessada. E talvez fosse o caso.

O homem tinha a barba por fazer e vestia roupas sujas e rotas. Levou escassos segundos a que os passageiros o classificassem mentalmente como um “louco do metro”. Como tantos outros do género, no metro de Lisboa. Entram numa estação, fazem um discurso e saem na seguinte. Ninguém reage, obviamente. Ninguém o interrompe para dizer “desculpe, não concordo inteiramente com esse ponto…”. Também ninguém diz: “Cale-se, que me está a incomodar”. As pessoas evitam até cruzar o olhar com o dele. Se identificasse um interlocutor, o homem poderia desatar a falar para ele, a fazer-lhe perguntas, ou a insultá-lo, o que seria muito embaraçoso. Ou poderia mesmo desferir-lhe um murro certeiro no nariz, caso lhe ocorresse interpretar o silêncio aflito do transeúnte como prova irrefutável da sua conivência com a política de Bush para o Iraque.

Era um louco do metro e portanto o melhor era não ligar. Falou mais um pouco sobre o Iraque e depois passou para a reforma da administração pública em Portugal, não sem antes se deter brevemente no problema do nuclear do Irão. Podia ser maluco, mas não havia dúvidas de que estava muito bem informado. Mais do que as pessoas normais.

Lembrei-me de entrevistas que ouvi do Gato Fedorento ou dos redactores do Contra-Informação, em que descrevem o seu método de trabalho: sentam-se todas as manhãs a uma mesa, com a imprensa do dia, e estudam as notícias e os temas sobre os quais vão depois construir o discurso humorístico. Será que o maluco do metro faz o mesmo? Começa a manhã com uma pesquisa exaustiva em jornais e revistas, na internet, em livros especializados, sublinhando, tirando notas, para depois elaborar o seu discurso louco do dia?

Tenho pensado muito nesta questão. Porque andam os loucos hoje tão bem informados? Por serem loucos? Ou foi a informação que os enlouqueceu? Uma coisa é certa: a demência não impede um discurso articulado e crítico sobre o mundo. Impedi-lo-á a sanidade?

Será a imposição de limites ao horizonte uma condição para a nossa saúde mental?
Ninguém sobreviveria se soubesse de tudo o que se passa no mundo. Hoje, as informações estão disponíveis em doses capazes de nos destruir. Não é possível compreender a sociedade global sem o recurso a teorias da conspiração, projectos terroristas, filosofias paranóicas. O nosso modelo axiológico apenas está preparado para o universo do indivíduo e do seu reduzido ângulo de visão. Não mais. Em todas as épocas há lendas sobre homens que subiram ao topo de uma montanha e enlouqueceram.

Talvez a ignorância seja, portanto, um recurso dos mais aptos. Fechamo-nos, por instinto de sobrevivência. A liberdade tornou-se um handicap evolutivo. Privilégio dos loucos, que só têm a perder uma audiência muda de curiosidade. “Cambada de estúpidos”, rosnou entre dentes o louco do metro antes de se apear na estação seguinte.

Mais informação sobre Paulo Moura aqui.


  1. 1 João Norte

    Quem serão os loucos? aqueles ou os outros?

  2. 2 Luis Oliveira

    Cá por mim, traziam era o jovem para fazer campanha no referendo ao aborto. Ás segundas, quartas e sextas fazia campanha pelo sim. Ás terças, quintas e sábados fazia campanha pelo não. E ao Domingo dáva-nos o descanso divino.

  3. 3 josé

    Acabei agora mesmo de ler a crónica no Público enquanto tomava o café da sobremesa. E, curiosamente, tive a mesma reacção: quem é este tipo?!

    Como tenho o computador ligado, vim agora aqui.
    E o que leio, subscrevo.

    Para dizer a verdade, li a crónica completa, agora mesmo e aqui. No jornal, passei à frente das primeiras frases. E nem reparei na crónica mais interessante de Mário Mesquita, mesmo ao lado, o que agora faço, pensando que este bonzo do jornalismo ainda é um tipo que se pode ler, algumas vezes.

    No entanto, acho que a crónica do tal Moura, fixou um aspecto interessante e pouco explorado: que discurso se pode ler ou ouvir, por quem está habituado a tal tarefa nos media?
    Como é que se estrutura um discurso sobre fenómenos sociais que se nos apresentam à hora do almoço ou jantar nos telejornais, ou ao pequeno almoço nos jornais do dia?

    Quem é que pensa, raciocina e elabora ideias feitas sobre os mais diversos assuntos?

    Os loucos?
    Se pensarmos que de “médico e louco todos temos um pouco”, que garantia teremos de ler ou ouvir ideias mais avisadas do que as de um louco notório que aparece num metro em hora de ponta a perorar as ideias que lhe apetecem?

    É essa a questão que coloca Paulo Moura. O qual me lembra que há mais pessoas assim, em Portugal, felizmente. Lembro assim de repente um outro que devia escrever em jornais: António Feijó. Orienta cursos de pós graduação na Faculdade de Letras de Lisboa e já teve um perfil delineado na Pública, aqui há uns meses.

  4. 4 1974

    fico contente por ver cada vez mais gente a descobrir o Paulo Moura. Tive uma reacção semelhante há coisa de um ano. Admiro bastante, e semanalmente, a escrita dele. Quando a livros, confesso: ainda não li

  5. 5 Luís Falcão

    “se não fizesse de maluco ninguém me levava a sério” dizia um conhecido meu.anda meio mundo a falar sozinho e o outro meio nâo ouve

  6. 6 veronika gonçalves

    Descobri um professor espectacular: Paulo Moura! Directo, objectivo, inteligente, divertido e com uma escrita que dá vontade de ler sempre mais e mais !E é ele o único que me vai fazer levantar às 6 da manhã!=)

  7. 7 Cora Rali

    Cogito ergo sum
    Origem:
    René Descartes (1596 - 1650)Cogito, ergo sum é uma conclusão do filósofo e matemático francês Descartes, que significa penso, logo existo.

    Descartes pretendia fundamentar o conhecimento humano em bases sólidas e seguras (em comparação com as fundamentações do conhecimento medievais). Para tanto, questionou e colocou em dúvida todo o conhecimento aceito como correto e verdadeiro (utilizando-se assim do ceticismo como método, sem, no entanto, assumir uma posição cética). Ao pôr em dúvida todo o conhecimento que, então, julgava ter, concluiu que apenas poderia ter certeza que duvidava. Se duvidava, necessariamente então também pensava, e se pensava necessariamente existia (sinteticamente: se duvido, penso; se penso, logo existo). Por meio de um complexo raciocínio baseado em premissas e conclusões logicamente necessárias, Descartes então concluiu que podia ter certeza de que existia porque pensava.

    A frase “Cogito ergo sum” aparece na tradução latina do trabalho escrito por Descartes, ‘Discours de la Méthode (1637), escrito originariamente em francês e traduzido para latim anos mais tarde. O trecho original era “Puisque je doute, je pense; puisque je pense, j’existe” e, em outro momento, “je pense, donc je suis”. Apesar de Descartes ter usado o vocábulo “logo” (donc), e portanto um raciocínio semelhante ao silogismo aristotélico, a idéia de Descartes era anunciar a verdade primeira e certíssima “eu existo” de onde surge todo o desejo pelo conhecimento.

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